Accessibility Tools
Foto: João LaetA dramática situação de Cuba, agravada pelo recrudescimento do bloqueio norte-americano sob o segundo mandato de Donald Trump, e a corrente de solidariedade ao regime e ao povo caribenho foram os principais temas da palestra de Frei Betto, um dos mais destacados intelectuais do país, em 30 de abril, no Centro de Tecnologia, no Fundão. O encontro foi organizado pela AdUFRJ, em parceria com o Sintufrj, o DCE Mário Prata e a APG/UFRJ.
“Cuba vive uma crise terrível. Não tem energia, não tem gás, muitas pessoas estão usando lenha para cozinhar”, descreveu Frei Betto. Segundo ele, o bloqueio imposto pelos Estados Unidos em 1962 foi intensificado desde que Donald Trump assumiu a presidência, em janeiro do ano passado. “Trump incluiu Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo, e isso fechou todo o sistema bancário internacional ao país, prejudicando importações e exportações”, exemplificou o escritor.
Frei Betto destacou que cresce em todo o mundo um sentimento de solidariedade a Cuba: “O Brasil tem ajudado muito, com medicamentos, alimentos. Estamos introduzindo lá um sistema de captação de água das chuvas, por exemplo. Temos que ampliar essa corrente solidária”.
A presidenta da AdUFRJ, professora Ligia Bahia, fez coro com Frei Betto e anunciou uma iniciativa imediata: uma campanha de arrecadação de recursos para a compra de medicamentos, batizada de UFRJ 100 mil. “É importante que a gente consiga arrecadar esses R$ 100 mil, e espalhar essa campanha para trazer mais pessoas e instituições para ajudar, vamos criar uma onda”, defendeu Ligia Bahia. A iniciativa ainda está em estudo, e prevê a arrecadação de doações em dinheiro via PIX, em faixas que vão de R$ 10 a R$ 200.
Leia a seguir os principais trechos da palestra.
JUVENTUDE
Desde os 13 anos eu já tinha uma cabeça de esquerda, por ser da juventude católica, que, assessorada pelos frades dominicanos em Belo Horizonte, já nos dava uma formação bem progressista. Atuávamos na política estudantil, com a juventude comunista. Isso nos fez torcedores da Revolução Cubana de 1959. Mas eu nunca imaginei a possibilidade de ir a Cuba, pelos fatores decorrentes do golpe de 1964, em que o Brasil, inclusive, rompeu relações com Cuba.
REVOLUÇÃO SANDINISTA
Em 1979, eu fui a Costa Rica e tive contato com guerrilheiros sandinistas da Nicarágua, por meio do poeta Ernesto Cardenal. Naquele ano, eu convidei o Cardenal e o padre Miguel d’Escoto para o primeiro congresso da Associação dos Teólogos do Terceiro Mundo, em São Paulo. O d’Escoto veio ao congresso, em janeiro de 1980, com o Daniel Ortega, o que criou um problema diplomático. Ortega acabara de liderar uma revolução, era presidente da Nicarágua, e o Brasil estava de nariz torcido para a Revolução Sandinista, porque a considerava uma continuação da Revolução Cubana. Ortega entrou como turista, e não como chefe de Estado. A Polícia Federal ofereceu segurança para ele, para saber quais contatos ele teria aqui. Em julho de 1980, eles convidaram três pessoas do Brasil para o primeiro aniversário da Revolução Sandinista: Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal de São Paulo, Lula e eu. Dom Paulo não pôde ir, então eu fui com o Lula.
PRIMEIRO ENCONTRO
COM FIDEL
Nessas comemorações, houve uma recepção para o Fidel Castro, e fomos eu e Lula. Às duas da madrugada, o padre d’Escoto nos convidou para conversar com o Fidel na biblioteca. Entramos às duas da madrugada, saímos às seis da manhã. A primeira pergunta que eu fiz a ele foi por que o Estado e o partido de Cuba eram confessionais. Ele levou um maior susto: “Como confessionais? Somos ateus”, ele disse. Eu sabia que o Estado cubano era oficialmente ateu, e o partido também. Disse a ele que afirmar ou negar a existência de Deus é mera confessionalidade, e que o Estado e o partido não podem ser confessionalizados, tinham de ser laicos. Ele me deu razão. Alguns anos depois, a Constituição cubana foi modificada. E o partido também modificou o seu estatuto. Hoje o Partido Comunista Cubano é laico e qualquer crente, qualquer pessoa de convicção religiosa pode ingressar no partido.
