WhatsApp Image 2021 10 14 at 21.38.37A presidente da AdUFRJ, professora Eleonora Ziller, despede-se de seu mandato de dois anos com muitas alegrias e algumas frustrações por ter atravessado uma gestão quase integralmente remota. Nesta entrevista, ela relembra as motivações de assumir a gestão sindical e comemora, neste 15 de outubro, o retorno à pesquisa, após o fim do mandato. “Como presidente, poderia me afastar da sala de aula, mas optei por reduzir a pesquisa neste período. Eu passo mal se sair de sala”, afirma.

Jornal da AdUFRJ - Em que momento decidiu compor a chapa para a diretoria? Como aconteceu o convite para ser presidente?
Eleonora Ziller - Eu fui para uma assembleia para preparar o 15M de 2019. Tinha acabado de voltar do meu pós-doutorado, na Itália. Com a eleição do Bolsonaro, estava muito convicta de que nós precisávamos intervir com força total. Comentei com algumas pessoas que me candidataria ao Conselho de Representantes. A notícia se espalhou como rastilho de pólvora e, de conselheira, aceitei integrar a diretoria. Eu já conhecia a Christine Ruta, dos projetos de extensão, e também o Josué Medeiros. A gente trouxe o Pedro Lagerblad, uma referência para mim desde o movimento secundarista. Ainda não conhecia o Felipe. O Jackson e o Marco Dantas chegaram depois. A decisão pela presidência foi uma conversa entre a chapa. Qualquer um de nós poderia assumir o cargo. O que pesou na escolha do meu nome foi a ideia de que o período de turbulência política seria muito difícil e eu era a que tinha mais experiência. Atuei no SINTUFRJ, direção da Faculdade de Letras, Conselho Universitário...

Você assumiu como uma das tarefas prioritárias aumentar a participação dos professores e unificar o movimento docente. Que balanço faz em relação a esses temas?
Considerando a pandemia e a tragédia que se abateu sobre nós, acho que, de fato, conseguimos ampliar essa participação. No início da pandemia, tivemos um crescimento muito significativo nas reuniões do Conselho de Representantes e em todas as atividades que realizamos. Pouco antes da pandemia, enviamos a maior delegação da história da AdUFRJ para o congresso do Andes e conseguimos um aumento de 40% no quórum da eleição para a diretoria do sindicato nacional. E também o maior quórum da história num processo de sucessão da diretoria de nossa entidade. Em relação à unidade do movimento, eu me sinto um pouco fracassada. Meu sonho era concluir o mandato ao menos com um debate sobre uma possível chapa unificada para combater o governo Bolsonaro. Era um momento em que a gente deveria ter recuado das nossas divergências. Mas a eleição acabou sendo muito polarizada.

Qual o maior impedimento causado pela pandemia?
A impossibilidade de falarmos com quem não estava na nossa rede. Nós não tivemos como atingir o professor que não recebe ou que não abre nossos e-mails. Houve um esforço grande de comunicação. mas a pandemia nos condenou à bolha. São mais de mil professores contratados nos últimos anos, não sabemos o que eles pensam de nós. Então, não ter conseguido chegar até esses professores é uma das grandes frustrações.

Qual o momento mais importante na diretoria?
A mobilização do 14 de maio deste ano. A UFRJ foi a primeira universidade do Brasil a fazer um grande ato presencial contra a política do governo. Abraçamos a iniciativa do DCE, com todos os cuidados, apesar de todo o medo. Foi um momento muito marcante, em que todas as entidades da UFRJ estavam presentes contra os cortes orçamentários. Foi muito impactante estarmos todos juntos e na praça!

Como avalia a resistência dos movimentos organizados em relação aos projetos do governo federal?
Quando eu penso em tudo o que aconteceu, nas mais de 600 mil mortes… A condução política desse governo foi assassina. É difícil um cálculo exato, mas com certeza foram dezenas de milhares de mortes que, seguramente, poderiam ter sido evitadas. Há um cansaço profundo em relação a toda essa devastação, mas o projeto de Bolsonaro é muito pior do que aquele que se instalou. Nós conseguimos segurar muita coisa, principalmente a implantação total de um regime autoritário. O Future-se, que não saiu do papel, e a aprovação do Fundeb são exemplos da importância de nossa luta unitária. Agora temos a batalha da PEC 32. Precisamos ter força para impedir sua aprovação, ou destruirão o que resta de serviço público no país.

Como foi ser professora universitária e dirigente de um sindicato docente?
Como presidente, poderia me licenciar e me afastar da sala de aula, mas optei por reduzir a pesquisa neste período. Eu passo mal se sair de sala. Eu tenho dado minha carga completa de turmas. São quase 200 alunos. Tenho tido momentos muito emocionantes com eles, apesar de todas as limitações. Minhas turmas são de disciplinas do terceiro período, então, eles nunca se viram presencialmente e não têm experiência dessa maravilha que é a vida universitária. Estar em sala de aula é o meu grande projeto político. É lá que está a nossa esperança. É ali que estamos construindo o futuro.

Qual será sua vida pós-AdUFRJ?
Eu estou fortemente comprometida com minha vida acadêmica, que várias vezes deixei em segundo plano, principalmente nos oito anos em que fui diretora da Letras. Então, estou me reorganizando para essa nova fase da minha vida e concluir muitos projetos começados. Uma fase que eu preciso e quero muito viver. Mas eu não pretendo deixar de participar da vida sindical. É uma questão de sobrevivência, não há escolha.

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