Da Redação
A Semana da Mulher começou com um domingo de sol, muita poesia, luta e dor. O 8 de Março carioca reuniu mulheres de todas as idades na orla de Copacabana para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência de gênero. Enquanto gritavam pela vida, a 45 quilômetros de distância, Tatiana de Carvalho Paulino era assassinada a facadas pelo ex-namorado Alessandro da Silva Carvalho, no Jardim Catarina, em São Gonçalo. Ele não aceitava o fim da relação.
“A AdUFRJ apoia integralmente a pauta do feminicídio zero”, afirma a presidenta Ligia Bahia. “Esta é uma agenda central, sobretudo neste ano eleitoral de 2026”. O Brasil é o 5º país que mais mata mulheres em todo o mundo. O feminicídio é a consequência final das violências de gênero — físicas e simbólicas — que ainda encontram eco na sociedade e reverberam até mesmo em espaços destinados à diversidade e ao conhecimento, como as universidades. “A universidade não é uma ilha”, observa a ouvidora da Mulher, professora Angela Brêtas.
Esta edição especial do Jornal da AdUFRJ convida a uma importante reflexão sobre os avanços conquistados pelas mulheres na carreira científica e os desafios que ainda insistem em permear o ambiente acadêmico. Ouvimos professoras, servidoras e pós-graduandas que carregam um sentimento em comum: a coragem de mudar suas trajetórias e impactar a vida das próximas gerações.
Dados do MCTI mostram que mulheres são maioria das matrículas ativas na pós-graduação. Elas são 57% do total de mestrandos e doutorandos do país. No entanto, no decorrer da carreira acadêmica, o número se inverte. Entre bolsistas de produtividade 1A do CNpq, elas são apenas 23%.
A baixa representatividade é sentida, sobretudo, em cargos de liderança. Um dos entraves a essa ascenção na carreira é o assédio. Pesquisa inédita revela que 74% dos servidores da UFRJ já sofreram assédio moral no ambiente de trabalho. A maioria das vítimas (67%) é de mulheres. Apenas 23% denunciaram a prática. “Elas alegaram falta de confiança nos canais ou na responsabilização do culpado”, diz a professora Alzira Guarany, responsável pela pesquisa.
Se as barreiras são grandes, a força de ultrapassá-las é ainda maior. Especialmente diante do horror da guerra. É o que demonstra a professora Maral Mostafazadehfard. Docente do Instituto de Matemática há sete anos, ela saiu do Irã em busca de liberdade acadêmica e anseia pela paz. “Precisamos continuar tentando, aprendendo e acreditando que é possível construir caminhos de paz”.
Também iraniana, a aluna de mestrado da Coppe, Leili Barbashi, traduz as dores de ser estudante e mulher no regime dos aiatolás. “No Brasil, universidade é um lugar para encontrar sua voz; no Irã, é um lugar onde você aprende a silenciá-la”.
O desejo de seguir construindo caminhos é o que inspira Annah Pinheiro. Aos 26 anos, ela é a professora mais jovem da UFRJ. “Se hoje posso estar aqui, é porque muitas professoras vieram antes e abriram caminhos. Meu desejo é que possamos seguir construindo esse espaço juntas”.