CONVITE DO COMANDANTE
A segunda pergunta que fiz foi sobre a relação da Revolução com a Igreja Católica. Eu sabia que era muito tensa, porque a Igreja Católica de Cuba era de formação franquista, da ditadura de Franco na Espanha, um clero e um episcopado muito reacionários, anticomunistas, e ligados aos Estados Unidos. Antes que ele me respondesse, eu citei três hipóteses. A primeira é que a Revolução perseguia a Igreja Católica. A segunda é que a Revolução era indiferente à Igreja Católica. E a terceira é que, sendo a Igreja Católica uma das instituições do povo cubano, a Revolução dialogava com ela. Então Fidel me disse que há 16 anos ele não recebia um bispo cubano, e que a atitude correta seria dialogar, e me pediu para ajudá-lo nisso. Eu disse que estava disposto. Fidel disse: “Então vamos cuidar disso”.
PRIMEIRA VIAGEM A CUBA
No ano seguinte eu fui a Cuba pela primeira vez, em 1981, e consegui fazer uma reunião com toda a Conferência Episcopal Cubana. Uma reunião extremamente tensa. Eu coloquei para eles a conversa e a proposta de Fidel, e eles começaram a discutir entre si, com mil fantasmas, que eu estava sendo manipulado, isso e aquilo, até que finalmente aceitaram conversar. Então, durante dez anos eu trabalhei na reaproximação entre a Revolução e a Igreja Católica.
A ENTREVISTA
Em 1985, o Fidel marcou de me dar uma entrevista. Em maio, eu fui para Havana. Quando cheguei, ele me chamou e delicadamente me disse que não poderia me dar a entrevista porque os contrarrevolucionários cubanos de Miami acabavam de inaugurar a rádio José Martí. Eu insisti, tinha preparado 64 perguntas. Na última tentativa, comecei a ler as perguntas. Quando cheguei na quinta, ele falou: “Amanhã iniciamos”. Qual a minha interpretação? Quando ele viu que eu estava perguntando como era a formação religiosa, como é que era a fé da mãe dele, do pai dele, a catequese, ele se entusiasmou. A entrevista foi traduzida em 23 idiomas.
IMPACTOS DA ENTREVISTA
Foi a primeira vez na história que um chefe comunista no poder falou positivamente da religião. Isso foi uma grande revolução, inclusive pela crítica que o Fidel faz à interpretação leninista e stalinista da famosa frase de Marx e Engels: “A religião é o ópio do povo”. A entrevista teve muito impacto no mundo socialista, que estava desabando na Europa. Eles se deram conta do grande erro que a esquerda de tradição stalinista cometeu de considerar que, para ser comunista ou para ser socialista, tinha que ser ateu. Os camponeses e operários comunistas no Brasil mantinham a fé, como na União Soviética, onde o povo praticava a fé ortodoxa, e em Cuba. E para não se queimar, para não poder ser vetado em empregos, escondiam isso.
PAULO FREIRE
Percebi que em Cuba havia três nomes proibidos: Freud, Trotsky e Paulo Freire. E eu pensei: como Paulo Freire? Se há alguma dívida que nós todos na América Latina temos com Paulo Freire é um cara como Lula ser presidente pela terceira vez. Quando me perguntam no exterior como é que explica esse fenômeno, num país tão elitista como o Brasil, eu falo: vocês têm que ler Paulo Freire. Foi ele que resgatou a autoestima dos oprimidos e eles se assumiram como protagonistas. Até então a esquerda, vanguarda do proletariado, era dirigida pela intelectualidade. E quando o proletariado resolveu criar seu próprio partido foi uma indignação na esquerda brasileira. Ficaram enciumados porque um grupo de sindicalistas resolveu fundar um partido que está aí até hoje, o PT.
EDUCAÇÃO POPULAR
Fidel acabou lendo Paulo Freire e se convenceu da importância dele. Eu nunca trabalhei com educação formal, trabalho com educação popular. Como enfiar educação popular, o método Paulo Freire, na escola formal? Você pode enfiar pequenos ingredientes, mas estruturalmente é como querer pôr um elefante na caixa de fósforos. A Nicarágua sandinista tentou, não conseguiu. Por quê? Porque o timing dos alunos não é o mesmo. Você não pode ter ano letivo. Não existe isso no método Paulo Freire. O João, que é camponês, ele vai fazer o primeiro grau em três anos, porque ele tem que conciliar o estudo com o trabalho. Mas a Maria, que é filha de um comerciante que tem recursos, ela pode fazer até em seis meses, porque ela não precisa trabalhar. Aí o Fidel propôs organizar em Cuba um encontro latino-americano de educação popular. Nenhum cubano participou do encontro, pelo preconceito a Paulo Freire. Dois anos depois, fizemos o segundo encontro. Os cubanos assistiram, não participaram. Só no terceiro encontro eles participaram. E aí se fundou em Cuba uma instituição que existe até hoje, à sombra da Igreja Batista, chamado Centro Martin Luther King de Educação Popular.
