Accessibility Tools
Foto: Alessandro CostaOferecer subsídios para a formulação de modelos alternativos de combate ao crime organizado, a partir da percepção de que a tática das grandes operações policiais são ineficazes e incapazes de conter a atuação dos grupos armados — que já controlam 18% do território da região metropolitana do Rio, onde vivem 4 milhões de pessoas. Esse é o foco da Rede Universitária Segurança Para Todos Artigo 5° (https://artigo5rj.org), iniciativa inédita que reúne grupos de pesquisa de várias instituições do Rio, lançada em 26 de março passado.
O mote para a criação da rede foi a chacina de 28 de outubro do ano passado, quando 117 civis e cinco agentes de segurança morreram em decorrência de uma grande operação policial nos complexos da Penha e do Alemão. Foi da AdUFRJ a iniciativa de convocar uma reunião emergencial de pesquisadores em segurança pública logo após a operação. “Articulamos a primeira reunião num sábado pela manhã, em 1º de novembro, poucos dias após a chacina”, conta a presidenta da AdUFRJ, professora Ligia Bahia. “Essa velocidade de reação demonstra que a academia está articulada e pronta a responder aos desafios sociais”, defende ela.
ESFORÇO COLETIVO
O evento de lançamento da Rede reuniu gestores e especialistas de universidades públicas e privadas do Rio, além de instituições de pesquisa, no auditório do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), que é um parceiro da articulação, ao lado de entidades como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC). Representantes da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Município do Rio de Janeiro, Fiocruz, Uerj, UFRJ, UFF, Unirio, PUC-Rio, além da AdUFRJ, também estiveram presentes.
O nome “Artigo 5°” remete ao texto da Constituição Federal de 1988, que, em seu 5º artigo, reúne os princípios que norteiam os direitos básicos de todos os cidadãos brasileiros e estrangeiros residentes no país. Dentre os quais igualdade, segurança, livre manifestação do pensamento e liberdade de crença.
A professora Ligia Bahia acredita que os cientistas têm muito a contribuir para a formulação de políticas públicas na área de Segurança Pública. “Uma das vocações da Academia é buscar soluções baseadas em evidências científicas para problemas sociais. A rede emerge dessa necessidade. Não dá mais para matar, matar, matar, morrer, morrer, morrer, num ciclo vicioso que não gera nenhum resultado além de mais violência”, afirma a professora. “A ciência é capaz de nos mostrar caminhos, com princípios que garantam a dignidade e protejam a vida das pessoas. Todas as pessoas importam”, pontua.
Especialista em saúde coletiva, a docente destaca o impacto da violência na saúde da população. “Também do ponto de vista da saúde, há enormes repercussões para a população que vive em áreas de conflito armado”, afirma. “Isso se traduz em quadros de adoecimento e há impactos também na prestação dos serviços. A cada confronto, a população deixa de receber atendimento de saúde. As UPAs fecham, as clínicas da família fecham”, lembra. “Ou seja, o problema da violência no estado do Rio de Janeiro não é uma questão isolada, mas sistêmica, que afeta outras áreas do conhecimento e impacta a vida das pessoas de forma global”.
O vice-presidente da AdUFRJ, professor Michel Gherman, saudou a articulação. “Estamos vendo grandes nomes da reflexão acadêmica produzindo perspectivas e estratégias de combate não só à violência, mas principalmente ao discurso sobre a violência. As universidades do Rio de Janeiro estão construindo uma esperança, a de que o discurso acadêmico influencie efetivamente o discurso público”, afirmou.
O docente também destacou o papel da AdUFRJ. “Nós estamos acumulando já há algumas gestões essa tarefa histórica e essa tradição de produzir dentro do movimento sindical uma reflexão acadêmica sobre o que fazer com esse país”.
Nas páginas 4 e 5, você acompanha as reflexões dos gestores e dos especialistas que participaram do encontro. Na página 6, um estudo da UFF e do Instituto Fogo Cruzado mostra a evolução do domínio territorial do estado do Rio de Janeiro por grupos armados. O diagnóstico é que o modelo das megaoperações policiais não conteve a expansão do Comando Vermelho, principal facção do tráfico do estado. Além disso, a pesquisa registra o avanço das milícias, sobretudo da Zona Oeste e da Baixada Fluminense.
