As professoras Maria Antonieta e Suzana Borschiver (ao centro), com a orientanda Karoline Coelho

Redação Adufrj

adufrj@gmail.com

Acusada de racismo por uma ex-aluna em 2012, a professora Suzana Borschiver, da Escola de Química, acaba de receber uma grande notícia: o juiz Mário Cunha Olinto Filho, da 2ª Vara Cível, considerou que a denúncia se baseou em um “argumento falso”. Ele decidiu, no início de agosto, que a docente deve ser indenizada pelos danos morais sofridos à época. A ré, Andreia Silva de Souto, foi penalizada em R$ 15 mil, além dos custos jurídicos do processo. Cabe recurso.

“Há grande indício de que, por conta da ré não ter seus interesses atendidos, nem corresponder o seu empenho ao esperado pela autora, ficou mais fácil para a ré simplesmente tentar inverter os valores, aproveitando-se de eventual condição social ou cor de pele, para impingir acusação infundada contra a demandante”, diz trecho da decisão. “Assim como é repugnante qualquer tipo de discriminação sob qualquer argumento (social, de cor, de credo), é igualmente repugnante, se valendo de um argumento falso, utilizar-se de uma determinada condição para criar constrangimentos”, completa outra parte.

No final de 2012, a estudante registrou queixas nas Ouvidorias da UFRJ e Nacional de Igualdade Racial, relatando ter sido vítima de humilhação e injúria racial. O caso repercutiu na mídia. E motivou a ação da docente contra a aluna. “A questão financeira é a que menos me preocupa. Quero uma reparação moral”, afirmou Suzana Borschiver. “Você vê seu nome no jornal e, do dia para noite, a carreira que você construiu com dignidade e cuidado é jogada na lama”, lamentou.

Sobre a lesão à imagem da docente, a sentença sustenta que “farta prova documental dá conta que a ré fez notícia/queixa-crime por conta de supostas ofensas, inclusive com cunho racista, sem prejuízo de ter dado larga notoriedade a isso, o que ocasionou notícias na mídia com a exposição do nome da autora”.

Suzana falou sobre o dia em que a notícia explodiu na mídia: “Passei a manhã respondendo a jornalistas. Mas, ao longo do dia, foram perdendo o interesse no assunto. Um deles chegou a dizer, à tarde, que já tinham apurado que Andreia estava preocupada apenas de ter de ressarcir a bolsa que recebeu e por isso estava tentando inverter os fatos. Perguntei o que eu faria com meu nome que tinha sido jogado no lixo. E ele só pediu desculpas e desligou”.

A pior parte para a docente, contudo foi entrar em sala de aula depois do caso e ver os alunos “com os olhos arregalados”. “Minha vida não parou, mas, a cada lugar que ia, passei a ter que me explicar”, relatou. “Foi muito constrangedor e desgastante”, descreveu. “Sempre que falo sobre isso ainda me emociono”. Escrita pela própria professora, a defesa virou “uma verdadeira tese”. “Por meses, cuidei disso pessoalmente, anexando cada documento, cada e-mail trocado”.

O caso

A pós-graduanda Andreia Silva de Souto foi indicada por Suzana para realizar parte do doutorado no exterior. Segundo a docente, a Universidade do Porto, local onde trabalhou um ano antes, custeou a bolsa e moradia para a estudante durante um ano, com recursos do projeto Euro-Brazilian Windows. Mas, ainda de acordo com a professora, a inadimplência nas aulas e em outras obrigações acadêmicas e viagens não autorizados pela Europa teriam levado a instituição portuguesa a suspender a bolsa durante um mês. Em depoimento nas redes sociais, a coordenadora do programa de pós à época, professora Lidia Yokoyama, confirma a suspensão da bolsa por um mês, como medida disciplinar, pela Universidade do Porto. Durante o restante do período em Portugal, a aluna teria recebido a bolsa normalmente, em euros.