TRABALHO EM CUBA
Desde 2019 eu trabalho em Cuba pela FAO no Projeto de Soberania Alimentar e Educação Nutricional (Plan San). Nunca fui a Cuba a turismo, sempre vou a trabalho. Toda família cubana recebe uma cesta básica mensal. Agora, com a assessoria do Ministério de Desenvolvimento Social do Brasil, estamos fazendo o cadastro único em Cuba, como há aqui, para poder retirar a cesta básica daqueles que já são classe média ou até um pouco elite, por causa da introdução de iniciativa privada crescente na economia cubana, e poder reforçar a cesta básica daqueles que são mais vulneráveis.
ECOS DA REVOLUÇÃO
A Revolução Cubana foi feita para beneficiar toda a população, e não uma elite, e não uma classe. É o único país da América Latina que garante a toda a população os três direitos humanos fundamentais: alimentação, saúde e educação. Cuba hoje vive uma crise terrível, a revolução está praticamente desmontada por uma questão de sobrevivência e urgência. Há desigualdade gritante, há pobreza, mas ainda não a ponto de haver miséria. O cubano não come o que gostaria, come o pouco que dispõe, com muita dificuldade, com falta de energia, falta de gás. Tem gente cortando a árvore do quintal de casa para poder fazer fogo e cozinhar.
BLOQUEIO NORTE-AMERICANO
O bloqueio foi decretado em 1962, pelo ódio do Kennedy, porque Cuba expropriou várias empresas norte-americanas que exploravam o povo cubano. A revolução não foi feita para ser socialista, foi feita para ser uma revolução de libertação nacional. No grupo do iate Granma, que levou os guerrilheiros do México para Cuba, só havia uma pessoa verdadeiramente marxista, que era o Che Guevara. Os outros tinham o ideal de libertação nacional inspirado, não em Lenin ou Mao Tse Tung, mas em José Martí, pelas lutas de libertação que Cuba teve. Na Guerra Fria, Cuba passou a ser tutelada pela União Soviética, porque, senão, a revolução fracassaria. Hoje, quando me perguntam se eu acho que os Estados Unidos vão invadir Cuba, eu digo que não. Um país que foi tão agredido durante tantas décadas, evidentemente se preparou para uma agressão. O Trump, no primeiro mandato, estabeleceu 243 novas medidas para o bloqueio, e incluiu Cuba na lista de países patrocinadores de terrorismo. Isso significa fechar todo o sistema bancário internacional aos trâmites de importação e exportação. Cuba precisa fazer muitos negócios porque o país hoje importa 80% dos alimentos que consome.
TECNOLOGIAS DA TERRA
Cuba é o único país agricultável do Caribe. Mas a Revolução propiciou ao filho do camponês ir para a universidade. O filho do camponês foi para a universidade e não voltou para a terra. Ele virou médico, físico, economista, professor e foi para a cidade. Tudo bem se Cuba tivesse tecnologia rural, mas não tem. O que nós estamos fazendo no Plan San é introduzir novas tecnologias. Tecnologias criadas por próprios camponeses, como nós criamos aqui no Brasil, como um camponês do Sergipe que criou a cisterna que capta a água da chuva. A cisterna abastece uma família de quatro pessoas por oito meses. Estamos introduzindo isso em Cuba. E os chineses estão introduzindo muitos sistemas energéticos alternativos, como as placas solares.
PETRÓLEO
O Brasil não pode mandar petróleo para Cuba porque o Fernando Henrique Cardoso privatizou uma parte da Petrobras. Há uma parcela das ações da Petrobras na Bolsa de Nova York. Esses acionistas não aprovam o envio de petróleo brasileiro para Cuba, que consome 100 mil barris de petróleo por dia. Consegue produzir 40 mil, mas há um déficit de 60 mil. A Venezuela estava fornecendo petróleo, assim como o México, mas não estão mandando mais. A Rússia é que está enviando, mas é paliativo.
SOLIDARIEDADE
Como é que a gente faz solidariedade a Cuba hoje? Primeiro: denunciar o bloqueio. Não usem a palavra embargo. Embargo é algo palatável pelo direito internacional. Bloqueio é crime. Segundo: turismo político para Cuba. Está se preparando uma grande caravana para agosto, nos 100 anos de nascimento de Fidel, que nasceu em 13 de agosto de 1926. Terceiro: enviar remédios. Aí você tem duas maneiras. Se você vai viajar, leve uma mala de remédios. Eu já levei muitas vezes. O MST, através do Instituto Cultivar, está mandando medicamentos para Cuba. Conseguiu acordo com laboratórios para comprar no mesmo preço que o farmacêutico compra, estão colocando em aviões e mandando para Cuba em grande escala.
