WhatsApp Image 2022 01 14 at 17.21.01MAYRA GOULART
Vice-presidente da AdUFRJ, professora de Ciência Política e de yoguini

Coluna publicada quinzenalmente no Jornal da AdUFRJ

Um novo ano começa. É um momento propício para renovarmos nosso sankalpa, termo que, em sânscrito, significa resolução pessoal, intenção, construção mental ou propósito. O sistema do Yoga, como o budismo, possui uma orientação experimental. Por essa razão, sua doutrina não se apresenta como conjunto de postulados ou princípios abstratos, mas como indicações para serem postas em prática e, subsequentemente, avaliadas por cada indivíduo, livre para julgar se elas estão ou não contribuindo para a redução do seu sofrimento.

Sob esta perspectiva, o sankalpa se apresenta como uma técnica que consiste na visualização e reafirmação de um propósito, a ser realizada antes, durante ou depois dos momentos de prática e reflexão pessoal. Tal mentalização pode, ou não, implicar em vocalização. Caso seja vocalizado, o sankalpa funcionaria de modo análogo a um mantra, combinações de sons emitidos repetidamente para a concentração da mente e canalização da energia.
Assim como o Yoga de maneira geral, esta técnica pode ser compreendida de modo mais ou menos místico, ou seja, seu entendimento pode ser modulado conforme o grau de ceticismo do praticante. Digo isso porque esta professora que vos fala é particularmente cética.

WhatsApp Image 2022 01 14 at 17.19.55Simplificando. Para aqueles que acreditam que o mundo é feito de energia, a ideia é que, quando canalizamos nossa energia mental para um foco, teríamos uma maior capacidade de influir no conjunto de energias que nos circundam. Para aqueles que não acreditam em energia, o sankalpa pode ser compreendido como uma técnica de reforço dos propósitos internos que pode auxiliar a evitar eventuais mecanismos de fuga, negação e autossabotagem.

O estabelecimento do sankalpa é completamente individual, embora o professor possa dar algumas orientações. A minha sugestão é uma frase pequena e simples, conjugada no presente.
Exemplos que eu utilizo na minha prática pessoal:

Desejo estar mais atenta.
Desejo me conectar com
o momento presente.
Desejo acessar minha
paz interior.
Desejo ser feliz.

Como vocês podem perceber, eu evito metas que sirvam de gatilho para minha imaginação, ou para mecanismos de negação, uma vez que utilizo o sankalpa como técnica de concentração, mas também de reafirmação do meu compromisso com os propósitos gerais do Yoga.

Na minha forma pessoal de vivenciá-lo e ensiná-lo, o Yoga aparece como um sistema holístico de conduta, que almeja aumentar a autoconsciência e, por conseguinte, a capacidade de lidar com as vicissitudes da vida. Acredito ser mais simples colocar as coisas nesses termos, evitando grandes considerações sobre seu objetivo último que, segundo os textos clássicos, é definido pelo conceito de iluminação, ao meu ver demasiado abstrato para iniciantes e céticos.

Por fim, cabe ressaltar que, embora evite estabelecer meu sankalpa a partir de temáticas propriamente “mundanas”, isso não significa que não seja válido ou útil fazê-lo. Nesse caso, a técnica estaria sendo mobilizada como ferramenta de reprogramação mental, que nos auxilia a redobrar a atenção acerca das reações (mais ou menos conscientes) que são deflagradas diante de um propósito novo, ou que incorra em uma ruptura nos nossos padrões mentais usuais, que na filosofia do Yoga recebem o nome de samskaras.

Essas reações mentais podem assumir a forma de problematização (Eu desejo isso mesmo?), negação (Isso é muito difícil!), autocomiseração (Será que eu mereço isso?), ou demais mecanismos de autossabotagem (Não consigo. Não posso). O propósito da técnica, assim como das demais que compõem o sistema do Yoga, é aumentar a consciência sobre tais armadilhas mentais. A proposta é perceber quando esses pensamentos surgem, reconhecendo-os e analisando-os individualmente, evitando, porém, a tendência de identificação do sujeito do pensamento com aquilo que está sendo pensado. Reconhecer os pensamentos como fluxos transitórios que não correspondem à nossa essência, ou à descrição da realidade, certamente evitará diversos sofrimentos desnecessários.
Que tal experimentar?

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