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No próximo Congresso do Andes, a diretoria da AdUFRJ defenderá a participação ativa e autônoma nas eleições de 2026; a revisão do modelo de ajuste fiscal e descompressão do investimento público em ciência e a soberania nacional em todas as suas dimensões. A delegação ao evento — que acontecerá entre 2 e 6 de março, em Salvador (BA) — será eleita em assembleia marcada para amanhã (veja detalhes aqui). "Lutamos por políticas públicas universais, includentes e novas formas de estarmos juntos, cooperar e imaginar", afirmam todos os diretores, que assinam a íntegra do texto abaixo.
A AdUFRJ e o 44º Congresso do Andes
O contexto que se abre para 2026 exige posicionamentos dos docentes das instituições de ensino superior sobre diversos temas, como os da soberania nacional, as emergências climáticas, o enfraquecimento das políticas de cooperação técnico-científica, do multilateralismo científico e em relação às ações de extermínio e brutalidade da extrema direita, produzidas no Brasil e em diversas partes do mundo. Nós, docentes da UFRJ, vivemos em uma unidade da federação, cujas autoridades governamentais estaduais, não por mera coincidência, promovem chacinas contra populações vulneráveis, ao mesmo tempo que aviltam a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).
Exercemos atividades de ensino, pesquisa e extensão em uma Universidade que ampliou acesso, mas não recebe recursos compatíveis com as necessidades de modernização e expansão de sua capacidade instalada e apoio efetivo a docentes e alunos, desafiados por pressões salariais e dificuldades de frequentar integralmente cursos de graduação e pós-graduação. Nossa carreira tem se tornado pouco atrativa e incentiva uma concorrência predatória entre áreas de conhecimento e mesmo entre colegas em torno da disputa de recursos para pesquisa e bolsas.
Além disso, o processo acelerado de expansão do ensino superior trouxe alterações no modelo de circulação de recursos públicos, hoje concentrado no padrão acrítico de produtividade e inserção nos circuitos científicos internacionais. Contemporaneamente, institutos privados de pesquisa se tornaram lócus de inserção de pesquisadores destacados de universidades públicas. Defendemos que os esforços para intensificar a conexão da Universidade com a formulação, implementação de políticas públicas e movimentos sociais não devem se opor às iniciativas para avaliar qualidade e reforçar a pesquisa e a produção científica nas universidades públicas.
Mais recursos e prioridade para o ensino público gratuito, laico e de qualidade em todos os níveis requerem unidade em torno da luta contra a privatização, indissociabilidade entre educação, ciência, tecnologia e inovação, soberania nacional e isolamento da extrema direita.
É nesse sentido, de resistência e possibilidades de avanços efetivos na educação brasileira, que a AdUFRJ se perfila ao lado da SBPC, ABC e grupos de pesquisas para participar ativa e altivamente nas eleições de 2026.
Atuaremos tanto na formulação de proposições para a entrega aos candidatos, quanto nas campanhas para a eleição de candidaturas majoritárias no primeiro turno e na defesa intransigente dos princípios e valores do direito à educação pública e de qualidade. Não será uma disputa trivial. Estão em jogo violações jurídicas, apropriação de recursos naturais e informações, relativização de direitos constitucionais, massacres e assassinatos perpetrados por forças oficiais. A lista de violações é extensa. Tal como afirmaram manifestantes em Minnesota: “recuar não é uma opção”.
Democracias contemporâneas estão sendo corroídas pela normalização da crueldade, exclusão e pelo negacionismo da história. Extermínio e limpeza étnica são horrores que estão de volta. O recrudescimento do fascismo mobiliza tecnologias digitais, redes sociais e símbolos culturais, que antagonizam valores de solidariedade, cuidado e consciência cívica. Corrupção e terrorismo de Estado sustentam o autoritarismo e a desesperança. Lutamos por políticas públicas universais, includentes e novas formas de estarmos juntos, cooperar e imaginar.
