Professores e estudantes de diversas unidades reuniram-se no IFCS para debater o atual momento e preparar sua participação no ato da Praça XV

Silvana Sá
silvana@adufrj.org.br

O corpo social do IFCS reuniu-se nesta sexta-feira (18) em assembleia geral, definida por professores e alunos do instituto na véspera. A atividade foi iniciada com avaliações sobre o momento político pelo qual passa o país e os riscos que as liberdades individuais enfrentam. O ato político foi aberto a toda a comunidade acadêmica da universidade. A palavra de ordem que unificou as diferentes correntes e visões de esquerda, presentes à assembleia, foi a defesa da democracia.

Houve proposta de que fosse formado um Comitê de Defesa da Democracia e da Legalidade no IFCS. A ideia seria congregar e manter reuniões e ações de vigilância para possibilitar articulações e mobilizações rápidas contra possíveis ações antidemocráticas.

O professor Fernando Santoro, do IFCS e diretor da Adufrj, explicou que a assembleia foi convocada pelo corpo social do instituto pelo entendimento de que este é um momento ímpar na defesa dos direitos constitucionais. E que é preciso buscar unidade para enfrentar os repetidos desrespeitos do Judiciário às normas e à legislação. “Estamos aqui numa frente democrática. Num momento como este, em que se aviltou a Constituição, as leis básicas brasileiras, todos devem se reunir para defender a liberdade. A Democracia é o espaço da discordância livre. É por isso que estamos aqui, para defender direitos elementares de poder continuar expondo nossas opiniões”.

Balanços

Muitas falas posicionaram-se contra o governo de Dilma Rousseff, especialmente contra a mais recente ação, a Lei Antiterrorismo que foi sancionada (com vetos) pela presidenta no dia 17. Contudo, prevaleceu a necessidade de agir para barrar os desmandos do Judiciário — que contam com o apoio da Rede Globo.Professores e estudantes se reúnem em assembleia no IFCS. Fotos: Silvana Sá

Na avaliação do professor Francisco Carlos Teixeira, Titular aposentado da UFRJ, o momento político atual é uma espécie de deságue de uma sucessão de erros dos governos do PT, mas também da esquerda brasileira como um todo. “Como movimentos de esquerda nós também falhamos. Deixamos que os movimentos sociais fossem paralisados. Os grupos de direita superaram, inclusive o PSDB. Este é um outro momento”. O papel da mídia na construção de regimes totalitários de extrema direita em várias partes do mundo foi apontado com preocupação pelo historiador. “O envenenamento viral diário de uma mídia corrupta e partidária foi o motor do fascismo, do nazismo. Este é o momento de mostrarmos o tamanho do ‘ronco’ das ruas, cerrar fileiras e denunciar todos os atos ilegais operados pelo Judiciário”, defendeu.

O professor Evandro Ouriques, da Escola de Comunicação, complementou que o empenho midiático na derrubada do PT do poder tem responsabilidade do próprio partido. “Foi um suicídio político os governos petistas não terem feito a regulação da mídia, a democratização das comunicações. Eu discuto isso com a presidência do PT desde 2010 e eles não fizeram nada! Eles foram avisados”. Ele também cobrou responsabilidade dos profissionais de imprensa que, mesmo diante dos desmandos dos grandes meios de comunicação e recorrentes desrespeitos a códigos de ética, mantêm-se trabalhando para os veículos, especialmente para os que compõem o sistema Globo. 

Titular do IFCS, o professor Michel Misse lembrou que em 2002 o ex-presidente Lula venceu as eleições, mas o PT não conseguiu maioria no Legislativo Federal nem naquele momento, nem nas eleições seguintes. “O que obrigou o governo a realizar o chamado Presidencialismo de Coalizão. Portanto, aquele e os governos posteriores não foram do PT, mas de coalizão. Isto resultou em ações de governo e de Estado muito mais recuadas do que o programa do partido”, argumentou. O docente reforçou que os vários desrespeitos às liberdades garantidas na Constituição Federal levantam um perigoso precedente. Ele está convencido de que um golpe está em curso e é preciso reação imediata para barrá-lo. “Vivi isto na minha juventude. Não quero, no final da minha vida, ter que viver tudo de novo. Não vou aceitar. Por isso vou para a rua me manifestar em defesa da legalidade, em defesa da liberdade, da democracia”, disse emocionado.

O movimento estudantil presente na assembleia estava dividido entre os que assembleiaifcs2Pluralidade de opiniões marcou o encontroconcordam que há um golpe em curso e os que não têm tanta clareza de que este é o momento político pelo qual passa o país. Da diretoria da Associação dos Pós-Graduandos da UFRJ, Alice Pina questionou se a classe dominante precisa dar um golpe no atual governo, diante de tantos ganhos que vêm logrando desde o primeiro governo Lula. “Temos acompanhado vários ataques aos trabalhadores, perdas de direitos conquistados historicamente. Por outro lado, os bancos acumulam recordes de lucros, a política econômica beneficia a elite. Ela precisa mesmo de um golpe? Quem seria o principal ator desse golpe e quem seria o beneficiado?”, questionou. Outras estudantes do IFCS fizeram coro com os questionamentos.

Raphael Almeida, do DCE Mario Prata, defendeu a necessidade de dialogar com os setores mais pauperizados da população para que a esquerda tenha, de fato, o povo nas ruas. “Precisamos de milhões nas ruas para barrar o golpe e só vamos conseguir isso denunciando o que precisa ser denunciado. Não é o momento de defender o governo, pois a população se afasta. Vamos para as ruas com reivindicações por saúde pública e de qualidade, educação, contra a privatização. Vamos conversar com a população”. Outros estudantes da plateia sugeriam acrescentar na pauta de reivindicações da atividade a ruptura do PT com o PMDB de Eduardo Cunha e Michel Temer.

Concentração para o ato

Após a assembleia, houve confecção de faixas e cartazes que foram levados para o atoassembleiaifcs3Corpo social deixa o Largo de São Francisco para se unir ao ato na Praça XV na Praça XV. As maiores faixas traziam as inscrições: “Professores da UFRJ pela Democracia e contra o Golpe” e “Democracia Já”. Muitas bandeiras do Brasil ou trazendo as cores verde e amarela foram utilizadas pelos professores e estudantes, que se concentraram nas escadarias do prédio que abriga os institutos. A comunidade acadêmica saiu do IFCS/IH em bloco em direção à Praça XV, onde começava um ato cultural em defesa da democracia.

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