Chile

O 11 de setembro do horror 

 JAIME OSÓRIO/Sociólogo, professor e pesquisador do Departamento de Relações Sociais da Universidad Autónoma Metropolitana, Xochimilco, México

 
Elisa Monteiro. elisamonteiro@adufrj.org.br


Quarenta anos depois do Golpe de Estado que destituiu o presidente eleito do Chile, Salvador Allende, o professor Jaime Osório, da Universidad Autónoma Metropolitana (do México), analisa o significado das ações lideradas pelo então chefe das Forças Armadas daquele país, Augusto Pinochet, em 1973. 

O sociólogo, que é chileno, avalia, ainda, os movimentos sociais contemporâneos que buscam consolidar no país uma democracia real com representatividades social. Osório participará do evento “Democracia e poder popular”, que será realizado em 14 de setembro, no Rio de Janeiro (veja cartaz nesta página). Na programação, além de um debate com a presença de Jaime e dos professores Mauro Iasi e José Paulo Netto (ambos da Escola de Serviço Social da UFRJ) e de Virgínia Fontes (Fundação Oswaldo Cruz), estão previstas intervenções culturais chilenas e brasileiras.

 
O que representou a experiência do governo da Unidade Popular liderado por Salvador Allende no Chile?
O governo de Salvador Allende representou um momento particular da história dos povos e do Chile. Nele, os setores dominantes não conseguiram seguir como anteriormente, pois os oprimidos se rebelaram, acreditando ser possível construir um mundo de justiça e dignidade para todos. Foram momentos pré-revolucionários, excepcionais, que no Chile se condensaram e se expressaram no triunfo eleitoral da Unidade Popular.

O que a derrota desta experiência chilena (tentar implantar o socialismo pela via democrática das eleições) ensinou para a esquerda no continente?
A derrota e o golpe militar puseram em evidência que, pelo menos na etapa atual do capitalismo, não é possível alcançar uma nova organização social, respeitando o Estado de Direito estabelecido. As classes dominantes só respeitam esse direito e suas leis quando suas posições de poder e seus privilégios não são afetados. Caso contrário, não se importam em infringir a lei, violando a Constituição.

O Chile de hoje tem a memória do governo da Unidade Popular? Por que justamente o país que viveu o processo mais avançado de lutas de classe no continente hoje é um dos alinhados aos Estados Unidos?
A derrota dos movimentos populares chilenos e latino-americanos, provocada pelo golpe militar, foi profunda no campo político e ideológico. E a refundação do país foi feita desde sua bases. Apesar das grandes manifestações no período ditatorial, a saída da ditadura acabou se dando por meio de um acordo entre os militares e setores da classe política, do qual participou parte da esquerda, reconvertida. Para estes setores da esquerda, a tarefa não era colocar fim à Constituição, nem ao padrão de reprodução do capital estabelecidos durante a ditadura.  Era encontrar uma forma de convivência na qual a brutalidade anterior seria limitada. Mas sem alterar seus fundamentos, muito menos levar a julgamento os golpistas civis e militares.

Qual a importância de resistências como na questão mapuche ou dos estudantes chilenos que estão em luta hoje, fazendo manifestações e sofrendo duríssimas repressões do aparelho do Estado no Chile?        
Os processos políticos dos estudantes e do movimento mapuche emergem do bojo de inúmeras manifestações de repúdio à atual ordem de coisas, tanto em relação à formalidade de uma democracia em que muito pouco ou nada de substantivo é decidido pelos cidadãos, mas também frente a um um quadro de concentração brutal da riqueza, com uma legislação trabalhista draconiana, além do endividamento da clase média para pagar a educação e alcançar algum grau de bem-estar. 

Existe, nos dias atuais, na sociedade chilena, uma visão predominante sobre o período da ditadura militar?
O golpe militar no Chile não foi apenas um projeto contrainsurgente para colocar em marcha um novo padrão de reprodução (do capitalismo). Como em outros golpes no Cone Sul da América Latina, ele foi um golpe militar contrarrevolucionário. Ou seja, ele visou pôr fim à ascensão do processo potencialmente revolucionário. Isso envolveu um alto grau de violência simbólica, por exemplo, com o bombardeio do prédio do governo. Mas foi também de grande violência física: matando, prendendo ou eliminando milhares de dirigentes políticos, sindicais e sociais.
 
Paralelamente a esta ação criminosa de quase duas décadas, utilizaram-se de uma vasta gama de medidas para construir ‘verdades’ através dos meios de comunicação e de embates dentro das próprias forças populares, para esconder os massacres. Contudo, a verdade começou a ser conhecida, aparecendo inclusive nos programas de televisão.  E isso tem obrigado, nas últimas semanas, as lideranças políticas da direita que apoiaram o golpe militar e a longa ditadura, como juízes e jornalistas, a fazerem uma autocrítica, um mea culpa público. E a reconhecerem que não agiram energicamente contra as atrocidades realizadas pela ditadura.

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