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Uma pesquisa do Observatório Nacional da Violência contra Educadores mostra dados alarmantes da violência física e simbólica à qual professores, da educação básica ao ensino superior, estão submetidos em todo o país. Mais de três mil educadores responderam ao questionário aplicado eletronicamente em todas as regiões brasileiras. Cerca de 90% responderam já ter vivenciado ou conhecer quem vivenciou violência física ou censura em sala de aula. Quase 60% já foram vítimas diretas.
Os dados foram apresentados durante aula inaugural do Programa de Formação Profissional em Ensino de História da UFRJ (ProfHistória). O evento aconteceu no Salão Nobre do IFCS/IH. O professor Fernando Penna, diretor da Faculdade de Educação da UFF, coordena o observatório responsável pelo estudo. “Perseguir e expor educadores se tornou uma forma de ganhar capital financeiro e político no Brasil”, afirmou ele, ao lembrar que gravações de professores vão parar nas redes sociais como conteúdos monetizados. “Além disso, tivemos parlamentares que foram eleitos por expor educadores”.
A amostra analisada indicou que 61% professores do Ensino Básico foram vítimas de violência, enquanto no Ensino Superior, o percentual é de 55%. Na rede EBTT, 62% responderam ter sido vítimas diretas de ameaças e censuras. “Fica claro que este é um fenômeno que está espalhado pelas nossas instituições de ensino”, observou Fernando Penna. “A violência está atravessando o trabalho do docente. O saber profissional do professor se tornou menos importante do que evitar os temas polêmicos em sala de aula”.
A Região Sul lidera os casos de ataques a docentes, com 64% dos professores vítimas diretas de violência. A Região Sudeste figura em segundo lugar, com 62%. O Centro-Oeste aparece em terceiro lugar, com 57%. O Nordeste aparece com 53% dos docentes vítimas de violência e, na Região Norte, 52% responderam ter passado por violência na docência.
Censura e perseguição ideológica são as violências mais comuns vivenciadas pelos educadores, de acordo com os resultados da pesquisa. Os números mostram que 73% dos entrevistados responderam que foram agredidos por questões políticas, enquanto 53% disseram que foi por questões de gênero e sexualidade.
CENSURA AUMENTA EM ANOS ELEITORAIS
Outro achado da pesquisa diz respeito ao momento em que essas violências são mais praticadas. Os picos coincidem com anos eleitorais (veja gráfico na página 9). “Elas crescem a partir de 2010, pioram em anos eleitorais, se tornam recorrentes e permanecem altas. Estamos em ano eleitoral. A probabilidade de termos um novo pico de violências é bem alta”, afirmou Fernando Penna.
Para o docente, garantir a segurança de educadores nas escolas e universidades é um compromisso que precisa ser assumido por toda a sociedade. “O desafio coletivo e político de todos nós é garantir a segurança para que os professores sigam trabalhando conforme sua formação, sem medo de abordar os temas que fizeram parte de sua formação”, defende ele.
A pesquisa apresentada pelo professor da UFF tem o objetivo de subsidiar os agentes políticos. “O Observatório atua no sentido de realizar recomendações para elaboração de políticas públicas voltadas a reduzir a violência contra os professores”, explicou. “Fazem parte de seu conselho consultivo sindicatos e federações nacionais, entidades científicas e associações”, concluiu o docente. O relatório completo com os dados da pesquisa pode ser acessado aqui.
VIOLÊNCIA E EXTREMA DIREITA
De acordo com Ynaê Lopes, professora de História da UFF, muito da violência observada na pesquisa e no dia a dia de professores de todo o país tem relação direta com o recrudescimento da extrema direita brasileira. “Parte dessa violência é também uma resposta à diversidade que vem ganhando espaço nas instituições de ensino”, afirmou.
Em sua análise, a violência tem um contexto conjuntural. “Houve 253% de aumento da violência contra professores no Brasil. Isto é projeto político e está embebido no crescimento da extrema direita”.