Leia mais sobre o encontro da Rede em:
Especialistas alertam para modelo ineficaz
A última reunião do Conselho Universitário, na manhã de 9 de abril, adiou a decisão sobre o plano de segurança da UFRJ. O documento vai regulamentar as ações da universidade em resposta a situações de violência na cidade. Quatro conselheiros pediram vistas do processo. O tema voltará na próxima sessão do colegiado.
Na discussão preliminar, apareceram divergências sobre a caracterização das aulas como atividades essenciais ou não – a classificação pode refletir na rapidez de uma decisão institucional de suspensão dessas atividades, durante uma crise, e sobre o abono de faltas subsequente.
O próprio abono de faltas de servidores (professores e técnicos) e de alunos e a posterior reposição de aulas e trabalho também foram motivo de polêmica.
“Vamos dizer que um professor more próximo ao morro do Turano (na Zona Norte do Rio) e aconteça algo ali. Ele pode autodeterminar não comparecer à universidade? Temos capacidade de monitorar todas essas situações?”, questionou o professor Carlos Frederico Leão Rocha, representante dos Titulares do CCJE.
O docente, o primeiro a pedir vistas do processo, também manifestou desconforto quanto ao abono de faltas dos servidores. “Existe uma normativa própria que não vejo refletida na resolução. Isso colocará todos os gestores em risco”, completou.
“A resolução precisa dizer que aulas são não essenciais, porque, caso contrário, não se dá a condição de suspensão imediata (em situação de violência urbana) ao professor ou aos gestores”, argumentou Natália Trindade, representante dos pós-graduandos, que também pediu vistas. “Podemos mudar a terminologia para não comunicar erradamente para a sociedade que aula não é essencial para a UFRJ”, completou.
Houve questionamentos, ainda, sobre a composição do gabinete de crise que será acionado durante a situação de violência urbana.
O PLANO
Oferecer orientação clara e ágil à comunidade UFRJ em todas as unidades e campi diante de situações de violência urbana. Este é o objetivo da política institucional que tem mobilizado o debate nas últimas sessões do Conselho Universitário.
“Não controlamos a violência urbana, mas podemos e devemos organizar nossa resposta para proteger vidas, reduzir danos e preservar nossa missão pública com responsabilidade”, afirmou o professor Alexandre Barbosa de Oliveira, coordenador do grupo de trabalho que formulou a proposta do Plano de Segurança em discussão. No dia 26 de março, ele apresentou o projeto aos conselheiros.
Confira os principais pontos do projeto:
FUNCIONAMENTO
O sistema de alerta começa com uma avaliação técnica das informações disponíveis (por exemplo, de uma operação policial em andamento nas proximidades de um campus) pela Coordenação de Segurança da Prefeitura Universitária. A partir das 6h de cada dia (ou de um horário ainda mais cedo, se possível), a Superintendência-Geral de Comunicação Social (SGCOM) irá disparar informes em todas as plataformas sobre o nível de risco em cada localidade. O monitoramento será contínuo e este status pode ser alterado a qualquer momento.
NÍVEIS DE RISCO
Os informes serão caracterizados por quatro cores que identificam o nível de risco de cada momento: do azul (normalidade) até o vermelho (emergencial, que levaria à suspensão das atividades, entre outras medidas)
O sistema de cartões é utilizado por várias instituições, como a Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. “Esse sistema de cores representa, para a UFRJ, uma transição do improviso para a previsibilidade”, explica o docente.
GABINETE DE CRISE
Se o nível de ameaça chegar ao cartão amarelo, quando há um alerta imediato sobre uma situação de risco elevado, será acionado o chamado “gabinete de crise”. A instância é composta por representantes das pró-reitorias de Graduação, Pós-Graduação e Pessoal, além da Prefeitura Universitária e Superintendência de Comunicação. O grupo pode decidir sobre suspensão preventiva de atividades.
OBJETO DO PLANO
Estão dentro do escopo do plano situações como: tiroteios e operações policiais ou militares nos entornos dos campi, confrontos armados que causem interrupção das atividades, invasões ao espaço da universidade com risco à integridade física das pessoas, eventuais perseguições a servidores e alunos por questões político-ideológicas, dentre outros eventos de violência que possam impedir o acesso seguro aos campi ou risco iminente comunicado por autoridades externas.
