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batepronto/Demolição do antigo Museu do Índio

indio

Por que o antigo Museu do Índio, próximo ao estádio do Maracanã, deve ser preservado?
Se o terreno foi doado por seu antigo proprietário, o Duque de Saxe, para abrigar uma instituição ligada à pesquisa, como o governo pode agora comprar esse espaço para arrasá-lo? O governo vai à televisão pedir para você reclicar latinha e garrafa PET, mas pega uma construção que pode ser reutilizada por mais 500 anos e a transforma em pó.

Existe alguma característica do prédio que legitime sua preservação?
Um bem se torna patrimônio primeiro pela sua antiguidade, por ser uma referência na paisagem da cidade, testemunha das transformações em seu entorno, independente do seu uso. E a noção de patrimônio evoluiu, incorporou o conceito de cultura, deixando de ser somente histórico e artístico. Existem valores que têm importância afetiva para a população e não seguem os cânones da academia. A escadaria do Selarón na Lapa, por exemplo, todos querem sua preservação. No caso do antigo Museu do Índio, a importância para um grupo social é evidente, ele está ligado à história indígena. Os índios ocupam esse prédio porque sua relação vem desde os tempos do Marechal Rondon, do Darcy Ribeiro. Era o local onde os indígenas, quando vinham para o Rio, ficavam alojados.

Por que o governo estadual e a prefeitura insistem tanto em sua demolição?
A insistência do governador sugere interesses obscuros e o prefeito acompanha o governo estadual ao qual é ligado. No fundo, a privatização do Maracanã é muito mais a de uma grande área da cidade no seu entorno do que a do estádio. Porque a privatização gera a necessidade de um fluxo constante de caixa, e o estádio funciona no máximo duas vezes por semana. Quando tem shows, não tem jogo, por exemplo. O que vai fazer a máquina registradora continuar a funcionar nos outros dias? O espaço vazio criado com a destruição do museu, do Célio de barros, da escola Friedenreich, que vai servir para o ganhador da concessão construir um shopping, um estacionamento. É muito parecido com o caso da zona portuária. Áreas constituídas com dinheiro público, o Maracanã criado inclusive com subscrição pública, arrecadação de torcedores, que são entregues para os empresários fazerem o que quiserem, sem diretrizes definidas pelo poder público.

Mas quais são os argumentos alegados pelo estado?
A FIFA exige que Maracanã possa ser rapidamente esvaziado em caso de emergência e esse fluxo de pessoas implica na destruição do museu, segundo o governo. No entanto, realizei um estudo que demonstra como o escoamento do público pela rampa da rua Mata Machado (rua do museu) pode ocorrer com tranquilidade, sem nenhuma demolição. É um cálculo matemático facilmente demonstrável.

Qual a proposta de uso do prédio por parte da ocupação indígena?
A lição dos índios para o homem branco é: “Olha, isso é importante, tem uma memória que deve ser preservada, dinheiro não pode tudo”. E o Rio de Janeiro devia se sentir privilegiado de sediar a proposta deles totalmente nova de um centro de referência indígena. É a ideia dos índios tomando a si a tarefa de pensar como vão se apresentar para a sociedade brasileira. Porque o Museu do Índio de Botafogo é uma instituição específica, constituída por pesquisadores, em que tudo é mediado pelo olhar do antropólogo.

Outra novidade desse processo de formulação sobre o uso que eles querem dar ao prédio é eles falarem de si mesmos como “índios”. A ocupação não é da tribo “x” ou “y”. É da coletividade indígena, que eles estão aprendendo a construir.

E qual o papel da universidade nesse processo?
Existem lacunas sobre a história da edificação que o departamento de História poderia pesquisar. E o Museu Nacional ali perto poderia participar dessa discussão sem retirar o protagonismo dos índios. A universidade precisa aprofundar melhor essa questão do que é o índio na cidade, fora do seu ambiente “natural”, porque eles estão passando a se integrar mais com nossa sociedade sem perder sua identidade, eles mesmo se filmando e transmitindo imagens da sua cultura enquanto buscam educação ou emprego na cidade.