No 44º Congresso do Andes, a AdUFRJ e seus delegados defenderão:
1. participação ativa e autônoma nas eleições de 2026;
2. revisão do modelo de ajuste fiscal e descompressão do investimento público em ciência, cujo retorno econômico, social e ambiental tem sido amplamente comprovado;
3. a soberania nacional em todas as suas dimensões. Desde a revogação definitiva das tentativas de licenciamento ambiental destrutivas e militarização, inclusive do ensino, passando pela soberania digital e inserção do país em entidades multilaterais contra o hegemonismo imperialista.
Andrea Pereira Parente, Daniel Negreiros Conceição, Ligia Bahia, Luisa Andrea Ketzer, Maria Tereza Leopardi Mello, Michel Gherman, Pedro Lagerblad de Oliveira
Diretor da ADUFRJ, o professor Michel Gherman se encontrou hoje em Brasília com o chefe da Assessoria Especial da Presidência da República, Celso Amorim. O objetivo da reunião foi tratar da conferência que o ex-ministro e diplomata fará na UFRJ em 2 de março, com o tema "O Brasil e o cenário internacional para 2026: desafios e oportunidades". O evento, organizado pela ADUFRJ, será no Salão Pedro Calmon, campus da Praia Vermelha, às 18h.
DESTRUIÇÃO. Prédio de Matemática do IVIC foi o mais danificado pelo bombardeio do dia 3 - Fotos: Departamento de Imprensa da USBNo dia 3 de janeiro, o mundo acordou atordoado com a notícia do bombardeio dos Estados Unidos à Venezuela e com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores. O ataque foi precedido de uma série de operações no mar do Caribe com ataques a barcos que supostamente traficavam drogas para o país norte-americano. A “atuação do governo venezuelano como cartel” foi a justificativa utilizada pelo governo de Donald Trump para os bombardeios.
Logo após o ataque à soberania venezuelana e a captura de Maduro, Trump declarou que o petróleo da Venezuela “voltará a ser dos Estados Unidos” e orientou que grandes petrolíferas norte-americanas iniciassem a extração do combustível. O plano, no entanto, encontra resistência. Segundo as empresas consultadas pelo governo Trump, a Venezuela não tem a infraestrutura necessária à exploração do petróleo nacional. Os custos de investimento seriam muito altos. Um preço que o grande capital privado não pretende pagar.
O petróleo, no entanto, está longe de ser a única perda do país. Mais de cem mortos, entre civis e militares, também são consequências diretas do bombardeio em solo venezuelano. A destruição de instalações de infraestrutura também era um objetivo dos ataques, que ainda atingiram instituições de ensino e pesquisa do país. É o que conta o reitor da Universidade Simón Bolívar (USB) e presidente da Sociedade Venezuelana de Física, professor Jorge Stephany. Ele concedeu entrevista ao Jornal da AdUFRJ para falar como a Venezuela busca se reestruturar após os ataques de 3 de janeiro. As instalações do Instituto Venezuelano de Pesquisas Científicas (IVIC, na sigla em espanhol) foram atingidas. “O edifício de Matemática foi o mais afetado, pois entre os alvos estavam as antenas de comunicação que se encontravam ao lado (do prédio) e foram atacadas com mísseis de grande potência”, contou o reitor.
Ele diz que a população tenta seguir adiante, apesar dos traumas. “As pessoas estão tentando retomar suas atividades normais, que, no caso da comunidade científica, incluem pesquisa e ensino, mas as constantes ameaças do agressor estão afetando severamente a produtividade”.
Confira a seguir.
Jornal da AdUFRJ - Como está a infraestrutura de serviços como telefone, água e energia após os bombardeios?
Jorge Stephany - Os ataques foram realizados com muitos recursos e tecnologia avançada, os danos ficaram restritos aos alvos escolhidos, como as instalações da rede elétrica e das empresas de telecomunicações. No dia seguinte ao ataque, a companhia elétrica nacional foi acionada para restabelecer a energia nas áreas afetadas, e as empresas de telecomunicação se concentraram na reconstrução da rede. A maioria das áreas voltou ao normal nas primeiras 48 horas.
O Instituto Venezuelano de Pesquisa Científica (IVIC) foi severamente afetado, com danos em muitos prédios. Quais foram os mais atingidos?