PROTOCOLOS
Todas as ações do plano são fundamentadas em protocolos operacionais objetivos. “Queremos evitar pânico, rumores e desinformação”, disse Alexandre. O primeiro protocolo é voltado à validação de informações e emissão de alertas, com definição de critérios, fontes confiáveis e fluxos para confirmação e comunicação de situações de risco. O segundo protocolo diz respeito à suspensão e retomada de atividades.
O terceiro protocolo refere-se ao não cômputo de faltas, para garantir proteção acadêmica e trabalhista aos membros da comunidade impedidos de comparecer à universidade por situação de risco. O quarto e último protocolo orienta procedimentos imediatos de atendimento a feridos e apoio psicológico em situações críticas.
AULAS
“Não é um documento de esvaziamento da universidade. Não é um plano para cancelar aulas. é um plano para proteger a permanência com segurança e justiça institucional. A ausência dele penaliza as pessoas que vivem em situação de maior vulnerabilidade social”, conclui Alexandre.
O plano não é meramente reativos. “A ideia é criar uma cultura de segurança. A UFRJ não tem poder de polícia, mas tem dever de proteção institucional”, disse.
MAIS LUZ e vigilância em estacionamentos
A reitoria e decanias adotaram uma série de medidas para reforçar a segurança nos estacionamentos do Centro de Tecnologia e Centro de Ciências da Saúde. Após reunião entre o reitor, o prefeito e os decanos do CT, CCS e CCMN, na segunda-feira, 6, ficou decidido que haverá melhoria da iluminação, poda da vegetação e instalação de catracas automáticas. As ações acontecem em resposta a uma sequência de furtos de veículos de professores e alunos, nas últimas semanas. Eles relataram as ocorrências na redes sociais da AdUFRJ.
“Já começamos a ampliar a vigilância e a contratar, de forma emergencial, o serviço de parqueamento, com equipes circulando continuamente para inibir arrombamentos”, afirmou o reitor.
Decano do CCS, o professor Luiz Eurico Nasciutti informou que os processos de melhoria da iluminação e instalação de cancelas, além do reparo da pavimentação, começam na próxima semana. “Já temos os holofotes para os estacionamentos. O controle vai ficar muito melhor”, afirmou.
O superintendente do CT, Agnaldo Fernandes, informou que a decania contratou uma empresa para instalar as cancelas automáticas. Mas ainda não há um prazo definido para o início do serviço.
Drones e viaturas
A prefeitura do campus começou a usar drones e posicionou viaturas em locais estratégicos (foto), onde há registro de mais ocorrências. “Já intensificamos a segurança nos estacionamentos do CT e do CCS, com policiamento externo e com a Diseg (Coordenação de Segurança), especialmente no horário noturno”, disse o prefeito universitário Marcos Maldonado. “A Diseg já está fazendo o que a gente chama de ponto baseado, com veículos dentro dos estacionamentos e nos pontos de ônibus. Também estamos realizando abordagens, motopatrulhamento”, completou. “Tudo que é possível estamos fazendo”.
Os gestores também pretendem fazer um aditivo aos contratos com as empresas de segurança para a realização de rondas com motos nos estacionamentos. “Estamos montando um cordão de segurança dentro da Cidade Universitária. Isso tem que ser feito com inteligência. Não podemos ter confronto aqui dentro. Não quero ver um docente, um técnico, um aluno alvejado. Queremos que todos voltem para casa em paz”, afirmou.
A UFRJ orienta que todas as ocorrências sejam formalmente registradas, “o que contribui para o mapeamento das áreas mais vulneráveis e o direcionamento das estratégias de prevenção”, instrui a universidade no site.
Foto: Fernando SouzaHá trinta e seis anos, Alexandre Padilha visitou a UFRJ pela primeira vez, ainda como estudante. No dia 7 de abril, o agora ministro da Saúde retornou para dar uma aula magna que misturou lembranças, uma ode ao Sistema Único de Saúde (SUS) e notícias muito boas para a maior federal do país, em um lotado auditório do Quinhentão, no CCS.
O paulista tinha apenas 19 anos, em 1990, quando participou do Encontro Científico de Estudantes de Medicina. “Tenho uma lembrança muito feliz porque saí daqui como presidente da Direção Executiva Nacional de Estudantes de Medicina”, recordou. “A UFRJ era a linha de frente da resistência à privatização das universidades públicas, projeto de Collor, derrotado graças a essa resistência e hoje estamos aqui, com uma plateia cheia de estudantes pretos, pretas, com maioria de mulheres. Isso é o que mais me alegra e é a mudança mais visível”.
