Accessibility Tools
Foto: DivulgaçãoA exuberância da Floresta da Tijuca, uma das mais belas e conservadas porções da Mata Atlântica do país, se deve em boa parte ao trabalho de um morador ilustre daquelas matas, também ele um exemplo de beleza e conservação: o tucano-de-bico-preto. Reintroduzido no Parque Nacional da Tijuca (PNT) no início dos anos 1970, depois de praticamente desaparecido da fauna carioca por conta do desmatamento, o animal não só recuperou seu espaço na floresta como vem contribuindo para a proliferação de espécies vegetais nativas e ameaçadas de extinção na Mata Atlântica, como a palmeira-juçara. O sucesso da reintrodução do tucano-de-bico-preto no Parque Nacional da Tijuca e a importância de sua ação como dispersor de sementes são avaliados em um estudo liderado por pesquisadoras do Instituto de Biologia da UFRJ (IB/UFRJ), publicado em fevereiro na revista científica sueca Oikos. Principal autora do estudo, a bióloga Flávia Zagury destaca que a reintrodução da ave recuperou, em média, 76% das interações de frugivoria (consumo de frutos e dispersão de sementes) no Parque, no período de um ano de análise. Para as interações com sementes médias e grandes o resultado é ainda mais expressivo: 89% e 88%, respectivamente. Os tucanos são ótimos dispersores de sementes. Eles conseguem consumir frutos de vários tamanhos, e voam longas distâncias. “A dispersão de sementes é um processo muito importante nos ecossistemas”, explica Flávia, doutoranda no Programa de Pós-graduação em Ecologia do IB. Ela explica que que a Floresta da Tijuca, assim como outras áreas remanescentes de Mata Atlântica, é um ecossistema defaunado. “Ou seja, por ter passado por um processo de degradação, perdeu muitas espécies de mamíferos e de aves, sobretudo as de maior porte, como os tucanos. E, sem esses animais, as plantas que têm sementes de frutos médios e grandes perdem os seus dispersores. Os resultados desse estudo revelam que há um grande potencial de recuperação dessas interações”, avalia.
TRABALHO PIONEIRO
A história do estudo liderado pelas pesquisadoras da UFRJ começa no fim dos anos 1960, com a apreensão em massa de tucanos-de-bico-preto no comércio ilegal por agentes do então Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), o atual Ibama. E tem um personagem central: o biólogo cearense Adelmar Coimbra-Filho (leia box com perfil do pesquisador). Ao lado de Antonio Aldrighi, então diretor do PNT, Coimbra-Filho foi o responsável pela reintrodução de 47 tucanos-de-bico-preto na área do Parque, entre os anos de 1970 e 1973. Todos apreendidos no comércio ilegal. Em um trabalho publicado em 2000, o próprio Coimbra-Filho assim descreveu suas impressões sobre a reintrodução: “Após as solturas, os tucanos voavam imediatamente para árvores mais altas, onde permaneciam algum tempo, ocasião em que alguns emitiam suas inconfundíveis vocalizações, hoje frequentes nas matas da região. Aos poucos afastavam-se pelas ramagens do arvoredo da floresta, procurando alcançar as partes mais altas, de onde voavam e desapareciam da nossa vista”. Apaixonado pelo trabalho de Coimbra-Filho, Flávia Zagury tem orgulho em poder resgatar e avançar nas pesquisas com os tucanos-de-bico-preto. “O trabalho dele foi pioneiro e rende frutos até hoje. A população proveniente da reintrodução conduzida por Coimbra-Filho e Antonio Aldrighi já recuperou grande parte das interações de frugívora esperadas”, diz Flávia. De acordo com a bióloga, por ser uma ave de grande porte e capaz de voar longas distâncias, o tucano-de-bico-preto consegue dispersar sementes para novas áreas por meio da zoocoria — os animais ingerem frutos e dispersam as sementes longe da planta-mãe. “Para este estudo, fizemos observações em campo durante um ano para verificar com quais espécies a população de tucanos-de-bico-preto, proveniente da reintrodução, estava interagindo em termos de frugívora. Seguimos indivíduos ou bandos de tucanos durante o máximo de tempo possível, observando e anotando todas as espécies de fruto que eles consumiam. Totalizamos cerca de 520 horas em campo”.