O prédio de Matemática foi o mais afetado, pois as antenas de comunicação localizadas ao lado do edifício estavam entre os alvos e foram atacadas com mísseis de alta potência. A onda de choque afetou o interior do prédio de Matemática e quebrou portas e janelas nos prédios de Física, Química e Ecologia. Danos menores também foram relatados no novo prédio da Universidade de Ciências. Felizmente, os laboratórios de Física Nuclear e Radiofísica da Saúde não foram afetados.
Qual o valor total dos prejuízos ou seu valor aproximado? E o custo da reconstrução das instalações do instituto?
O Ministério da Ciência e Tecnologia e a Direção do IVIC realocaram os pesquisadores afetados em outros espaços e estão avaliando os danos para iniciar a reconstrução. Não é possível neste momento estimar o tempo de reconstrução, pois é preciso avaliar se os prédios sofreram danos estruturais. O governo nacional priorizou a recuperação das áreas afetadas pelos ataques e, em particular, os danos ao IVIC serão reparados sob a supervisão direta da ministra Gabriela Jiménez (da Ciência e Tecnologia).
O que acontece com os recursos e suprimentos de pesquisa danificados? Existe a possibilidade de apoio de outros países?
Desde o governo Barack Obama, a Venezuela tem sido alvo de severas sanções comerciais e financeiras que a impedem de manter sua infraestrutura científica em pleno funcionamento. Os equipamentos perdidos neste ataque agravam o déficit existente. A colaboração internacional deveria ser um canal para tentar solucionar a situação, mas, infelizmente, não tem sido muito eficaz nos últimos anos devido à visão completamente distorcida da Venezuela que outros países propagam por campanhas de desinformação.
Os danos não são apenas físicos, mas também emocionais e impactam as atividades de pesquisa. Como a pesquisa pode ser conduzida em meio a tamanho horror?
De fato, o pior aspecto deste ataque é que a população da Venezuela, um país que não está em guerra com nenhuma outra nação desde a rendição espanhola, precisa conviver com a consciência de que os Estados Unidos da América não hesitam em assassinar 100 ou mais pessoas e bombardear uma cidade para alcançar seus objetivos políticos e econômicos. As pessoas estão tentando retomar suas atividades normais, que, no caso da comunidade científica, incluem pesquisa e ensino, mas as constantes ameaças do agressor estão afetando severamente a produtividade.
Como lidar com o trauma vivenciado pela população e pela comunidade científica?
A população respondeu com grande maturidade à situação, atendendo a todos os apelos por paz e tranquilidade. Não houve violência interna. No entanto, muitas pessoas, especialmente aquelas que vivem nas áreas onde ocorreram os ataques, estão profundamente afetadas.
Os efeitos a longo prazo dos ataques são difíceis de prever, mas como a comunidade científica pode contribuir para a superação dessa crise?
Antes de tudo, devemos evitar que esse ataque exacerbe as divisões que a polarização política vem criando dentro e entre nossos países. A comunidade científica, por outro lado, deve buscar mais e melhores oportunidades de colaboração. E não apenas na busca e aplicação do conhecimento, mas também na consolidação de espaços onde os valores humanísticos que compartilhamos possam florescer e impactar a criação de um mundo melhor do que este em que vivemos. Para isso, é preciso fortalecer todas as iniciativas com objetivos concretos que vêm sendo desenvolvidas no âmbito diplomático e entre pesquisadores em cada área específica.
NOTA DA ADUFRJ: SOLIDARIEDADE AO POVO VENEZUELANO
A diretoria da ADUFRJ assiste com grave preocupação aos eventos relacionados à ação militar dos EUA invadindo a Venezuela, com bombardeios e captura de seu presidente, em grave violação dos princípios basilares de direito internacional – em especial do respeito à soberania nacional e autodeterminação dos povos. Tal operação – e suas “justificativas” oficiais propagadas pelo governo americano – cria um perigoso precedente que banaliza o uso da força como instrumento de política externa, fragiliza o sistema multilateral de governança internacional e coloca em risco as populações atingidas, além de promover a instabilidade e insegurança para os países da região.