Durante o evento, Padilha assinou uma portaria com a liberação de R$ 9 milhões para os institutos de saúde da UFRJ que não fazem parte da gestão da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). “Este é nosso compromisso com a universidade pública”, afirmou Padilha, ao lado do reitor Roberto Medronho.
O novo convênio insere os institutos de Psiquiatria, de Ginecologia, São Francisco de Assis (HESFA), de Doenças do Tórax, de Neurologia e do Coração no Programa Nacional de Qualificação e Ampliação dos Serviços Prestados por Hospitais Universitários Federais Integrantes do Sistema Único de Saúde (PRHOSUS).
O programa prevê para este ano o investimento total de R$ 1,4 bilhão em hospitais e institutos de atenção à saúde de universidades federais. “O Ministério da Saúde coloca este ano 90% a mais dos recursos que foram aplicados em 2022 nos HUs federais”, destacou Padilha. “Esse repasse é feito via Ebserh. Ocorre que esses institutos da UFRJ, por não estarem inseridos na Ebserh, não estavam recebendo esses valores. Agora vão passar a receber mesmo sem a contratualização com a empresa”, explicou o ministro.
Outra notícia dada em primeira mão durante a aula magna foi a formalização do registro dos profissionais sanitaristas. A cerimônia de concessão do primeiro registro de sanitarista do Brasil, entregue à pesquisadora Maria Cecília Minayo, aconteceu no mesmo dia, à tarde, na Fiocruz, com a presença do ministro. A profissão foi regulamentada pelo Decreto nº 12.921, publicado no Diário Oficial da União na manhã do próprio dia 7.
Os interessados em solicitar a emissão do registro profissional de sanitarista devem preencher um formulário eletrônico no site do Ministério da Saúde, pasta que regulará o registro profissional. A solicitação também deve acompanhar o diploma de graduação, mestrado, doutorado, ou especialização lato sensu nas áreas de saúde coletiva ou de saúde pública.
Números do SUS
Padilha falou sobre os avanços e os desafios do SUS, que completa 36 anos em setembro. Desde sua implantação, o sistema reduziu a mortalidade infantil em 72%. “Foi a maior redução de mortalidade infantil em todo o mundo”, destacou Padilha. “Atingimos, no ano passado, o menor patamar do nosso país: 12,1 óbitos a cada mil nascidos vivos”, revelou o ministro. A introdução da vacina que previne a bronquiolite – doença que é uma das principais causadoras de morte até dois anos de idade – no calendário de imunizações de gestantes também foi destaque. “A gestante toma a partir da 28ª semana. Já foram vacinadas 750 mil e a meta é chegar a 2 milhões de imunizadas”.
O ministro apresentou também alguns recordes em atendimentos e procedimentos. Em 2025, o SUS alcançou 14,9 milhões de cirurgias eletivas. Um aumento de 40% desde 2022. “Todo dia há um Maracanã cheio de pessoas realizando cirurgias eletivas em algum hospital do país”, comemorou. As quimioterapias saltaram para 4,7 milhões, um incremento de 20% desde 2022. Outra boa notícia é sobre a realização de transplantes: o país realizou 30,9 mil procedimentos, registrando também um aumento de 20% em comparação com 2022. Os exames saltaram para 1,3 bilhão realizados, aumento de 37% na comparação com o mesmo ano. “Conseguimos registrar aumento em todas as vacinas do calendário infantil com a retomada das campanhas. Outro dado fundamental, é que somos o maior país do mundo a eliminar a transmissão vertical do HIV”, celebrou Alexandre Padilha. “Se conseguimos com o HIV, precisamos conseguir com a Sífilis e com a Hepatite B”, disse.
Padilha recordou a 8ª Conferência Nacional de Saúde, que completa 40 anos em 2026. “Foi um momento muito importante e estratégico para o SUS. Naquele momento, em 1986, a sociedade civil brasileira construiu as bases do que foi aprovado na Constituinte e, dois anos depois, na Lei Orgânica do SUS”, disse. “Com o SUS o Brasil vive mais. É, sem dúvida, a política pública de maior capilaridade e de maior impacto no enfrentamento das desigualdades do país. Todos os indicadores que estão relacionados à vida no Brasil melhoraram com a criação do SUS”.
