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Fotos: Alessandro CostaAna Beatriz Magno e Kelvin Melo

Carla Madeira não resistiu. Colocou o ouvido atrás da porta do auditório da Faculdade de Letras e tentou escutar o burburinho da plateia. Era grande. Dezenas de alunos esperavam a escritora com a ansiedade de quem aguarda um mestre. “Que coisa linda. Que universidade maravilhosa. Que prédio incrível. São todos estudantes de Letras?”, perguntou a escritora, já com os olhos debruçados sobre a fresta da porta.
Todas as cadeiras estavam ocupadas naquela tarde de 21 de agosto, sexta-feira, dia improvável de superlotação no Fundão. Mas Carla, 61 anos, conhece o improvável desde pequenina. A escritora mais lida do país não cursou Letras nem começou cedo na literatura.
“Entrei na Faculdade para fazer matemática e seguir a profissão do meu pai. Antes eu queria ser música. Publiquei meu primeiro livro com 50 anos”, contou, segundos antes de ser recebida pelo público, a maioria estudantes, mas também alguns professores. “Estou muito feliz. Sou professora aposentada e fiz questão de vir até aqui e me sentar na primeira fila”, comemorou Maria Eugênia Lammoglia Duarte, docente titular da Letras. “Trouxe todos os seus livros e quero autógrafos”, disse Maria Eugênia.

A HISTÓRIA
Carla começou contando sua história e misturando sua vida com a dos personagens dos quatro livros que publicou nos últimos 12 anos, todos recheados de protagonistas feridos, de famílias atravessadas por silêncios e amores que parecem caminhar perigosamente perto do abismo.
Nascida em Belo Horizonte, em 18 de outubro de 1964, Carla cresceu numa família em que ciência e sensibilidade conviviam à mesa e teciam duas maneiras muito diferentes de compreender o mundo. De um lado estava o pai, matemático, professor, homem dos números e do pensamento organizado. Do outro, a mãe, que estudara pouco, mas enxergava poesia onde talvez ninguém mais enxergasse.
Os irmãos seguiram majoritariamente o território das exatas. A mãe, ao contrário, “mal completou o primário”, mas era, na memória da filha, uma artista intuitiva: olhava as nuvens, fazia poesia, criava os filhos cantando. “Eram duas energias tão fortes para mim”, recordou a escritora.
“Tive o imenso privilégio de tudo o que quis fazer, quando criança e adolescente, meu pai e minha mãe tornarem possível. Venho de uma família de seis filhos. Não tinha orçamento folgado. Mas quando quis estudar música, por exemplo, meu pai deu jeito de me dar um violão. Desde menina, eu procuro uma linguagem”, explica, sempre passeando entre a história e o conceito, entre a estrutura e o assombro, entre aquilo que pode ser demonstrado e aquilo que apenas pode ser sentido. Para ela, escrever, pintar ou fazer música são variações de uma mesma necessidade: modos de estar no mundo.
O modo aluna de matemática durou pouco. Carla abandonou o curso e formou-se em Jornalismo e Publicidade pela UFMG, onde mais tarde lecionou redação publicitária. Aqui, outro atalho improvável. Carla foi publicitária de sucesso, tornando-se sócia e diretora de criação da agência Lápis Raro, uma das maiores de Minas.
“O publicitário escreve sob demanda. Ele é muito bom com as linguagens artísticas, sabe de artes, design, escreve muito bem, mas não faz arte. Publicidade não é arte porque não tem espaço para subjetividade”, comparou a mulher que pisou na literatura para desopilar uma crise com a profissão. “Eu adorava minha agência, mas estava triste com o cotidiano. Comecei a escrever para esquecer a tristeza. A tristeza é um recado do corpo”, resume.
O recado veio pelas frestas, de noite, escrevendo uma história sem saber que se transformaria em livro. O nascimento de Tudo é Rio é quase tão improvável quanto seu sucesso posterior. Por volta de 2000, Carla escreveu uma cena de violência extrema: um pai, tomado pelo ciúme, atira o próprio bebê contra uma parede. A cena a perturbou de tal maneira que ela simplesmente não conseguiu continuar.


