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WhatsApp Image 2020 11 10 at 20.21.44“A reabertura das escolas é necessária e imprescindível”. Esta é a conclusão de um documento lançado há poucos dias pelo GT Coronavírus da UFRJ. O relatório analisa os impactos de manter as crianças em casa por mais tempo e sinaliza os prejuízos globais para a saúde, sociabilidade e aprendizagem. Ressalta, ainda, a necessidade de seguir os protocolos sanitários. Os pesquisadores consideram que atender às medidas de segurança é primordial “para que o retorno aconteça de forma a minimizar os riscos de exposição tanto das crianças e adolescentes quanto dos professores e funcionários”.
Roberto Medronho, professor da Faculdade de Medicina e coordenador do GT, explica que a intenção foi cobrar das autoridades que se mobilizem para a adequação das escolas públicas para a volta às aulas. “Nossa proposta não é de retorno imediato das atividades, mas pressionar para que haja planejamento para um retorno seguro o mais breve possível”, destaca. “Até agora, nada está sendo feito”, critica o médico.
A orientação foi divulgada dias antes de a prefeitura do Rio iniciar a última etapa do plano de flexibilização. Além da abertura de mais espaços de convivência, o prefeito Marcelo Crivella anunciou a volta às aulas das turmas do 9º ano das escolas municipais. A reabertura das
escolas está liberada desde a última segunda-feira, dia 9, e
acontecerá de forma voluntária,
após reunião das instituições
com as famílias dos alunos. O retorno das outras séries deve acontecer de maneira gradual.
Epidemiologista, Medronho afirma que estudos indicam que as escolas podem ser seguras. “Nossa orientação de fato mudou. A primeira recomendação era de manutenção das escolas fechadas porque sabíamos que vírus respiratórios em crianças são de fácil propagação com potencial de complicações”, lembra. “Porém, após sete meses e meio, as evidências nos mostram que a transmissão do Sars-Cov-2 entre crianças não é significativa. E que há menos chances de a doença, em crianças, evoluir para um quadro grave”, explica.
Ainda segundo essas evidências científicas, os surtos observados em comunidades escolares foram provocados por adultos, que acabaram também infectando pessoas fora das escolas. Perguntado sobre o Colégio de Aplicação da UFRJ, que tem como característica atender à educação básica, mas também aos alunos adultos, de graduação, Medronho orientou a permanência em ensino remoto neste momento. “O CAp tem uma estrutura de educação remota que funciona muito bem, mantém contato com as famílias e as crianças”, afirma. “Mas é necessário que a UFRJ faça as intervenções de infraestrutura necessárias para que a escola possa retornar com segurança”.

 FOCO NA REDE PÚBLICA
A preocupação focada nas escolas municipais e estaduais tem uma explicação. São elas que atendem a maior parte dos estudantes que vivem em favelas e periferias. “As crianças das escolas públicas estão invisibilizadas, sem aulas e em situação dramática. Seus familiares já voltaram ao trabalho presencial e muitas delas não têm com quem ficar, o que torna a situação delas de ainda maior vulnerabilidade”, justifica o especialista. “Quanto mais tempo fora da escola, maior o risco de evasão”, destaca.
A médica Ligia Bahia, especialista em Saúde Coletiva, subscreve a nota técnica do GT. “Está muito difícil para as crianças. Temos uma crise sanitária superposta a uma crise educacional”, concorda a especialista. “Ainda temos o agravante de enorme aumento de casos de violência contra crianças nas suas casas. A escola é, muitas vezes, o único local onde essas violências podem ser detectadas e combatidas”, diz Ligia.
Ex-vice-presidente da AdUFRJ, a médica considera que o retorno deve ser gradual. “Neste primeiro momento a escola tem que abrir e acolher as crianças. A escola deve ir até as famílias. A proposta é de uma atuação focalizada nas crianças em maior vulnerabilidade social”, orienta. “É importante que o primeiro momento da abertura seja de apoio afetivo e acolhimento. Esse posicionamento é diferente de defender a retomada das aulas a todo custo”, pondera.
A professora Denise Pires de Carvalho, reitora da UFRJ, também defende o posicionamento do grupo de trabalho. “A nota tira as escolas e os governos da inércia. E orienta para que não haja um retorno de todos sem planejamento. Isso realmente não pode acontecer”, afirma. “Na Austrália as escolas ficaram abertas para os pais que prestavam serviços essenciais. Lá houve lockdown total, mas as escolas e creches não fecharam em nenhum momento”, diz a reitora.
Denise acredita que o protagonismo deve ter como centro o Colégio de Aplicação. “O ideal é que nós lideremos um retorno seguro, sem ser açodado, assim como lideramos a suspensão das atividades. Vamos primar pela segurança de professores, servidores e de nossos estudantes. O MEC precisa ser pressionado para que as escolas sejam estruturadas para esse momento”.

CAp NÃO VOLTA
Diretora do Colégio de Aplicação, a professora Maria de Fátima Galvão não tem planos de voltar às aulas presenciais pelo menos até abril. “Nosso calendário letivo de 2020 termina em abril. Não achamos que este seja o momento de voltar e não temos a intenção de retornar presencialmente antes de abril. É muito importante que as condições para esse retorno sejam ressaltadas”, destaca a docente.
O preparo para um futuro retorno presencial, informa a diretora, está sendo estudado pelo GT Coronavírus do colégio, que funciona como um “braço” do GT central. “O nosso grupo de trabalho já pensa como se dará esse retorno de forma segura, mas ainda não temos questão fechada sobre esse tema”, diz. “Há todo um processo que deve acontecer antes da reabertura, que não pode ser precipitado ou negligenciado”, finaliza a dirigente.

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