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Não há mais garantia orçamentária para o pagamento de todas as bolsas da UFRJ referentes aos meses de novembro e dezembro. Os R$ 23,3 milhões já reservados com este objetivo foram “devolvidos” ao MEC. A medida cumpre o contingenciamento imposto pelo governo nas verbas que sustentam as atividades acadêmicas e administrativas da universidade. A reitoria, no entanto, pede calma à comunidade acadêmica.
“Este contingenciamento segura as bolsas lá do final do ano. O descontingenciamento será feito antes. As bolsas serão pagas normalmente”, afirma o pró-reitor de Finanças, professor Helios Malebranche.
Quando o contingenciamento foi anunciado aos reitores, o governo disse que os chamados “limites de empenho” ficariam indisponíveis até 30 de setembro. Em seguida, haveria duas janelas de liberação dos recursos, ainda sem definição de percentuais em cada fase. A primeira, entre 1º de outubro e 30 de novembro; a segunda, de 1º a 30 de dezembro. A esperança da reitoria de poder voltar a garantir as bolsas do fim do ano reside nestas “janelas”.
“Estamos negociando com o MEC. Sabemos que há uma dificuldade grande, por conta do novo arcabouço fiscal, mas algumas áreas deveriam ter sido preservadas (do contingenciamento). Principalmente, Saúde e Educação”, diz o reitor Roberto Medronho.
Hoje, somente para os graduandos, a UFRJ oferece 1.894 bolsas com seu orçamento discricionário, segundo a pró-reitoria de Graduação. A maioria em monitoria (1.400), no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Artística e Cultural (220) e no Programa de Atividades Extracurriculares de Apoio aos Laboratórios de Informática de Graduação (150). Não foi informado se os auxílios estudantis estavam incluídos no contingenciamento.
Pela pró-reitoria de Pós-graduação e Pesquisa, a universidade paga aproximadamente mil bolsas de iniciação científica. As demais bolsas — de mestrado, doutorado e pós-doutorado — são oferecidas pela Capes e pelo CNPq e não fazem parte da conta da universidade. Há, ainda, as mais de 800 bolsas oferecidas pelo Programa Institucional de Fomento Único de Ações de Extensão.
FALTA UMA PARTE
A universidade “devolveu” apenas uma parte dos recursos solicitados pelo MEC para atender à determinação de contingenciamento dos 18% das verbas discricionárias — todas as federais do país sofreram o bloqueio do mesmo percentual (leia mais abaixo). Conforme já noticiado na edição anterior do Jornal da AdUFRJ, a UFRJ precisava entregar R$ 60 milhões. Destes, R$ 9,4 milhões que não estavam empenhados foram estornados imediatamente pelo ministério. Restavam R$ 50,6 milhões.
Com o atual cancelamento dos empenhos de bolsas, ainda faltam R$ 27,3 milhões para a universidade chegar ao valor solicitado. Mas a reitoria entende que, se ampliasse o contingenciamento, começaria a atrasar o pagamento de contratos que afetariam o funcionamento da instituição. “Fizemos (o contingenciamento) de R$ 23,3 milhões. Mais do que isso, iria prejudicar o funcionamento da UFRJ”, afirma o superintendente geral de Orçamento, George Pereira da Gama.
A avaliação interna é que o comunicado do contingenciamento dos 18% não era suficientemente formal para ser atendido em sua integralidade. Pelo menos até uma nova cobrança do ministério.
NEGOCIAÇÃO COM A LIGHT
Após quase ter a luz cortada por falta de pagamento, no último dia 9 — uma decisão judicial impediu o corte —, a UFRJ se aproxima de um entendimento com a concessionária de energia. “As negociações estão caminhando muito bem. Estamos negociando uma compensação, na esfera administrativa ainda”, explica o pró-reitor Helios. “A Light tem uma instalação na Cidade Universitária e precisa fazer o recolhimento do ressarcimento à União, o que não tem feito. Vamos fazer um encontro de contas: dívidas nossas antigas serão compensadas com este valor que a Light deveria estar depositando”.
Não foi informado o valor que a empresa deveria estar recolhendo à União. Na notificação que quase levou ao corte, a Light cobrava da universidade as faturas de abril, maio e junho, somando R$ 15 milhões.
