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WEBguerraA América do Sul está em chamas. O Chile se convulsiona como nunca desde o fatídico 11 de setembro de 1973, o Equador agoniza na sua maior tensão social em décadas, e a Bolívia estremece com o golpe policial desferido contra o regime de Evo Morales. Mesmo onde a situação não é tão dramática, não se pode dizer que as águas estão paradas: a Argentina está numa transição de governos um tanto animosa, e as eleições no Uruguai foram decididas no proverbial fotochart. No entanto, de encontro aos nossos vizinhos hispânicos, no Brasil não se sente essa urgência popular de ir às ruas e se fazer ouvir, mesmo com as atitudes – inacreditáveis, em tempos normais –recentes do governo Bolsonaro... pelo contrário, o que se entrescuta por corredores e calçadas é desânimo e apatia. Por que tanta diferença?
Recapitulemos. Jair Bolsonaro ganhou as eleições em 2018 com uma campanha virulenta contra “tudo isso que está aí”: corrupção, comunismo, PT, globalistas, kit gay, mamadeiras fálicas, a lista é vasta. Esse antagonismo catalisou um grande ato na época das eleições, o “Ele Não!”, mas que não abalou em nada sua popularidade à época.
Uma vez no governo, escolheu ministros e auxiliares pouquíssimo afeitos à democracia e ao republicanismo, e anabolizou a estratégia: escolher o inimigo da vez, e direcionar sua enorme militância (real e robótica) contra ele. Um alvo recorrente tem sido o Meio Ambiente, e a política nacional para ele tem sido, sem exagero, biocida. O Brasil passa pelo seu maior ciclo de queimadas em anos, e os culpados são os cientistas que divulgam os dados mais as ONGs que as denunciam. Como nas eleições, o descaso brasileiro gerou protestos dramáticos de alcance global, mas assim como o “Ele Não!”, gerou conseqüências desprezíveis para o presidente e seu ministro do “Agro-Ambiente” Ricardo Salles. Outro inimigo selecionado foram as universidades públicas, constantemente bombardeadas pelo “sinistro” Abraham Weintraub: entre supostas plantações de maconha (que na verdade eram propriedade da Marinha) e delírios sobre “zebras gordas”, o financiamento das universidades passa por um arrocho sufocante, com a promessa de asfixia total em 2020. Novamente, tal postura levou a uma das maiores manifestações dos últimos anos no Brasil, o #15M, mas para além de uma vitória modesta contra os cortes (que devemos comemorar!), também não alterou a política educacional do governo de forma significativa.

Ou seja: estamos com um histórico de significativas manifestações populares e midiáticas, mas que não se concretizam em resultados visíveis. A Amazônia segue queimando, as universidades continuam sofrendo, a previdência vai ficando mais longe, malgrado nossa insatisfação. Isso erode a confiança no nosso poder de fazer valer a vontade popular, carcomendo a democracia e nos individualizando nas nossas vidas ocupadas, uma vez que “não tem mais jeito mesmo”. Nos últimos dias, o ministro da Economia, Paulo Guedes, recuperando um fio da meada deixado pelo deputado Eduardo “zerotrês” Bolsonaro, comentou zombeteiramente acerca da implementação de um novo AI-5 no Brasil. Se isso parece uma provocação à guerra, é porque talvez seja mesmo. Mas nós continuamos em paz. Veremos até quando.

Diretoria da AdUFRJ

 

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