Foto: DivulgaçãoA exuberância da Floresta da Tijuca, uma das mais belas e conservadas porções da Mata Atlântica do país, se deve em boa parte ao trabalho de um morador ilustre daquelas matas, também ele um exemplo de beleza e conservação: o tucano-de-bico-preto. Reintroduzido no Parque Nacional da Tijuca (PNT) no início dos anos 1970, depois de praticamente desaparecido da fauna carioca por conta do desmatamento, o animal não só recuperou seu espaço na floresta como vem contribuindo para a proliferação de espécies vegetais nativas e ameaçadas de extinção na Mata Atlântica, como a palmeira-juçara. O sucesso da reintrodução do tucano-de-bico-preto no Parque Nacional da Tijuca e a importância de sua ação como dispersor de sementes são avaliados em um estudo liderado por pesquisadoras do Instituto de Biologia da UFRJ (IB/UFRJ), publicado em fevereiro na revista científica sueca Oikos. Principal autora do estudo, a bióloga Flávia Zagury destaca que a reintrodução da ave recuperou, em média, 76% das interações de frugivoria (consumo de frutos e dispersão de sementes) no Parque, no período de um ano de análise. Para as interações com sementes médias e grandes o resultado é ainda mais expressivo: 89% e 88%, respectivamente. Os tucanos são ótimos dispersores de sementes. Eles conseguem consumir frutos de vários tamanhos, e voam longas distâncias. “A dispersão de sementes é um processo muito importante nos ecossistemas”, explica Flávia, doutoranda no Programa de Pós-graduação em Ecologia do IB. Ela explica que que a Floresta da Tijuca, assim como outras áreas remanescentes de Mata Atlântica, é um ecossistema defaunado. “Ou seja, por ter passado por um processo de degradação, perdeu muitas espécies de mamíferos e de aves, sobretudo as de maior porte, como os tucanos. E, sem esses animais, as plantas que têm sementes de frutos médios e grandes perdem os seus dispersores. Os resultados desse estudo revelam que há um grande potencial de recuperação dessas interações”, avalia.
TRABALHO PIONEIRO
A história do estudo liderado pelas pesquisadoras da UFRJ começa no fim dos anos 1960, com a apreensão em massa de tucanos-de-bico-preto no comércio ilegal por agentes do então Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), o atual Ibama. E tem um personagem central: o biólogo cearense Adelmar Coimbra-Filho (leia box com perfil do pesquisador). Ao lado de Antonio Aldrighi, então diretor do PNT, Coimbra-Filho foi o responsável pela reintrodução de 47 tucanos-de-bico-preto na área do Parque, entre os anos de 1970 e 1973. Todos apreendidos no comércio ilegal. Em um trabalho publicado em 2000, o próprio Coimbra-Filho assim descreveu suas impressões sobre a reintrodução: “Após as solturas, os tucanos voavam imediatamente para árvores mais altas, onde permaneciam algum tempo, ocasião em que alguns emitiam suas inconfundíveis vocalizações, hoje frequentes nas matas da região. Aos poucos afastavam-se pelas ramagens do arvoredo da floresta, procurando alcançar as partes mais altas, de onde voavam e desapareciam da nossa vista”. Apaixonado pelo trabalho de Coimbra-Filho, Flávia Zagury tem orgulho em poder resgatar e avançar nas pesquisas com os tucanos-de-bico-preto. “O trabalho dele foi pioneiro e rende frutos até hoje. A população proveniente da reintrodução conduzida por Coimbra-Filho e Antonio Aldrighi já recuperou grande parte das interações de frugívora esperadas”, diz Flávia. De acordo com a bióloga, por ser uma ave de grande porte e capaz de voar longas distâncias, o tucano-de-bico-preto consegue dispersar sementes para novas áreas por meio da zoocoria — os animais ingerem frutos e dispersam as sementes longe da planta-mãe. “Para este estudo, fizemos observações em campo durante um ano para verificar com quais espécies a população de tucanos-de-bico-preto, proveniente da reintrodução, estava interagindo em termos de frugívora. Seguimos indivíduos ou bandos de tucanos durante o máximo de tempo possível, observando e anotando todas as espécies de fruto que eles consumiam. Totalizamos cerca de 520 horas em campo”.
