Foto: Fatemeh Bahrami/Anadolu/picture allianceO governo do Irã enfrenta protestos em todo o país desde o fim de dezembro. Os manifestantes foram às ruas contra as dificuldades econômicas e as restrições de liberdade impostas pelo regime dos aiatolás. Já o governo responsabiliza inimigos estrangeiros pelos protestos, sobretudo o presidente norte-americano Donald Trump, a quem acusa de infiltrar agentes entre os manifestantes.
Em quase quatro semanas de manifestações, o número de mortos pelas forças de segurança é incerto. O governo restringiu o acesso à internet e às comunicações. A ONG norte-americana HRANA divulgou um total de 3.308 mortos no último sábado (17). Uma fonte do governo iraniano citada pela agência Reuters no domingo (18) falou em 5 mil mortos.
O furor dos protestos arrefeceu nos últimos dias. Por um lado, a forte repressão das forças de segurança parece ter levado muitos a ficarem longe das ruas. O governo também desistiu de executar um jovem manifestante de 26 anos preso nos protestos na cidade de Karaj. Ainda paira no ar a ameaça de uma intervenção dos Estados Unidos no país árabe, à qual o Irã promete reagir com força, o que pode levar a um conflito generalizado no Oriente Médio.
Diante de tantas incertezas, o Jornal da AdUFRJ ouviu três professores iranianos que atuam na UFRJ — todos são do Instituto de Matemática. Dois deles foram reticentes em comentar a crise em seu país natal, sobretudo porque se preocupam com suas famílias que estão no Irã. Hamid Hassanzadeh só sabe que seus parentes estão bem porque sua irmã conseguiu sair do país e passar as notícias. “O país está sem internet e sem contato telefônico. Só eu e minha irmã estamos fora, os outros parentes estão no Irã, em Isfahan e outras cidades do interior. Estão todos bem”, disse Hamid. A professora Maral Mostafazadehfard tem família em Teerã e recebeu a notícia de que estão todos em segurança: “Estou muito triste pela situação, e confesso que estou um pouco confusa e ainda não sei de que forma posso ajudar os povos no Irã”, resumiu.
Já o professor Hamidreza Anbarlooei fez um emocionante relato, que reproduzimos a seguir, sobre o reencontro com sua família. O docente também escreveu um artigo (veja abaixo), em que expressa a visão sobre a crise que assola seu país natal.
DEPOIMENTO
professor Hamidreza Anbarlooei
Eu vinha planejando visitar meus país neste mês de janeiro há cerca de seis meses. Mesmo naquela época, a situação no Irã já não era boa, então decidimos nos encontrar na Turquia, onde as coisas estavam mais tranquilas. Meus pais e eu compramos as passagens com base nesse plano.
Cerca de uma semana antes do voo, no entanto, a situação piorou repentinamente. Um dia, enquanto conversávamos pelo WhatsApp sobre o hotel e as coisas que pretendíamos fazer na Turquia, a conexão foi interrompida de forma abrupta. Depois disso, não houve mais nada — sem internet, sem celulares, sem telefones fixos. Tudo ficou fora do ar.
Estávamos ouvindo notícias muito ruins e não havia nenhuma maneira de saber se nossas famílias estavam seguras. Durante cinco dias, não tive informação alguma. Então, um amigo meu que havia deixado o Irã por terra, de carro, conseguiu me ligar. Ele me disse que minha mãe havia conseguido avisá-lo de que eles estavam bem e ainda planejavam viajar. Essa foi a única notícia que tive.
Diante disso, decidi ir para a Turquia e esperar por eles, embora estivesse ouvindo notícias terríveis e testemunhando um grande número de voos cancelados. Eu acompanhava constantemente o FlightRadar, observando quais voos ainda sobrevoavam o Irã e tentando adivinhar se meus pais conseguiriam sair do país.
Cheguei à Turquia no horário e fiquei esperando, observando com ansiedade o painel de chegadas para ver se o voo deles apareceria. Após um dia longo e estressante, eles finalmente chegaram — mas em outro voo. Eles conseguiram comprar novas passagens, muito mais caras, e deixar o país.
Quando aterrissaram e me ligaram pelo WhatsApp, minutos antes eu estava convencido de que tudo tinha acabado e que não conseguiria encontrá-los desta vez. Mas, de repente, eu tinha tudo o que queria.
Jornalistas estão falando em um massacre e relatando que o número de manifestantes mortos pode ter chegado a 12.000. Não sei se esse número é verdadeiro ou não, mas é evidente que o número real de pessoas mortas é muito alto. Todos no Irã estão ansiosos agora, e a situação é completamente instável.
ARTIGO
O Irã Chegou ao Ponto de Não Retorno
O Irã enfrenta um colapso nacional. Esta não é uma crise temporária. Este é um ponto de não retorno.
Apenas nos últimos três meses, a moeda iraniana perdeu cerca de 90% de seu valor. Nos últimos cinco anos, desvalorizou-se aproximadamente 15 vezes e, desde o início do atual regime, a moeda entrou em colapso por mais de 22 mil vezes. A inflação está fora de controle, enquanto os salários se tornaram praticamente inúteis. A maioria das pessoas já não consegue acompanhar o custo básico de vida.