MATERNIDADE
O manuscrito ficou parado durante 14 anos. “Quando paralisei, não era mãe ainda. Acho que um dos motivos de por que parei é que estava planejando ser mãe e aquela cena foi tão violenta que não tinha recursos para lidar com o problema que eu tinha proposto”, contou.
Quando finalmente voltou à história, o que estava represado pareceu romper a barragem. Carla terminou o romance rapidamente, num processo que descreveu como um “jorro”. Não havia contrato, adiantamento editorial ou plano de carreira literária. Havia apenas a necessidade de escrever. “Escrevi por diletantismo, gosto, gozo, vontade de me entregar a uma coisa que me envolvia”, disse.
Tudo é Rio apareceu discretamente em 2014, por uma pequena editora. A primeira tiragem foi de apenas 700 exemplares. Depois vieram mil, três mil, dez mil. Um leitor entregava o livro a outro, numa espécie de correnteza movida pela força da frase.
Em 2021, a Record assumiu o livro, o relançou nacionalmente, e aquele fenômeno artesanal ganhou escala industrial. Distribuição, livrarias e redes sociais fizeram o resto. Carla tornou-se naquele ano a segunda escritora mais lida do Brasil. Em 2023, chegou ao topo: vendeu cerca de 240 mil exemplares no ano e tornou-se a autora brasileira mais vendida no país.
Somados, seus quatro livros contabilizam 1,397 milhão de exemplares vendidos, número que a transforma na autora mais lida do país. “Vender 1,4 milhão de livros é algo raro para a literatura, mas ainda muito pouco para um Brasil com mais de 200 milhões de pessoas”, lamenta.
O sucesso de Carla não significa unanimidade. Desde a publicação de Tudo é Rio, ela convive com o fascínio dos leitores pela intensidade de sua escrita e com críticos que consideram sua obra comercial. O professor e crítico Luís Augusto Fischer viu em Tudo é Rio personagens próximos de “tipos”, com pouca densidade psicológica, e identificou na trama estratégias do folhetim e certo “tempero de fábula”. Modesta, a autora responde com serenidade. “Peço um nova chance. Que me leiam de novo”.


QUANDO
A mais recente história de Carla — o romance Quando, lançado em agosto — nasceu de uma sequência de lutos vividos pela autora. “Perdi minha mãe, perdi meu psicanalista e, de repente, minha sócia teve um diagnóstico de câncer de pâncreas. Nós éramos muito mais que amigas. Nossas filhas nasceram no mesmo dia”, disse.
“Escrevi para sobreviver ao luto”, diz a autora que, na página 268 de seu novo romance, deixa pistas da profundidade de sua cicatriz: “Comparar dores é sempre cruel”, escreve a mãe de dois filhos, e leitora voraz de clássicos e autores contemporâneos.
As leituras de Carla ajudam a desenhar outro mapa de sua formação. Ela se reconhece numa tradição em que a linguagem não é apenas veículo da história, mas acontecimento. Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Gabriel García Márquez aparecem entre suas referências literárias, ao lado de autores contemporâneos que continua descobrindo como leitora. Em agosto deste ano, contou estar lendo Os Supridores, de José Falero: “Estou adorando, achando maravilhoso”. Ela mantém uma rotina de leitura que desmente qualquer acomodação provocada pelo sucesso: recentemente integrou um grupo para enfrentar coletivamente a Odisseia e, na sequência, A divina comédia.

PAULADAS
É significativo que uma escritora associada à emoção desmedida seja uma leitora interessada tanto nos clássicos quanto nas vozes brasileiras de agora. Sua obra também vive dessa tensão. “Minhas histórias são atravessadas pela questão da maternidade, pela questão das famílias, pela questão da violência”.
A violência captura a autora nos livros e na vida. Num dos momentos mais emocionantes da palestra, Carla fez um desabafo. Numa rara mistura de doçura e indignação, falou sobre a cena que não saía de sua mente desde véspera. A imagem de um jovem morto a pauladas em Copacabana.
“Como a gente tolera uma morte a pauladas? Como no dia seguinte, tudo funciona, como se nada tivesse acontecido?
Por que a gente não para, dá um murro na mesa e fala: “Vamos recombinar porque não está dando certo”. Por que nós não estamos aprendendo coletivamente?
Por que a gente está tão tolerante com a desigualdade, com a violência, com a guerra?”.
Em resposta a tanta violência, a autora receita a psicanálise, a literatura, a música, a arte. “Porque elas dão conta de uma sutileza, elas dão conta de um abstrato. Outro dia estava vendo uma pessoa falar que o fascismo é o ódio ao abstrato. Não tolerar o sutil, o amor, o delicado, aquilo que não pode ser provado, mas que está aqui. A gente sabe”.

UNIVERSIDADE
A mulher que ultrapassou um milhão de livros vendidos começou a escrever ficção sem saber se seria publicada e publicou sem imaginar que viveria dela. Hoje, diante da dimensão que sua obra alcançou, procura outra medida. “O envolvimento tem um pouco de ir além de um desafio de aprendizado. Precisa conter uma certa peleja. Se eu não tiver isso no processo, não vou me interessar”, contou.
“Existe uma ideia mercadológica de sucesso, que é o livro vender”, disse no lançamento de Quando, na livraria Travessa, no Leblon, em 26 de agosto. “Mas tem um outro tipo de sucesso de muito mais interesse para mim agora: o sentimento de amadurecer como autora”.
Esse amadurecimento que oscila entre escutar e falar, entre observar e interpretar, ficou evidente nos quase 120 minutos de palestra na Faculdade de Letras, um dos maiores cursos da UFRJ, porém um dos mais castigados pela precariedade das instalações.
Ao final, Carla, emocionada, agradeceu profundamente o encontro e enfatizou a importância de se defender a universidade pública num ano eleitoral como 2026. “Eu cheguei aqui e falei que o prédio está sucateado, porque o prédio está. Mas é uma bênção. É uma coisa maravilhosa, uma coisa pela qual a gente tem que lutar”, ensinou.

