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Academia de luto pela morte do reitor da UFSC

O suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, professor Luiz Carlos Cancellier, no último dia 2, reacendeu um intenso debate sobre a atuação da Justiça e da Polícia Federal em grandes investigações. Ele se jogou do quinto andar de um shopping em Florianópolis, 18 dias depois de ter sido preso acusado de obstrução à Justiça, em 14 de setembro.

Cancellier foi solto 30 horas depois, mas “a humilhação e o vexame” aos quais foi submetido, segundo ele próprio publicou em artigo no Globo, foram pesados demais. No bolso da calça que vestia quando seu corpo foi encontrado, havia um bilhete em tom grave: “A minha morte foi decretada quando fui banido da universidade!!!”. O sepultamento do reitor aconteceu no dia 3 de outubro. Ele tinha 59 anos. Em protesto, o cortejo fúnebre fez uma parada na sede da PF, em Florianópolis.

A juíza que expediu a prisão temporária do reitor, Janaina Cassol Machado, está sendo acusada de cometer abuso de autoridade por não ter chamado Cancellier a prestar esclarecimentos prévios. Mesmo após revogada a prisão, o reitor ficou impedido de frequentar a universidade. A juíza está de férias. A assessoria de imprensa da 1ª Vara Federal de Florianópolis afirmou que nem a instituição, nem a juíza se manifestarão sobre o caso.

Segundo a Polícia Federal, a morte de Cancellier não compromete a investigação e o andamento do inquérito, sobre suposto desvio de recursos do ensino à distância da UFSC. O pedido de prisão temporária do reitor foi feito pela delegada Érika Mialik Marena, ex-coordenadora da Operação Lava-Jato. Ela também não foi encontrada para comentar o caso.

A operação “ouvidos moucos” investiga ações da reitoria da UFSC desde 2010. O inquérito tem quatro anos e corre em segredo de Justiça. A assessoria de imprensa da Controladoria-Geral da União informou que também não se pronunciará sobre o assunto. Ainda de acordo com a instituição, os investigados devem responder por fraude em licitação, falsidade documental, estelionato, inserção de dados falsos em sistemas e organização criminosa.

“Poderia ter sido comigo”
Em 2012, a UFRJ se viu envolvida num escândalo semelhante. O ex-reitor Aloísio Teixeira e o então reitor Carlos Levi foram acusados de irregularidades na gestão e de desviarem R$ 50 milhões da universidade, junto com outros professores e servidores. Uma dessas pessoas era o professor Geraldo Nunes, então coordenador do setor de Convênios e Relações Internacionais.

Nunes foi o único demitido. “Eu fiquei muito abalado com a notícia do colega da UFSC. Poderia ter sido comigo. Eu cheguei a pensar em dar cabo da minha própria vida muitas vezes”, revelou o docente. “É um processo muito doloroso. A Globo foi até a minha casa, filmou a fachada. Colocou minha foto no ‘Fantástico’ como se eu fosse um criminoso. Um processo de exposição como esse é muito doloroso, porque você não perde só o salário. Você perde a cidadania, perde a vida, perde tudo”, analisou.

O professor contou que o que o sustentou foi o apoio recebido dos amigos da UFRJ, da família e de profissionais especializados. “Eu fazia terapia e o amparo das pessoas que eram importantes para mim foram fundamentais para eu me manter de pé. Ainda assim, fiquei profundamente deprimido”, lembrou.

Geraldo Nunes foi demitido pela Controladoria-Geral da União em dezembro de 2012 e deixou de receber os salários da universidade em abril de 2013, quando o reitor Levi assinou sua exoneração, pressionado pela CGU. “Fui demitido duas vezes. Um processo completamente irregular. Foram 40 meses sem salários”. O professor foi reintegrado à UFRJ em setembro do ano passado.

Apesar de ter sido inocentado no processo administrativo movido pela CGU, ele ainda responde ao processo criminal na Justiça e a uma Ação Civil Pública no Ministério Público. Por conta disso, não recebeu os salários atrasados, correspondentes aos anos de afastamento da universidade. “Além de ter sido prejudicado economicamente, o tempo parado atrapalhou toda a minha progressão na carreira”. Ele moveu ação contra a União e aguarda a conclusão do processo.

No próximo dia 18, haverá uma audiência do processo penal, mas o docente está confiante. “Embora ainda possa demorar a conclusão dos demais processos, estou confiante porque fomos inocentados no processo de origem de tudo isso, que é o da CGU. Sem dolo, não há porque sermos penalizados nas outras instâncias”.

Comoção

A Universidade Federal de Santa Catarina decretou luto oficial por três dias e só retomará as atividades administrativas e acadêmicas na sexta-feira, dia 6. A vice-reitora Alacoque Lorenzini Erdmann não foi encontrada pela reportagem para comentar o assunto. O Governo do Estado de Santa Catarina também decretou luto de três dias.

Outras instituições publicaram notas de pesar, como a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). De acordo com a nota, os reitores compartilham um sentimento de pesar associado à “indignação e inconformismo” com o tratamento dado ao reitor. “É inaceitável que pessoas investidas de responsabilidades públicas de enorme repercussão social tenham a sua honra destroçada em razão da atuação desmedida do aparato estatal”, diz um dos trechos.

A UFRJ, a Universidade de Brasília, a Federal do Espírito Santo, Federal da Grande Dourados, Estadual de Santa Catarina, Federal de Alagoas, Federal do Tocantins também publicaram notas de pesar pela morte trágica do reitor. O procurador-geral do estado de Santa Catarina divulgou nota cobrando responsabilidade dos envolvidos.

Renúncia na Bahia

Outra universidade que teve sua reitoria abalada essa semana foi a Federal do Sul da Bahia. O reitor Naomar Almeida Filho renunciou ao cargo máximo da instituição no último dia 3. Como justificativa para o afastamento, o professor alegou a asfixia de recursos imposta pelo governo federal. Em carta, ele afirmou que tem sofrido “profundo desgaste interno, intensificado pela suspensão de novos concursos federais, fomentando incerteza e angústia na comunidade universitária”.

O reitor relata, ainda, conflitos internos e chega a acusar de “sabotagem” parte da sua própria equipe de governo. “Ações de evidente sabotagem, inclusive de dentro da equipe de gestão, criaram obstáculos à nossa agenda de integração social”. O movimento, segundo o reitor, teria conseguido cancelar um congresso da universidade, “além de boicotar tanto inovações curriculares de maior potencial inclusivo quanto a articulação com a educação básica”, contou no documento.

Leia, ainda, artigo [1] de Maria Lúcia Werneck, presidente eleita da Adufrj