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Condições ruins de trabalho e salários baixos afetam qualidade do ensino, mas Secretaria Municipal de Educação do Rio ainda cobra “produtividade”
 
Categoria desenvolve doenças em função do desgaste
 
Rodrigo Ricardo. Especial para o Jornal da Adufrj
 
Enquanto aguarda o desfecho de reunião entre o prefeito Eduardo Paes e representantes do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (Sepe), ao lado de outros dez mil colegas, sob o sol da última sexta (23), o professor André Ciraudo, de Música, compra uma garrafa de água (R$ 3) com uma nota de R$ 50. O jovem ambulante coça a cabeça, folheia as notas, olha encabulado o cliente e lhe dá um troco de R$ 67. A diferença é devolvida e Ciraudo analisa a cena para além de um erro de contas. “Nossos jovens não estão sendo educados para raciocinar. Querem que eles somente apertem botões”, acredita o docente, que trabalha há 13 anos na rede municipal e leciona na Escola Martin Luther King, na Praça da Bandeira. 
 
A crítica às condições de trabalho ruins aparece em seguida: “Estou sem sala de aula e instrumentos musicais. Venho fazendo um trabalho de ritmo com os alunos, onde usamos o corpo, com palmas e estalos de boca”, descreve André. Critica, ainda, os métodos de avaliação da Secretaria Municipal de Educação (SME) e cartilhas pedagógicas como a “Fórmula da Vitória”: “Absurdo. O aluno se tornou uma mercadoria e a avaliação se resume a números. Essa lógica empreendedora da SME coloca, no fim, professor contra professor”.
 
A competição dentro da categoria
O Plano de Metas e de Produtividade, que gera uma espécie de 14º salário aos servidores que alcançam os resultados estipulados, está longe de ser um consenso entre os educadores. “Trata-se de uma competição não saudável e desigual, porque as condições não são as mesmas”, enfatiza a professora Suelen Veloso, de Educação Física. Ela recorda que escolas dentro de comunidades, por exemplo, às vezes ficam dias fechadas por conta dos conflitos entre tráfico e polícia: “Cria-se uma guerra que contraria a finalidade do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação). Esse dinheiro deveria ser utilizado na qualidade global da rede”.
 
Com menos de um ano no funcionalismo, Suelen ignorou as ameaças do poder municipal de cortar o ponto dos efetivos e demitir os que ainda cumprem o estágio probatório. “Não me amedrontei. Isto foi uma tentativa de enfraquecer o movimento”, afirma a professora, de 29 anos, que trabalha na Escola Lia Braga, em Guadalupe. “As minhas condições de trabalho não são ruins, mas precisamos pensar na situação de outros colegas”. 
 
130826102Em Irajá, na Escola Barcelona, a quadra está sem cobertura; os ventiladores, quebrados; e o reboco das paredes vem caindo dentro das salas. “O material pedagógico que tenho é mínimo. Para você ter uma ideia, tenho uma bola de handebol que uso para o queimado, o basquete e o futebol….”, denuncia Rafael Silvano, recém-concursado que tomou posse no cargo há três meses. “Não é por que, na hora do concurso, sabíamos dos salários (R$ 1,4 mil) que vamos deixar de brigar para sermos mais valorizados. A gente fica com medo das ameaças, mas permanecemos na luta por entendê-la legítima”.
 
Outra experiência contestada pelos professores é a chamada Prova Rio para os estudantes do ensino fundamental, organizada em conjunto com o Centro de Seleção e Promoção de Eventos (Cespe/UnB). Muitos a definem como “um vestibularzinho”, no qual os alunos vêm sendo moldados para fazer exames. Para a professora Maria do Socorro Tabosa, de Matemática , os testes são injustos. “Eles não refletem se o aluno aprendeu ou não. Na múltipla escolha, quem não estudou pode contar com a sorte e o que se dedicou pode ficar nervoso e se dar mal”, acredita Tabosa que, aos 66 anos, ainda pode ser vista à frente das turmas da Escola Dom Pedro I, na Barra da Tijuca. “Após 25 anos me aposentei para ganhar R$ 2,7 mil. Fiz concurso novamente e voltei para essa rotina desgastante. O relacionamento professor-aluno não é nada fácil. Ao longo do tempo, muitos colegas desenvolvem doenças. Tenho um que há dois anos está afastado das salas e terá que ser readaptado por ter desenvolvido a Síndrome de Burnout (esgotamento físico e mental ligado à profissão)”. 
 
Apoio dos professores do CAp-UFRJ
Assim como os docentes da Faculdade de Educação da UFRJ já haviam feito há alguns dias, os colegas do Colégio de Aplicação da universidade também manifestaram apoio à greve dos educadores das redes municipal e estadual do Rio. Segundo nota produzida em reunião naquela Unidade (no dia 20) e divulgada no perfil da Adufrj-SSind no Facebook, “a luta pela educação nessas respectivas redes é justa, necessária e de todos nós!”.
 
“Reivindicar um plano de carreira que dê dignidade de vida aos professores e ao pessoal de apoio técnico e administrativo e atividades afins; a destinação de 1/3 da carga horária para que o professor possa dedicar-se ao planejamento de suas aulas; condições de trabalho adequadas em suas escolas, inclusive no que se refere à infraestrutura dos prédios; assim como lutar pela autonomia docente em sua atuação político-pedagógica – o que inclui dar fim às ações que tenham como princípio a feroz meritocracia –, é mais que relevante, é urgente, pois, sem ela, é o próprio direito social à educação que é negado às crianças e jovens das respectivas redes”, diz outro trecho da nota.
 
Próximos passos do movimento grevista
Neste dia 26, os professores da rede municipal voltam a se reunir em assembleia para avaliar a reunião com a Prefeitura ocorrida na sexta (23) e decidir se continuam em greve. A rede estadual promove passeata, da Cinelândia à Alerj, no dia 27

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