De volta ao Brasil, a estudante solicitou o trancamento de matrícula em vez de realizar o exame de qualificação, conforme o combinado. O pedido, porém, foi negado por insuficiência de rendimento da aluna. Segundo o acordo da mobilidade acadêmica, a aluna teria que terminar o doutorado, caso contrário teria que devolver a bolsa na sua totalidade. A denúncia contra a professora nos veículos de comunicação ocorreu alguns meses depois.

Apoio dos colegas e alunos

“É claro que a discriminação deve ser sempre combatida. Mas a gente que acompanhou essa situação sabe que não era o caso. A estudante não tinha a menor condição acadêmica”, contou Maria Antonieta Gimenes Couto, também docente da Escola de Química. “Até mesmo quando Andreia chegou a alegar depressão para justificar as faltas, apresentou um atestado ginecológico que nada tinha a ver”.

“Comecei a pesquisar com a Suzana na graduação. E segui com ela na pós. Conheço toda a família dela e sempre contei com a ajuda dela no meu desenvolvimento profissional. E, quando ouvi essa história, achei absurda”, declarou Karoline Coelho, uma das orientandas da docente. “Sendo negra, digo que não é correto se valer da luta contra o racismo para justificar um erro que é seu”.

Com a notícia da sentença favorável já repercutindo na internet, a professora Suzana diz se sentir “abençoada” com os comentários de alunos, ex-alunos e colegas confirmando que a “justiça foi feita”.

7 Comentários

  • Eduardo Falabella Sousa-Aguiar disse:

    Recebi, com alegria, a notícia da vitória da colega Suzana Borschiver no processo judicial acima citado. Reitero as palavras que escrevi na moção de desagravo capitaneada por mim em 2012 e assinada pela grande maioria dos docentes da Escola de Química. Suzana Borschiver sempre foi uma docente que primou pela competência e dedicação à UFRJ e a seus alunos. Sua vitória judicial é a vitória de todos. Parabenizo a colega Suzana por sua coragem. Sei o quanto tais acusações mentirosas a fizeram sofrer. Parabenizo, outrossim, o juiz por suas palavras tão sábias. O racismo é abominável, mas é ainda mais abominável a atitude de pessoas que se prevalecem de sua condição de minoria para inventar mentiras e tirar com elas vantagens indevidas.

  • Adelaide Antunes disse:

    Muito boa a reportagem para esclatecer o absurdo que aconteceu com A Prof. Suzana

  • Marieta lissker u disse:

    Parabéns professora. A verdade sempre aparece.A justiça tarda mas não falha.Mostrando realmente sua retidão de caráter e sua honestidafe9

  • Luiz Antonio d' Avila disse:

    Venho também expressar minha satisfação com a decisão judicial de reconhecer infundadas as absurdas e injustas acusações à Profa Suzana, que tem lhe custado um enorme desgaste
    Parabenizo-a pela coragem de enfrentar a situação desejando ainda mais sucesso na sua trajetoria

  • Solange Goldemberg disse:

    Parabéns!, Suzana!!! Justiça feita, reconhecida e merecida em todos os meios!!!

  • Fernanda Cardoso disse:

    Conheço a professora Suzana Borschiver e sei que ela jamais seria capaz de humilhar seus alunos, muito menos de pronunciar ofensas racistas. A justiça foi feita! Acompanho este caso desde o início e a aluna recebeu a bolsa integral, porém um mês foi suspenso pela própria Universidade do Porto quando a aluna faltou com suas obrigações a uma das disciplinas nas quais se inscreveu.

  • Andrezza Lemos disse:

    Qualquer um que conhece a professora ou trabalha com ela sabe o quão ABSURDA foi esta acusação! Uma irresponsabilidade completa de uma aluna que não soube aproveitar a oportunidade que lhe foi dada. Não se podia esperar por outro resultado. A justiça finalmente foi feita! E que sirva de lição às pessoas mal intencionadas!

ADICIONAR COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

(*)

(*)