Uma pesquisa inédita feita pelo Instituto de Macromoléculas Professora Eloisa Mano (IMA/UFRJ) mostra que o isopor proveniente de quentinhas e embalagens de alimentos é hoje o principal responsável pela contaminação por microplásticos da areia da orla costeira do Rio de Janeiro. Foi constatada a presença do material em 70% das amostras de areia coletadas na Praia Vermelha, na Urca, Zona Sul do Rio, local escolhido para a pesquisa.
“Quando se descarta na areia uma embalagem de quentinha, ela vai gerar o microplástico. Infelizmente verificamos um aumento enorme da quantidade de isopor, o poliestireno expandido (EPS). Ele só tem 2% de polímero, o resto é ar. Então se quebra facilmente, pode se fracionar em pequenas partículas que o vento leva, o mar leva, a chuva leva. E isso vai parar em algum lugar. Hoje ele é onipresente. E isso é assustador”, constata a diretora do IMA, professora Maria Inês Tavares.
TRABALHO PIONEIRO
O estudo foi iniciado em dezembro de 2022 como pesquisa de mestrado da hoje doutoranda Marina Sacramento, sob orientação de Maria Inês Tavares. “Foi até uma surpresa para mim constatar que foi a primeira pesquisa de campo em microplásticos do IMA e da UFRJ. A área escolhida foi a Praia Vermelha, um local pequeno e de grande movimento, inclusive um ponto turístico. E constatamos que 70% das amostras continham o poliestireno expandido (EPS), proveniente basicamente de marmitas e embalagens descartadas na areia. Identificamos outros tipos de polímeros, em menor quantidade, como polipropileno e polietileno”, relata Marina.
Em cinco seções da praia, um total de 32 microplásticos foram identificados, sendo o poliestireno o polímero predominante. Por meio da microscopia óptica, a pesquisa revelou que a forma mais comum de microplásticos era a espuma, com diâmetros médios das amostras variando de 2 a 4 milímetros.
Segundo a doutoranda, o estudo não se resumiu a validar um protocolo de coleta e extração. “Foi também realizado in loco um trabalho de flotação (separação de misturas), que geralmente é feito em laboratório. E esse trabalho de campo está sendo expandido agora em meu doutorado. Fizemos coletas mensais em 2025. E agora em 2026 vamos fazer uma a cada estação. Já concluímos a coleta de verão, e virão mais três. Isso vai nos permitir fazer um estudo comparativo dessa poluição proveniente do descarte inadequado de produtos plásticos. É um desafio ambiental”, diz Marina.
A professora Maria Inês Tavares ficou particularmente impressionada com os resultados da coleta de abril do ano passado. “Fizemos logo depois dos feriados de Tiradentes e São Jorge. Foi uma quantidade imensa de microplástico que colhemos. Mais de 400 em apenas um ponto de coleta! É apavorante”, comenta a diretora do IMA. Além da coleta, a pesquisa cumpre mais duas etapas: a higienização, feita em laboratóirio, e a caracterização dos itens coletados, para identificar os tipos de polímeros.
Marina Sacramento destaca que o trabalho de campo atrai muita curiosidade. “Quando fazemos a coleta, muita gente se aproxima, adultos e crianças. É nosso momento ouro, quando fazemos um trabalho de conscientização ambiental, explicando a importância do descarte adequado. Essa pesquisa tem a intenção de transformar dados científicos em um chamado de ação. O que descobrimos na Praia Vermelha acaba sendo um alerta. Esse microplástico encontrado ali não é fruto só de um descarte inadequado naquele local, ele vem também carreado de outros lugares, pelo ar, pela água, pela maré. Isso nos leva a refletir sobre nossas escolhas diárias”, comenta a doutoranda.
PERIGO GLOBAL
Em agosto do ano passado, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) publicou um relatório específico sobre microplásticos, dando a dimensão do perigo que essas substâncias representam para o planeta. O estudo “Microplásticos: um problema complexo e urgente” foi organizado por um grupo de dez especialistas, coordenados pela professora Maria Inês Tavares, e pelos professores Mário Barletta (UFPE) e Adalberto Luis Val, vice-presidente da ABC. Segundo o relatório, cerca de 400 milhões de toneladas de plástico são produzidas todos os anos, das quais apenas 10% são recicladas.
O acúmulo de microplásticos nos seres vivos foi um dos focos do relatório. Eles já foram detectados em peixes, em diversos produtos de origem bovina e suína, em aves, anfíbios e até no mel das abelhas. Estão também em vegetais e cereais como a alface, o arroz, o milho e a soja. Há ainda evidências da presença de microplásticos em seres humanos — já foram detectados no intestino, nos pulmões, no coração, em fezes, na urina e até no leite materno. “Os microplásticos estão ultrapassando duas barreiras fundamentais do nosso corpo, a placentária e a cerebral. Já observamos microplásticos em fetos, inclusive no cérebro”, alertou no estudo o professor Adalberto Luis Val.
Para a professora Maria Inês Tavares, a legislação brasileira sobre o tratamento de resíduos sólidos é muito boa, só que precisa ser cumprida. “Ela é formidável, talvez nem precise de reparos, mas não é respeitada. Nós também queremos ajudar nisso, a implementar políticas públicas”, defende ela.
Outro ponto crucial é a educação ambiental, que deve ser estimulada desde a educação básica. Esse é um trabalho que a diretora do IMA faz espontaneamente desde 2009, em escolas municipais de todo o estado do Rio de Janeiro, em paralelo às suas atividades de professora, pesquisadora e gestora na UFRJ. “Esse trabalho me fascina, eu faço com o maior prazer, vou aonde me chamarem. As crianças entendem rápido e ensinam aos mais velhos. Elas trazem esperança”, diz a professora. Ela já visitou dezenas de estabelecimentos de ensino ao longo desses 17 anos de trabalho voluntário, levando professores e alunos do IMA às palestras.
FUTURO LABORATÓRIO SERÁ DEDICADO A MICROPLÁSTICOS
Já estão fincadas as seis bases de concreto do contêiner que vai abrigar o futuro Laboratório de Microplásticos do IMA. Da janela de sua sala, a professora Maria Inês Tavares mostra o local
onde será instalado o laboratório, em um terreno entre o prédio do IMA e CT da Ilha do Fundão. “Se tudo der certo, ele vai começar a funcionar este ano. Será um laboratório experimental, com equipamentos de pequeno porte, e um setor voltado à reciclagem de materiais”, adianta a diretora do IMA.
O laboratório ainda não abriu as portas, mas dois de seus futuros frequentadores já estão “na fila”. O professor Paulo Rangel e o aluno de iniciação científica Kauã Becker já trabalham com os materiais oriundos da pesquisa na Praia Vermelha, transformando diversos tipos de isopor em placas que se assemelham a cerâmicas. Kauã conta que os artefatos são produzidos em uma prensa com os resíduos de isopor, ganhando tonalidades variadas de cor: “Temos mais resíduos de isopor branco e preto, mas a mistura produz cores diferentes”
RECICLAGEM
Responsável pelo Laboratório de Aplicações em Nanotecnologia e Polímeros do IMA, o professor Paulo Rangel diz que as placas podem ser utilizadas como azulejos, pastilhas de revestimento de paredes ou pisos, ou mesmo como objetos de decoração. “Esse novo laboratório vai ampliar esse trabalho, que fazemos no intuito de mostrar que esse material pode ser reaproveitado”, explica Rangel.





