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Polícia Federal na UFMG: conhecimento sob coerção

(Última atualização em: 16/12/2017)

Nascida como um verso de resistência à ditadura, a canção O Bêbado e o Equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco, inspirou o nome da mais nova ação arbitrária contra a universidade pública. Nas primeiras horas da manhã da última quarta-feira, a Polícia Federal detonou a operação Esperança Equilibrista para investigar supostos desvios de recursos na construção do Memorial da Anistia Política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Agentes mascarados e armados com rifles cumpriram mandado de condução coercitiva contra o reitor Jaime Ramírez e sua vice, Sandra Regina Goulart de Almeida. Dirigentes universitários, entre eles o ex-reitor Clélio Campolina, também foram levados para a Polícia Federal. “Fomos conduzidos de forma abusiva. Se tivéssemos sido intimados, nós evidentemente iríamos de livre e espontânea vontade”, criticou o reitor, que não pode falar sobre a investigação, ainda sob sigilo. “A UFMG nunca se curvou e jamais se curvará ao arbítrio”.

A operação ocorreu menos de três meses após a investida da PF na Universidade Federal de Santa Catarina para apurar irregularidades em um programa de ensino à distância. No Sul, a humilhação pública de ser preso e banido da instituição levou o reitor Luiz Carlos Cancellier ao suicídio. Nos últimos dias, a Corregedoria da PF abriu sindicância para verificar se a delegada Érika Marena, responsável pelas medidas contra o professor Cancellier,cometeu abuso.

“São operações distintas na UFMG e na UFSC, mas coincidem nos métodos truculentos, de uma violência injustificável contra professores”, resume a historiadora Maria Paula Nascimento Araújo, diretora da Adufrj. “Essas ações estão inseridas num contexto de desqualificação da universidade pública e da construção de um projeto de privatização. A estratégia é nos jogar no enorme saco da corrupção”, completa a docente, convencida de que, no caso da UFMG, há também o ingrediente de criminalizar “professores de esquerda empenhados em recuperar a memória da resistência à ditadura”.

Integrantes da comunidade acadêmica, sindicatos, reitores e conselhos universitários, entre eles o da UFRJ, condenaram a medida por meio de notas. O músico João Bosco também:“Não autorizo politicamente o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental de luta pela liberdade”, disse o compositor.

Diretora da Adufrj, a professora Ligia Bahia reforçou a crítica: “O nome da operação explicita uma avaliação negativa e debochada sobre as atividades universitárias. Seria mais autêntico buscar inspiração no repertório autoritário e denominá-la ‘cheiro de cavalo é melhor do que o do ensino, pesquisa e extensão”.