Eventuais críticas ao regime político venezuelano de modo algum justificam a violação da soberania nacional, nem a imposição de mudanças políticas pela força de governo externo.
Manifestamos nosso repúdio à invasão e ao uso da força para imposição dos interesses do governo dos EUA na região, bem como nossa solidariedade aos colegas pesquisadores e ao povo venezuelano.
Entendemos que soberania e autodeterminação são princípios fundamentais para uma ordem internacional pacífica e não podem ser relativizados.
Foto: Fatemeh Bahrami/Anadolu/picture allianceO governo do Irã enfrenta protestos em todo o país desde o fim de dezembro. Os manifestantes foram às ruas contra as dificuldades econômicas e as restrições de liberdade impostas pelo regime dos aiatolás. Já o governo responsabiliza inimigos estrangeiros pelos protestos, sobretudo o presidente norte-americano Donald Trump, a quem acusa de infiltrar agentes entre os manifestantes.
Em quase quatro semanas de manifestações, o número de mortos pelas forças de segurança é incerto. O governo restringiu o acesso à internet e às comunicações. A ONG norte-americana HRANA divulgou um total de 3.308 mortos no último sábado (17). Uma fonte do governo iraniano citada pela agência Reuters no domingo (18) falou em 5 mil mortos.
O furor dos protestos arrefeceu nos últimos dias. Por um lado, a forte repressão das forças de segurança parece ter levado muitos a ficarem longe das ruas. O governo também desistiu de executar um jovem manifestante de 26 anos preso nos protestos na cidade de Karaj. Ainda paira no ar a ameaça de uma intervenção dos Estados Unidos no país persa, à qual o Irã promete reagir com força, o que pode levar a um conflito generalizado no Oriente Médio.
Diante de tantas incertezas, o Jornal da AdUFRJ ouviu três professores iranianos que atuam na UFRJ — todos são do Instituto de Matemática. Dois deles foram reticentes em comentar a crise em seu país natal, sobretudo porque se preocupam com suas famílias que estão no Irã. Hamid Hassanzadeh só sabe que seus parentes estão bem porque sua irmã conseguiu sair do país e passar as notícias. “O país está sem internet e sem contato telefônico. Só eu e minha irmã estamos fora, os outros parentes estão no Irã, em Isfahan e outras cidades do interior. Estão todos bem”, disse Hamid. A professora Maral Mostafazadehfard tem família em Teerã e recebeu a notícia de que estão todos em segurança: “Estou muito triste pela situação, e confesso que estou um pouco confusa e ainda não sei de que forma posso ajudar os povos no Irã”, resumiu.
Já o professor Hamidreza Anbarlooei fez um emocionante relato, que reproduzimos a seguir, sobre o reencontro com sua família. O docente também escreveu um artigo (veja abaixo), em que expressa a visão sobre a crise que assola seu país natal.
DEPOIMENTO
professor Hamidreza Anbarlooei
Eu vinha planejando visitar meus país neste mês de janeiro há cerca de seis meses. Mesmo naquela época, a situação no Irã já não era boa, então decidimos nos encontrar na Turquia, onde as coisas estavam mais tranquilas. Meus pais e eu compramos as passagens com base nesse plano.
Cerca de uma semana antes do voo, no entanto, a situação piorou repentinamente. Um dia, enquanto conversávamos pelo WhatsApp sobre o hotel e as coisas que pretendíamos fazer na Turquia, a conexão foi interrompida de forma abrupta. Depois disso, não houve mais nada — sem internet, sem celulares, sem telefones fixos. Tudo ficou fora do ar.
Estávamos ouvindo notícias muito ruins e não havia nenhuma maneira de saber se nossas famílias estavam seguras. Durante cinco dias, não tive informação alguma. Então, um amigo meu que havia deixado o Irã por terra, de carro, conseguiu me ligar. Ele me disse que minha mãe havia conseguido avisá-lo de que eles estavam bem e ainda planejavam viajar. Essa foi a única notícia que tive.