A preocupação com o orçamento não é exclusividade da UFRJ. Várias universidades preveem um fim de ano difícil com o contingenciamento de 18% nas receitas discricionárias. O discurso de momento é priorizar despesas essenciais e realizar medidas de contenção de gastos.
Na “vizinha” UniRio, o contingenciamento representa R$ 10,7 milhões das verbas que sustentam as atividades acadêmicas e administrativas (R$ 57 milhões) da instituição. Não foram atingidos recursos já empenhados. “Esse contingenciamento foi escolha que prejudica muito a educação pública, e foi realizado em cima das reduzidas verbas, que diminuem a cada ano”, afirma o diretor de Orçamento, e substituto do pró-reitor de Administração, professor Steven Dutt-Ross. “A UniRio só tem recursos para manter a universidade aberta até outubro. Se a situação não mudar, a UniRio vai ficar inadimplente com o pagamento dos contratos de manutenção”, completa.
Além do contingenciamento no discricionário, todas as universidades sofreram bloqueio de emendas parlamentares voltadas para o funcionamento básico que não foram empenhadas até 23 de julho. A UniRio teve R$ 500 mil bloqueados de uma emenda da bancada federal do estado.
A UFF ficou com cerca de R$ 31 milhões contingenciados. Não foram atingidos empenhos já realizados. Em relação às emendas parlamentares, o comprometimento foi de aproximadamente R$ 500 mil. “A gestão da UFF não pretende realizar cortes nos serviços básicos, assim como em bolsas ou no restaurante universitário. Contudo, será necessária a priorização das despesas, visando ao equilíbrio financeiro da universidade até a regularização do quadro orçamentário”, explica o pró-reitor de Planejamento, professor Júlio Cesar Andrade de Abreu.
Já a Federal de Pernambuco (UFPE) registrou um contingenciamento de R$ 30,4 milhões. Não foi informado se empenhos precisarão ser cancelados. “A medida força a UFPE a fazer um novo planejamento do uso de seu orçamento, tendo em vista a necessidade de priorizar a manutenção da instituição. Mesmo antes do bloqueio, o orçamento da UFPE já era insuficiente para atender plenamente as necessidades de funcionamento até o final do atual exercício financeiro”, diz um trecho de comunicado divulgado nas redes sociais da universidade.
Em menor proporção, a situação da Universidade Federal do Piauí (UFPI) é a que mais se assemelha à da UFRJ. Do bloqueio de R$ 23 milhões, pouco menos de R$ 8 milhões também são relativos a empenhos já realizados — o orçamento total é de R$ 127,9 milhões. “Com despesas previstas e contratadas na ordem de R$ 133 milhões para o funcionamento básico, a UFPI enfrenta agora o desafio de administrar gastos essenciais, como energia elétrica, água, limpeza, terceirização, segurança, combustível, manutenção de frota e predial, além das atividades-fim, que incluem aulas práticas e assistência estudantil, com um orçamento ainda mais restrito”, diz o comunicado da instituição.
“Isso exige que a UFPI reavalie suas despesas, priorizando a manutenção das atividades essenciais e implementando medidas de redução ainda em 2024, para evitar um endividamento que possa gerar um efeito ‘bola de neve’ de despesas em 2025”.
Somando contingenciamento (R$ 33,4 milhões) e bloqueio de emendas (R$ 6,5 milhões), a Universidade Federal do Paraná levou uma “tesourada” de R$ 39,9 milhões. Pelo menos, por enquanto. Não houve prejuízo nos empenhos. “Se não forem recompostos os limites de empenho (18%), a UFPR poderá ter problemas em novembro e dezembro”, respondeu a reitoria à reportagem.
Foto: Alexandre MedeirosO movimento em defesa do acesso aberto (open access) ganhou força a partir dos anos 2000 e angariou expressiva adesão entre os cientistas brasileiros. Ele se propõe como alternativa ao modelo tradicional de publicação de artigos científicos restrito a assinaturas ou acessos pagos (paywall). Com isso, o acesso aberto traz mais visibilidade e citações aos artigos publicados, certo? No caso do Brasil, a resposta é não. É o que revela o robusto estudo intitulado “Impacto da Política de Acesso Aberto na Ciência Brasileira e Tendências Globais”, recentemente publicado nos Anais da Academia Brasileira de Ciências.