A docente fez um apanhado histórico desde o século XIX e concluiu que a educação foi instrumentalizada como elemento de manutenção do racismo e da desigualdade social no Brasil. “Em 1854, um artigo proibia o acesso de meninos com doenças contagiosas e escravizados à escola. Havia, ainda, um controle pesado sobre quem eram as pessoas aptas e não aptas a ensinar no país”, disse. “Aproximadamente 75% da população era analfabeta naquele momento. A educação era controlada pela Igreja Católica e era para poucos”, lembrou a pesquisadora.
Ynaê Lopes destacou também a Lei Saraiva, de 1881, que determinava que o voto fosse realizado apenas por pessoas alfabetizadas. “O acesso à escola vai definir quem pode votar no Brasil”, observou.
Com a abolição da escravatura, em 1888, a população negra fica livre no papel, mas segue sem liberdades individuais garantidas. “Não há nenhuma política pública a partir de 14 de maio de 1988, um dia após a assinatura da Lei Áurea, portanto, que garanta o acesso da população negra à educação”.
Já na Era Vargas, a professora Ynaê destaca que o Brasil passa a absorver variados segmentos da população, mas de forma desigual. “Aqui, de novo, a educação será um pilar fundamental. É ela que vai atualizar a ideia falaciosa de harmonia racial no Brasil”, disse. “A escola foi construída para manter as desigualdades. A eugenia passa a ser o princípio norteador da educação e da saúde no Brasil”.
Antes de 2010, a professora explicou que o período mais agudo de violência contra professores foi a ditadura militar. Desde a redemocratização, a educação vem se transformando. “A educação passa a ser instrumento do compromisso pela liberdade, igualdade e democracia”, disse. “Esses avanços geram reações. Os ideais básicos de civilidade estão sendo questionados. Não por acaso, as tensões vão estourar nas escolas”.
Diretor de Relações Étnico-raciais e Pautas Racistas da Associação Nacional de História e coordenador do ProfHistória, o professor Amilcar Pereira mediou o encontro e revelou que os casos que chegam à associação são muito preocupantes. “São muitos os casos de ataques, sobretudo a professores de História quando tratam a temática de História e Cultura Afroindígenas”, contou.
O docente pediu vigilância dos movimentos ligados à educação. “Há um projeto de lei em tramitação que pretende acabar com a obrigatoriedade do ensino de história afroindígena. Precisamos barrar esse processo”, disse.
Ele se referiu ao Projeto de Lei 1007/2025, da deputada federal Clarissa Tércio (PP-PE), que tramita na Câmara e propõe tornar opcional o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena, com a alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). As leis que instituíram os conteúdos obrigatórios são de 2003 e 2008.
Depoimento | Valéria Borges
Professora perseguida pelo ‘Escola Sem Partido’
“Eu tinha um aluno gay. A escola, em 2017, era um antro bolsonarista. Na época, eles ainda eram chamados de ‘coxinhas’, pois não existia a noção estabelecida do bolsonarismo. Esse aluno, além de gay, era drag queen e estava se sentindo acuado por conta do clima do Brasil e da escola. Certo dia, eu estava dando aula sobre fascismo, falando sobre as características, e ele levantou a mão para falar que tudo aquilo que eu descrevia era muito parecido com o Bolsonaro.
Naquele momento, eu minimizei a figura do Bolsonaro e disse a ele que o maior problema eram as pessoas que o seguiam: misóginas, machistas, racistas, homofóbicas. No final daquela aula, soube que um aluno me gravou.
O áudio foi parar na internet. As milícias digitais compartilhavam dizendo que eu havia atacado um aluno. A versão era que o que eu falei era para agredir a um aluno, tiraram de contexto. Carlos Jordy era vereador nessa época e encabeçava, junto com Flávio Bolsonaro, uma forte campanha nos municípios pela aprovação do Escola Sem Partido. Ele queria palco para sua audiência pública sobre o tema. O palco foi essa gravação não autorizada e Jordy passou de vereador a deputado federal com esta plataforma.
A minha vida profissional foi revirada, a minha família ficou com medo. Passei a ser conhecida na cidade de Niterói. As pessoas me paravam na rua para me falar que viram ameaças, ou que eu deveria sair da escola, ou que deveria ser demitida.