Diante disso, decidi ir para a Turquia e esperar por eles, embora estivesse ouvindo notícias terríveis e testemunhando um grande número de voos cancelados. Eu acompanhava constantemente o FlightRadar, observando quais voos ainda sobrevoavam o Irã e tentando adivinhar se meus pais conseguiriam sair do país.
Cheguei à Turquia no horário e fiquei esperando, observando com ansiedade o painel de chegadas para ver se o voo deles apareceria. Após um dia longo e estressante, eles finalmente chegaram — mas em outro voo. Eles conseguiram comprar novas passagens, muito mais caras, e deixar o país.
Quando aterrissaram e me ligaram pelo WhatsApp, minutos antes eu estava convencido de que tudo tinha acabado e que não conseguiria encontrá-los desta vez. Mas, de repente, eu tinha tudo o que queria.
Jornalistas estão falando em um massacre e relatando que o número de manifestantes mortos pode ter chegado a 12.000. Não sei se esse número é verdadeiro ou não, mas é evidente que o número real de pessoas mortas é muito alto. Todos no Irã estão ansiosos agora, e a situação é completamente instável.
ARTIGO
O Irã enfrenta um colapso nacional. Esta não é uma crise temporária. Este é um ponto de não retorno.
Apenas nos últimos três meses, a moeda iraniana perdeu cerca de 90% de seu valor. Nos últimos cinco anos, desvalorizou-se aproximadamente 15 vezes e, desde o início do atual regime, a moeda entrou em colapso por mais de 22 mil vezes. A inflação está fora de controle, enquanto os salários se tornaram praticamente inúteis. A maioria das pessoas já não consegue acompanhar o custo básico de vida.
O governo controla quase todos os grandes setores econômicos e bloqueia sistematicamente a atuação de indivíduos independentes, empreendedores e empresas privadas. A riqueza é distribuída apenas entre os leais ao regime. O restante da sociedade sobrevive com migalhas.
As sanções, ao contrário do que muitos pensam, tornaram-se um presente para o regime. Como o petróleo não pode ser vendido por canais legais e transparentes, ele é comercializado no mercado negro, onde não há fiscalização. O nível de corrupção nesse sistema é extraordinário. O desaparecimento de 20 bilhões de dólares é tratado como algo normal.
Isso criou uma sociedade profundamente dividida: uma pequena elite ligada ao governo vive como ricos da Europa e dos Estados Unidos, enquanto a maioria dos iranianos luta diariamente para sobreviver. Hoje, muitas pessoas precisam de empréstimos para comprar alimentos básicos como laticínios, arroz e carne, ou até medicamentos essenciais. O desemprego está fora de controle. Não há perspectiva de futuro. A população chegou ao limite.
Como o Irã Chegou a Esse Ponto?
O Irã é um país rico em recursos naturais, mas essa riqueza foi usada para fantasias ideológicas, e não para o bem-estar da população. Bilhões de dólares foram gastos no fortalecimento de grupos regionais aliados, com o objetivo de influenciar a política externa e perseguir metas irreais — como a declarada intenção de eliminar Israel.
O regime armou grupos militantes em todo o Oriente Médio, desperdiçando somas gigantescas na Palestina, Síria, Iraque, Iêmen, Venezuela e outros lugares. Esses investimentos se basearam em uma visão ideológica ultrapassada, facilmente neutralizada por tecnologias militares modernas. O resultado não foi força, mas isolamento — e, por fim, uma guerra com Israel. Dois países separados por várias fronteiras foram arrastados para um conflito, enquanto o povo iraniano paga o preço.
O programa nuclear é outro exemplo. Ao longo de 45 anos, o regime gastou trilhões de dólares nesse projeto. Apesar de enormes sacrifícios e sanções severas, não houve nenhum benefício civil real. Em vez disso, os iranianos perderam acesso ao sistema bancário internacional, a medicamentos, à educação, aos mercados globais e à dignidade. Gerações inteiras viram sua riqueza desaparecer ano após ano. Se esse prejuízo for somado ao longo de quatro décadas, resta quase nada hoje.