NOVOS ESTUDOS
Para a professora Rita Portela (IB/UFRJ), outra autora do estudo, a pesquisa tem um viés de continuidade e resgate do trabalho feito por Coimbra-Filho nos anos 1970. “As reintroduções feitas na Floresta da Tijuca são muito recentes, casos dos bugios e das araras. Essa dos tucanos feita pelo Coimbra-Filho é a que temos um histórico mais longo, nos mostra como essas reintroduções são viáveis e como são importantes para a restauração das interações e funcionalidades da floresta”, explica a docente. “O tucano é um dispersor muito eficiente de sementes grandes, e essas sementes são de árvores que acumulam muito carbono. Esse é um outro fator importante da restauração dessa interação, já que essa dispersão seria muito pequena sem a ação de animais como os tucanos”, diz Rita. No estudo, os pesquisadores utilizaram a abordagem de “crédito de interações”, que se baseia na ideia de que, ao reintroduzir uma espécie localmente extinta, não apenas a espécie retorna ao ambiente, mas ela também tem o potencial de trazer de volta interações ecológicas que foram perdidas com a sua extinção. O tucano-de-bico-preto chegou a ser considerado extinto na área do PNT em 1968. Além de Flávia e Rita, assinam o estudo os professores Henrique Rajão (PUC-RJ), Ângelo Corrêa (USP) e Luisa Genes (Stanford University). Em sua pesquisa de doutorado, Flávia Zagury quer ir além. “Uma das espécies que a gente mais constatou como alimento dos tucanos-de-bico-preto foi a palmeira-juçara. No meu doutorado eu ampliei a gama de olhares para entender as interações ecológicas da palmeira-juçara na Floresta da Tijuca e no Poço das Antas (reserva biológica no interior fluminense). Tento entender o quanto cada espécie, como o tucano-de-bico-preto, está colaborando para aumentar a população da juçara, por meio da dispersão de sementes”, diz Flávia. Mais uma vez passado, presente e futuro se unem: a reserva de Poço das Antas foi criada a partir do trabalho de Adelmar Coimbra-Filho. A bióloga passa mais tempo em campo do que em laboratório. “Não é fácil trabalhar com tucanos, muito menos seguir os animais na floresta. Eles fazem ninhos em cavidades de árvore, você tem que escalar para conseguir monitorar”, conta. “De início fizemos esse trabalho no Jardim Botânico do Rio. Foi aí que começou a minha história com os tucanos-de-bico-preto. Eu vejo essas aves como um grande exemplo da história do Rio de Janeiro, da exploração que tivemos de nossas florestas, do desmatamento, até a recuperação que temos tido nos últimos tempos, com a refauna”, compara a pesquisadora.
E que os tucanos-de-bico-preto voem cada vez mais longe.
Embora tenha feito um trabalho notável com os tucanos-de-bico-preto na área do PNT, o biólogo Adelmar Faria Coimbra-Filho é mais conhecido por suas ações de preservação de outro animal: o mico-leão-dourado. Que, por sinal, era por ele chamado de sauí-piranga, que significa “primata vermelho” em tupi-guarani.
Considerado um dos maiores conservacionistas do Brasil, Coimbra-Filho foi o responsável pela criação da Reserva Biológica de Poços das Antas, em Silva Jardim (RJ), a primeira do gênero do país, em 1974. É lá que o sauí-piranga, antes ameaçado de extinção, vive em harmonia com a natureza.
Nascido em Fortaleza em 1924, Coimbra-Filho iniciou sua vida profissional no Rio de Janeiro, onde estudou História Natural e Zoologia, e desenvolveu trabalhos em áreas como Primatologia, Biologia de Vertebrados, Biogeografia e Conservação de Ecossistemas Naturais. Foi o primeiro diretor do Parque Florestal da Gávea (atual Parque da Cidade), em 1947. Depois de ocupar diversos cargos em instituições como o Jardim Zoológico do Rio de Janeiro e o Serviço de Parques e Reservas Biológicas, do antigo Estado da Guanabara, o biólogo dedicou-se ao estudo dos primatas — além da reserva de Poço das Antas, ele criou e foi o primeiro diretor do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro (CPRJ), em 1979.
O CPRJ tem como principal objetivo assegurar a continuidade das espécies, por meio de um banco genético que dá suporte às colônias de primatas brasileiros. O centro cria somente primatas de espécies nativas do Brasil, com atenção especial para aquelas sob algum risco de ameaça de extinção. Por essas iniciativas, Coimbra-Filho é considerado “o pai da primatologia brasileira”. O biólogo faleceu no Rio de Janeiro aos 92 anos, em 2016.