Liderada pelos professores Claudia Figueiredo (UFRJ), Connie McManus (UnB), Brenno da Silveira Neto (UnB) e Abilio Baeta Neves (UFRGS e PUC-RS), a pesquisa rastreou o caminho de artigos científicos publicados pelos 267.823 doutores formados no Brasil entre 2005 e 2021, em todas as áreas do conhecimento. Os resultados mostram que, para autores brasileiros, a escolha do modelo de acesso aberto não melhorou significativamente o número de citações ou a visibilidade de suas pesquisas.
“Os pesquisadores brasileiros publicam mais em acesso aberto do que os autores globais. Essa é uma tendência do Brasil. Mas isso se traduz, por exemplo, em mais citações? Não. O que dá mais citações é a publicação em revistas do Norte Global e em acesso fechado”, registra a professora Claudia Figueiredo, da Faculdade de Farmácia da UFRJ, sobre uma das conclusões do trabalho.
PESQUISA
Para estruturar o estudo, a equipe se valeu de alguns critérios basilares. A partir das bases de dados da Web of Science e do Scopus, de 2013 a 2022, os pesquisadores mapearam a visibilidade internacional das publicações, avaliando a acessibilidade dos periódicos e utilizando indicadores-chave de qualidade científica para comparar tendências globais. Para aferir a qualidade, a equipe usou como parâmetros a porcentagem de documentos citados, o fator de impacto do periódico (JIF) e do CNCI (Category Normalised Citation Index) de cada artigo. O JIF mede a média de citações recebidas por artigos em um jornal específico em um ano, enquanto o CNCI ajusta as métricas de citação pela área de pesquisa, comparando as citações de um artigo com a média de sua categoria.
A pesquisa mostrou que os autores brasileiros publicam mais em acesso aberto, sobretudo em periódicos do Sul Global, mas que esse modelo tem sido ineficaz para melhorar o impacto da ciência brasileira. “Acho que a principal discussão não é sobre o modelo, se aberto ou fechado, mas sim que a gente tem que melhorar o impacto das pesquisas e a qualidade das publicações. Não basta apenas ser acesso aberto para melhorar o impacto, é necessário que seja uma revista de prestígio e, preferencialmente, aquelas publicadas no Norte Global”, avalia o professor Brenno da Silveira Neto (UnB), um dos líderes do estudo.
Segundo ele, aspectos financeiros relevantes devem ser considerados. “A principal via de acesso a publicações no Brasil é o financiamento institucional e público, mas muitas vezes não há previsão orçamentária para isso. Publicar em revistas de grande relevância e tradição, como a Nature ou a Science, traz bons resultados. A questão é que o custo é muito alto, há certo exagero nos valores, criando um modelo de negócios bastante lucrativo”, diz Silveira Neto.
Periódicos como Nature e Science adotam políticas de acesso aberto obrigatórias, mas a custos elevados — em torno de U$ 5 mil a U$ 10 mil por artigo. Revistas consideradas “predatórias” cobram por volta de U$ 1 mil por publicação em acesso aberto. “Essa realidade é um desafio para pesquisadores de países como o Brasil, onde os recursos para pesquisa são escassos. O estudo faz um diagnóstico que pode ajudar a direcionar recursos de publicação de forma estratégica, com foco em periódicos de relevância, e não dispersos em publicações de pouca visibilidade”, aponta Claudia Figueiredo.
Para o professor Rodrigo Fonseca (Nupem-UFRJ), diretor da AdUFRJ, a pesquisa faz alertas importantes. “Ela analisa algo que é considerado um dogma, que pesquisas publicadas como acesso aberto ganham mais citações, o que parece não ser uma verdade plena. É importante relembrar que temos poucos recursos para financiar as próprias pesquisas e aí precisamos muito refletir sobre como gastá-los”, diz Rodrigo.
CONTRIBUIÇÕES
A professora Claudia Figueiredo alerta para a proliferação de periódicos predatórios. “O mercado de publicações científicas cresceu muito, há hoje um grande número de revistas especializadas nesse segmento. Antes, no modelo tradicional de paywall, quem queria ler tinha que pagar pelo acesso. Com o modelo de acesso aberto, quem paga é o autor. As revistas repassaram o custo de sua manutenção a quem publica. No caso do Brasil, alguns pesquisadores pagam do próprio bolso se não têm ajuda institucional. A questão é que há periódicos de grandes editoras, com bons índices de impacto, cobrando para publicar R$ 3 mil ou R$ 4 mil. Mas usando estratégias questionáveis”, adverte ela.