O governo controla quase todos os grandes setores econômicos e bloqueia sistematicamente a atuação de indivíduos independentes, empreendedores e empresas privadas. A riqueza é distribuída apenas entre os leais ao regime. O restante da sociedade sobrevive com migalhas.
As sanções, ao contrário do que muitos pensam, tornaram-se um presente para o regime. Como o petróleo não pode ser vendido por canais legais e transparentes, ele é comercializado no mercado negro, onde não há fiscalização. O nível de corrupção nesse sistema é extraordinário. O desaparecimento de 20 bilhões de dólares é tratado como algo normal.
Isso criou uma sociedade profundamente dividida: uma pequena elite ligada ao governo vive como ricos da Europa e dos Estados Unidos, enquanto a maioria dos iranianos luta diariamente para sobreviver. Hoje, muitas pessoas precisam de empréstimos para comprar alimentos básicos como laticínios, arroz e carne, ou até medicamentos essenciais. O desemprego está fora de controle. Não há perspectiva de futuro. A população chegou ao limite.
Como o Irã Chegou a Esse Ponto?
O Irã é um país rico em recursos naturais, mas essa riqueza foi usada para fantasias ideológicas, e não para o bem-estar da população. Bilhões de dólares foram gastos no fortalecimento de grupos regionais aliados, com o objetivo de influenciar a política externa e perseguir metas irreais — como a declarada intenção de eliminar Israel.
O regime armou grupos militantes em todo o Oriente Médio, desperdiçando somas gigantescas na Palestina, Síria, Iraque, Iêmen, Venezuela e outros lugares. Esses investimentos se basearam em uma visão ideológica ultrapassada, facilmente neutralizada por tecnologias militares modernas. O resultado não foi força, mas isolamento — e, por fim, uma guerra com Israel. Dois países separados por várias fronteiras foram arrastados para um conflito, enquanto o povo iraniano paga o preço.
O programa nuclear é outro exemplo. Ao longo de 45 anos, o regime gastou trilhões de dólares nesse projeto. Apesar de enormes sacrifícios e sanções severas, não houve nenhum benefício civil real. Em vez disso, os iranianos perderam acesso ao sistema bancário internacional, a medicamentos, à educação, aos mercados globais e à dignidade. Gerações inteiras viram sua riqueza desaparecer ano após ano. Se esse prejuízo for somado ao longo de quatro décadas, resta quase nada hoje.
O regime também se aliou a agressores globais. Drones iranianos foram enviados à Rússia para atacar a Ucrânia. Para os iranianos, isso é profundamente humilhante. Há mais de 250 anos, a Rússia é vista como um adversário histórico do Irã — e, ainda assim, o regime escolheu apoiá-la militarmente.
Repressão e Brutalidade
Muitos no mundo se lembram dos protestos após a morte de Mahsa Amini e da imposição do uso obrigatório do hijab. A brutalidade do Estado foi visível. Mas o que recebeu menos atenção foi o uso de agentes químicos: gases que provocavam sintomas semelhantes aos da Covid-19 e que foram utilizados contra escolas de meninas durante e após os protestos, como punição coletiva às mulheres.
Imagine um governo usando armas químicas contra suas próprias crianças.
Os protestos atuais são sobre tudo: colapso econômico, autoritarismo religioso, falta de liberdade, desemprego, política externa, guerra e o futuro. Todo iraniano tem pelo menos um motivo para estar nas ruas.
Esses protestos não são estimulados por países estrangeiros, por Israel ou pelos Estados Unidos. Anos antes das tensões regionais atuais, os iranianos já haviam demonstrado repetidamente o desejo de derrubar esse regime. Em 2019, durante protestos contra o aumento do preço dos combustíveis, o governo matou 1.500 pessoas em apenas três dias — um número de mortos comparável ao de uma guerra de vários dias.
Mas desta vez é diferente.
Os iranianos entenderam que esta é a última linha. Se a mudança não acontecer agora, não haverá futuro.
Protestos massivos tomaram conta de todo o país — das grandes cidades a cidades pequenas que muitos fora do Irã sequer conheciam. Todos estão nas ruas.
O governo cortou todo o acesso à internet, às redes de celular e às linhas telefônicas. Um apagão total. Nenhuma comunicação. Nenhuma informação. Com base em experiências anteriores, tememos que, nas próximas semanas, o mundo descubra a dimensão da violência cometida durante esse silêncio.
Uma mensagem ao povo brasileiro
Pedimos urgentemente ao povo do Brasil que fique ao lado do povo iraniano. Pressionem seu governo para que enxergue o que realmente está acontecendo. Não permitam que a propaganda da República Islâmica distorça a realidade — não deixem que os iranianos sejam retratados como agentes estrangeiros ou inimigos da estabilidade.
Os verdadeiros herdeiros do Irã são seu povo. Eles lutam por dignidade, liberdade e sobrevivência.
O silêncio de hoje será lembrado amanhã.





