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Pepetela diz que há uma ditadura no mundo literário

pepetela

Escritor angolano visitou a UFRJ e encantou plateia com sua paixão pela leitura. “É preciso manter a chama acesa, continuem a ler

Elisa Monteiro
elisamonteiro@adufrj.org.br

O premiado escritor Artur Carlos dos Santos, conhecido como Pepetela, fez o público se espremer no auditório da Faculdade de Letras nesta terça-feira, 21. Seus romances retratam com dureza as transformações de Angola nos últimos quarenta anos. “Não há como escrever de maneira branda quando a realidade é terrível”, afirmou a respeito de sua mais recente obra, Se o passado não tivesse asas. A publicação ainda não foi lançada no Brasil.

Provocado pela plateia, Pepetela expressou sua visão sobre a política, traçando paralelo com a literatura. “Fala-se tanto em democracia, mas mantém-se uma ditadura sobre a literatura. A literatura deve também chegar aos diferentes personagens, deve ter as palavras das várias escritas. O autor não pode ser um soberano absoluto”, cutucou.

 A discriminação com escritores de regiões periféricas também foi acusada. “Um livro da África só é reconhecido depois que é publicado na Europa. Há muitas Áfricas, muitas literaturas africanas. Mas quando você vai ver, ela ocupa uma estantezinha de livraria ou na biblioteca”, criticou.

O autor atingiu notoriedade a partir de Mayombe, romance que registra sua própria participação na luta armada contra os portugueses pela libertação nacional de Angola. Escrito nos anos de 1970, a obra só veio a público na década seguinte.

Escrita

O estilo original do escritor motivou grande parte das perguntas. Pepetela recusou-se a palestrar e transformou o encontro em uma grande sabatina: “Um escritor não pode contar com uma arma só. Ele deve andar ao menos com uma de reserva”, provocou o ex- combatente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). A brincadeira se referia a um dos truques do autor para despistar eventual falta de inspiração: “Sempre se pode recorrer às memórias de infância”, deu a dica aos aspirantes a literatos. 

Em outro momento, relatou que suas histórias em geral partem de uma frase ou evento banal. “A partir daí começo a puxar o fio e a perseguir os personagens até que a coisa vai ganhando complexidade. Nunca sei como vai terminar. Se sei como será o final, nem principio a escrever”.

Utopia

Desde sempre, o angolano de ascendência portuguesa deu protagonismo ao Sul, aos considerados periféricos, aos “de baixo”.  Ele explica que a referência geográfica corresponde em grande medida à relação entre metrópole e colônia. Mas também diz respeito à histórica rivalidade entre a capital Luanda e sua cidade natal, Benguela.

“O contexto é sempre determinante, queira o escritor ou não”, afirmou sobre a política na literatura. Dissidente há décadas do MPLA, o autor assegurou que a separação foi “um divórcio amigável”. “Fui me afastando aos poucos da política para escrever como eu queria. Primeiro do governo e, em seguida, do partido. Eles perceberam, mas deixaram. Não os queria nem eles a mim. Desisti quando percebi que minha consciência não fazia diferença.”

Conhecido por retratar afetivamente, mas sem maquiagem, o desfecho político de autoritarismo e de corrupção de Angola depois da revolução socialista, Pepetela explicou a autodefinição como “socialista utópico”. “É uma referência a (Pierre-Joseph) Proudhon (1809-1865) e à ideia de combinação entre igualdade social e liberdade individual, o que, ao menos nos séculos XX e XXI, se mostrou inconciliável”, resumiu.

Confira trechos da conferência abaixo.

Ainda há espaço para utopias?

É preciso sonhar o impossível para tornar o possível uma realidade. Nesse sentido, a utopia é positiva. Talvez as pessoas em 1914 ou 1939 ou 1941 pensassem com o mesmo pessimismo de agora. Há ciclos não só na vida, mas na própria humanidade. Temos de manter cabeça tranquila e dizer que este ciclo ruim vai ter fim para um ciclo melhor. Eu acredito que um ciclo melhor só se alcança com muita luta junto aos que mais sofrem.

Os livros vão continuar, mesmo com a concorrência da internet?

Os livros vão continuar. O ato de ler vai permanecer apesar de todos os concorrentes que existem, pois é uma necessidade absoluta do homem. Quando a civilização praticamente desaparecer e ninguém souber ler e escrever, alguém fará um desenho de pessoa que outros irão ler. Portanto, penso que a leitura não vai desaparecer. Continuem a ler. 

Viver muito ajuda a escrever? Ou escrever muito ajuda a viver?

Há um impulso, quando você começa escrever e realmente entra na historia, começa a desvendar personagens. Dá prazer, mesmo nas coisas duras. Nesse sentido, ajuda a viver. Mas posso passar dois anos sem escrever tranquilamente. As pessoas me perguntam: ‘Seus editores não te obrigam a escrever? Já faz dois anos que não publica nada?’ Eu respondo que, se ele me obrigar a qualquer coisa, eu mudo de editor.