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07WEB menor1133TORCIDAS ORGANIZADAS em todo o país disputam agora outro campo: o político - Foto: OAM SANTOS/FOTOS PÚBLICASQuando o bolsonarismo raivoso retornou às manifestações de rua e começou a pedir o fechamento do Congresso, do Supremo Tribunal Federal e a volta do AI 5, um adversário à altura entrou em campo. Uma rede nacional de torcedores “pela democracia” se articulou para disputar o espaço. E garantiu protestos coordenados, em ao menos 16 cidades desde o domingo, 31 de maio. De lá para cá, dezenas de debates e lives pipocaram nas mídias e redes sociais. E com a iminência de campeonatos sem torcida nos estádios, as chamadas “antifas” entram de vez no jogo político brasileiro. Sem trégua para o autoritarismo.
O contexto do protagonismo dos torcedores é analisado por especialistas. “É um fenômeno que vem chamando muita atenção, em especial, por toda estética que envolve: os fogos, os gritos, os gestuais típicos das arquibancadas. E, que causa um impacto forte quando ocupam as ruas”, explica João Malaia, docente e pesquisador da História do Esporte da Universidade Federal de Santa Maria. Segundo Malaia, embora o caldo tenha engrossado a partir de 2016, o misto entre hinos e palavras de ordem, por exemplo, já estava presente nos grandes atos de rua de 2013.
Especialista em torcidas, ele destaca dois fatores decisivos para as antifas estarem “se espalhando como um rastilho de pólvora”. O primeiro diz respeito a movimentos prévios pela “democratização das arquibancadas”. Neles, estão contidos desde os setores populares – que brigam por ingressos mais baratos e transporte público para terem acesso aos estádios – até as minorias assediadas nas entradas e saídas dos jogos, como mulheres, LGBTTs e negros.
Outro ponto importante, para o docente, se refere à criminalização dos torcedores. “Mais de uma vez, Major Olímpio (PSL) falou sobre o seu desejo de acabar com as torcidas organizadas do futebol brasileiro”, justifica. Em sua visão, a imagem das torcidas perante a sociedade é ambígua. “As mesmas imagens de vibração de massa são usadas tanto para criminalizar a torcida quanto para vender ingressos”, observa.    
 Malaia põe de lado interpretações caricatas dos torcedores que foram para rua contra o fascismo, em plena pandemia, como “jovens” ou “gente que não tem nada a perder”. “Podem não ser pessoas que assistem à Globo News. Mas certamente ouviram o apelo do Emicida para que não fossem às ruas e não levasse para dentro de casa o vírus. Além disso, todo mundo tem o que perder”, adverte.
“Muitas pessoas se surpreenderam com a entrada das torcidas organizadas no cenário da luta política pela democracia. Mas há uma tradição de diálogo desses grupos com movimentos sociais, inclusive, o sindical”, analisa o professor do Instituto de História e diretor da Universidade da Cidadania da UFRJ, Paulo Fontes.
A convite do docente, Leandro Bergamin do Coletivo Democracia Corintiana apresentou – no podcast da Rádio Cidadania, que foi ao ar no dia 10 – um pouco da origem do grupo a partir das manifestações contra o impeachment de Dilma Rousseff, em março de 2016.
“A gente achou que poderia fazer uma faixa com dizeres que remetessem à nossa história que é de luta pela democracia e valores democráticos. Fizemos uma vaquinha, cada um deu R$ 5, ou o que podia. E para nossa surpresa fez muito sucesso. Todo mundo queria tirar  foto”, conta a liderança. “A partir desse dia, achamos que podíamos fazer algo que ajudasse a transformar a sociedade, baseado nos valores dos fundadores do Corinthians, que eram operários”.  A íntegra da entrevista pode ser conferida nas redes sociais da Universidade da Cidadania.

Para o torcedor, futebol e política sempre andaram juntos

“O Rio tem a maior taxa de letalidade do país e estamos sem ministro da Saúde no meio de uma pandemia. E esses caras vão para rua pra falar em fechar o Congresso, o STF, pedir AI 5?”, reclama o vendedor Carlos Motta. Flamenguista e integrante da Democracia Rubro-Negra, ele fez parte do grupo de trinta que se contrapôs aos fascistas em Copacabana, no domingo 31. “A gente trabalha na rua todo dia. Eles chegam e saem de carro e querem ocupar esse espaço”, critica o torcedor. Para ele, futebol e política sempre andaram juntos. “Principalmente, se você é do sexo masculino, a relação com o esporte é desde criança. A sociedade te dá essa bola”, ele brinca. “Daí, você vai descobrindo com o futebol também o seu lugar na sociedade. Por que é tão difícil ir ao estádio ou ter transporte para voltar pra casa quando você é morador de periferia? Você vai percebendo seu lugar físico na sociedade”.
Carlos qualifica o processo como “exclusão do padrão FIFA”. “Quando você olha as fotos antigas de torcida e as de hoje dá pra ver que esse público cliente, público consumidor, foi tomando o lugar dos apaixonados por futebol”. O tema foi o principal ponto em um encontro nacional de torcedores, em dezembro de 2019, em Porto Alegre.
A conivência de gandes clubes com governos autoritários também é criticada. “Infelizmente, muitas diretorias estão tomadas por pessoas ligadas ao negacionismo desse governo”, lamenta o sócio do Flamengo. Como exemplo, ele cita a homenagem do clube ao general Médici, “que gostava de aproveitar o futebol para fazer suas barbaridades”. E compara: “O pedido que fizemos para colocar, na sede, a placa do Stuart Angel, atleta nosso que tá lá na Calçada da Fama do Flamengo e que foi torturado pela ditadura, ficou sem resposta”.

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