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Um novo jornalismo pela disputa das narrativas

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Debate no seminário “A Guerra das Narrativas: A cobertura jornalística do processo de impeachment” discutiu formas alternativas para produção de notícia

 Da esq. para a dir.: Raphael Kapa, Tai Nalon, Fernanda da Escóssia e Conrado Corsalette – Foto: Samantha Su

Samantha Su
Estagiária  

A segunda mesa do seminário “A Guerra das Narrativas: A cobertura jornalística do processo de impeachment” ocorreu na parte da tarde do dia 12 de abril e trouxe à tona a discussão sobre “A Função do Jornalista: Investigação x Opinião”. O debate, organizado pela Adufrj em parceria com a Escola de Comunicação da UFRJ, contou com a presença dos jornalistas Raphael Kapa, da Agência de Notícias Lupa; Tai Nalon, do site Aos Fatos; e de Conrado Corsalette, um dos criadores do site Nexo. A mediação foi da professora Fernanda da Escóssia, da ECO.

Se a guerra de versões da mídia tradicional está no cenário político atual, a mesa apresentou o panorama das alternativas de produção de comunicação independente nesse contexto. A opção por trabalhar com um novo mecanismo do “fazer notícia” levou os palestrantes a contarem um pouco sobre esse desafio.

Raphael Kapa e Tai Nalon expuseram a perspectiva do fact checking, ou jornalismo de checagem, com que ambos trabalham: “Existe algo que a gente chama de síndrome especulativa do jornalismo, em que a notícia muitas vezes chega antes dos fatos. A gente vai de encontro a isso. Esperamos os fatos acontecerem para escrever a notícia”, explicou Tai Nalon.

Segundo a jornalista do site Aos Fatos, que verifica a veracidade das declarações políticas, a checagem tenta “estabelecer um novo paradigma para o jornalismo independente, que é ir além do declaratório e investigar.” A jornalista trabalhou até 2014 acompanhando as declarações da presidenta Dilma, no Palácio do Planalto, pela Folha de São Paulo, e hoje vê como alternativa um modo independente de divulgar as declarações políticas. A plataforma que ajudou a desenvolver, “Aos Fatos”, entrou no ar em julho de 2015 e permite o compartilhamento de informações públicas ditas por políticos e comunicando se elas foram utilizadas de forma “falsa”, “verdadeira”, “imprecisa” ou “exagerada”, selos que o site coloca após a conferência das informações. “A gente faz uma checagem com uma metodologia pública, aberta e rigorosa”, pontua.

Kapa concorda que o rigor da apuração é primordial para a checagem.  “A ideia cada vez mais é ampliar a checagem para que aquilo seja um instrumento para a sociedade. O intuito desse modelo é demonstrar todo o caminho que fizemos para chegar àquela conclusão para o leitor e, diversas vezes, tivemos experiências em que o leitor nos apontava isso, nos mostrando o contraditório”, explica.

Para o ex-repórter do Jornal O Globo, é o momento de buscar o novo e tentar alternativas capazes de ampliar as narrativas já existentes: “O caminho da coragem também é o caminho do risco, mas esse é o momento, porque a notícia está transbordando e não tem como a mídia tradicional dar conta dessa demanda. É a hora de apostar nessa diversidade. Esse universo se ampliou porque a vontade das pessoas em saber aumentou. Existem lacunas, demandas e carências e podemos fazer um movimento para atender a isso”, afirmou Kapa.

A Agência de Notícias Lupa também trabalha com o checking fact, apostando em checagens sobre saúde, esportes e variados temas. A escolha dos assuntos a serem checados, tanto para Kapa como para Tai Nalon, se dá pela relevância social. As formas de averiguação começam em um trabalho de cruzamento de dados e de busca por informações públicas.