O ministro destacou que nenhum país com mais de 100 milhões de habitantes assumiu o compromisso de garantir saúde pública como direito a todos os seus cidadãos. “Nenhum país ousou colocar na sua Constituição a ideia de um sistema nacional de saúde que fosse universal, onde todas as pessoas tivessem o direito de serem atendidas”, afirmou. O SUS foi inspirado principalmente em sistemas públicos de saúde de três países: Canadá, Inglaterra e Cuba. Todos têm menos de 60 milhões de habitantes, enquanto o Brasil possui 213 milhões.
Desafios
Como principais desafios para a manutenção e fortalecimento do SUS, o titular da Saúde apontou o envelhecimento da população brasileira e as mudanças climáticas. Hoje, o SUS é o único meio de acesso à saúde para 70% dos idosos do país. Um número que deve aumentar nos próximos anos. “São idosos que dependem exclusivamente do SUS. Em paralelo, temos incrementos importantes de doenças que representam enormes desafios para o cuidado”, apontou Padilha. O AVC, por exemplo, foi responsável por 47,5 óbitos por cem mil habitantes em 2025. A hipertensão já afeta 29,7% da população. Há estimativa de 781 mil novos casos por ano de câncer no país. Outro tema que exige atenção é a saúde mental: houve incremento de 70% nos investimentos e crescimento de 333% do chamado transtorno do jogo.
No âmbito das mudanças climáticas, o desafio é duplo: lidar com novas doenças que surgem em territórios onde antes não existiam e reconstruir unidades de atendimento impactadas por catástrofes ambientais. “A crise climática é um problema sobretudo de saúde pública. É necessária a adaptação dos sistemas de saúde de todo o mundo. Para lidar com esses desafios, precisamos de uma reforma institucional da atenção especializada, reincorporar novas tecnologias aos diagnósticos, atendimentos e tratamentos, e derrotar o negacionismo”.
Fotos: Alessandro CostaProssegue a agonia de ex-gestores da UFRJ acusados, de forma infundada, do desvio de recursos de um contrato firmado há 19 anos com o Banco do Brasil. Terminou sem uma decisão a audiência da 2ª Turma Especializada do Tribunal Federal da 2ª Região que julgaria o caso, no último dia 7. Após a apresentação da defesa dos cinco réus — quatro professores e um técnico-administrativo —, o desembargador relator, Wanderley Sanan Dantas, decidiu retirar o processo de pauta para reavaliação. O julgamento será retomado em uma sessão virtual, ainda sem data definida.
Ao final da audiência, um dos réus, o ex-reitor Carlos Levi, mostrou esperança. “Estou otimista. Sigo cada vez mais convicto da boa-fé na administração desses recursos, como foi constatado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e pela Advocacia-Geral da União (AGU). Esperamos que isso seja reconhecido na esfera criminal também”.
O contrato com o Banco do Brasil possibilitou uma série de obras e ações acadêmicas da UFRJ até sua interrupção, em 2011.Foram 339 obras e intervenções prediais, priorizadas por departamentos, unidades e conselhos da instituição. Entre elas, uma reforma da Faculdade Nacional de Direito e um Restaurante Universitário central (ao custo de R$ 7,3 milhões) que fornece milhares de refeições por dia. Também houve a realização de 988 eventos técnicos, científicos e culturais — todos selecionados em editais públicos da UFRJ.
O professor Raymundo Oliveira, ex-presidente da Fundação Universitária José Bonifácio (FUJB) à época do contrato, também avaliou de forma positiva o desfecho da sessão do dia 7. “O processo todo é um absurdo completo. Fica muito difícil sustentarem a acusação. Diante do que foi apresentado, o desembargador resolveu pensar mais. Isso, para mim, é uma coisa boa”, afirmou.
ADUFRJ PRESENTE Diretoria critica lawfare e apoia colegas RELEMBRE O CASO
“Este é um indício de que o relator está interessado em conhecer bem as evidências e as questões técnicas relevantes para o caso. E isso é muito bom porque as evidências e os argumentos técnicos apresentados pelas defesas apoiam a inocência de nossos colegas de maneira irrefutável”, disse o diretor da ADUFRJ, Daniel Conceição.
