Estudantes usam as dependências externas do prédio para trabalhos práticos

Silvana Sá

silvana@adufrj.org.br

Quase um ano depois do incêndio que atingiu o oitavo andar do prédio da administração central e três unidades acadêmicas, muito ainda precisa ser resolvido. Os problemas enfrentados pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo foram destacados na edição passada do Boletim da Adufrj. Mas a Escola de Belas Artes, com seus mais de 2 mil alunos, e o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR), com mais de 600 estudantes, também vivem tempos caóticos.

As aulas da EBA estão divididas entre o térreo do edifício atingido pelo fogo, o Centro de Tecnologia e a Faculdade de Letras. Mudar de prédio serviu para não atrasar muito o calendário acadêmico dos cursos: o segundo período está marcado de 28 de agosto até 22 de dezembro. Mas impactou o dia a dia do trabalho.

É na Letras que está concentrada toda a parte administrativa da unidade, junto das coordenações acadêmicas e secretaria. Um acampamento foi improvisado dentro da biblioteca local. “Tem hora que parece uma Torre de Babel”, descreveu a professora Dalila Santos, diretora adjunta de Cultura da EBA.

A docente relatou os prejuízos sofridos pela unidade após o incêndio. “Não fomos atingidos pelo fogo, mas pela água utilizada para combater as chamas. Perdemos todo o mobiliário, piso, equipamentos, muita coisa se estragou. A EBA não tinha realmente condições de continuar no prédio”, explicou. A unidade funcionava no 6º e 7º andares. Laboratórios de informática, fotografia e produção teatral estão fechados por tempo indeterminado. O Núcleo de Artes e Novos Organismos conseguiu um ponto no Parque Tecnológico. O Espaço Vórtice, uma galeria de artes que ficava no sétimo andar, passou a funcionar no Centro Cultural Light.

Carlos Augusto Rodrigues, técnico da UFRJ há mais de 30 anos, confirma as dificuldades enfrentadas: “Lá no edifício eu tinha uma sala, existia um setor. Estou agora com outras três seções ao meu lado. Não podemos guardar nada, só temos uma mesa disponível”. Ele é fiscal de contratos terceirizados, mas a tarefa ficou prejudicada com a descentralização das atividades.

Ele reclamou, ainda, da falta de informações. “Quando sabemos de algo sobre o prédio ou sobre obras é pela mídia. Estou em abono-permanência. Eu mesmo não tenho mais esperança de voltar ao edifício antes de me aposentar”, lamentou. Ao lembrar do dia em que foi ao local de trabalho para buscar o computador que havia escapado da água, o servidor se emocionou. “Uma vida dedicada àquele lugar. Havíamos acabado de reformar todo o setor, estava tudo novinho. Agora é só destruição”.

Os estudantes também têm queixas. “Ter ido para outros prédios nos trouxe prejuízos”, comenta a estudante do sexto período de Comunicação Visual, Laíse Failace. “Boa parte das salas não tinha a estrutura necessária para o nosso curso. O período também foi mais curto, perdemos o CAEBA (Centro Acadêmico da unidade) e ficamos bastante perdidos no dia a dia”, disse.

Luiza Marques, também do sexto período, completa: “A falta de computadores nas salas nos prejudicou muito. Peguei aulas que ficaram espalhadas em três unidades (CT, Letras e reitoria). Dei sorte que essas aulas eram em dias diferentes, mas muitos colegas perdiam aula por conta do tempo de deslocamento entre um prédio e outro”, lembrou. “Eu faço design. Se tivesse que mudar de universidade, só me restaria a PUC-Rio, mas eu não tenho condições de pagar R$ 2,5 mil de mensalidade”.

No IPPUR, retrocesso

Recentemente acolhido pelo IPPUR, o curso de graduação em Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social (GPDES) ainda se consolidava na unidade quando o incêndio aconteceu. O IPPUR utilizava o quinto andar para sua estrutura administrativa, salas de professores, laboratórios e aulas de pós. Já o quarto andar era compartilhado com a FAU para aulas de graduação. Também eram utilizados contêineres instalados no térreo do edifício.  “Duas semanas antes do incêndio, estávamos com as salas todas prontas no quarto andar. Tinha sido uma grande vitória para o curso. O fogo nos impôs um grande retrocesso”, lamenta o professor Daniel Negreiros, coordenador de ensino de Graduação do IPPUR.

“Ficamos sem acesso à nossa biblioteca, gabinetes de trabalhos dos professores, espaços dos laboratórios de pesquisa, salas de aula e auditórios. Todos penosamente reformados ao longo dos últimos anos, consumindo enormes investimentos e esforços administrativos”, completa o professor Alex Magalhães, coordenador do Laboratório de Estudos das Transformações do Direito Urbanístico Brasileiro.

Graduação e pós do IPPUR, além de toda a parte administrativa passaram a funcionar na Faculdade de Letras. As turmas de graduação de primeiro e segundo períodos estão alocadas em salas do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza. “Essa descentralização é péssima para nós, mas é o que nos permite continuar funcionando. Todos têm se mobilizado de forma incansável para manter as aulas”, avalia Negreiros.

O ponto mais crítico para o IPPUR é a biblioteca: “Há dez meses, estamos sem acesso ao acervo. Agora que conseguimos um espaço, no anexo da Biblioteca da Faculdade de Letras. Estamos arrumando a casa, ainda”, comenta o docente. A previsão é que a biblioteca esteja pronta dentro de mais um mês e meio.

Os módulos do térreo estão em reformas por conta de vazamentos e goteiras e sem previsão de reabertura. Outras demandas que ainda não foram solucionadas são a sala de professores e os laboratórios. “Não tem espaço. É preciso destacar o papel da professora Eleonora Ziller (diretora da Letras) para nos abraçar. Temos conseguido o apoio que é possível, mas, de fato, não vivemos uma situação ideal”, afirma Daniel Negreiros.

O prédio ao lado da Letras, que permanece no esqueleto, seria a solução de todos os problemas do IPPUR, mas esta é mais uma obra parada na universidade e sem qualquer previsão de conclusão. “Enfrentamos uma asfixia financeira que atrasa as ações. O governo sabota o ensino superior público. Infelizmente, a sinalização que temos é que este prédio nunca vai terminar. Continuar trabalhando para que o curso funcione da melhor forma possível é nossa forma de resistência”, avalia Negreiros.

ADICIONAR COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

(*)

(*)