Entre essas estratégias estão a de publicar muitos artigos de revisões, gerar citações de uma revista para outra da mesma editora, usar o envio massivo de convites para submissão de artigos, e a criação em série de edições especiais. “Essas publicações têm um índice de impacto inflado artificialmente”, diz Claudia. “O dinheiro que o brasileiro está pagando para publicar em acesso aberto em revistas de impacto baixo no Sul Global, e pagando alto, não está gerando retorno em termos de citação ou de visibilidade. E, na maior parte das vezes, estamos falando de dinheiro público”.
A professora enaltece o papel da Capes nesse processo. “A Capes tem o Portal de Periódicos, que é fundamental para nós. Mas estamos em transição. Não precisamos mais pagar tanto para ler, mas precisamos pagar para publicar. Essa pesquisa pode contribuir para a formulação de políticas públicas, como a da Capes. O certo é que o que estamos pagando não está se refletindo na visibilidade da Ciência brasileira”, avalia Claudia Figueiredo.
SUPORTE
A Capes tem feito movimentos importantes de apoio aos pesquisadores brasileiros no campo das publicações. Em sua posse no comando da agência, em 27 de fevereiro deste ano, a professora Denise Pires de Carvalho, ex-reitora da UFRJ, anunciou uma mudança significativa no contrato com a American Chemical Society (ACS): uma conversão de 68 periódicos do modelo read only (somente leitura) para read and publish (ler e publicar), por um período de cinco anos.
A mudança no contrato passou a permitir que pesquisadores brasileiros publiquem seus artigos nos periódicos da ACS, em acesso aberto e sem custos, após a devida revisão por pares. Ao longo dos últimos meses, a Capes tem ampliado o processo de negociação de novos acordos nos mesmos moldes como o assinado com a ACS.
“Estamos em negociação com a Wiley, a Springer e a IEEE, além da American Chemical Society. Essas parcerias visam ampliar os contratos de leitura e publicação, permitindo que artigos com coautoria de autores de instituições brasileiras participantes de nosso Portal de Periódicos sejam publicados em acesso aberto. Além disso, a Capes apoia o SciELO (sigla em inglês para Biblioteca Eletrônica Científica Online) e está empenhada em promover o fortalecimento das revistas científicas do Brasil, buscando consolidar a produção acadêmica nacional e aumentar seu impacto internacional”, informa a professora Denise Pires de Carvalho.
Em 2023, a Capes teve recursos de R$ 546 milhões para seu Portal de Periódicos. Para este ano, a dotação orçamentária é de R$ 478 milhões.
A diretoria da AdUFRJ criou um abaixo-assinado de protesto contra o contingenciamento. O documento pode ser assinado em https://forms.gle/Ck87avjEV3634RHZA. “Regras fiscais draconianas não podem sufocar o processo de democratização do acesso ao ensino superior, a formação de quadros e a produção científica e cultural da maior federal do país”, diz um trecho.A diretoria da AdUFRJ e os professores abaixo-assinados vêm protestar contra o contingenciamento de R$ 60 milhões dos já combalidos cofres da UFRJ. A "tesourada" atinge as chamadas verbas discricionárias, ou seja, aquelas necessárias ao funcionamento da instituição.
O bloqueio é resultado do congelamento de R$ 15 bilhões nas contas públicas promovido pelo governo para atender ao novo arcabouço fiscal. Com exceção do Ministério do Meio Ambiente, nenhuma pasta foi poupada. O MEC perdeu R$ 1,28 bilhão.
A situação é gravíssima na UFRJ. O valor equivale a aproximadamente dois meses do custo mensal da universidade. E, há meses, a reitoria anunciava que as atuais receitas já seriam insuficientes para honrar todos os compromissos assumidos em 2024.
Agora, além de proibir que a universidade gaste o pouco que ainda estava disponível (R$ 9,4 milhões), o governo obriga a UFRJ a anular R$ 50,6 milhões em empenhos. Isto é, despesas que estavam na fila para serem pagas.
Em ofício encaminhado pelo reitor Roberto Medronho nesta manhã a todas as unidades e centros, o dirigente pede que sejam racionados os usos de energia elétrica e água. Somente estes dois serviços devem custar R$ 138 milhões até o fim do ano.
