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WhatsApp Image 2026 01 22 at 19.43.13 7DESTRUIÇÃO. Prédio de Matemática do IVIC foi o mais danificado pelo bombardeio do dia 3 - Fotos: Departamento de Imprensa da USBNo dia 3 de janeiro, o mundo acordou atordoado com a notícia do bombardeio dos Estados Unidos à Venezuela e com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores. O ataque foi precedido de uma série de operações no mar do Caribe com ataques a barcos que supostamente traficavam drogas para o país norte-americano. A “atuação do governo venezuelano como cartel” foi a justificativa utilizada pelo governo de Donald Trump para os bombardeios.
Logo após o ataque à soberania venezuelana e a captura de Maduro, Trump declarou que o petróleo da Venezuela “voltará a ser dos Estados Unidos” e orientou que grandes petrolíferas norte-americanas iniciassem a extração do combustível. O plano, no entanto, encontra resistência. Segundo as empresas consultadas pelo governo Trump, a Venezuela não tem a infraestrutura necessária à exploração do petróleo nacional. Os custos de investimento seriam muito altos. Um preço que o grande capital privado não pretende pagar.
O petróleo, no entanto, está longe de ser a única perda do país. Mais de cem mortos, entre civis e militares, também são consequências diretas do bombardeio em solo venezuelano. A destruição de instalações de infraestrutura também era um objetivo dos ataques, que ainda atingiram instituições de ensino e pesquisa do país. É o que conta o reitor da Universidade Simón Bolívar (USB) e presidente da Sociedade Venezuelana de Física, professor Jorge Stephany. Ele concedeu entrevista ao Jornal da AdUFRJ para falar como a Venezuela busca se reestruturar após os ataques de 3 de janeiro. As instalações do Instituto Venezuelano de Pesquisas Científicas (IVIC, na sigla em espanhol) foram atingidas. “O edifício de Matemática foi o mais afetado, pois entre os alvos estavam as antenas de comunicação que se encontravam ao lado (do prédio) e foram atacadas com mísseis de grande potência”, contou o reitor.
Ele diz que a população tenta seguir adiante, apesar dos traumas. “As pessoas estão tentando retomar suas atividades normais, que, no caso da comunidade científica, incluem pesquisa e ensino, mas as constantes ameaças do agressor estão afetando severamente a produtividade”.
Confira a seguir.

WhatsApp Image 2026 01 22 at 19.43.13 6Jornal da AdUFRJ - Como está a infraestrutura de serviços como telefone, água e energia após os bombardeios?
Jorge Stephany -
Os ataques foram realizados com muitos recursos e tecnologia avançada, os danos ficaram restritos aos alvos escolhidos, como as instalações da rede elétrica e das empresas de telecomunicações. No dia seguinte ao ataque, a companhia elétrica nacional foi acionada para restabelecer a energia nas áreas afetadas, e as empresas de telecomunicação se concentraram na reconstrução da rede. A maioria das áreas voltou ao normal nas primeiras 48 horas.

O Instituto Venezuelano de Pesquisa Científica (IVIC) foi severamente afetado, com danos em muitos prédios. Quais foram os mais atingidos?
O prédio de Matemática foi o mais afetado, pois as antenas de comunicação localizadas ao lado do edifício estavam entre os alvos e foram atacadas com mísseis de alta potência. A onda de choque afetou o interior do prédio de Matemática e quebrou portas e janelas nos prédios de Física, Química e Ecologia. Danos menores também foram relatados no novo prédio da Universidade de Ciências. Felizmente, os laboratórios de Física Nuclear e Radiofísica da Saúde não foram afetados.

Qual o valor total dos prejuízos ou seu valor aproximado? E o custo da reconstrução das instalações do instituto?
O Ministério da Ciência e Tecnologia e a Direção do IVIC realocaram os pesquisadores afetados em outros espaços e estão avaliando os danos para iniciar a reconstrução. Não é possível neste momento estimar o tempo de reconstrução, pois é preciso avaliar se os prédios sofreram danos estruturais. O governo nacional priorizou a recuperação das áreas afetadas pelos ataques e, em particular, os danos ao IVIC serão reparados sob a supervisão direta da ministra Gabriela Jiménez (da Ciência e Tecnologia).

O que acontece com os recursos e suprimentos de pesquisa danificados? Existe a possibilidade de apoio de outros países?
Desde o governo Barack Obama, a Venezuela tem sido alvo de severas sanções comerciais e financeiras que a impedem de manter sua infraestrutura científica em pleno funcionamento. Os equipamentos perdidos neste ataque agravam o déficit existente. A colaboração internacional deveria ser um canal para tentar solucionar a situação, mas, infelizmente, não tem sido muito eficaz nos últimos anos devido à visão completamente distorcida da Venezuela que outros países propagam por campanhas de desinformação.

Os danos não são apenas físicos, mas também emocionais e impactam as atividades de pesquisa. Como a pesquisa pode ser conduzida em meio a tamanho horror?
De fato, o pior aspecto deste ataque é que a população da Venezuela, um país que não está em guerra com nenhuma outra nação desde a rendição espanhola, precisa conviver com a consciência de que os Estados Unidos da América não hesitam em assassinar 100 ou mais pessoas e bombardear uma cidade para alcançar seus objetivos políticos e econômicos. As pessoas estão tentando retomar suas atividades normais, que, no caso da comunidade científica, incluem pesquisa e ensino, mas as constantes ameaças do agressor estão afetando severamente a produtividade.

Como lidar com o trauma vivenciado pela população e pela comunidade científica?
A população respondeu com grande maturidade à situação, atendendo a todos os apelos por paz e tranquilidade. Não houve violência interna. No entanto, muitas pessoas, especialmente aquelas que vivem nas áreas onde ocorreram os ataques, estão profundamente afetadas.

Os efeitos a longo prazo dos ataques são difíceis de prever, mas como a comunidade científica pode contribuir para a superação dessa crise?
Antes de tudo, devemos evitar que esse ataque exacerbe as divisões que a polarização política vem criando dentro e entre nossos países. A comunidade científica, por outro lado, deve buscar mais e melhores oportunidades de colaboração. E não apenas na busca e aplicação do conhecimento, mas também na consolidação de espaços onde os valores humanísticos que compartilhamos possam florescer e impactar a criação de um mundo melhor do que este em que vivemos. Para isso, é preciso fortalecer todas as iniciativas com objetivos concretos que vêm sendo desenvolvidas no âmbito diplomático e entre pesquisadores em cada área específica.

NOTA DA ADUFRJ: SOLIDARIEDADE AO POVO VENEZUELANO

A diretoria da ADUFRJ assiste com grave preocupação aos eventos relacionados à ação militar dos EUA invadindo a Venezuela, com bombardeios e captura de seu presidente, em grave violação dos princípios basilares de direito internacional – em especial do respeito à soberania nacional e autodeterminação dos povos. Tal operação – e suas “justificativas” oficiais propagadas pelo governo americano – cria um perigoso precedente que banaliza o uso da força como instrumento de política externa, fragiliza o sistema multilateral de governança internacional e coloca em risco as populações atingidas, além de promover a instabilidade e insegurança para os países da região.
Eventuais críticas ao regime político venezuelano de modo algum justificam a violação da soberania nacional, nem a imposição de mudanças políticas pela força de governo externo.
Manifestamos nosso repúdio à invasão e ao uso da força para imposição dos interesses do governo dos EUA na região, bem como nossa solidariedade aos colegas pesquisadores e ao povo venezuelano.
Entendemos que soberania e autodeterminação são princípios fundamentais para uma ordem internacional pacífica e não podem ser relativizados.

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