JOSUÉ MEDEIROS
Cientista político e professor da UFRJ e do PPGCS da UFRRJ. Coordena o Observatório Político e Eleitoral (Opel) e o Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira (Nudeb)
Áudio de Flávio Bolsonaro para Daniel Vorcaro é o evento mais importante da eleição de 2026
Eleições são marcadas por tendências permanentes — por exemplo, a tendência das mulheres de votar em Lula e dos homens de votar em Bolsonaro —, mas também por eventos disruptivos que mexem com estas tendências. Por exemplo, em 2018, dois eventos foram decisivos para o resultado eleitoral: a prisão injusta de Lula, que retirou da disputa o candidato que liderava todas as pesquisas; e o atentado sofrido por Bolsonaro, que permitiu a ele uma super exposição na mídia e uma comoção favorável.
É neste último sentido — de eventos disruptivos — que o áudio de Flávio Bolsonaro para Daniel Vorcaro, revelado na quarta-feira (13), pelo portal de notícias Intercept, deve ser interpretado. A divulgação da troca de mensagens cai como uma bomba para o bolsonarismo. Não apenas porque traz o filho de Bolsonaro para o centro do escândalo do banco Master, consolidando a ideia de BolsoMaster já trabalhada pela esquerda. Mas também porque a pesquisa Quaest, publicada em 13 de maio, apresentou uma tendência de crescimento de Lula consistente. Tal tendência será impulsionada pelo vínculo entre Flávio e Vorcaro e vai marcar um novo momento da campanha presidencial de 2026.
Começando pela pesquisa Quaest. As boas notícias que o levantamento traz resultam de dois eixos: os movimentos concretos que o governo Lula tomou no curto prazo e aquilo que o presidente chama de “colheita” do que foi feito desde 2023, no âmbito das políticas públicas e reconstrução da democracia.
No curto prazo, dois elementos foram centrais: o lançamento do novo Desenrola e a reunião de Lula com o presidente dos EUA, Donald Trump. O novo programa de renegociação das dívidas dos brasileiros e brasileiras gera um impacto imediato no humor do eleitorado. As pessoas não apenas se sentem aliviadas por resolverem pendências financeiras, mas sentem que há um movimento concreto do governo para cuidar delas. Esse sentimento de proteção e acolhimento se conecta diretamente com a dimensão carismática do presidente Lula, que ultrapassa os recortes de direita e esquerda e de conservadores e progressistas dentro do eleitorado.
A reunião com Trump bate no mesmo lugar do carisma, só que pela chave da altivez e da negociação. Ao receber elogios públicos de Trump — percebido pela população brasileira em várias pesquisas como agressivo e contrário aos interesses nacionais —, Lula reforça e atualiza a imagem de líder capaz de posicionar o Brasil no plano internacional de modo positivo. O povo brasileiro nutre um nacionalismo popular que projeta o Brasil como um país que merece destaque na ordem global, e Lula alimenta e é alimentado por esse sentimento nacionalista.
É no sentido do reforço da capacidade de Lula em cuidar das pessoas e do Brasil que a pesquisa Quaest deve ser lida. A diferença entre desaprovação (49%) e aprovação (46%) do presidente diminuiu de 9% para apenas 3%. É a menor diferença desde fevereiro de 2026.
Outros dados da Quaest confirmam essa direção: o número de pessoas que considera que o país vai na direção errada caiu de 58% para 53%, bem acima da margem de erro. Já a quantidade de pessoas que entende que o Brasil está na direção certa subiu de 34% para 38%, também bem acima da margem de erro. O total do eleitorado que vê mais notícias negativas do que positivas sobre o governo caiu de 48% para 43%, acima da margem de erro. E as pessoas que veem mais notícias positivas do que negativas sobre o governo Lula subiram bem acima da margem de erro, de 23% para 32%, um aumento de 9 pontos percentuais.
Nas intenções de voto, Lula cresceu na espontânea de 19% para 22%. Já Flávio passou de 13% para 14%. Quanto aos números no cenário estimulado no 1º turno, Lula passou de 37% para 39%. Já Flávio oscilou de 32% para 33%. Esses dados olhados em conjunto indicam que Lula começa a recuperar eleitores que ao final de 2025 declaravam voto nele, enquanto Flávio pega votos dos outros candidatos de direita, mas não de Lula.
BOLSOMASTER
É nesse contexto positivo para o governo Lula e negativo para a oposição que surge o áudio de Flávio Bolsonaro para Vorcaro. De acordo com a denúncia, o filho de Bolsonaro pediu R$ 134 milhões ao banqueiro para financiar um filme em favor de seu pai, condenado e preso pela tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023. Na conversa, Flávio falou para Vorcaro: “Estou e estarei sempre contigo”.
A mensagem de voz é devastadora para Flávio Bolsonaro. É provável que mesmo com o áudio ele mantenha um alto percentual de votos, pois o eleitorado bolsonarista já mostrou fidelidade ao clã Bolsonaro. Porém, é virtualmente impossível que ele mantenha o atual patamar, uma vez que não tem nem a máquina do Estado — que Bolsonaro tinha em 2022 —, nem o carisma do pai, fundamental na eleição de 2018.
Haverá um crescimento da dispersão de votos da direita entre os demais candidatos deste campo, especialmente Romeu Zema, do Novo, e Ronaldo Caiado, do PSD, mas também Rennan Santos, do Missão. Além disso, haverá um aumento das disputas internas da extrema direita, como a que vem ocorrendo entre Ricardo Salles e Eduardo Bolsonaro pela vaga na chapa para o Senado de Tarcísio de Freitas, ou os conflitos entre o filho de Bolsonaro foragido nos EUA e o deputado federal Nikolas Ferreira.
Diante desse cenário, não devemos descartar nem mesmo uma substituição de Flávio na candidatura presidencial. O nome de Michelle Bolsonaro ganhará força, diante da atuação dela junto às mulheres e ao eleitorado evangélico. Porém, dificilmente a esposa de Bolsonaro conseguirá se desvincular da consolidação do BolsoMaster, com sua família envolvida até o pescoço por centenas de milhões de reais com o banqueiro Daniel Vorcaro.