O julgamento foi acompanhado pela diretoria do sindicato e por dezenas de familiares e colegas da universidade, que prestaram apoio aos ex-gestores, usando camisas contra o lawfare — o termo designa a utilização de instrumentos jurídicos para atacar um inimigo, com prejuízos à sua imagem na sociedade.
Reforça a esperança de boas novas para os acusados a decisão na esfera cível de pouco menos de seis meses — bastante citada na argumentação dos advogados de defesa —, que afastou a imputação de improbidade contra Carlos Levi e os demais servidores. A Justiça reconheceu que os recursos discutidos no processo foram “integralmente utilizados em benefício da própria UFRJ, sem qualquer enriquecimento ilícito ou desvio em proveito pessoal dos gestores acusados”.
RELEMBRE O CASO
O processo está em segunda instância na esfera criminal. Em 2019, a juíza Caroline Figueiredo, da 7ª Vara Federal Criminal, sentenciou o ex-reitor Carlos Levi a uma pena de 4 anos e 8 meses em regime semiaberto; João Eduardo Fonseca, chefe de gabinete (a 9 anos e 5 meses), Geraldo Nunes, coordenador de Convênios e Relações Institucionais (a 7 anos e 2 meses), Raymundo de Oliveira, presidente da FUJB (a 7 anos e 1 mês) e Luiz Martins, secretário-geral da fundação (a 5 anos). As penas não foram aplicadas, aguardando o término da tramitação no Judiciário. Mas outras penalidades foram impostas imediatamente, como o congelamento de bens desde então.
O drama dos ex-dirigentes teve início com uma inédita iniciativa para o financiamento de obras e ações da universidade. Em agosto de 2007, em troca da exclusividade da gestão da folha de pessoal e outros serviços financeiros — não existia, à época, a portabilidade de contas —, o Banco do Brasil repassaria R$ 43,5 milhões para a UFRJ, em cinco parcelas anuais.
O problema é que, onde a reitoria então dirigida por Aloísio Teixeira (de 2003 a 2011) enxergou uma oportunidade importante de recursos para a instituição, houve quem encontrasse a chance de uma retaliação política. Um docente, exonerado por condutas incompatíveis com o magistério durante a gestão daquela reitoria, conseguiu que o Ministério Público fizesse denúncia criminal de um suposto desvio dos recursos da UFRJ.
A ACUSAÇÃO
O dinheiro do Banco do Brasil, considerado pela AGU à época como extraorçamentário, foi transferido para a Fundação Universitária José Bonifácio, de apoio à UFRJ (FUJB). Essa é uma prática corriqueira até hoje para agilizar as ações institucionais. A denúncia do suposto desvio, porém, levou o Tribunal de Contas da União a suspender o contrato para as devidas investigações, através de uma Tomada de Contas Especial, em 2011.
Até então, a FUJB já havia executado R$ 34.164.245,04 do montante total. A última parcela do contrato (R$ 7.795.690,60) e o saldo livre da penúltima parcela (R$ 2.471.888,91), incluindo os rendimentos gerados sobre os recursos ociosos (R$ 911.823,55), foram devolvidos à conta única da universidade, totalizando R$ 44.431.824,55.
A regularidade do contrato foi atestada pelo próprio TCU, já em 2015, que aprovou as contas da fundação com apenas duas pequenas ressalvas: questionou o cálculo da correção monetária incluída no valor devolvido pela FUJB à UFRJ e repreendeu a fundação pela contratação de serviços de bufê para alguns eventos custeados pelo contrato
No entanto, o juízo de primeira instância fez leitura equivocada da decisão do TCU e interpretou que a devolução do “saldo livre” restante na conta da fundação fosse a devolução da taxa de administração para o ressarcimento de custos administrativos da FUJB. Com base nesse entendimento, condenou os gestores por peculato.
Em 2023, a AGU desfez de maneira clara a confusão da primeira instância sobre a “taxa de administração” e rejeitou categoricamente qualquer hipótese de desvio ou dano ao erário: “Em relação à gestão dos recursos do Contrato 52/2007, a FUJB recebeu sim remuneração em forma de taxa de administração no valor de R$ 1.819.500,00, pagamento esse que foi auditado pelo TCU (...) e não recebeu qualquer censura” e “Se a FUJB prestou os serviços de gestão, como restou constatado pelo TCU, a conclusão não poderia ser outra, senão a de que não há irregularidade”.
