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Versos de luta e de cor: “Minha poesia sou eu mesmo. Onde ela estiver, eu estou”

WEBpoeta 1Foto: Fernando SouzaDecano da literatura afro-brasileira, militante do movimento negro, Carlos de Assumpção visitou a UFRJ, pela primeira vez, em 10 de dezembro. O evento foi organizado pelo grupo Transcultura, formado por alunos negros da Letras, da Belas Artes, entre outras unidades. Com 92 anos de luta e resistência por meio da arte, o poeta é conhecido por suas obras que refletem sobre a realidade de negros e negras no Brasil e as desigualdades geradas pelo racismo.

Uma roda de conversa entre o poeta, professores, alunos e visitantes da universidade discutiu o racismo, visibilidade na academia, negritude e a importância da arte.

Estudante de Belas Artes e integrante do Transcultura, Aline Santiago destacou a presença do poeta na universidade. “É uma alegria muito grande tê-lo aqui. O seu Carlos tem a presença de um ente familiar. É um avô querido, um pai que muitos de nós não tivemos. Poder estabelecer essa troca com ele tem sido incrível”, destacou a estudante.
Confira a entrevista a seguir:

Jornal da Adufrj - Como o senhor se sente sendo uma referência para o movimento negro, enquanto poeta e militante?
Carlos de Assumpção - Eu me sinto muito feliz por poder fazer algo pelo nosso povo, que está numa situação muito difícil, de isolamento, um verdadeiro apartheid. Espero que minha poesia desperte as pessoas para esse problema que não é só nosso; é de nós todos. Somos 54 por cento da população. Enquanto o Brasil não resolver essa situação, não vai sair do lugar.

O senhor se sente reconhecido nas universidades?
O pessoal acolheu a minha poesia, a minha maneira de pensar. A minha poesia sou eu mesmo. Onde ela estiver, eu estou.

Qual é a importância da poesia e da arte frente ao preconceito?
Eu acho que só a arte conseguirá mudar o mundo, é um meio de comunicação que vai transformar o mundo. Não transformou ainda porque não foi bem direcionada, mas que vai, vai sim! Eu acredito nisso piamente.

O senhor acredita que a sua poesia pode ser uma ferramenta de mudança?
Eu faço apologia da palavra. Ela tem muita força. Se não, o poder público não estaria tão atento aos nossos passos. A poesia incomoda o poder.

A poesia do poeta negro incomoda o poder?
Deve incomodar muito mais. Muita gente pensa que nem existe poeta negro e, no Brasil, tivemos muitos grandes poetas negros. Luiz Gama, Machado de Assis, Cruz e Souza, Solano Trindade, Abdias do Nascimento e, agora, há uma safra nova que é da pesada! Olha, esse negócio vai esquentar e eu espero que esquente mesmo porque precisamos mudar, há muita coisa que precisa ser consertada.
A poesia, por lidar com sentimento, é capaz de fazer muita coisa em benefício do país e o que nós queremos é igualdade, nada além disso. Nós merecemos igualdade porque nós é que quase sozinhos construímos esse país, embora muita gente não saiba ou não considere isso.

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