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Maré: flores contra a violência

Um território com marcas de guerra por todos os lados foi o ambiente escolhido para a realização da Marcha contra a Violência, ocorrida no dia 24, na Maré. A passeata foi organizada por moradores, trabalhadores, associações e ONGs da região. Professores da UFRJ, artistas plásticos, de TV e teatro também participaram da atividade. “A violência está paralisando a Maré. Estamos todos muito cansados”, disse o coordenador da ONG Redes de Desenvolvimento da Maré, principal articuladora do ato. “O objetivo desta marcha é reunir pessoas de dentro e de fora, para dizer que este problema é de todo mundo. O que reivindicamos é uma política de segurança que garanta a vida das pessoas”, completou.

Muitos moradores venceram o medo dos confrontos armados e compareceram à marcha. Wanda Rodrigues, do Parque União, considera um dever de todos participar de ações assim: “Esse é um despertar para nossa comunidade. Quem sofre tento com a violência não pode se calar. Eu sou mãe de dois adolescentes e tenho muito medo pelos meus filhos, mas, se não participarmos de atividades como esta, a gente se aprisiona”.

“Hoje fui levar minha filha para a escola e quando chegamos lá estava tudo destruído. É a terceira vez que isso acontece”, contou Adriana Gomes da Silva, moradora da Nova Holanda. Sua filha de 5 anos estuda na escola Maria Amélia Castro e Silva Belfort, uma das Escolas do Amanhã construídas pela Prefeitura do Rio no ano passado. A unidade foi invadida e depredada naquela manhã. “A escola é feita de contêiner. Há várias salas furadas de balas. Como podemos deixar nossos filhos lá e ficar tranquilas? Como achar que estão em segurança?”, indagou.

A lição de violência e da importância de combatê-la já foi aprendida por Ronnie Alves da Silva, de 11 anos. “Vejo muitas coisas ruins todos os dias e não gosto disso, por isso eu vim protestar contra a violência”, disse o menino, que mora na Nova Holanda e estuda no Ciep Hélio Smith, no Parque Rubens Vaz, outra comunidade que compõe o Complexo. No cartaz que carregava, dizeres e desenhos que indicavam os direitos roubados das crianças do local: brincar, viver, estudar, ser feliz.

Tatiana Roque e Marina Motta

Relação com a vizinha UFRJ

O Fundão é vizinho à Maré. A proximidade traz impactos de violência para o campus, mas também é fonte de muitas trocas. É o que explica o professor Pablo Benetti, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Ele também participou da passeata, com estudantes e com a presidente da Adufrj, Tatiana Roque. “Precisamos marcar uma posição de defesa dos direitos humanos. Há leis que aqui não imperam. Nosso país não será verdadeiramente democrático, se isso não for corrigido”, disse o professor. “Temos aqui um amplo campo de trabalho fundamental para todas as áreas do saber. Os nossos projetos de extensão têm muitas demandas. A UFRJ não pode deixar esta realidade de lado”, considera.

O ato teve o apoio institucional da Adufrj. “Sem a Adufrj isso aqui não teria acontecido. A Adufrj nos deu bandeira, camiseta, todo tipo de ajuda. É um sindicato de luta”, agradeceu Marina Motta, diretora da Redes de Desenvolvimento da Maré.

A atriz Patrícia Pillar estava no núcleo artístico da passeata. Para ela, o principal objetivo é criar a consciência de que a violência é um problema de todos. “Nós somos um corpo só, um organismo. Esta é uma mensagem de união. Os números de homicídios na nossa cidade estão insustentáveis”.

A dor da perda

Mães de jovens assassinados na Maré e em Manguinhos fizeram discursos emocionados quando a manifestação chegou à “divisa”, local conhecido por constantes trocas de tiros. A esquina das ruas Evanildo Alves e Principal divide os territórios de facções inimigas. Ali também há trocas de tiros quase que diárias com a polícia. As marcas das balas estão por todos os lados. “Nós queremos paz para continuar vivendo. O nosso grito é pela vida. Nossos filhos estão sendo assassinados. Não são casos isolados. A mãe da favela não tem direito ao luto. A gente luta dia e noite para que haja justiça por nossos filhos”, disse Ana Paula Oliveira, mãe de Jonatan Oliveira, de 19 anos, assassinado em 2014 pela polícia, em Manguinhos.

Apresentações culturais encerraram a atividade