Seria necessário R$ 1,27 bilhão para reabilitar completamente 90,3% das edificações da UFRJ, ou 142 prédios. A impressionante cifra, que representa três vezes o orçamento discricionário (R$ 410 milhões) da instituição, é a estimativa mais recente de um levantamento realizado pelo Escritório Técnico da Universidade (ETU).
O chamado REAB, Programa de Avaliação de Reabilitação dos Bens Imóveis, está em sua quarta edição. O estudo de 2023 apontava um custo de R$ 795,7 milhões para recuperar 52% de toda área construída. Em janeiro de 2025, era de R$ 1,05 bilhão o custo da reabilitação total dos espaços avaliados até então (76%).
“O estudo liderado pelo Escritório Técnico tem sido fundamental para conhecermos a situação de nossas edificações. Infelizmente, algumas delas precisam de uma reabilitação muito grande”, afirma o reitor da UFRJ, professor Roberto Medronho. “E esse dinheiro é para voltar ao que era, não é para modernizar, não é para fazer nada novo. É para que possamos dar a devida dignidade das condições de trabalho e ensino para nosso corpo social”.
Além de solicitar verbas suplementares e emendas parlamentares, a administração central estuda uma iniciativa inédita para tentar resolver o drama da infraestrutura. “Temos um projeto disruptivo chamado ‘Do fundo do mar ao topo do conhecimento’. A proposta é que no próximo leilão do pré-sal, em vez de o governo receber dinheiro, haja a contrapartida de uma pequena fração para investimento em obras nas nossas edificações. São leilões de bilhões de dólares”, diz Medronho.
A justificativa para o ganho seriam as pesquisas da universidade em apoio à exploração do petróleo no Brasil. “Como pode a UFRJ, que ajudou este país a prospectar petróleo em águas profundas e ultraprofundas, estar nesta situação? Se fazemos tudo que fazemos com esses parcos recursos, imagine se tivéssemos orçamento justo para exercer a nossa missão”, afirma o reitor. “Estamos articulando para levar essa proposta a uma audiência na Presidência da República. E não tenho dúvida de que o presidente será sensível”, completa.
PRÉDIOS ANTIGOS
As demandas são muitas. Do montante estimado de R$ 1,27 bilhão, R$ 840 milhões seriam voltados para anomalias graves de infraestrutura. O estudo mostra que o subfinanciamento crônico dos últimos tempos se soma a um conjunto edificado envelhecido para criar a “tempestade perfeita”: 77% das edificações têm mais de 40 anos. Enquanto 39% dos imóveis foram construídos durante a década de 1970, 38% foram erguidos entre as décadas de 1850 e 1960.
O REAB estipula um índice de reabilitação que varia de 0 a 120, indicando o estado de conservação de cada imóvel e dando a base do cálculo para o custo da reforma.
O caso mais crítico é o prédio da universidade construído na década de 1930 na Praça da República, e que sediou a antiga Escola Eletrotécnica, hoje sem uso. Com índice de reabilitação de 95,51, ele tem problemas graves na cobertura, nos pisos, nos revestimentos e nas instalações hidráulicas e elétricas. O ETU estima o custo da reforma completa do imóvel em R$ 8,8 milhões — a reitoria conseguiu, neste ano, aprovar um projeto de captação de recursos via Programa Nacional de Cultura para a restauração.
Também destaque entre os imóveis com estado de conservação muito ruim está o edifício Jorge Machado Moreira, no Fundão, que abriga a EBA, a FAU e o IPPUR. Com índice de reabilitação de 83,7, ele tem problemas graves nas fundações e estrutura, fechamentos, revestimentos externos e instalações elétricas. Para reforma completa do imóvel, que sofreu dois incêndios — em 2016 e em 2021 — seriam necessários R$ 224,9 milhões, o maior investimento individual de toda a UFRJ.
Para o diretor da EBA, professor Daniel Aguiar, conduzir a unidade em um prédio nestas condições representa um desafio. “A Escola de Belas Artes é uma instituição altamente renomada no seu campo do saber. Temos aqui alguns dos cursos mais bem avaliados da área com um orçamento e uma infraestrutura insuficientes”, avalia.