Fui chamada ao Conselho Tutelar, sofri processos, sofri perseguição de grupos políticos. Havia ameaças à minha vida. Todas as informações sobre mim estavam na internet.
Venci todos os processos. Tive muito apoio de colegas, partidos políticos. Aquele momento passou, mas deixou marcas. Adoeci, precisei de acompanhamento psiquiátrico, tive síndrome do pânico laudada, depressão, passei a fazer uso de remédios controlados e me tornei insulinodependente.
De lá para cá, aquele bolsonarismo explícito de gritar ‘mito’ nos corredores não existe mais, mas há consequências graves. Muitos colegas hoje estão apanhando. Estão acontecendo coisas horríveis nas escolas. A maioria das atitudes agressivas parte de meninos embebidos pela machosfera, que torna meninas e professoras as maiores vítimas. Esse movimento começou lá com o bolsonarismo e se fortaleceu. Quanto a mim, não tenho mais medo de falar, mas sei que muitos colegas evitam certos temas. Os professores até hoje estão autocontidos.”
Temos uma diversidade de professores que vêm de trajetórias diferentes nas artes. Aqui temos ilustradores, pintores, escultores, entre tantas outras vertentes. Ter esses trabalhos representados mostra a diversidade de olhares e de produção artística também”, explica o professor Ary Moraes, um dos autores de trabalhos da exposição A Forma em Processo que, reúne obras assinadas por docentes do Departamento de Análise e Representação da Forma, da Escola de Belas Artes. O evento está em cartaz na EBA até 27 de março.
A ideia surgiu do desejo de aproximar os estudantes da produção artística dos docentes. O departamento de Arte e Representação da Forma é responsável pelo ciclo básico na Escola de Belas Artes. “Somos os que introduzem os estudantes no universo das artes”, resume a professora Luana Manhães, uma das organizadoras da exposição. “Somos artistas pesquisadores. É importante que os estudantes vejam como trabalhamos também fora da academia”, analisa a docente, especializada em desenho e pintura. “Além de mostrar nossa produção, esse evento tem como ponto central mostrar as possibilidades de pesquisas. O interessante é que os alunos vejam que dentro da formação da EBA há inúmeras possibilidades que podem ser desdobradas”, diz. “Assim eles se conscientizam sobre como os caminhos formativos podem ser diferentes”, afirma a professora, que também tem trabalhos expostos na mostra.
A exposição foi montada na Galeria Macunaíma, que fica no 8° andar do Edifício Jorge Machado Moreira (JMM). O prédio abriga a EBA, a FAU e o IPPUR. O pavimento sofreu um incêndio de grandes proporções, em 2016. “O 8° andar é emblemático. Está sendo um ato de resistência voltar aos poucos para esse andar. Trouxemos uma mostra viva para um espaço que estava morto até um ano atrás”, diz Luana.
Para o diretor da EBA, professor Daniel Lima Marques, a mostra é um espaço de cultura, arte e de formação acadêmica. “Para além da exposição, temos todo um trabalho de curadoria, onde os estudantes podem experimentar as etapas de montagem de uma exposição”, conta. “É, portanto, um momento em que a EBA une todas as potencialidades da universidade”, enfatiza. “Fica aqui o convite para que todas as unidades da UFRJ possam fazer esses intercâmbios de cultura e de arte na nossa Escola”.
Os autores dos trabalhos apresentados são os professores e pesquisadores: Alvaro Seixas, Ary Moraes, Dalila Santos, Danilo Ribeiro, Fred Carvalho, Graça Lima, Guto Nóbrega, Henrique Souza, Leonardo Etero, Lima Peres, Luana Manhães, Luciana Coutinho, Marcelus Gaio, Mayara Lista, Nelson Macedo, Salmo Dantas, Vinicius Duque Estrada e Yoko Nishio.
Juliana Behnevides, estudante do 10º período de Licenciatura em Artes Visuais, ajudou na montagem da exposição. “Foi um processo de muito aprendizado e me trouxe uma grande motivação de estar mais inserida no fazer artístico”, disse a aluna. “Eu senti vontade de criar mais”, contou a jovem. “Muitas vezes os alunos da licenciatura ficam mais envolvidos com as questões da educação do que com o fazer artístico e acabam se afastando dessa dimensão. Então, participar dessa exposição para mim foi de extrema importância, sobretudo porque já estou no final da minha graduação”.