NOVOS ESTUDOS
Para a professora Rita Portela (IB/UFRJ), outra autora do estudo, a pesquisa tem um viés de continuidade e resgate do trabalho feito por Coimbra-Filho nos anos 1970. “As reintroduções feitas na Floresta da Tijuca são muito recentes, casos dos bugios e das araras. Essa dos tucanos feita pelo Coimbra-Filho é a que temos um histórico mais longo, nos mostra como essas reintroduções são viáveis e como são importantes para a restauração das interações e funcionalidades da floresta”, explica a docente. “O tucano é um dispersor muito eficiente de sementes grandes, e essas sementes são de árvores que acumulam muito carbono. Esse é um outro fator importante da restauração dessa interação, já que essa dispersão seria muito pequena sem a ação de animais como os tucanos”, diz Rita. No estudo, os pesquisadores utilizaram a abordagem de “crédito de interações”, que se baseia na ideia de que, ao reintroduzir uma espécie localmente extinta, não apenas a espécie retorna ao ambiente, mas ela também tem o potencial de trazer de volta interações ecológicas que foram perdidas com a sua extinção. O tucano-de-bico-preto chegou a ser considerado extinto na área do PNT em 1968. Além de Flávia e Rita, assinam o estudo os professores Henrique Rajão (PUC-RJ), Ângelo Corrêa (USP) e Luisa Genes (Stanford University). Em sua pesquisa de doutorado, Flávia Zagury quer ir além. “Uma das espécies que a gente mais constatou como alimento dos tucanos-de-bico-preto foi a palmeira-juçara. No meu doutorado eu ampliei a gama de olhares para entender as interações ecológicas da palmeira-juçara na Floresta da Tijuca e no Poço das Antas (reserva biológica no interior fluminense). Tento entender o quanto cada espécie, como o tucano-de-bico-preto, está colaborando para aumentar a população da juçara, por meio da dispersão de sementes”, diz Flávia. Mais uma vez passado, presente e futuro se unem: a reserva de Poço das Antas foi criada a partir do trabalho de Adelmar Coimbra-Filho. A bióloga passa mais tempo em campo do que em laboratório. “Não é fácil trabalhar com tucanos, muito menos seguir os animais na floresta. Eles fazem ninhos em cavidades de árvore, você tem que escalar para conseguir monitorar”, conta. “De início fizemos esse trabalho no Jardim Botânico do Rio. Foi aí que começou a minha história com os tucanos-de-bico-preto. Eu vejo essas aves como um grande exemplo da história do Rio de Janeiro, da exploração que tivemos de nossas florestas, do desmatamento, até a recuperação que temos tido nos últimos tempos, com a refauna”, compara a pesquisadora.
E que os tucanos-de-bico-preto voem cada vez mais longe.
Embora tenha feito um trabalho notável com os tucanos-de-bico-preto na área do PNT, o biólogo Adelmar Faria Coimbra-Filho é mais conhecido por suas ações de preservação de outro animal: o mico-leão-dourado. Que, por sinal, era por ele chamado de sauí-piranga, que significa “primata vermelho” em tupi-guarani.
Considerado um dos maiores conservacionistas do Brasil, Coimbra-Filho foi o responsável pela criação da Reserva Biológica de Poços das Antas, em Silva Jardim (RJ), a primeira do gênero do país, em 1974. É lá que o sauí-piranga, antes ameaçado de extinção, vive em harmonia com a natureza.
Nascido em Fortaleza em 1924, Coimbra-Filho iniciou sua vida profissional no Rio de Janeiro, onde estudou História Natural e Zoologia, e desenvolveu trabalhos em áreas como Primatologia, Biologia de Vertebrados, Biogeografia e Conservação de Ecossistemas Naturais. Foi o primeiro diretor do Parque Florestal da Gávea (atual Parque da Cidade), em 1947. Depois de ocupar diversos cargos em instituições como o Jardim Zoológico do Rio de Janeiro e o Serviço de Parques e Reservas Biológicas, do antigo Estado da Guanabara, o biólogo dedicou-se ao estudo dos primatas — além da reserva de Poço das Antas, ele criou e foi o primeiro diretor do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro (CPRJ), em 1979.
O CPRJ tem como principal objetivo assegurar a continuidade das espécies, por meio de um banco genético que dá suporte às colônias de primatas brasileiros. O centro cria somente primatas de espécies nativas do Brasil, com atenção especial para aquelas sob algum risco de ameaça de extinção. Por essas iniciativas, Coimbra-Filho é considerado “o pai da primatologia brasileira”. O biólogo faleceu no Rio de Janeiro aos 92 anos, em 2016.
A dramática situação de Cuba, agravada pelo recrudescimento do bloqueio norte-americano sob o segundo mandato de Donald Trump, e a corrente internacional de solidariedade ao regime e ao povo caribenho foram os principais temas da palestra de Frei Betto, um dos mais destacados intelectuais brasileiros, na manhã desta quinta-feira (30), no Centro de Tecnologia. O encontro foi organizado pela AdUFRJ, em parceria com o Sintufrj, o DCE Mário Prata e a APG/UFRJ.
