Silvana Sá

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O incêndio no prédio da reitoria já completou dez meses, mas até agora pouca coisa voltou ao normal. A Administração Central não conseguiu recuperar o oitavo andar atingido pelas chamas. Também faltou dinheiro para obras das redes elétrica e hidráulica que abasteciam seis andares do edifício. A consequência é que professores e estudantes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e da Escola de Belas Artes, cursos sediados no local, continuam em situação precária. Boa parte das aulas tem acontecido em instalações improvisadas no Centro de Tecnologia e na Letras. A reitoria reconhece os problemas, mas não definiu prazo para soluções.

Desde 3 de outubro, quando parte do prédio pegou fogo, as unidades acadêmicas não podem utilizar as instalações do quinto ao oitavo andar. Com isso, o Programa de Pós-Graduação em Urbanismo (Prourb) ficou desalojado e sem laboratório. Passou a funcionar no Centro de Tecnologia. Os cursos da EBA também estão fora do edifício – eles ocupavam o 6º e 7º pavimentos –, no CT e na Letras.

Tapumes fecham acesso ao 5º andar

O professor Pablo Benetti, do Programa de Pós-graduação em Urbanismo, da FAU, citou suas dificuldades. “Estamos acampados e sem nosso laboratório, que é fundamental para que nosso programa continue funcionando plenamente. Era para eu ter finalizado um projeto em maio, mas pedi prorrogação do prazo até outubro para tentar ter tempo hábil para finalizá-lo. Nossa rotina ficou muito prejudicada”, contou.

A subestação elétrica que atendia originalmente ao térreo e ao segundo andar passou a fornecer energia também para o terceiro e quarto pavimentos. Mas, para ter luz, os professores não podem usar equipamentos, como impressoras, micro-ondas para esquentar o almoço, fotocopiadoras, ar-condicionado. Parte dos corredores e escadas está às escuras. Luz e internet são intermitentes. No corredor da diretoria da FAU, dez aparelhos de ar-condicionado novos estão nas caixas, aguardando instalação.

Aparelhos de ar-condicionado novos, comprados pela FAU, não podem ser instalados porque faltam salas e carga elétrica suficiente

A preocupação com a acessibilidade é constante. Apenas um elevador (de cargas) está em funcionamento, mas não existe ascensorista na maior parte do dia, o que obriga pessoas com dificuldade de locomoção a subirem até oito lances de escada. “Ainda mais agora, com a modificação da lei de cotas para atender pessoas portadoras de deficiência, a procura vai aumentar muito. Como uma pessoa cadeirante vai subir oito lances de escadas?”, questionou a professora Cláudia Nóbrega, chefe do departamento de História e Teoria da FAU.

“É uma situação muito difícil para nós, professores, mas mais ainda para os alunos”, completou a professora Niuxa Drago, da FAU. “Foi-nos dada como opção a troca de turno, mas é inviável passarmos ao noturno, pois nosso curso depende muito da luz natural para as observações, os trabalhos, os projetos. É uma especificidade da qual não podemos abrir mão”, explicou a docente.

Cansado de muitas perguntas e poucas respostas, o corpo social da FAU constituiu, na última Congregação da Unidade, dia 3, uma comissão para acompanhamento das obras e das condi- ções de uso do edifício. O diretor Mauro Santos informou que objetivo é repassar as informações para a comunidade acadêmica e pressionar a reitoria para o restabelecimento da rotina normal no prédio. “Estamos cobrando um cronograma de obras. Algumas ações foram tomadas pela reitoria, mas elas não têm conseguido responder às demandas”.

Sem ascensorista, elevador não funciona e pessoas com dificuldade de locomoção são obrigadas a subir até oito lances de escada

Em abril, a reitoria prometeu que, num prazo de 20 dias, apresentaria para a FAU um cronograma com a indicação de quando o 5º andar estaria liberado para funcionamento. O calendário levaria em consideração o prazo necessário para a recuperação da subestação elétrica do 9º andar. “Isto ainda não foi feito, nem saberemos quando será”, reclamou o diretor da unidade.

Os estudantes também expressam preocupação quanto ao futuro. Douglas Ramalho cursa o terceiro período na FAU. Ele relata que a rotina precária de aulas não é o que mais o aflige. “O maior problema é a indefinição quanto ao calendário acadêmico, quanto às obras. Temos pouca ou nenhuma informação consistente sobre o que vai acontecer nas próximas semanas, nos próximos meses”, disse.

Para ele, foi correto o posicionamento da Congregação em manter o início do segundo semestre para o dia 4 de setembro. “Eu acho que, se pararmos por completo, ficaremos numa situação de ainda mais indefinições, já que não temos nenhuma previsão de normalização do prédio. Se, com a gente aqui, fiscalizando e pressionando, já não surte muito efeito, imagina se o edifício ficar completamente vazio? Vai ficar esquecido”, conclui.

Reitoria explica

A assessoria de imprensa da reitoria informou que estão previstos no orçamento deste ano: R$ 1,4 milhão para reforma estrutural das áreas atingidas pelo incêndio; R$ 1,8 milhão para reforma da rede elétrica e R$ 258 mil para a rede hidrossanitária. Apesar de constarem do orçamento, os valores ainda dependem das liberações do MEC. Ainda ficariam de fora as reformas dos elevadores, do Bloco D e a recuperação da infraestrutura de TI. De acordo com a Administração Central, a etapa de estrutura já foi licitada e a empresa, escolhida. Os projetos das partes elétrica e hidráulica foram aprovados pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (o prédio é tombado). As licitações estão sendo preparadas, mas ainda não há prazos. Já os elevadores permanecem parados por falta de peças.

No site https://ufrj.br/gabinetedecrise, existe um cronograma de obras, mas não há datas de conclusão definidas para parte das medidas anunciadas. Por exemplo, a reforma da rede hidráulica tem previsão de conclusão em seis meses, a partir de abril, assim como a reforma da rede elétrica. Mas o conserto dos elevadores não possui prazo definido, assim como a reforma estrutural nas áreas afetadas do prédio.

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