O regime também se aliou a agressores globais. Drones iranianos foram enviados à Rússia para atacar a Ucrânia. Para os iranianos, isso é profundamente humilhante. Há mais de 250 anos, a Rússia é vista como um adversário histórico do Irã — e, ainda assim, o regime escolheu apoiá-la militarmente.
Repressão e Brutalidade
Muitos no mundo se lembram dos protestos após a morte de Mahsa Amini e da imposição do uso obrigatório do hijab. A brutalidade do Estado foi visível. Mas o que recebeu menos atenção foi o uso de agentes químicos: gases que provocavam sintomas semelhantes aos da Covid-19 e que foram utilizados contra escolas de meninas durante e após os protestos, como punição coletiva às mulheres.
Imagine um governo usando armas químicas contra suas próprias crianças.
Os protestos atuais são sobre tudo: colapso econômico, autoritarismo religioso, falta de liberdade, desemprego, política externa, guerra e o futuro. Todo iraniano tem pelo menos um motivo para estar nas ruas.
Esses protestos não são estimulados por países estrangeiros, por Israel ou pelos Estados Unidos. Anos antes das tensões regionais atuais, os iranianos já haviam demonstrado repetidamente o desejo de derrubar esse regime. Em 2019, durante protestos contra o aumento do preço dos combustíveis, o governo matou 1.500 pessoas em apenas três dias — um número de mortos comparável ao de uma guerra de vários dias.
Mas desta vez é diferente.
Os iranianos entenderam que esta é a última linha. Se a mudança não acontecer agora, não haverá futuro.
Protestos massivos tomaram conta de todo o país — das grandes cidades a cidades pequenas que muitos fora do Irã sequer conheciam. Todos estão nas ruas.
O governo cortou todo o acesso à internet, às redes de celular e às linhas telefônicas. Um apagão total. Nenhuma comunicação. Nenhuma informação. Com base em experiências anteriores, tememos que, nas próximas semanas, o mundo descubra a dimensão da violência cometida durante esse silêncio.
Uma mensagem ao povo brasileiro
Pedimos urgentemente ao povo do Brasil que fique ao lado do povo iraniano. Pressionem seu governo para que enxergue o que realmente está acontecendo. Não permitam que a propaganda da República Islâmica distorça a realidade — não deixem que os iranianos sejam retratados como agentes estrangeiros ou inimigos da estabilidade.
Os verdadeiros herdeiros do Irã são seu povo. Eles lutam por dignidade, liberdade e sobrevivência.
O silêncio de hoje será lembrado amanhã.
Kelvin Melo e Silvana SáAlém das universidades, o governo Lula recompôs os orçamentos da Capes e do CNPq. A medida foi bastante comemorada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pela Academia Brasileira de Ciências (ABC).
As entidades divulgaram uma nota conjunta no dia seguinte à medida: “A ABC e a SBPC reconhecem o esforço do governo em reconstruir o financiamento da educação superior e da ciência e apostam que essa recomposição represente o início de um novo ciclo de valorização das universidades, da pós-graduação e da pesquisa científica”, diz um trecho.
Antes da recomposição, deputados e senadores haviam reduzido o orçamento do CNPq em R$ 92,4 milhões, em relação à proposta do Executivo. A Capes havia perdido R$ 359,3 milhões.
“Isso demonstra que estas pautas estão entre as prioridades do atual governo”, afirmou a presidente da SBPC, professora Francilene Garcia, à reportagem. “Mas precisamos de um orçamento mais adequado aos desafios (da área)”, completou.
A presidente da SBPC cobra mais investimentos e continuidade, algo que não cabe no atual modelo de negociação do orçamento. “Fora do ambiente do FNDCT (Fundo Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico), você não consegue fazer um planejamento para três, quatro ou mais anos em algumas áreas”, argumenta. “Para dar um exemplo, se o Brasil quiser daqui a dez anos estar na linha de frente da área das tecnologias quânticas, precisa investir de forma robusta e continuada desde agora”.
