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Reitor demite Ivan Marques da Pró-reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa

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Reitor demite Ivan Marques da Pró-reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa

Caiu também a pró-reitora de Pessoal, Regina Dantas

Silvana Sá
silvana@adufrj.org.br 

A gestão Roberto Leher sofreu sua primeira baixa no dia 25. O reitor demitiu o então pró-reitor de Pós-Graduação e Pesquisa (PR-2), Ivan da Costa Marques. O professor Ivan da Costa Marques, que tem 47 anos de sua vida dedicados à UFRJ, se surpreendeu com a decisão: “Passado o momento da indefinição eleitoral, logo percebi que a parceria em um projeto amplo de discussão sobre a pós-graduação e a pesquisa, por mim inicialmente imaginada, não correspondia bem ao que já estava planejado pela reitoria”, disse. “Mas, ainda assim, acreditei na possibilidade de um espaço de convivência construtiva, já que os projetos que logramos iniciar, assim como os atendimentos cotidianos, iam bem e em plena execução. Certamente minha exoneração interrompe procedimentos importantes, na minha opinião”, acrescentou o pró-reitor demitido.

A demissão ocorreu 15 dias depois de Ivan Marques ser o único da equipe da reitoria a se abster em uma votação que desrespeitou decisão da Faculdade de Medicina sobre a promoção de um docente daquela unidade ao cargo de Adjunto.

Na quarta, Leher escolheu a professora Leila Rodrigues, Titular do Instituto de História da UFRJ, para assumir a pasta. Ela é uma das coordenadoras do Programa de Pós-Graduação em História Comparada. Coordena, ainda, o Programa de Estudos Medievais. Seu nome será apresentado ao Conselho Universitário deste dia 9. Cabe ao Consuni a decisão final sobre quem assume a PR-2. Até lá, o professor João Graciano, decano do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza, assume o cargo.

Outro lado

Em reunião na manhã de sexta-feira (3), no Conselho de Ensino Para Graduados (CEPG), o reitor explicou que exonerou o professor mediante as novas exigências da universidade a partir da extinção do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. De acordo com o representante do CCJE no CEPG, professor Fábio Freitas, o reitor teria dado a entender que sua intenção é colocar um perfil “mais adequado” para buscar novas parcerias na captação de recursos especialmente para infraestrutura de pesquisa.

Em entrevista à reportagem da Adufrj, Roberto Leher voltou a dizer que trocou de pró-reitor porque a universidade tem desafios diferenciados a partir da extinção do MCTI. Ele negou que a demissão de Marques seja fruto de divergências políticas.  “O professor Ivan sempre mostrou muita afinidade com nosso projeto, mas hoje a pesquisa na universidade exige um trabalho de monitoramento, acompanhamento mais intenso. E uma maior articulação com a Capes na defesa de recursos Proap e Proex. A atuação do professor Ivan teve maior ênfase no debate mais amplo da ciência e na organização dos grandes temas”, disse.

A avaliação da Adufrj

A diretoria da Adufrj também se surpreendeu com a mudança repentina na equipe da reitoria. Para Carlos Frederico Leão Rocha, 1º vice-presidente da Seção Sindical e professor do Instituto de Economia, os fatos precisam ser melhor esclarecidos. “Devemos chamar atenção para o quão brusca e surpreendente foi a mudança, a inconsistência da justificativa e a surpresa dos conselheiros que realmente não esperavam. Conclui-se por uma agenda secreta e sugere-se falta de rumo”.

A carta de Marques

Em texto enviado à Adufrj, o professor Ivan Marques explica sua saída. Leia abaixo a íntegra da carta do professor.

Ivan da Costa Marques

Rio, 2 de junho de 2016

Entrei para a COPPE contratado pelo Professor Alberto Coimbra em janeiro de 1968, logo após a conclusão da graduação em Engenharia Eletrônica no ITA. Foi apoiado pela COPPE / UFRJ que pude fazer o mestrado e o doutorado em Berkeley (Universidade da Califórnia), em Engenharia Eletrônica e Ciência da Computação, concluídos em 1973. Dediquei-me desde então, até 1990, a diferentes atividades na UFRJ e, a partir de 1978, no governo, em empresa privada e em empresas estatais, mantendo sempre vínculo em tempo parcial com a UFRJ. Fiz isso munido dos referenciais da engenharia e da economia que, cheguei à conclusão após longo tempo, são, no meu entender, necessários mas insuficientes para suplantar a, digamos, colonialidade científico-tecnológica do Brasil.

De 1990 a 1992 estive na New School for Social Research (Nova York), na condição de visiting scholar, fazendo a travessia profissional que me permitiu incorporar as ciências ditas humanas e sociais em meus referenciais. Voltei ao Brasil e após três anos, a partir de 1995, passei a dedicar-me em tempo integral DE, na UFRJ, ao chamado campo CTS (ciências-tecnologias-sociedades) atuando no programa de pós-graduação em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia (HCTE, um programa inter-unidades nascido da COPPE, IQ, IM e recentemente também incorporado pelo NCE).