“Entre docentes, técnicos-administrativos, estudantes e trabalhadores terceirizados somos mais de 3 mil pessoas que convivem diuturnamente com a falta de elevadores, salas sem ar-condicionado e uma sensação de que não somos valorizados à medida do que merecemos”, diz.
100% EM BREVE
“A principal novidade do atual REAB é que conseguimos incluir na análise mais alguns blocos do CCS, um dos maiores da UFRJ”, afirma o diretor do ETU, professor Wagner Ribeiro.
A expectativa da direção do Escritório Técnico é terminar a vistoria em 100% das edificações da universidade ainda neste semestre. “Faltam mais alguns prédios do CCS, o CT 2, anexos do Museu Nacional e o Instituto de Psiquiatria (IPUB), entre outros poucos locais”, diz o professor.
Para o dirigente, o REAB representa uma ferramenta de planejamento importante não só para a equipe da reitoria. “Todos os nossos relatórios são remetidos para as unidades. A manutenção é de responsabilidade de toda a comunidade”, afirma.
Por outro lado, Wagner considera que o projeto também pode ajudar a UFRJ a conseguir mais recursos de investimento junto ao governo. “A partir de agora, estamos cadastrando as obras e o planejamento delas em um sistema do Ministério da Educação, mostrando nossas necessidades”, explica.
Confira, a seguir, a situação de algumas unidades avaliadas pelo REAB, o custo estimado para sua reablitação e de manutenção preventiva anual. Em função da alta demanda das equipes do ETU, nem todas as edificações foram novamente avaliadas em 2025.
ACESSIBILIDADE
O estudo do Escritório Técnico abrirá uma nova frente para a próxima edição: a situação da acessibilidade nos prédios. “No final do ano passado, recebemos um ofício do MEC para informar sobre a situação de acessibilidade das edificações. Mas antes disso, a gente já estava conversando com a Diretoria de Acessibilidade da SGAADA (Superintendência Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade). A perspectiva é incluir no próximo REAB algumas primeiras observações sobre o tema”, afirma o professor Wagner.
CLIQUE COM O BOTÃO DIREITO DO MOUSE NA IMAGEM ABAIXO PARA AMPLIAR EM UMA NOVA GUIA

Foto: Fernando SouzaSobrecarga de trabalho, redução de bolsas de apoio à pesquisa e falta de orientação institucional para atuação junto a alunos e servidores com deficiências. Esses foram os principais temas abordados na reunião entre a diretoria da AdUFRJ e professores do campus de Duque de Caxias, na manhã de segunda-feira (13). O encontro foi a primeira de uma série de visitas do sindicato às unidades para ouvir as demandas dos colegas.
Além das muitas horas de aula que os 64 professores do campus precisam dar conta nos três cursos de graduação e três programas de pós, há um desgaste extra com tarefas administrativas. “Tivemos alguns concursos recentemente aqui e o corpo docente reduzido teve de fazer tudo. O estresse é muito grande”, afirmou o professor William Tavares, que citou outro exemplo do dia a dia. “Adoro dar aulas, mas às vezes não conseguimos dar aula no horário certo, porque temos que correr atrás de cabo HDMI do data-show, limpar ou consertar o equipamento. Precisamos entender melhor nossas atribuições”, completou.
“E agora tudo é no SEI (Sistema Eletrônico de Informações), que tem uma facilidade, mas nos atribui conhecer muito do administrativo. Estamos sobrecarregados”, continuou William. “A gente pensa ser docente-pesquisador e, quando chega aqui, a gente passa boa parte do tempo fazendo gestão ou administração”.
Outra delicada dificuldade enfrentada pelos docentes de Caxias é o crescente número de alunos com deficiências — hoje, somam 21 —, o que tem
impactado no trabalho docente. “Precisamos de treinamento, de outros profissionais mais qualificados que possam atuar em conjunto com psicólogos e neuropsicólogos, e mesmo de alternativas para garantir que o processo de ensino-aprendizagem seja adequado”, explicou Juliany Rodrigues, ex-diretora do campus e agora integrante do Conselho de Representantes da AdUFRJ.