“Cuba vive hoje uma crise terrível, e a revolução está praticamente desmontada por uma questão de sobrevivência. Não tem energia, não tem gás, muitas pessoas estão usando lenha para cozinhar”, descreveu Frei Betto. Segundo ele, o bloqueio imposto pelos Estados Unidos em 1962 foi intensificado desde que Donald Trump assumiu a presidência, em janeiro do ano passado. “Trump incluiu Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo, e isso fechou todo o sistema bancário internacional ao país, prejudicando importações e exportações”, exemplificou o escritor.
Por outro lado, Frei Betto destacou que cresce em todo o mundo um sentimento de solidariedade a Cuba: “O Brasil tem ajudado muito, com medicamentos, alimentos. Estamos introduzindo lá um sistema de captação de água das chuvas, por exemplo. A China tem sido muito solidária, está levando várias soluções tecnológicas na área de energia, de irrigação. Temos que ampliar essa corrente solidária”.
A presidenta da AdUFRJ, professora Ligia Bahia, fez coro com Frei Betto e anunciou uma iniciativa imediata: uma campanha de arrecadação de recursos para a compra de medicamentos, batizada de UFRJ 100 mil. “É importante que a gente consiga arrecadar esses R$ 100 mil, e espalhar essa campanha para trazer mais pessoas e instituições para ajudar, vamos criar uma onda”, defendeu Ligia Bahia. Frei Betto sugeriu que os recursos arrecadados sejam encaminhados ao MST, que está adquirindo medicamentos a preço de custo para enviar em grandes lotes a Cuba.
Mais informações sobre o encontro com Frei Betto você encontra na próxima edição do Jornal da AdUFRJ.
Fotos: João Laet
Seria necessário R$ 1,27 bilhão para reabilitar completamente 90,3% das edificações da UFRJ, ou 142 prédios. A impressionante cifra, que representa três vezes o orçamento discricionário (R$ 410 milhões) da instituição, é a estimativa mais recente de um levantamento realizado pelo Escritório Técnico da Universidade (ETU).
O chamado REAB, Programa de Avaliação de Reabilitação dos Bens Imóveis, está em sua quarta edição. O estudo de 2023 apontava um custo de R$ 795,7 milhões para recuperar 52% de toda área construída. Em janeiro de 2025, era de R$ 1,05 bilhão o custo da reabilitação total dos espaços avaliados até então (76%).
“O estudo liderado pelo Escritório Técnico tem sido fundamental para conhecermos a situação de nossas edificações. Infelizmente, algumas delas precisam de uma reabilitação muito grande”, afirma o reitor da UFRJ, professor Roberto Medronho. “E esse dinheiro é para voltar ao que era, não é para modernizar, não é para fazer nada novo. É para que possamos dar a devida dignidade das condições de trabalho e ensino para nosso corpo social”.
Além de solicitar verbas suplementares e emendas parlamentares, a administração central estuda uma iniciativa inédita para tentar resolver o drama da infraestrutura. “Temos um projeto disruptivo chamado ‘Do fundo do mar ao topo do conhecimento’. A proposta é que no próximo leilão do pré-sal, em vez de o governo receber dinheiro, haja a contrapartida de uma pequena fração para investimento em obras nas nossas edificações. São leilões de bilhões de dólares”, diz Medronho.
A justificativa para o ganho seriam as pesquisas da universidade em apoio à exploração do petróleo no Brasil. “Como pode a UFRJ, que ajudou este país a prospectar petróleo em águas profundas e ultraprofundas, estar nesta situação? Se fazemos tudo que fazemos com esses parcos recursos, imagine se tivéssemos orçamento justo para exercer a nossa missão”, afirma o reitor. “Estamos articulando para levar essa proposta a uma audiência na Presidência da República. E não tenho dúvida de que o presidente será sensível”, completa.
PRÉDIOS ANTIGOS
As demandas são muitas. Do montante estimado de R$ 1,27 bilhão, R$ 840 milhões seriam voltados para anomalias graves de infraestrutura. O estudo mostra que o subfinanciamento crônico dos últimos tempos se soma a um conjunto edificado envelhecido para criar a “tempestade perfeita”: 77% das edificações têm mais de 40 anos. Enquanto 39% dos imóveis foram construídos durante a década de 1970, 38% foram erguidos entre as décadas de 1850 e 1960.
O REAB estipula um índice de reabilitação que varia de 0 a 120, indicando o estado de conservação de cada imóvel e dando a base do cálculo para o custo da reforma.
O caso mais crítico é o prédio da universidade construído na década de 1930 na Praça da República, e que sediou a antiga Escola Eletrotécnica, hoje sem uso. Com índice de reabilitação de 95,51, ele tem problemas graves na cobertura, nos pisos, nos revestimentos e nas instalações hidráulicas e elétricas. O ETU estima o custo da reforma completa do imóvel em R$ 8,8 milhões — a reitoria conseguiu, neste ano, aprovar um projeto de captação de recursos via Programa Nacional de Cultura para a restauração.