Foto: Alessandro CostaAos 36 anos, o professor Mychael Lourenço reúne perfeitamente a intensidade de um jovem pesquisador com a profundidade acadêmica esperada para um veterano. Desde 2018 como docente do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, ele se destaca pela excelência de suas pesquisas que se propõem a investigar a doença de Alzheimer. Seus resultados e abordagens repercutem internacionalmente desde os primeiros anos de sua atuação como docente da UFRJ.
Conheça um pouco mais sobre esse jovem pesquisador da universidade.
Em 2019, o professor fez parte da descoberta que associou o hormônio irisina — produzido pelos músculos e pelo cérebro com a prática de atividades físicas — à preservação dos neurônios contra o Alzheimer. O achado ganhou projeção em todo o mundo. “A irisina ajuda a proteger das transformações pelas quais o cérebro passa com a doença”, contou ao Jornal da AdUFRJ, em 2023. Naquele ano, ele foi citado como um dos 11 jovens cientistas mais relevantes do mundo em sua área. A lista foi divulgada pela revista Nature Medicine.
Representante de uma nova geração de professores, ele afirma que formar cientistas de diferentes perfis e trajetórias acadêmicas é fundamental para enriquecer as abordagens acadêmicas. “A diversidade na ciência torna as abordagens de pesquisa igualmente diversas. O olhar é diferente, as buscas por soluções são diversas. A ciência só tem a ganhar”, defende.
Ele também defende que o Brasil deve se debruçar mais sobre sua população. No caso do Alzheimer, a diversidade e a miscigenação populacional podem trazer achados muito diferentes na comparação com populações europeias, por exemplo. “Há uma série de marcadores ambientais de risco para o Alzheimer que, já sabemos, não se aplicam completamente para a população brasileira. Outros que só aparecem na nossa população. A nossa constituição populacional é uma joia muito preciosa para a ciência. Precisamos ter mais estudos focados nos brasileiros”.
O docente coordena o Laboratório de Neurociência Molecular (LourençoLab) e se destaca também por importantes atuações nacionais e internacionais. Ele é pesquisador de produtividade 2 do CNPq, Jovem Cientista do Nosso Estado da Faperj, membro da Academia Brasileira de Neurologia e integrante do Comitê de Programa da Society for Neuroscience (SfN), responsável por planejar e organizar o maior encontro de neurocientistas do mundo. Também atua como editor e revisor para diversos periódicos internacionais, entre eles o Brain Research e a Alzheimer’s Dementia.
Botafoguense de coração, o futebol e a música são suas duas outras grandes paixões, além da ciência. No dia a dia, os companheiros de trabalho relatam uma relação de generosidade, amizade e rigor acadêmico com os colegas. É o que atesta o professor Felipe Ribeiro, do Instituto de Bioquímica Médica. “Conheço o Mychael desde 2011, quando eu era da Iniciação Científica e ele já fazia mestrado. Ambos somos crias da UFRJ”, lembra. “Ele é um excelente colega e todos nós nos sentimos muito orgulhosos do prêmio que ele recebeu, porque também somos um pouco parte disso. É uma imensa alegria para todos nós poder compartilhar o dia a dia de trabalho com ele e também essa premiação”.
Andréa Tosta, pós-doutoranda do Laboratório de Neurociência Molecular, também é só elogios. “Eu conheci o professor Mychael durante meu doutorado da UFF e fico até sem palavras para falar sobre ele. É um pesquisador muito competente, absolutamente fora da curva”, diz. “Está sempre disponível para todos os colegas. É uma referência para mim. Está sendo muito importante para minha formação ter essa experiência de pós-doc aqui na UFRJ com ele”.
A professora Flávia Gomes, titular do Instituto de Ciências Biomédicas, também não poupa adjetivos para elogiar o colega. “Ele é um pesquisador jovem e muito completo quando pensamos no que é desejável para o perfil de um pesquisador. Mychael é muito sério e absolutamente criterioso na pesquisa, mas também se preocupa com outras áreas, como a formação de recursos humanos, e tem importante atuação na divulgação científica”, elenca. “Colaborei muitos anos com o grupo de pesquisa onde ele fez sua formação científica e tive oportunidade de vê-lo atuar como profissional não só na UFRJ, mas fora do Brasil, em conexões com sociedades científicas internacionais”, revela a professora. “É uma alegria tê-lo como professor da UFRJ”.