Na maioria dos projetos dos professores do campus, os estudantes precisam defender um trabalho de conclusão de curso experimental, na interface entre a ciência básica e a tecnológica. “Estudantes com determinadas deficiências poderão, e até terão, muitas dificuldades para desenvolver os trabalhos, como aqueles com alguma deficiência física nos membros superiores ou com deficiência visual”, exemplificou Juliany. “Algumas neurodivergências podem causar falta de autonomia e até mesmo déficits cognitivos que impactam a formação, o que pode afetar o trabalho em um laboratório com equipamentos complexos e a manipulação de reagentes químicos perigosos”, completou.
A drástica redução das bolsas de pós-graduação é outro ponto preocupante para os docentes do campus, com programas novos e muitos estudantes de baixa renda. “Se a gente não tem recursos, é degradação de nossa condição de trabalho. Se você tratar igual os desiguais, você será desigual”, observou o professor Karim Dahmouche.
ENCAMINHAMENTOS
O sindicato pretende levar o debate sobre a atuação junto às pessoas com deficiência para a reitoria. Professora da Escola de Química e 2ª secretária da AdUFRJ, Andrea Parente considera que os pontos de sobrecarga docente e acolhimento dos alunos se conectam: “Na minha unidade, também recebemos estudantes atípicos, que pedem mais tempo de prova. E preciso ser duas para arrumar sala para eles fazerem a prova. Nós ficamos perdidos na boa vontade”, concordou. “Acho que a universidade fez um movimento que deve ser apoiado pela inclusão, mas ela exige uma capacitação”, completou o vice-presidente da ADUFRJ, Pedro Lagerblad.
A diretoria da AdUFRJ se solidarizou com os colegas quanto à escassez de bolsas. “Há uma concentração de bolsas. A pessoa que tem bolsa tem três. Outras não têm nenhuma. Não concordamos com isso”, disse a presidenta Ligia Bahia. “Existem programas nota 7 reclamando de cortes também. Essa briga é muito dura. Estamos nos preparando, reunindo informações”, completou.
Sobre os direitos e deveres dos professores, a presidenta da AdUFRJ disse que poderia ser elaborado um documento. “Temos o RJU (Regime Jurídico Único, de todos os servidores federais). Não temos nada específico para dentro da UFRJ. Nosso setor jurídico pode nos ajudar com isso”, afirmou.
Ao final, a docente avaliou de forma positiva o encontro. “Foi uma reunião produtiva para a gente ouvir e se emocionar. Estamos juntos, podemos pensar juntos e assim levar adiante a AdUFRJ”, disse.
Sobre a escassez de bolsas, a pró-reitoria de Pós-graduação e Pesquisa respondeu que o problema é geral e não atinge apenas Caxias. “Tem poucas bolsas, sim, para todo mundo. As bolsas não vão apenas para programas consolidados”, afirmou o pró-reitor João Torres.
Com as chamadas bolsas de Demanda Social, distribuídas pela reitoria, há um esforço para contemplar programas com notas menores. De 2023 a 2025, de acordo com apresentação enviada à reportagem, programas nota 5 receberam mais bolsas de doutorado que os cursos notas 6 e 7. Programas nota 4 receberam mais bolsas de mestrado que cursos notas 5, 6 ou 7.
“Do CNPq, tivemos 41 bolsas de doutorado em março e teremos mais 41, em agosto. É muito menos que uma bolsa por programa”, completou.
ADICIONAL DE INSALUBRIDADE É OUTRA PREOCUPAÇÃO
Os professores de Caxias também manifestaram indignação com a não concessão dos adicionais de insalubridade por parte da universidade. Ou com o pagamento em percentuais diferentes para colegas que trabalham no mesmo laboratório, sob as mesmas condições.
A assessora jurídica da AdUFRJ, Mariana Lindenmeyer, que também acompanhou o encontro em Caxias, afirmou que o tema é recorrente nos atendimentos oferecidos pelo sindicato. “Muitos pedidos são indeferidos pela ausência de perícia administrativa. Uma das ações coletivas que fizemos é para obrigar a UFRJ a fazer. Além disso, fazemos ações individuais”. Para quem quiser tirar dúvidas, a advogada orientou a marcação de um horário no plantão jurídico da AdUFRJ.
Durante a reunião, os docentes receberam informações sobre as ações e planos dos primeiros seis meses de mandato na AdUFRJ — com destaque para a sede do sindicato que será construída na Cidade Universitária —, e os convênios oferecidos.