As contas milionárias não surpreendem em um gigante como a UFRJ. Trata-se da primeira instituição oficial de ensino superior do país, organizada como universidade em 1920. Aos 104 anos, possui 175 cursos de graduação, 132 programas de pós-graduação stricto sensu (41 deles com conceito 6 e 7, os mais altos da avaliação da Capes), 6 cursos de aperfeiçoamento, 377 cursos de especialização, 130 residências, 1.779 ações de extensão e um Colégio de Aplicação. Reúne 1.450 laboratórios, 45 bibliotecas, um Parque Tecnológico com startups e empresas de protagonismo nacional e internacional, 9 hospitais universitários e 8 museus, além de 14 prédios tombados. Possui campi nas cidades do Rio de Janeiro, Macaé e Duque de Caxias.
Já formamos uma sucessão de ex-estudantes notáveis, como o indicado ao Prêmio Nobel da Paz Osvaldo Aranha; os escritores Jorge Amado, Vinícius de Moraes e Clarice Lispector; o arquiteto Oscar Niemeyer; os médicos Oswaldo Cruz e Carlos Chagas; o historiador Sérgio Buarque de Holanda; e o matemático Artur Ávila, entre tantos outros. Hoje, temos mais de 65 mil alunos e mais de 23 mil deles ingressaram na universidade em diversas modalidades de ações afirmativas.
Regras fiscais draconianas não podem sufocar o processo de democratização do acesso ao ensino superior, a formação de quadros e a produção científica e cultural da maior federal do país.
Ana Beatriz Magno e Kelvin MeloEndividada até o pescoço e lutando para manter as portas abertas até o fim do ano, a UFRJ acaba de sofrer um contingenciamento de R$ 60 milhões nas receitas que sustentam o funcionamento básico da instituição.
Contingenciamentos de recursos têm sido utilizados de forma recorrente contra o orçamento das universidades, nos últimos anos, para atendimento das regras fiscais. A triste novidade de 2024 é que a medida de agora também atinge valores empenhados. Ou seja, dinheiro já reservado para o pagamento de determinadas despesas. Pelo menos no caso da maior federal do país. E não foi pouco, não: R$ 50,6 milhões. Ou 84,3% do total.
“Esse contingenciamento vai trazer uma dificuldade maior para o gerenciamento do dia a dia da universidade. Ter os fornecedores batendo na nossa porta quase que diariamente traz um estresse muito grande para o nosso corpo técnico-administrativo da PR-3 (Finanças) e da PR-6 (Governança)”, afirmou o reitor Roberto Medronho. “Algumas firmas são pequenas e, quando se atrasa um pouco o repasse, elas não têm volume de caixa para pagar seus funcionários”.
A administração central ainda estuda os empenhos que poderão ser cancelados neste momento. A orientação da reitoria é manter bolsas estudantis e o funcionamento dos restaurantes universitários.
Apesar do baque, o reitor está confiante no descontingenciamento dos R$ 60 milhões. “Tem previsão de liberação dos recursos em outubro e em dezembro”, disse. Além disso, o dirigente espera o repasse de novas receitas para a UFRJ. “Já pedimos uma suplementação orçamentária ao ministério de R$ 13,6 milhões para pagar faturas de luz e água. Já conversei com o ministro Camilo Santana e com o Alexandre Brasil (secretário de Educação Superior) pessoalmente e há uma disposição do MEC em repassar os recursos para a suplementação”, disse. “Nós vamos vencer essa etapa. A UFRJ não fechará, mas precisamos ter a suplementação orçamentária mínima”.
QUASE UM CORTE DA LUZ
A preocupação com as contas de energia elétrica e de água e esgoto se justifica. A Light iria cortar a luz da universidade — incluindo a de três hospitais
(Clementino Fraga Filho, IPPMG e Maternidade Escola) nesta sexta-feira (9). A empresa notificou a UFRJ sobre a medida em 11 de julho, cobrando o pagamento de abril, maio e junho. As faturas somam aproximadamente R$ 15 milhões. Foi por pouco. A Procuradoria da UFRJ conseguiu uma decisão judicial dois dias antes que impediu o corte.
A reitoria estima que os serviços de água e energia custem aproximadamente R$ 138 milhões aos cofres da universidade em 2024 — o número inclui débitos de anos anteriores. Em ofício encaminhado na segunda-feira (5) aos decanos e diretores, a reitoria solicitou a adoção de medidas para a redução do consumo.
