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Debate analisa lutas de junho no Brasil (4)

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A explosão de massas nas ruas surgiu de uma fagulha que incendiou a pradaria e pôs a vida em movimento
 
Cidades Rebeldes, lançado pela Boitempo, expõe coletânea de textos sobre manifestações que agitaram o país
 
Da Redação
 
Carlos Vainer usou a imagem mais inspirada da noite, ao tentar traduzir as jornadas de junho: “Uma fagulha pode incendiar uma pradaria”, disse o professor do Ippur-UFRJ, citando Mao Tsé-Tung, em frase extraída de texto escrito em 1930. A analogia de Vainer serviu à argumentação de Mauro Iasi na reflexão de quinta-feira, 22, sobre a explosão das massas nas ruas do país. Iasi, professor da ESS-UFRJ, observou que o incêndio passou, mas as brasas se espalharam por aí, numa referência aos protestos que continuam acontecendo nas cidades – especialmente no Rio e São Paulo. 
 
O pretexto para a reunião que lotou o auditório do CFCH na Praia Vermelha foi o lançamento do livro Cidades Rebeldes.  Ele reúne 18 artigos de autores diversos que procuram entender o incêndio da “pradaria” Brasil.  Além de Carlos Vainer e Mauro Iasi, na mesa mediada pela professora Maria Malta, participaram os professores Felipe Brito (UFF) e Pedro Rocha (UniRio), todos com artigos incluídos na coletânea.
 
Os protestos de massa que varreram o país há dois meses estabeleceram uma ruptura com uma espécie de “apassivamento” (na definição de Mauro Iasi) presente, pelo menos nos últimos dez anos, na sociedade brasileira. A explicação para as causas que impulsionaram na direção dessa ruptura e os seus desdobramentos permanece como desafio.
 
Cidade vai às ruas
No artigo escrito para o livro da Boitempo, Carlos Vainer entrega logo no título o centro, digamos, de sua tese: “Quando a cidade vai às ruas”. Vainer procurou sintetizar o que diz o seu texto, ao estabelecer relação direta entre as transformações urbanas pelas quais o país está passando e as manifestações de junho.  “A cidade não foi só o palco, mas também objeto nessas manifestações”, defendeu. 
 
O professor destacou como outra característica “a multiplicidade” presente nos protestos e insistiu na dimensão urbana de suas motivações. “Estamos diante da cidade entregue aos megaeventos, a cidade mercantilizada, a cidade-mercadoria que se move e é planejada de acordo com os interesses dos grandes cartéis econômicos, em operações urbanas consorciadas”, disse.
 
Vainer fez um paralelo com outros momentos de manifestações na sociedade brasileira, quando descontentamentos, lutas, reivindicações e anseios se unificaram. Citou o movimento das Diretas Já, o Fora Collor, as lutas de 1968 e mobilizações antes do golpe de 64.
 
A ideologia
Mauro Iasi afirmou que as jornadas de junho quebraram a ordem nas cidades em busca de uma nova sociabilidade. Mauro Iasi reproduziu no debate o artigo “A rebelião, a cidade e a consciência”, com o qual contribuiu para a coletânea da Boitempo. No texto, o professor observa que “(…) a cidade é a forma reificada das relações capitalistas, mas também do amadurecimento das constradições que lhes são próprias”. As jornadas de junho, segundo ele, quebraram a ordem nas cidades em busca de uma nova sociabilidade.
 
Ao perguntar-se por que a “explosão da ordem” demorou tanto a ocorrer, o professor disse que ideologia dominante tem a capacidade de expor como interesse coletivo o que é interesse particular, em fazer prevalecer o interesse de classe como se fosse interesse universal. Mas, em junho, segundo Iasi, houve uma espécie de transbordamento que “o dique” da ideologia “burguesa” não foi capaz de conter.
 
Coerção
Felipe Brito (UFF) e Pedro Rocha de Oliveira (Unirio) escreveram juntos para o livro da Boitempo o texto “Territórios transversais”. O texto procura abordar “a dimensão coercitiva, policial e punitiva” com a qual a sociedade capitalista procura responder à sua crise estrutural, destacou Felipe Brito. Eles recordam, no artigo publicado na coletânea, “o matraquear dos helicópteros e das armas automáticas que sacudiu a Comunidade da Nova Holanda, no Complexo da Maré”. O fato ocorreu entre os dias 24 e 25 de julho, como desfecho da repressão a uma manifestação no dia anterior. Os autores chamam atenção para “a regulação social sob os auspícios das armas”.
 
130826126 [1]Cidades Rebeldes
Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, editado pela Boitempo (114 páginas, R$10).