A dramática situação de Cuba, agravada pelo recrudescimento do bloqueio norte-americano sob o segundo mandato de Donald Trump, e a corrente internacional de solidariedade ao regime e ao povo caribenho foram os principais temas da palestra de Frei Betto, um dos mais destacados intelectuais brasileiros, na manhã desta quinta-feira (30), no Centro de Tecnologia. O encontro foi organizado pela AdUFRJ, em parceria com o Sintufrj, o DCE Mário Prata e a APG/UFRJ.
“Cuba vive hoje uma crise terrível, e a revolução está praticamente desmontada por uma questão de sobrevivência. Não tem energia, não tem gás, muitas pessoas estão usando lenha para cozinhar”, descreveu Frei Betto. Segundo ele, o bloqueio imposto pelos Estados Unidos em 1962 foi intensificado desde que Donald Trump assumiu a presidência, em janeiro do ano passado. “Trump incluiu Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo, e isso fechou todo o sistema bancário internacional ao país, prejudicando importações e exportações”, exemplificou o escritor.
Por outro lado, Frei Betto destacou que cresce em todo o mundo um sentimento de solidariedade a Cuba: “O Brasil tem ajudado muito, com medicamentos, alimentos. Estamos introduzindo lá um sistema de captação de água das chuvas, por exemplo. A China tem sido muito solidária, está levando várias soluções tecnológicas na área de energia, de irrigação. Temos que ampliar essa corrente solidária”.
A presidenta da AdUFRJ, professora Ligia Bahia, fez coro com Frei Betto e anunciou uma iniciativa imediata: uma campanha de arrecadação de recursos para a compra de medicamentos, batizada de UFRJ 100 mil. “É importante que a gente consiga arrecadar esses R$ 100 mil, e espalhar essa campanha para trazer mais pessoas e instituições para ajudar, vamos criar uma onda”, defendeu Ligia Bahia. Frei Betto sugeriu que os recursos arrecadados sejam encaminhados ao MST, que está adquirindo medicamentos a preço de custo para enviar em grandes lotes a Cuba.
Mais informações sobre o encontro com Frei Betto você encontra na próxima edição do Jornal da AdUFRJ.
Fotos: João Laet
Foto: Fernando SouzaAdensar um espaço da universidade à beira da Rodovia Washington Luiz com novos cursos e oferecer mais assistência para um corpo estudantil muito vulnerável. Essa é a missão assumida pela professora Marisa Suarez, diretora do campus da UFRJ em Duque de Caxias desde novembro de 2024. “Há muitos desafios”, diz.
É difícil, mas nada parece impossível para o grupo de professores, técnicos e alunos que há 18 anos luta com garra para fazer ensino, pesquisa e extensão na Baixada Fluminense enfrentando cenários bastante adversos.
Bastaria dizer que a história começou em Xerém, um distrito de Caxias, em 2008, com módulos alimentados por geradores, em um terreno compartilhado com time de futebol e uma fundação do município. Mas não foi só isso.
Quando a UFRJ iniciou a transferência para o atual endereço, em 2018, o campus sequer apresentava água encanada. O sistema elétrico não comportava a instalação de aparelhos de ar-condicionado em todas as salas e laboratórios. Em dias de muito calor, aulas eram suspensas.
Os prédios, herança de um projeto abandonado da prefeitura local, nunca haviam passado por uma reforma nos telhados — cada chuva representava goteiras, infiltrações, perda de mobiliário e até de equipamentos.
A “virada de chave” aconteceu em 2025. As obras de reforma dos telhados, iniciadas em setembro de 2024, acabaram em junho do ano passado. A expansão da rede elétrica e instalação da ligação dos 103 aparelhos de ar-condicionado também foram concluídas no mesmo mês. “A reforma elétrica permitiu que a gente pudesse ligar equipamentos em laboratório de forma simultânea. Antes, ligava um, não podia ligar outro. Agora temos capacidade para fazer isso”, afirma a professora Luisa Ketzer, diretora da ADUFRJ e docente do campus.
É esse mínimo de condições de infraestrutura que permite à comunidade universitária sonhar com voos mais altos.
NOVOS CURSOS
Está prevista para janeiro de 2028 a entrega de um novo prédio (bloco F), aos fundos do campus, que está sendo construído pela Prefeitura de Duque
de Caxias. A nova estrutura deve abrigar 6 laboratórios (5 didáticos e 1 anatômico), 18 salas (15 de 58 m2 e 3 de 86 m², uma biblioteca e um espaço para os docentes.