Nas últimas décadas as ciências sociais e humanas, especialmente a antropologia, propuseram novos referenciais sobre a feitura das ciências e das tecnologias modernas. Convenci-me de que, apesar da lebre ter sido levantada na Europa e nos EUA, discutir estes novos referenciais em conjunto com os cientistas das ciências naturais, abriria brechas e oportunidades para que nossos coletivos pudessem tratar a colonialidade científico-tecnológica de maneiras mais autônomas e consequentes. Manter os referenciais de cada disciplina como compartimentos separados e estanques limita o leque das possibilidades da pós-graduação e da pesquisa no Brasil. Por exemplo, as condições de sucesso duradouro para os desenvolvimentos e aproveitamento das pesquisas nas engenharias brasileiras não são independentes das pesquisas nas ciências jurídicas brasileiras. Para ter sucesso genuíno é preciso juntar as pesquisas dos engenheiros e cientistas com as pesquisas dos advogados e juristas, porque os retornos possíveis do trabalho dos engenheiros não independem das leis vigentes no país. Digo que a lebre foi levantada lá porque foram os próprios europeus que “descobriram” isso nas últimas décadas, diante da China e da índia. Esses temas estão em minhas palestras e publicações e foram também já abordados em outras entrevistas que dei no momento de minha entrada na PR2.

Com desculpas pelo longo preâmbulo, fui convidado, no momento da disputa no segundo turno para as eleições de reitoria em meados de 2015, para compor a possível futura equipe dirigente da UFRJ, caso a chapa 20 fosse eleita. Vi neste convite para ocupar a pró-reitoria de pós-graduação e pesquisa uma oportunidade de retribuir à UFRJ o que dela recebi em mais de 45 anos de vida profissional e, ainda mais, fazer isso na tentativa de colocar em pauta uma discussão renovada, abrangente e democrática, sobre a pós-graduação e a pesquisa na própria UFRJ e, porque não dizer, no Brasil.

Hoje, após minha exoneração em 25/05/2016, considero que pude encerrar mais um período de grande experiência na vivência universitária e logo aproveito esta oportunidade oferecida pela ADUFRJ para agradecer todos aqueles com quem trabalhei neste período, funcionários da PR2, integrantes do CEPG, coordenadores dos programas de pós-graduação, professores e estudantes que me procuraram com os mais diversos problemas, e também pessoas externas à UFRJ como as que compõem as Comissões de Premiação do Prêmio Gilberto Velho de melhor tese da universidade.

Eu e minha equipe buscamos sempre corresponder com todo zelo e dedicação às demandas que nos eram enviadas. Apesar de todas as dificuldades que atravessamos, especialmente as de cunho financeiro, amplamente conhecidas, é para mim uma enorme alegria poder afirmar que não tenho conhecimento de insatisfações com a PR2, tanto da parte de indivíduos quanto institucional­mente, da parte dos programas e do CEPG, muito pelo contrário. Nossa orientação sempre foi que cada demanda, de quem quer que viesse (professor, estudante ou funcionário), fosse imediatamente respondida, mesmo nos casos em que a solução da questão não fosse imediata, sempre prestando contas ao demandante e, muito importante, com transparência. Disse “muito pelo contrário” porque só ouvimos elogios a nossos procedimentos, não só por parte de funcionários e professores, como também por parte dos estudantes. Por exemplo, nos dois editais para distribuição de bolsas que tivemos a oportunidade de fazer, tanto os que ganharam como os que deixaram de ganhar bolsas declararam-se satisfeitos com as discussões e explicações nítidas e abertas sobre os critérios de distribuição, e contribuíram entusiasticamente para o aperfeiçoamento de tais critérios.

Por outro lado, é sempre muito difícil ter completo conhecimento do que se passa na vida de uma instituição do porte da UFRJ e não posso responder a questões que precisariam ser feitas diretamente para a atual reitoria, já que não fui consultado com antecedência sobre possíveis problemas ocorridos com a PR2.

Em solidariedade a mim, meus dois superintendentes, Eduardo Paiva e Henrique Cukierman, igualmente docentes do HCTE, pediram exoneração dos seus cargos logo na segunda-feira, dia 30 de maio, pela manhã. Cukierman é também docente da COPPE (PESC) e da Escola Politécnica. É claro que o reitor tem o direito de definir aqueles que compõem a sua equipe de trabalho. Passado o momento da indefinição eleitoral, logo percebi que a parceria em um projeto amplo de discussão sobre a pós-graduação e a pesquisa, por mim inicialmente imaginada, não correspondia bem ao que já estava planejado pela reitoria. Mas ainda assim acreditei na possibilidade de um espaço de convivência construtiva, já que os projetos que logramos iniciar, assim como os atendimentos cotidianos, iam bem e em plena execução. Certamente minha exoneração interrompe procedimentos importantes na minha opinião, mas ninguém é insubstituível e faço votos que tudo seja encaminhado da melhor forma possível pois, afinal, somos todos UFRJ.

Quanto ao que pretendo fazer, não me faltam tarefas! Algumas que sofreram várias interrupções durante este período: orientações, aulas, grupo de pesquisa, além das minhas atividades relacionadas aos estudos sobre a construção de conhecimento em nossas universidades, aos quais me referi no início desta entrevista. Temos uma associação brasileira destes estudos – ESOCITE.BR – da qual sou presidente. A ida para a PR2 interrompeu também a escrita de um livro visando contribuir para colocar em cena novos ângulos nas abordagens das pesquisas científico-tecnológicas no Brasil. Vou agora poder retomar também esta tarefa.