Confira AQUI alguns trechos da palestra.

LIVROS

TUDO É RIO

Editora: Quixote+Do (edição original); Record (edição atual)
Ano: 2014 — relançado pela Record em 2021

Romance de estreia de Carla Madeira e o livro que a transformou em fenômeno editorial. A trama acompanha Dalva e Venâncio, um casal cuja vida é devastada por um ato brutal provocado pelo ciúme dele. A história ganha um terceiro vértice com Lucy, prostituta desejada por Venâncio. Amor, sexo, violência, perda, culpa e perdão se misturam numa narrativa de forte carga poética. O rio do título funciona também como metáfora para aquilo que passa, transborda e, apesar de tudo, continua.

 

A NATUREZA
DA MORDIDA

Editora: Quixote+Do (edição original);
Record (edição atual)
Ano: 2018 — edição
Record em 2022

O encontro entre Biá, uma psicanalista aposentada, e Olívia, uma jovem jornalista, dá início a uma amizade construída a partir da escuta e das feridas que cada uma carrega. Aos poucos, as conversas revelam histórias de abandono, desejo, culpa e perdas. Carla alterna a narrativa de Olívia com os fragmentos da memória cada vez menos confiável de Biá. O romance é também uma reflexão sobre aquilo que lembramos, aquilo que esquecemos e as histórias que contamos a nós mesmos. E coloca no centro uma das obsessões literárias da autora: a difícil relação entre amor e perdão.

VÉSPERA

Editora: Record
Ano: 2021

O romance começa com uma cena-limite: Vedina, arrasada por um casamento sem amor, abandona o filho na rua durante um momento de descontrole. Arrependida quase imediatamente, volta para buscá-lo — mas ele desapareceu. A partir daí, Carla reconstrói a história da família, incluindo os gêmeos Caim e Abel e as trajetórias de Vedina e Veneza. O livro avança em dois movimentos temporais, mostrando o antes e o depois do abandono. É uma história sobre maternidade, rejeição, vínculos familiares e sobre como um único gesto pode reorganizar uma vida inteira.

QUANDO

Editora: Record
Ano: 2026

O recém-lançado quarto romance leva Carla Madeira ao Brasil dos anos 1980. No centro está Viridiana, mãe de Margarida, Valquíria e Tito, que, diante de uma tragédia, toma uma decisão extrema: denuncia o próprio filho à polícia. Mãe e filho passam vinte anos sem se encontrar. A partir dessa ruptura, Carla investiga maternidade, culpa, homofobia, violência e a possibilidade — ou impossibilidade — de reparação. Mais uma vez, a autora coloca os afetos diante de situações moralmente desconfortáveis, recusando respostas simples sobre culpa e perdão. O livro foi lançado pela Record em 14 de
agosto de 2026.

 

Estudantes convidaram autora ‘na cara e na coragem’

A visita de Carla Madeira à Faculdade de Letras foi fruto do esforço de um coletivo estudantil da unidade, o Gabinete de Escritores Machado de Assis. Criado em 2023, o grupo discute processo criativo, mercado editorial, divulga textos dos colegas e organiza debates com autores já conhecidos.
A negociação para trazer à UFRJ a escritora mais lida do país, que durou entre quatro e cinco meses, surpreendeu pela simplicidade. “Fomos atrás muito na cara e na coragem. Conseguimos o e-mail da agente literária dela, que foi muito solícita”, explicou Leonardo Iaccovazzo, um dos coordenadores do Gabinete e estudante do 12º período de Licenciatura em Português e Literatura.
“Como não temos nenhum apoio financeiro, tivemos que esperar a oportunidade em que ela estaria no Rio, que foi para o lançamento do novo livro. Passamos esses meses conversando sobre data, formato, tempo que ela poderia ficar. Foi um processo muito simples até. A Carla foi um doce com todos nós”, completou Leonardo.
Também integrante do Gabinete e estudante de Letras-Literatura, no 8º período, Isabella Oliveira ficou responsável pela mediação do encontro com a escritora. “Estava nervosa, mas muito feliz. Ela foi muito receptiva com as perguntas. E isso me ajudou muito a acalmar, naquele momento”, disse.
Antes de Carla, o Gabinete já havia conseguido levar para a faculdade nomes como Igor Pires, Stefano Volp, Ariani Castelo e Iris Figueiredo, nos últimos dois semestres. E vem mais debate bom sobre literatura por aí. “A gente está organizando, mas não podemos falar quem ainda, porque ainda não temos confirmação”, contou Isabella.

 

 

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