Também destaque entre os imóveis com estado de conservação muito ruim está o edifício Jorge Machado Moreira, no Fundão, que abriga a EBA, a FAU e o IPPUR. Com índice de reabilitação de 83,7, ele tem problemas graves nas fundações e estrutura, fechamentos, revestimentos externos e instalações elétricas. Para reforma completa do imóvel, que sofreu dois incêndios — em 2016 e em 2021 — seriam necessários R$ 224,9 milhões, o maior investimento individual de toda a UFRJ.
Para o diretor da EBA, professor Daniel Aguiar, conduzir a unidade em um prédio nestas condições representa um desafio. “A Escola de Belas Artes é uma instituição altamente renomada no seu campo do saber. Temos aqui alguns dos cursos mais bem avaliados da área com um orçamento e uma infraestrutura insuficientes”, avalia.
“Entre docentes, técnicos-administrativos, estudantes e trabalhadores terceirizados somos mais de 3 mil pessoas que convivem diuturnamente com a falta de elevadores, salas sem ar-condicionado e uma sensação de que não somos valorizados à medida do que merecemos”, diz.
100% EM BREVE
“A principal novidade do atual REAB é que conseguimos incluir na análise mais alguns blocos do CCS, um dos maiores da UFRJ”, afirma o diretor do ETU, professor Wagner Ribeiro.
A expectativa da direção do Escritório Técnico é terminar a vistoria em 100% das edificações da universidade ainda neste semestre. “Faltam mais alguns prédios do CCS, o CT 2, anexos do Museu Nacional e o Instituto de Psiquiatria (IPUB), entre outros poucos locais”, diz o professor.
Para o dirigente, o REAB representa uma ferramenta de planejamento importante não só para a equipe da reitoria. “Todos os nossos relatórios são remetidos para as unidades. A manutenção é de responsabilidade de toda a comunidade”, afirma.
Por outro lado, Wagner considera que o projeto também pode ajudar a UFRJ a conseguir mais recursos de investimento junto ao governo. “A partir de agora, estamos cadastrando as obras e o planejamento delas em um sistema do Ministério da Educação, mostrando nossas necessidades”, explica.
Confira, a seguir, a situação de algumas unidades avaliadas pelo REAB, o custo estimado para sua reablitação e de manutenção preventiva anual. Em função da alta demanda das equipes do ETU, nem todas as edificações foram novamente avaliadas em 2025.
ACESSIBILIDADE
O estudo do Escritório Técnico abrirá uma nova frente para a próxima edição: a situação da acessibilidade nos prédios. “No final do ano passado, recebemos um ofício do MEC para informar sobre a situação de acessibilidade das edificações. Mas antes disso, a gente já estava conversando com a Diretoria de Acessibilidade da SGAADA (Superintendência Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade). A perspectiva é incluir no próximo REAB algumas primeiras observações sobre o tema”, afirma o professor Wagner.
CLIQUE COM O BOTÃO DIREITO DO MOUSE NA IMAGEM ABAIXO PARA AMPLIAR EM UMA NOVA GUIA

Foto: Fernando SouzaSobrecarga de trabalho, redução de bolsas de apoio à pesquisa e falta de orientação institucional para atuação junto a alunos e servidores com deficiências. Esses foram os principais temas abordados na reunião entre a diretoria da AdUFRJ e professores do campus de Duque de Caxias, na manhã de segunda-feira (13). O encontro foi a primeira de uma série de visitas do sindicato às unidades para ouvir as demandas dos colegas.
Além das muitas horas de aula que os 64 professores do campus precisam dar conta nos três cursos de graduação e três programas de pós, há um desgaste extra com tarefas administrativas. “Tivemos alguns concursos recentemente aqui e o corpo docente reduzido teve de fazer tudo. O estresse é muito grande”, afirmou o professor William Tavares, que citou outro exemplo do dia a dia. “Adoro dar aulas, mas às vezes não conseguimos dar aula no horário certo, porque temos que correr atrás de cabo HDMI do data-show, limpar ou consertar o equipamento. Precisamos entender melhor nossas atribuições”, completou.
“E agora tudo é no SEI (Sistema Eletrônico de Informações), que tem uma facilidade, mas nos atribui conhecer muito do administrativo. Estamos sobrecarregados”, continuou William. “A gente pensa ser docente-pesquisador e, quando chega aqui, a gente passa boa parte do tempo fazendo gestão ou administração”.