Em 2014, na primeira turma de alunas do Ensino Médio inscritas no projeto de extensão “Tem Menina no Circuito”, a professora Thereza Paiva, do Instituto de Física, teve uma grande alegria e uma imensa decepção. Das cinco alunas participantes, duas ingressaram na UFRJ — e viriam a se tornar professoras, uma de Física e a outra, de Português. Mas uma terceira aluna, em quem as criadoras do projeto depositavam muita esperança, sumiu do mapa. “Aprendemos desde o início que há barreiras imensas que as mulheres têm que superar para seguir adiante dos estudos. E na própria vida”, reflete Thereza.
A professora recorda que, ao conceber o projeto com as colegas do IF Elis Helena Sinnecker e Tatiana Rappoport, a nobre intenção de atrair jovens mulheres de periferias para o campo das Ciências Exatas se deparou com a realidade que muitas vezes fica escondida em histórias como a da aluna que sumiu do mapa: “Nós tentamos saber com colegas dela o que tinha acontecido e descobrimos que o pai dela, um pastor evangélico, não havia deixado ela ingressar na universidade. Naquela linha de que mulher que estuda questiona muito e não arruma marido. Foi muito triste, mas essa é uma realidade de muitas meninas como ela, um problema com o qual nos deparamos e que nos encorajou a prosseguir”.
DESEJO E REALIDADE
No terreno das alegrias, foi uma conquista e tanto do projeto ter contribuído para que duas das cinco primeiras alunas do Colégio Estadual Alfredo Neves, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, concluíssem a graduação na UFRJ. “Foi a primeira escola em que atuamos, estamos lá até hoje. Mas a realidade é que nessas escolas de periferia, em geral, o ensino é terminal. As pessoas concluem o Ensino Médio e vão trabalhar. Nosso desejo sempre foi, e continua sendo, mudar essa realidade”, diz Thereza.
Atualmente, o projeto atua em seis escolas públicas de regiões periféricas do Rio de Janeiro (Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Mesquita, Realengo, São João de Meriti e Rocinha), onde oferece oficinas de eletrônica com materiais alternativos, atraindo a atenção das alunas para temas que antes pareciam distantes de suas realidades. Além disso, o projeto oferece aulas ministradas por alunas da UFRJ para preparar as meninas do terceiro ano do Ensino Médio para o Enem — o chamado “Terceirão”. Em 2019, o projeto se expandiu para uma escola pública de Uberlândia (MG).
A participação das monitoras tem sido fundamental para criar uma conexão entre as estudantes e o ambiente universitário. “A evasão nos cursos de Exatas é alta, não quer dizer que as meninas que ingressam na graduação chegarão ao final do curso. Mesmo em uma universidade gratuita, há os custos de alimentação e transporte, sobretudo para pessoas de baixa renda e que vivem nas periferias. Então nós tentamos ajudar essas meninas com a oferta de bolsas de monitoria”, explica Thereza.
Em 2022, o “Tem Menina no Circuito” foi o vencedor do Nature Awards for Inspiring Women in Science, na categoria “Science Outreach”. O prêmio, concedido pela revista Nature, reconhece as iniciativas voltadas para que meninas se interessem e permaneçam na área das Ciências Exatas.
Para Thereza Paiva, o prêmio foi mais um incentivo para prosseguir. “Eu não vivo só de extensão na UFRJ. Tenho uma carreira de pesquisadora, dou aulas, estou assumindo a coordenação do programa de pós-graduação do IF. O projeto consome muito tempo, mas ele muda a vida das pessoas. Lá atrás, quando começamos, alguns colegas do IF diziam: “Ah, você gasta muito tempo brincando de massinha com as meninas, devia estar publicando mais”. E hoje em dia as pessoas passaram a entender o valor do que a gente faz. Quem criticava lá atrás, hoje me dá tapinha nas costas”.
