Accessibility Tools

facebook 19
twitter 19
andes3
 

filiados

WhatsApp Image 2026 01 22 at 19.43.13 8Foto: Fernando SouzaA primeira segunda-feira do ano, tradicionalmente com ecos de ressaca, teve ares de festa para a pesquisadora Tatiana Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ. Logo às seis da manhã, ela confirmou pelo Diário Oficial da União o que dezenas de ligações para o seu celular já indicavam: a aprovação, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do início da primeira fase de estudos clínicos com humanos da polilaminina, medicamento experimental para tratamento de lesões da medula ao qual ela se dedica há mais de duas décadas. Nesta entrevista ao Jornal da AdUFRJ, a professora da UFRJ fala de suas expectativas sobre o desenvolvimento de uma das mais promissoras pesquisas na área de Saúde do país.

Jornal da AdUFRJ - Que boa notícia para começar 2026, hein?
Tatiana Sampaio
- Olha, foi uma felicidade acordar com a notícia da aprovação do estudo clínico. Saiu no Diário Oficial logo cedo. E ela veio junto com a aprovação pelo Comitê de Inovação, uma instância nova criada pela Anvisa para avaliar os casos mais urgentes e com maior impacto para o desenvolvimento científico e tecnológico do país. A aprovação do estudo clínico da polilaminina foi a primeira decisão desse novo comitê. Estou muito feliz.

Mesmo sem a liberação da Anvisa, a polilaminina já vinha sendo requisitada por pacientes de todo o país como uma promissora droga para as lesões de medula. Essa pressão externa influenciou a decisão?
Acredito que sim. As ações judiciais se avolumaram nas últimas semanas, e essa aprovação do estudo vem dar uma resposta a isso. Várias pessoas que tiveram lesão medular em período inicial, algumas ainda internadas em emergências de hospitais, souberam do medicamento e ingressaram na Justiça pedindo o acesso ao tratamento. Alguns juízes deram liminares e, com isso, nós precisamos entregar não apenas o medicamento em vários hospitais espalhados pelo país, mas também deslocar equipes para a aplicação.

Ou seja, na prática, a polilaminina já vem sendo utilizada em muitos pacientes?
Sim, e exigindo de nós uma logística complexa. Só há dois neurocirurgiões no país habilitados para fazer as aplicações. São dois médicos do Rio de Janeiro, os doutores Bruno Côrtes, chefe do Serviço de Neurocirurgia do Hospital Muncipal Souza Aguiar, e Marco Aurélio Lima, chefe do Serviço de Neurocirurgia do Hospital Estadual Azevedo Lima. Além desses dois médicos, que têm que se desdobrar para atender aos pedidos Brasil afora, temos que deslocar assistentes para fazer o preparo da droga. Essa logística estava sobrecarregando muito a nossa equipe de trabalho, além de prejudicar a pesquisa, porque leva ao uso experimental do medicamento sem a coleta ideal de dados e sem a devida proteção ao paciente.

O que muda com a aprovação da fase inicial aprovada pela Anvisa em humanos?
O estudo clínico protege o paciente, pois a droga é utilizada sob o monitoramento de uma equipe pronta para dar suporte a qualquer intercorrência. Nesses casos das liminares judiciais, isso não é possível, pois os pacientes ficam por sua própria conta. Há também a questão da fisioterapia, que é fundamental nesse tratamento. No caso das ações judiciais, a gente só pode orientar, mas não há como oferecer essa fisioterapia. O início do estudo clínico responde a essa urgência e vai ajudar a organizar o uso da polilaminina em humanos, com todo o suporte necessário aos pacientes.

Essa fase inicial de estudos com humanos é prolongada?
Não, é uma fase que inclui apenas cinco pacientes, e deve evoluir rapidamente. Acredito que ela comece daqui a um mês, e que possamos logo ter a comprovação da segurança em um estudo regulatório. Isso vai abrir as portas não apenas para a fase 2, para lesões recentes, que é a próxima etapa que já está programada, mas também nós vamos poder pedir outros estudos, inclusive para testar o efeito da polilaminina em lesões crônicas, de meses ou anos.

Isso pode abrir uma esperança para muitos pacientes.
Nosso objetivo é conseguir estender o uso do medicamento para pacientes com lesões crônicas. Embora ainda não tenhamos respostas para esses pacientes, esse estudo de segurança que vamos iniciar vai nos ajudar a acelerar esse processo. Para alcançar esses objetivos é fundamental reconhecer o trabalho conjunto de nosso grupo da UFRJ com a equipe do laboratório Cristália, que está conosco nessa pesquisa. Posso dizer que estamos trabalhando como uma equipe única, tal o entrosamento que alcançamos. São pesquisadores, médicos, fisioterapeutas, gestores e pessoal de apoio que vêm trabalhando de forma incansável para avançar nessa pesquisa, assim como a dedicação dos pacientes e de suas famílias.

No ano passado, o presidente Lula a recebeu e ficou entusiasmado com o potencial da polilaminina. Que significou esse apoio?
Foi fundamental, assim como todo o suporte que temos recebido do Ministério da Saúde, o ministro Alexandre Padilha tem se empenhado de forma marcante. Também é preciso elogiar a lucidez e a coragem do presidente da Anvisa, Leandro Safatle, em criar esse Comitê de Inovação, uma iniciativa fantástica que pode ajudar no desenvolvimento de várias linhas de pesquisa no país. Esse conjunto de esforços pode levar à disponibilização desse medicamento a todos que dele precisem. É o que todos queremos.

Topo