Outra delicada dificuldade enfrentada pelos docentes de Caxias é o crescente número de alunos com deficiências — hoje, somam 21 —, o que tem
impactado no trabalho docente. “Precisamos de treinamento, de outros profissionais mais qualificados que possam atuar em conjunto com psicólogos e neuropsicólogos, e mesmo de alternativas para garantir que o processo de ensino-aprendizagem seja adequado”, explicou Juliany Rodrigues, ex-diretora do campus e agora integrante do Conselho de Representantes da AdUFRJ.
Na maioria dos projetos dos professores do campus, os estudantes precisam defender um trabalho de conclusão de curso experimental, na interface entre a ciência básica e a tecnológica. “Estudantes com determinadas deficiências poderão, e até terão, muitas dificuldades para desenvolver os trabalhos, como aqueles com alguma deficiência física nos membros superiores ou com deficiência visual”, exemplificou Juliany. “Algumas neurodivergências podem causar falta de autonomia e até mesmo déficits cognitivos que impactam a formação, o que pode afetar o trabalho em um laboratório com equipamentos complexos e a manipulação de reagentes químicos perigosos”, completou.
A drástica redução das bolsas de pós-graduação é outro ponto preocupante para os docentes do campus, com programas novos e muitos estudantes de baixa renda. “Se a gente não tem recursos, é degradação de nossa condição de trabalho. Se você tratar igual os desiguais, você será desigual”, observou o professor Karim Dahmouche.
ENCAMINHAMENTOS
O sindicato pretende levar o debate sobre a atuação junto às pessoas com deficiência para a reitoria. Professora da Escola de Química e 2ª secretária da AdUFRJ, Andrea Parente considera que os pontos de sobrecarga docente e acolhimento dos alunos se conectam: “Na minha unidade, também recebemos estudantes atípicos, que pedem mais tempo de prova. E preciso ser duas para arrumar sala para eles fazerem a prova. Nós ficamos perdidos na boa vontade”, concordou. “Acho que a universidade fez um movimento que deve ser apoiado pela inclusão, mas ela exige uma capacitação”, completou o vice-presidente da ADUFRJ, Pedro Lagerblad.
A diretoria da AdUFRJ se solidarizou com os colegas quanto à escassez de bolsas. “Há uma concentração de bolsas. A pessoa que tem bolsa tem três. Outras não têm nenhuma. Não concordamos com isso”, disse a presidenta Ligia Bahia. “Existem programas nota 7 reclamando de cortes também. Essa briga é muito dura. Estamos nos preparando, reunindo informações”, completou.
Sobre os direitos e deveres dos professores, a presidenta da AdUFRJ disse que poderia ser elaborado um documento. “Temos o RJU (Regime Jurídico Único, de todos os servidores federais). Não temos nada específico para dentro da UFRJ. Nosso setor jurídico pode nos ajudar com isso”, afirmou.
Ao final, a docente avaliou de forma positiva o encontro. “Foi uma reunião produtiva para a gente ouvir e se emocionar. Estamos juntos, podemos pensar juntos e assim levar adiante a AdUFRJ”, disse.
Sobre a escassez de bolsas, a pró-reitoria de Pós-graduação e Pesquisa respondeu que o problema é geral e não atinge apenas Caxias. “Tem poucas bolsas, sim, para todo mundo. As bolsas não vão apenas para programas consolidados”, afirmou o pró-reitor João Torres.
Com as chamadas bolsas de Demanda Social, distribuídas pela reitoria, há um esforço para contemplar programas com notas menores. De 2023 a 2025, de acordo com apresentação enviada à reportagem, programas nota 5 receberam mais bolsas de doutorado que os cursos notas 6 e 7. Programas nota 4 receberam mais bolsas de mestrado que cursos notas 5, 6 ou 7.
“Do CNPq, tivemos 41 bolsas de doutorado em março e teremos mais 41, em agosto. É muito menos que uma bolsa por programa”, completou.
ADICIONAL DE INSALUBRIDADE É OUTRA PREOCUPAÇÃO
Os professores de Caxias também manifestaram indignação com a não concessão dos adicionais de insalubridade por parte da universidade. Ou com o pagamento em percentuais diferentes para colegas que trabalham no mesmo laboratório, sob as mesmas condições.
A assessora jurídica da AdUFRJ, Mariana Lindenmeyer, que também acompanhou o encontro em Caxias, afirmou que o tema é recorrente nos atendimentos oferecidos pelo sindicato. “Muitos pedidos são indeferidos pela ausência de perícia administrativa. Uma das ações coletivas que fizemos é para obrigar a UFRJ a fazer. Além disso, fazemos ações individuais”. Para quem quiser tirar dúvidas, a advogada orientou a marcação de um horário no plantão jurídico da AdUFRJ.
Durante a reunião, os docentes receberam informações sobre as ações e planos dos primeiros seis meses de mandato na AdUFRJ — com destaque para a sede do sindicato que será construída na Cidade Universitária —, e os convênios oferecidos.