Já Conrado Corselette apostou em outra alternativa. Já tendo sido jornalista e editor de grandes jornais como O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, ele descobriu que a vontade de contar de outra forma as notícias era uma opção para a carreira. “Eu produzia muito como jornalista e passei a ficar angustiado porque eu terminava as matérias e não conseguia dar conta do lead. As informações básicas de ‘quem’, ‘onde’, ‘como’ e o ‘porquê’ ficavam, muitas vezes, com lacunas. O volume de informação não permitia que a gente fizesse o básico e nem sempre se tem resposta para tudo”, explica.  Fundador do site Nexo junto com a cientista social Paula Miraglia e a engenheira Renata Rizzi, decidiu fazer notícias de modo que a dinâmica de produção diária não influenciasse no detalhamento dos processos que envolviam os fatos narrados.

“Apostei no jornalismo explicativo. O desafio é não ser simplista superestimando as pessoas sem considerar que elas podem estar perdidas sobre o que você diz e, ao mesmo tempo, sem subestimar a capacidade das pessoas de compreenderem as informações”, expõe Corsalette sobre a iniciativa.

O Nexo virou um site muito acessado, especialmente depois que começou a corrida do impeachment no Congresso. Segundo o jornalista, um dia antes da entrada do processo de impedimento, o site teria soltado um texto explicando o que é ou não legal e como funciona o procedimento de retirada de poderes de políticos eleitos. O objetivo de publicações neste sentido é descrever para o leitor informações que não são dissecadas no jornal diário, com um nível de detalhamento mais profundo.

Jornalismo com tempo e rigor de apuração

Para os três debatedores, o principal foco do novo jornalismo é um aprofundamento da apuração da notícia. Segundo eles, a dinâmica das matérias cotidianas impõe uma lógica pouco criteriosa para as redações.

“O equilíbrio não é automático. É um exercício de ouvir mesmo o outro lado, de estar verdadeiramente disposto a ouvir e não menosprezar o seu interlocutor. A gente vê muita notícia por aí em que existe a fala do contraditório, mas você percebe que ela só foi coletada para reafirmar a narrativa criada, ela não foi ouvida com atenção buscando o novo. Foi apenas utilizada para expor o que o jornalista já acreditava que ela diria”, comenta Corsalette.

Segundo o criador do Nexo, essa renovação tem de ser dada na forma de produzir informação também — e não só — no conteúdo: “Antes, eu achava que o grande texto resolvia tudo. Se você me desse a chance de cobrir uma matéria, eu faria um bom texto dela. Mas há histórias que são contadas em seis linhas, outras em trinta; mas também há histórias que precisam ser faladas, que podem ser contadas através de infográfico, vídeo, quiz. A história, para mim, hoje, pode ser contada até por sinal de fumaça. Não tenho mais apego à grande reportagem”, afirmou.

Raphael Kapa aconselhou os estudantes a apostarem em novas plataformas para além do texto. “É importante aprender a fazer vídeo, a fazer podcast, gráficos. São coisas que eu descobri só depois e está sendo mais difícil agora. Dediquem-se a essas novas ferramentas, porque isso dinamiza e melhora o seu conteúdo”, concluiu.

Pessimismo com a democratização da mídia

Os palestrantes não foram otimistas em relação à democratização dos grandes meios de comunicação: “Não tenho a pretensão de disputar com a mídia tradicional a narrativa deles. Acho que nós temos de falar coisas surpreendentes. Não dizer as obviedades que já são ditas. Agendar novos temas, fazer novas formas de expor, com novas fontes. Você tem que tratar as narrativas com seriedade, só assim você consegue entrar na conversa dos grandes jornais e tornar possível que te ouçam também”, declarou Conrado Corsalette.

Já para Tai Nalon, escolhas de rigor jornalístico são opções que podem coexistir com os grandes meios: “Eu não tenho a pretensão de ter algo do tamanho da mídia corporativa. A nossa aposta é fazer um jornalismo com técnica, com primor, análise e apuração rigorosa. Se você está disposto a isso, vai ser interessante também para eles. Nós temos uma parceria com o portal UOL e dizemos para eles ‘olha, tal fato iremos checar, vocês querem? Nós faremos de qualquer forma, mas podemos dar prioridade para vocês divulgarem a informação’”, declarou.

Veja a cobertura em vídeo aqui: http://www.adufrj.org.br/index.php/veja-todos-os-videos2/3259-guerra-das-narrativas-analisa-o-papel-da-m%C3%ADdia-no-cen%C3%A1rio-da-crise-brasileira.html [1]