Para ajudar a pensar uma nova forma de financiamento da ciência e de olho nas eleições no fim do ano, a SBPC realiza um seminário nesta sexta-feira (23). “A cada ano de eleições federais, fazemos um debate com comunidade científica para apresentar pautas aos candidatos. Este será sobre orçamento. Em meados de abril, vamos lançar uma publicação com o resultado dessas discussões”, afirma Francilene.
Presidente da ABC, a professora Helena Nader celebrou a recomposição, mas também reforçou a necessidade de mais recursos para o setor: “Os valores ainda estão aquém do ideal que o Brasil precisa”, disse.
“Se você olhar, o país tem um número de doutores e engenheiros por população muito abaixo de outros países da América Latina. Quando você compara com os países desenvolvidos, é mais abaixo ainda. Então o Brasil teria que estar formando mais recursos humanos”, completou.
EDUCAÇÃO VALORIZADA
O Ministério da Educação recebeu uma recomposição de R$ 977 milhões. Os valores serão destinados à formação técnica e superior. Desse total, R$ 488 milhões serão usados no custeio das universidades federais, enquanto R$ 230 milhões irão para a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Também serão destinados R$ 218 milhões para obras do Programa de Acaleração do Crescimento (PAC) que engloba infraestrutura para as instituições de ensino.
Ministro da Educação, Camilo Santana declarou que a devolução de valores cortados pelo Legislativo revela o compromisso do governo em defesa da educação. “Vamos continuar na luta para que cada vez mais a gente possa aumentar os recursos para as nossas instituições”, afirmou Santana.
A Capes, instituição de fomento à pesquisa ligada ao MEC, ainda não recebeu a recomposição integral dos valores. Dos R$ 359,3 milhões cortados, o governo restabeleceu R$ 230 milhões neste primeiro momento.
Apesar do valor parcial, a recomposição é uma boa notícia para a presidente da instituição, professora Denise Pires de Carvalho. “A Capes recebe a notícia com entusiasmo, porque os cortes efetuados pelo Parlamento foram muito duros e sem nenhuma razão, uma vez que executamos totalmente o orçamento de 2025 com muita responsabilidade e apoio do ministro Camilo Santana”, conta a dirigente. “Desde que soubemos dos cortes orçamentários no final de 2025, temos trabalhado incessantemente para que pudéssemos ter o orçamento recomposto”, diz.
A restauração do orçamento ajudará a agência a manter as bolsas de estudo e os contratos. ”Ainda não tivemos o valor total recomposto, mas este movimento do Executivo no primeiro mês do ano demonstra claramente a prioridade que o atual governo dá à Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação”, celebra Denise. “Se os cortes fossem mantidos, não conseguríamos honrar bolsas e contratos até dezembro”.
Para a coordenadora do Observatório do Conhecimento, professora Mayra Goulart, a movimentação célere do governo federal para restabelecer o orçamento das instituições de ensino e pesquisa mostra que governo e Congresso têm visões distintas sobre a política. “O Congresso tem uma visão solapsista, muito mais voltada para seus próprios interesses”, avalia a cientista política. “Enquanto o governo mantém uma perspectiva republicana”, diz.
Para a docente, a atuação do Observatório ao denunciar os cortes do chamado orçamento do conhecimento ajuda a sociedade a compreender a dimensão dessas perdas. “É um tema transversal a todos os setores republicanos, não só os ligados à esquerda. É uma questão relacionada ao desenvolvimento do país”, defende.
Presidenta da AdUFRJ, a professora Ligia Bahia também elogia a recomposição anunciada pelo governo. “É uma notícia que causou alívio. Entretanto, sabemos que necessário não é sinônimo de suficiente”, ressalta.
Ligia avalia que a conjuntura política internacional mostra a urgência do investimento em Ciência e Tecnologia. “Nesse momento no qual as tensões mundiais se agudizam, fica totalmente evidente a impossibilidade de avançar as fronteiras do desenvolvimento, sustentabilidade e paz sem investimento no conhecimento”, afirma a dirigente.
O CNPq e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – a pasta recebeu uma recomposição de R$ 186,3 milhões destinados exclusivamente à agência de fomento – não responderam aos questionamentos da reportagem até o fechamento desta edição.