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Estudantes cobram recursos para o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho

Samantha Su
Estagiária e Redação 

Centenas de alunos realizaram um protesto em frente ao Hospital Universitário Clementino Fraga Filho na manhã desta sexta-feira (4). O objetivo era cobrar a normalização dos repasses à unidade por parte do governo federal. Com um déficit de R$ 11 milhões ao final de novembro, a direção do HU decidiu suspender novas internações e as cirurgias eletivas.

“Desde segunda-feira (30/11), quando anunciamos o problema, já foram suspensas 86 cirurgias eletivas. Somos um hospital que atende à comunidade. Temos muitos pacientes que não têm condições de custear um tratamento. Mas, além disso, somos um hospital que forma médicos, enfermeiros e toda a área da saúde. Hoje, temos 1,6 mil alunos circulando diariamente no HU e essa diminuição dos leitos e cirurgias não é só imensamente prejudicial para os pacientes; é imensamente prejudicial para o ensino. Quem serão os nossos médicos, se não tiverem um preparo adequado, se não nos preocuparmos com o atendimento humanizado?”, lamentou o diretor do HUCFF, Eduardo Côrtes, que participou do ato.

No último dia 2, o governo liberou, para o HU, R$ 3,352 milhões do Fundo Nacional de Saúde, mas a diretoria informou que não há como retomar todas as atividades apenas com este repasse inicial. Côrtes ainda manifestou preocupação com a possibilidade de não receber a parcela prevista para dezembro — na próxima semana —, de aproximadamente R$ 4 milhões, causando novos impactos negativos ao funcionamento do hospital.

Apenas metade dos leitos funcionando
Só em 2014, o hospital realizou 36 mil exames de imagem, 250 mil consultas, 6,8 mil internações e 4,7 mil cirurgias. “Deveríamos ter 500 leitos em funcionamento, começamos (a gestão) com apenas 220 e, a muito custo, subimos para 250. Funcionamos com metade da nossa capacidade”, explica o diretor.

Luto (e luta) pela Saúde
Os alunos vestiram–se de preto, em luto simbólico pela Saúde. Além dos cursos de Medicina e de Enfermagem, outras áreas da saúde engrossaram a manifestação: “A notícia das interrupções (de internações e cirurgias) gerou um grande incômodo entre os estudantes”, contou Breno Alves, da Medicina e integrante do Centro Acadêmico Carlos Chagas. Ele e outros componentes do CA passaram a compor um “Gabinete de Crise”, formado pela diretoria do HUCFF.

E as prioridades?
Durante o protesto, os estudantes questionaram o gasto governamental de R$ 61 milhões na criação de dois campos de hóquei e um campo de rugby dentro do campus da Cidade Universitária, para as Olimpíadas — embora o montante também se destine a modernizar toda a infraestrutura da Escola de Educação Física e Desportos (EEFD).

“É incoerente não ter R$ 10 milhões para os hospitais, mas ter seis vezes mais para um campo de rugby. É inaceitável que nossos pacientes esperem numa fila por atendimento de qualidade, enquanto esta obra esteja acontecendo. Se depender da gente, nosso hospital não vai fechar as portas”, declarou Gabriela Celestino, do curso de Enfermagem e do Diretório Central dos Estudantes (DCE).

No local onde estão sendo construídos os campos olímpicos, os estudantes deitaram e acenderam velas simbolizando a morte do Hospital Universitário.

Sindicato dos Médicos apoiou ato
O Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro (SindMed) foi ao ato apoiar a mobilização estudantil: “Há 15 dias, tivemos uma reunião com o Ministério da Educação em que o representante do Ministério da Saúde, quando questionado sobre a situação dos HUs, nos respondeu que isso seria um problema pontual. Cirurgias suspensas e internações interrompidas não podem ser algo pontual, não pode ser natural! A Saúde virou uma balcão de negócios”, criticou José Antonio Romano, um dos diretores da entidade.

Novos atos à vista
Ao final da manifestação, seus organizadores lembraram a necessidade de prolongar as manifestações e assembleias sobre o tema. Foi lembrado, ainda, que o movimento se estende para defesa dos hospitais da UFF, Uerj e UniRio, que também sofrem com o sucateamento.




Formação prejudicada

Em entrevista a este site, os residentes da Medicina também revelaram o estado de precarização em que se encontra a formação do curso: “Quando eu estava no sexto período da faculdade, a relação aluno/paciente do hospital era de um para um. Hoje, eu vejo de quatro a cinco estudantes para cada paciente”, declarou Layla Almeida, recém-graduada.

“Há estudantes no R3, último ano da residência, sem operar. Isso é um desrespeito com a formação dos nossos médicos. Como um estudante que só tem os próximos quatro meses para acabar seu ciclo de residência vai passar esses últimos meses sem operar ninguém? Como esses médicos vão exercer a profissão fora daqui?”, indagou Viviane Leite, residente e integrante do movimento Salve HU, criado em 2012.

Ela também falou da suspensão das cirurgias não emergenciais: “As pessoas podem achar que cirurgias eletivas são aquelas que não seriam importantes ou superficiais. Na verdade, o conceito diz respeito apenas ao nível de prejuízo que o paciente tem ao adiar sua operação. Em nenhum momento significa que ele não precise fazê-la. Nós temos, por exemplo, pacientes que precisam operar a vesícula e sofrem com crises de dores constantes e tiveram sua cirurgia cancelada. Ou alguém que teve uma fratura e continua com aquela dor”, expôs Viviane.

Os estudantes contaram também que, mesmo com o ambulatório funcionando, faltam reagentes e outros materiais para exames simples. E, com um número reduzido de leitos, pacientes ficam em lugares inadequados e as salas de atendimento não possuem mesas ou cadeiras. A falta de concursos públicos também deixa diversos setores sem condições operacionais.

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