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Debate analisa papel da mídia na atual conjuntura política

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Debate analisa papel da mídia na atual conjuntura política

 Elisa Monteiro

elisamonteiro@adufrj.org.br [1]

“A Guerra das Narrativas: a cobertura jornalística do processo de impeachment” foi o tema do seminário organizado pela Escola de Comunicação, com apoio da Adufrj-SSind, no último dia 12, na Casa da Ciência. A mesa inicial, sobre o papel da mídia na crise política, contou com os jornalistas Fernando Molica (O Dia) e Carla Jimenez (El País) — houve, ainda, uma mesa sobre “a função do jornalista” e outra, sobre “redes sociais, robôs e coronelismo eletrônico”.

Embora os participantes não parecessem discordar em muito, sua abordagem à atuação política da imprensa e à tensão política em torno da possibilidade do impeachment da presidente Dilma Rousseff foi bem diferente. Indagada pela mediadora da mesa (Cristiane Costa, coordenadora do curso de Jornalismo da ECO) sobre a existência de uma “imprensa golpista”, Carla Jimenez respondeu que havia “lados” reconhecíveis, enquanto Fernando Molica quis contextualizar a atuação da mídia na crise econômica dos meios de comunicação, provocada pelas tecnologias digitais de informação, que mudaram particularmente a temporalidade da informação e o interesse dos leitores: “Nem mesmo os blogs pró-governo, como o ‘247’, usam mais esse termo PIG (Partido da Imprensa Golpista)”. As revistas semanais teriam sentido o impacto mais fortemente, tornando-se “porta-vozes de seitas, de segmentos”, e não mais comentadoras dos principais fatos da semana.

Carla Jimenez lamentou a perspectiva do fim de um ciclo democrático e previu que haverá muito o que pensar e rever, a partir dos acontecimentos destes dias.  Para ela, “não existe mudança na História que não tenha batido no bolso primeiro”. Se não fosse o declínio do valor das principais commodities nacionais no mercado exterior, “o problema de corrupção da Petrobrás não afetaria tanto (a conjuntura atual)”. Jimenez discutiu a política editorial da grande imprensa. “Os editoriais são claríssimos, não dá para dizer que há uma cobertura isenta para os leitores decidirem. Golpista é uma palavra forte. O rotulo é duro, mas não dá para negar a posição da mídia em relação à política. Mas há que reconhecer posições a favor e contra o impeachment como legítimas”, disse.

Molica analisou a crise e o trabalho dos jornais de outra maneira.  Insistindo na necessidade de “ir com calma” e de reconhecer que “ninguém é inocente”, afirmou que era observável uma “direitização” das redações, sobretudo entre os profissionais mais jovens. O jornalista fez um paralelo com a sua geração que “ia fazer entrevista com estrelinha do PT e botão do Brizola”. “Naquele tempo todo jornalismo carioca brizolou”, brincou.

Em seguida, problematizou a situação atual: “Assustou-me o dia da revelação dos grampos (nas ligações do ex-presidente Lula). Houve um clima de oba-oba entre os jornalistas em torno da ação do juiz Sérgio Moro, que teve de se desculpar depois”, observou Molica. “Houve uma ilegalidade com consequências àquele processo. Desculpas não resolvem”.

A partidarização da imprensa se intensificou, segundo ele, desde a reeleição de Dilma Rousseff. “Faltou elegância à oposição para absorver a derrota”. O palestrante observou, ainda, que a esquerda brasileira perdeu a narrativa, quando envolvida nos escândalos de corrupção. A capacidade de agregar somente teria sido recuperada pelo apelo ao discurso democrático. “O ‘Não vai ter golpe’ foi genial!”, afirmou. “A direita reuniu toda a esquerda a favor do governo”.

Outros atores

Molica falou também sobre descentralização na narrativa dos acontecimentos. “Uma edição como a (do debate entre Lula e Collor, durante a campanha presidencial, feita pela Rede Globo) de 1989 não seria mais possível”, avaliou, em referência ao peso da internet hoje. “Você não vai negar a importância de grandes jornais, mas as redes sociais quebraram um pouco o que, no meu tempo de estudante, o professor Muniz Sodré chamava de ‘Monopólio da Fala’”. Como exemplo, citou um dos episódios das manifestações de 2013 em que uma prisão arbitrária foi comprovada graças a registros de midiativistas.

 Campanha de denúncia

A mesa contou com a mediação da professora Cristiane Costa (ECO) e serviu de plataforma para o lançamento de um grupo de pesquisa de análise do discurso no jornalismo político. Foi proposta a criação de uma hashtag #ordemsuperiornaredação: “A ideia é fazer algo nos moldes (das campanhas de denúncia de abusos) #meuprimeiroassedio e #amigosecreto”, anunciou Costa. “Para que as pessoas saibam que nem sempre o jornalista tem acordo com o que é publicado”, explicou.

Ciclo de debates será encerrado dia 19

Fernando Santoro, diretor da Adufrj-SSind, lembrou que o evento se insere na agenda de debates da Seção Sindical para abordar as diversas dimensões da crise atual. As primeiras atividades foram plenárias sobre política, no IFCS, em 9 e 17 de março. Em seguida, em 21 de março, foi a vez de serem tratados os aspectos jurídicos da crise, na Faculdade Nacional de Direito (FND). Em 6 de abril, ocorreu uma aula pública sobre política fiscal e as alegações do impeachment, novamente no IFCS. E, no último dia 12, na Casa da Ciência, foi avaliado o papel da mídia durante os atuais acontecimentos políticos. No próximo dia 19, haverá a palestra “A Razão neoliberal e o fim da democracia”, no IFCS, às 18h, com o professor francês Christian Laval (veja mais detalhes em https://www.facebook.com/events/1694628090775928/). [2]


Veja a cobertura em vídeo aqui: http://www.adufrj.org.br/index.php/veja-todos-os-videos2/3259-guerra-das-narrativas-analisa-o-papel-da-m%C3%ADdia-no-cen%C3%A1rio-da-crise-brasileira.html [3]