Já o diretor do Instituto de Economia e ex-reitor Carlos Frederico Leão Rocha não poupou críticas ao movimento do governo. “Alguém presta um serviço porque você tem o dinheiro na conta, você emite o cheque e, após a emissão, o governo pega o seu dinheiro. É uma espécie de roubo”, comparou.
“Aconteceu algo semelhante com a nossa gestão no final do governo Bolsonaro. E nós denunciamos o escândalo que era isso”, afirmou, em referência ao episódio de dezembro de 2022, quando R$ 16 milhões da universidade foram bloqueados. Na ocasião, estudantes ficaram sem bolsa; funcionários extraquadros dos hospitais, sem salários; e terceirizados, sem pagamento. Licitações pararam e houve redução do funcionamento do transporte interno na Cidade Universitária e dos bandejões, entre outros problemas. “O que está feito é um escândalo. O governo Lula está agindo igual ao governo Bolsonaro”.
ANDIFES PREOCUPADA
A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) expressou preocupação com o contingenciamento. “Os bloqueios de orçamento e a reprogramação dos limites de empenho no Ministério da Educação (MEC) têm sido motivo de grande preocupação para as universidades federais, que enfrentam dificuldades orçamentárias consideráveis há vários anos e foram diretamente afetadas neste processo”, respondeu à reportagem, em nota.
A entidade afirma estar em “constante diálogo” com a Secretaria de Educação Superior (SESu) e a Subsecretaria de Planejamento e Orçamento (SPO) tanto em relação ao orçamento de 2024 quanto o do próximo ano.
A reportagem questionou o Ministério da Educação sobre o total do contingenciamento, em todas as universidades e em outras áreas da pasta. Também foi perguntada a justificativa para os 18% aplicados no orçamento discricionário das instituições de educação superior. E, além disso, se poderia haver suplementações para universidades em situação mais difícil, como a UFRJ, para evitar o risco de colapso do funcionamento. Até o fechamento desta edição, não houve retorno da assessoria de comunicação do MEC.
POR QUE R$ 60 MILHÕES?
O contingenciamento no orçamento da UFRJ é resultado do congelamento de R$ 15 bilhões nas contas públicas promovido pelo governo para atender ao novo arcabouço fiscal. Com exceção do Ministério do Meio Ambiente, todas as pastas foram atingidas. As universidades tiveram 18% dos recursos vindos do Tesouro “congelados”. Além disso, foram bloqueadas as emendas parlamentares classificadas como RP2 (voltadas para o orçamento discricionário) não empenhadas até 23 de julho. A UFRJ, no entanto, já havia utilizado R$ 16,5 milhões dessa parte dos recursos antes do prazo. Também são preservadas as receitas próprias — decorrentes de aluguéis de espaços da universidade, por exemplo —, hoje em R$ 70,3 milhões. Os R$ 60 milhões decorrem dos 18% aplicados sobre o orçamento de R$ 420,6 milhões menos estes dois itens, informou o superintendente geral de Orçamento da universidade, George Pereira.
A UFRJ acaba de sofrer mais um duro golpe: R$ 60 milhões de seu orçamento foram bloqueados pelo governo federal. Trata-se de valores destinados às chamadas despesas discricionárias, aquelas necessárias ao funcionamento da instituição. Mais de R$ 50 milhões já estavam empenhados, ou seja, em fila para pagamento. O valor é praticamente o mesmo que havia sido anunciado como recomposição do orçamento da universidade e é essencial para que a instituição conclua as atividades até o fim do ano. Segundo a pró-reitoria de Finanças, o valor equivale a 18% dos gastos para manutenção das atividades da universidade e a dois meses de funcionamento.
Um dos reflexos imediatos do contingenciamento é o ofício encaminhado pelo reitor Roberto Medronho nesta manhã a todas as unidades e centros. No documento, o dirigente pede que sejam racionados os usos de energia elétrica e água, serviços que compõem um importante conjunto de gastos da universidade.
O bloqueio na UFRJ é resultado do corte de R$ 15 bilhões nas contas públicas promovido pelo governo para atender ao novo arcabouço fiscal. Com exceção do Ministério do Meio Ambiente, todas as pastas foram atingidas. Mais detalhes na próxima edição do Jornal da AdUFRJ.