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WhatsApp Image 2021 01 08 at 11.30.52O destino de um tesouro da intelectualidade brasileira preocupa acadêmicos do Rio de Janeiro. A família do professor Carlos Lessa, falecido em 5 de junho, anunciou, no fim do ano passado, a intenção de vender a biblioteca de 17 mil volumes do ex-reitor da UFRJ e ex-presidente do BNDES. Amigos e admiradores de Lessa, que temem a fragmentação do acervo, querem preservar a coleção na capital carioca, de forma unificada e acessível ao público.
“Estamos precisando fazer caixa por causa da crise econômica provocada pela covid-19, a morte do meu pai e um problema de saúde da minha mãe”, explica um dos filhos do ex-reitor, o músico Rodrigo Lessa. “A gente teria alegria em doar para uma instituição, mas a situação não nos permite fazer isso”, completou.
Rodrigo explicou que, desde o início, a família tentou fazer a venda conjunta, conversando com um círculo mais próximo de amigos e conhecidos. Sem sucesso, anunciou a venda em 21 de dezembro, que poderia ser fatiada. Mas, diante do apelo de várias pessoas, recuou no dia seguinte. “Que bom que mais gente pensa como eu pensava. A ideia agora é vender a biblioteca do Carlos Lessa”, disse. A pausa na venda, porém, tem um prazo. O músico espera resolver a situação em até 45 dias. “A nossa preferência é que a biblioteca dele fique íntegra e acessível ao público. Queremos manter a memória do meu pai”, completou.
Presidente da AdUFRJ, a professora Eleonora Ziller é uma das pessoas que abraçaram a causa: “Queremos lançar uma campanha para que a biblioteca não saia do Rio de Janeiro e fique num lugar público, de acesso gratuito, mesmo que não seja na UFRJ. Mas o ideal seria ficar na universidade, onde Lessa foi professor e Reitor”, defende. “Assim que saiu a notícia, muitos reagiram contra a possível venda separada”.
O pior cenário, para Eleonora, seria o acervo sair do país. “Principalmente para os EUA, onde há sempre compradores interessados. Não é raro alguém encontrar nas bibliotecas norte-americanas livros que estão esgotados aqui. Foi assim que quase perdemos o acervo do Augusto Boal”.
Eleonora nunca viu a biblioteca do ex-reitor, mas diz que é possível se ter ideia de seu valor só pelo livro escrito por Carlos Lessa: “O Rio de Todos os Brasis”. “A bibliografia é incrível. Ele tem de tudo. Há muitas preciosidades ali”.
Professor da Faculdade Nacional de Direito, Mauro Osório avalia a campanha pela biblioteca de forma positiva. “Acho a iniciativa maravilhosa. Com a decadência do Rio nos últimos anos, estamos perdendo algumas bibliotecas. A do Lessa é uma joia rara. Se a gente tiver meios de articular isso, será muito importante para o Rio de Janeiro”, argumenta.
Osório observa que a coleção do ex-reitor guarda muitas obras sobre a cidade. “Que é muito pouco estudada. A tradição no Rio de Janeiro é pensar o Brasil e o mundo. O Lessa era um dos poucos intelectuais que procuravam conciliar uma reflexão sobre o Brasil com uma reflexão sobre o Rio de Janeiro”, afirma.
O professor foi agraciado pela família com a doação dos documentos de Lessa sobre o Plano Estratégico da Cidade do Rio de Janeiro. O ex-reitor ocupou o cargo de diretor-executivo do plano, durante a prefeitura de César Maia. “Sempre tive uma relação muito próxima com ele”, diz.
O docente teve o privilégio de visitar a biblioteca uma vez, há alguns anos, para pegar um livro emprestado. Algo raramente permitido pelo colecionador. “Como biblioteca privada, a do Lessa foi a maior que eu já vi”.

BIBLIOTECA
Legado de uma vida inteira de estudos, a biblioteca tem um imóvel só para ela. Ninguém morava lá. São dois andares de uma casa no Cosme Velho. Armários e estantes de madeira ocupam todo o espaço e vão até o teto. “E o pé direito é altíssimo. Você só chega nas últimas prateleiras de escada”, descreve Rodrigo. As obras, em sua maioria, estão encadernadas.
O lugar foi organizado no início dos anos 90 para acomodar tudo que Lessa acumulava. Uma parte veio de herança do pai, Clado Lessa, e do tio, Djalma Pinto Ribeiro. Ambos intelectuais já respeitados em seu tempo. O restante surge do insaciável apetite do ex-reitor pela leitura. “Em forma, ele lia praticamente um livro por dia. Ele lia numa velocidade estonteante”, afirma o filho.
O professor emérito do Instituto de Economia vivia em sebos e livrarias, garimpando obras para sua coleção. “Ele se esbaldava em Buenos Aires, uma cidade com muitas livrarias, quando estava na Argentina”, recorda Rodrigo.
“É uma biblioteca de humanas. O grosso da biblioteca eu diria que é história do Brasil. Cinquenta por cento ou mais trata desse tipo de assunto”, acrescenta. “Dentro de Brasil, há duas regiões que ele estudou com maior profundidade, que foram Rio de Janeiro e Minas Gerais”. Uma parte das obras traz a dedicatória do autor para Carlos Lessa.
Mas há de tudo: política, antropologia, sociologia, filosofia, literatura brasileira, entre muitos outros temas — ainda em vida, Lessa doou o que tinha de economia para o Instituto onde trabalhou, na UFRJ. Algumas relíquias merecem destaque: uma primeira edição de Os Lusíadas, feita pela Casa de Leitura do Real Gabinete Português de Leitura e um livro do fotógrafo Marc Ferrez.

FAMÍLIA QUER TRANSCREVER PALESTRAS

Rodrigo alimenta três grandes projetos em relação à memória do pai. O primeiro é editar algumas obras dele. Em segundo lugar, quer reunir, em um grande livro, todos os artigos que Lessa produziu. “Ele escreveu sobre muita coisa: desde shopping, modernidade, urbanismo, festas brasileiras até pós-modernidade”. O terceiro, mais ambicioso, é conseguir as gravações de conferências e palestras ministradas e, em seguida, transcrever e editar o material para outro livro. “Eu penso que está ali o filé do pensamento do meu pai. As aulas dele eram verdadeiras pinturas”, explica. “Claro que, quando ele fazia um livro, sabia como apresentar o núcleo da ideia. Mas, na palestra, soltava as erudições, os cacos, as piadas. Ele gostava mais de falar do que de escrever”.

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