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Luciana M. N. Peil
Professora da
Escola da Educação Física, UFRJ

Quando nos referimos ao esporte, vários são os discursos, as narrativas e os significados presentes. Em mais um momento de Copa do mundo de Futebol masculino, estas diversas falas se fazem presentes revelando pontos de vista diferentes e, por vezes, até mesmo antagônicos. Encontramos o discurso da razão instrumental, do romantismo, da moral e da religião. O esporte/Futebol é uma criação cultural que configura suas bases na Inglaterra do século XIX e é herdeira da tradição aristocrática. O “nobre esporte bretão”, assim como todos os outros esportes, tem uma enorme carga moral. Por seu poder atrativo, o esporte/Futebol é perfeito para o investimento de grandes grupos financeiros, para unir nações, para tirar o jovem dos vícios, para educar e daí por diante. Este poder atrativo do esporte se dá muito em função do que sustenta internamente esta manifestação. O esporte é um complexo composto pelo movimento humano, pela regra universal, pela competição e pelo jogo. Competição e jogo andam muito unidos, mas não são a mesma coisa.
A competição refere-se à disputa, à superação. O jogo refere-se, a partir da Estética de Schiller, em como nossa razão e emoção se encontram em um impulso criador e transformador, onde não conseguimos separar uma da outra. Quando jogamos, quando nos envolvemos no jogo, quando entramos em estado de jogo, somos então plenamente humanos. Não estamos cindidos. Esta sensação de inteireza, quando unida à competição, é uma mistura embriagante para o atleta, para a assistência e para a arbitragem.
É uma linguagem universal. Todos fazem parte do jogo. Todos fazem parte do Futebol. A razão instrumental e os valores de mercado precisam manter a aura romântica do Futebol para vender e lucrar. Precisam, pelo menos aparentemente, cultivar valores sensíveis e morais para ser um bom negócio. Ninguém quer comprar algo que não fale em emoção, em beleza, em devaneio. A busca pela vitória sem o sacrifício, sem a dedicação, sem o dever ser moral, não vende. Nesta tônica, a Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA), órgão privado, transita entre a razão instrumental e os valores românticos. Constantemente, a FIFA promove campanhas que falam em Fair-Play (literalmente “jogo limpo”, mas de significado bem mais profundo do que diz a tradução do inglês), falam em inclusão, contra a violência, pela igualdade de gênero, união pelos povos indígenas e pela paz, mas especialmente nesta FIFA World Cup 2026, os valores do respeito, da paz e da inclusão, por exemplo, somente aparentemente estão sendo cultivados. Ao permitir que equipes sejam impedidas de pernoitar nos Estados Unidos da América, ao permitir que o governo norte-americano impeça pessoas credenciadas de entrarem no país e que reviste de maneira vexatória algumas equipes, ao se cobrar valores exorbitantes por um lugar em um estádio, ao se impedir que nações explicitem sua história nos uniformes, não se pode dizer que a FIFA respeita, inclui e defenda, de fato, a paz. Por sua vez, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também se mostra contraditória. Não é uma grande ilação supor que grandes patrocinadores influenciem sobremaneira até mesmo em convocações e escalações de atletas. A CBF, afiliada da FIFA, também aparentemente defende os valores da paz, por exemplo. Mas ao se observar a campanha publicitária de marca que patrocina os uniformes brasileiros, novamente a contradição se faz presente.
Se a CBF compartilha os valores da paz em tempos de conflito, paradoxalmente acata as seguintes máximas do patrocinador: “alegria que apavora”, “o uniforme mais letal”, “o time que joga sinistro”, “a seleção mais temida”, “implacável”. Ora, mesmo a CBF não sendo uma instituição educacional, é evidente o poder pedagógico da mesma. Como justificar tal abordagem do patrocinador? O esporte não é uma reprodução da guerra. Por mais que no processo civilizatório ele possa, para alguns, estar no lugar da guerra. No esporte existe a disputa, existe a busca pela vitória, condição essencial para que uma manifestação da cultura do movimento seja definida como esporte, mas esta disputa não pode ser a qualquer preço e estimulando a violência. Em muitas ocasiões, alguns dizem que os aficionados pelo esporte querem um jogo mais duro, mas não existem pesquisas científicas que isto afirmem. E mesmo que assim fosse, o que estaríamos estimulando? O que o Futebol anunciaria à sociedade que tem os atletas como espelho? Justamente pelo poder atrativo do esporte, temos de ter muito critério para tratar do mesmo.
Será que os altos salários, prêmios e patrocínios justificam os meios para atingi-los? Temos de trabalhar na ética da responsabilidade e não na ética da convicção. De qualquer maneira, todo o aspecto financeiro sempre fica atrelado ao aspecto sensível, mesmo que seja somente para atrair e encantar para vender. Neste momento, lembro o dramaturgo Nelson Rodrigues, fanático por Futebol, quando dizia que o que todos procuramos em uma partida de Futebol é a poesia, ou seja, a possibilidade da criação, do sonho, do devaneio, da surpresa permanente. Este é o verdadeiro encantamento do Futebol, que a cada Copa do mundo procuramos.

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