A ideia é aproveitar a futura instalação para quatro novos cursos: Medicina (com entrada de 30 alunos por semestre), Biofármacos (20/ano), Ciência de Dados (20/ano) e Licenciatura Interdisciplinar (25/semestre). Todos já fazem parte do Plano de Desenvolvimento Institucional da UFRJ até 2029.
“Estamos fazendo estudo de implementação de todos estes cursos. E de alguns, eventualmente, no período noturno”, afirma a diretora do campus. “Atenderia melhor a população da região que trabalha durante o dia”.
MAIS OBRAS
Em paralelo, a administração local realiza outras obras com apoio do Escritório Técnico da Universidade. No prédio do bloco E, onde nada foi feito desde a instalação da UFRJ no campus, ficarão todos os núcleos de pesquisa hoje espalhados e parcialmente acomodados em módulos habitacionais. “Mas não acabaremos com os módulos. Com o crescimento do corpo docente, precisaremos de mais espaço”, completa Marisa.
No bloco D, ficarão concentrados os equipamentos de pesquisa de grande porte do campus, que atendem não só à UFRJ, mas a outras instituições, com foco interdisciplinar. O projeto básico já foi finalizado. A previsão de conclusão da obra é junho de 2027.
Outra iniciativa em andamento é a instalação de placas fotovoltaicas nos telhados. A diretora está otimista e espera concluir esta etapa ainda em 2026.
APOIO AOS ESTUDANTES
Uma das grandes preocupações no campus é o cuidado com os estudantes, 80% deles os primeiros da família a cursar o ensino superior, de acordo com o levantamento mais recente disponível — o perfil socioeconômico do corpo discente será atualizado este semestre, por meio de um questionário para elaboração do Plano de Desenvolvimento da Unidade (PDU).
“A gente se depara com alunos em situação de muita vulnerabilidade. ‘Ah, professora, não posso ir todos os dias porque não tenho dinheiro para a passagem’. São questões delicadas que afetam o trabalho docente”, afirma Marisa.
Os estudantes têm direito ao Jaé Universitário com gratuidade apenas no município do Rio. “O aluno que mora em Campo Grande pega a condução com o Jaé, vai até o Fundão, pega o nosso ônibus intercampi e chega ao campus. Mas o aluno que mora em outro município não tem isso. Muitos dependem do auxílio-transporte da universidade”, explica a diretora. A pró-reitoria de Políticas Estudantis (PR-7) informa que 100 estudantes de Caxias receberam o benefício em dezembro do ano passado.
O bandejão local serve até 300 refeições no almoço e, desde março do ano passado, 100 lanches no café da manhã. “Mas já há um pedido atual dos alunos para ampliar o funcionamento para o jantar também. Eles chegam de manhã e voltam para casa de noite com fome”.
Em Caxias, mesmo o básico foi conquistado recentemente para dar um pouco mais de conforto para o segmento. Bancos de madeira foram instalados nos corredores para acomodar os estudantes fora do horário de aulas e o espaço da biblioteca passou por uma reorganização para ampliação de uma sala de estudos.
Uma preocupação recorrente do corpo docente é o atendimento a estudantes com deficiência e as adaptações pedagógicas necessárias. Segundo a professora Luisa Ketzer, que faz parte da Comissão Interna de Acessibilidade, o número de estudantes atendidos aumentou consideravelmente no pós-pandemia.
Luisa informa que há um diálogo constante com a Diretoria de Acessibilidade da universidade (DIRAC), responsável pela alocação de monitores de acessibilidade e inclusão. “Ainda assim, é imprescindível institucionalizar orientações para a condução de estágios obrigatórios práticos e experimentais e para o desenvolvimento de monografias, necessárias à conclusão do curso”, afirma.
MAIS INSTITUCIONALIZAÇÃO
O campus de Caxias aparece no estatuto da universidade desde 2018 como se não tivesse nenhuma unidade acadêmica. Ele funciona ainda com um conselho deliberativo provisório. A diretora possui mandato de apenas dois anos, prorrogáveis por mais dois.
No final do ano passado, uma comissão interna formada por docentes e técnicos-administrativos ficou encarregada de elaborar um novo regimento. “A comissão se reuniu algumas vezes em 2025 e já revisou o organograma do campus. Estamos na fase de discussão e ajustes. No entanto, o trabalho está paralisado, devido à greve dos servidores”, explicou a diretora do Campus, Marisa Suarez.