PORTA DE ENTRADA
De acordo com a pró-reitoria de Extensão (PR-5), das 2.222 ações ativas de extensão da UFRJ até o início deste mês, 1.394 são coordenadas por mulheres. É uma maioria considerável e, na visão da pró-reitora Ivana Bentes, reflete uma firme determinação da extensão em ser uma porta de entrada para as mulheres na universidade. “Temos um ecossistema muito forte na extensão coordenado por mulheres e também voltado para o público feminino, dando visibilidade a temas críticos, como o combate à violência, ao assédio e à desigualdade de gênero”, pontua a professora.
Ivana também destaca a multiplicidade de ações de extensão que envolvem o público feminino: “Chama a atenção a diversidade de temas dessas ações coordenadas por mulheres, tanto para crianças e adolescentes quanto para adultos, desde empreendedorismo, saúde e cultura até alfabetização de jovens e adultos, combate à desinformação e apoio a mulheres no campo dos direitos humanos. Temos uma ação voltada a mulheres encarceradas, outra voltada à formação de conselheiros tutelares, que vão lidar com as questões de proteção a crianças e adolescentes”, enumera ela.
No conceito de porta de entrada, o projeto “Dynamic Women”, coordenado pela professora Luciana Salgado, do Instituto de Matemática, se encaixa como uma luva. Ele nasceu para confrontar a percepção de que o universo da Matemática é “coisa de homem”. Criado em 2019 para estudantes de graduação e de pós-graduação, o projeto visa a dar mais visibilidade a mulheres que fazem ciência, por meio de debates, palestras e encontros como o “Celebrando a Mulher na Matemática”. Nesses encontros, são exaltadas as conquistas de mulheres como a alemã Amalie Emmy Noether, considerada a “mãe da Álgebra moderna”, e a iraniana Maryam Mirzakhani, a primeira mulher a receber a Medalha Fields, mais alta condecoração mundial no campo da Matemática.
“Por meio de exemplos de mulheres como essas, nós tentamos atrair mais mulheres para a universidade, e quebrar conceitos ainda arraigados. O filme “Picture a Scientist” mostra uma pesquisa interessante. Quando você pede para crianças desenharem um cientista, as de até seis anos desenham do seu gênero. A partir dos sete anos de idade, a grande maioria desenha um homem. Há uma mudança de paradigma na visão das crianças, a partir de uma certa idade, de que quem faz ciência é o homem. Nesse filme há uma fala de uma professora universitária norte-americana que eu trago comigo, ela diz assim: “No fundo, eu só queria fazer ciência”. Parece simples, né? Mas as mulheres têm que superar muitas barreiras para isso”, reflete Luciana.
O assédio, tanto moral quanto sexual, é uma dessas barreiras, observa a professora. Ela já sentiu isso na própria pele. “Essa frase da professora eu levo comigo. Porque ela resume muita coisa. Ter de estar sempre alerta, sempre tentando se defender. Isso drena energia que deveria estar sendo usada para um bem maior que é fazer a ciência. Só me deixa em paz. Antes de ser matemática, eu cantava e tocava, sou musicista. O assédio é grande, é explícito. Agora a gente ainda pode falar, antes nem podia. E hoje mesmo as pessoas que denunciam sofrem retaliações pesadas. Esse não é o foco do projeto, mas temos que falar sobre isso. Nós estamos aqui, nós somos resistência”, diz a professora.
Nos últimos 20 anos, o Brasil avançou na busca pela equidade de gênero na pesquisa. Hoje, 49% das autorias de artigos científicos brasileiros são de mulheres, o que deixa o país em terceiro lugar no ranking mundial de participação feminina na pesquisa. Os ótimos números, no entanto, escondem grandes desafios ainda enfrentados pelas cientistas. Ao longo do desenvolvimento da carreira acadêmica, as mulheres deixam de ser maioria e se tornam minoria. Esse é o chamado “efeito tesoura”, que descreve a queda desproporcional de mulheres em cargos de liderança científica.
Dados do Plano Nacional da Pós-Graduação mostram que mulheres são maioria entre os estudantes de pós-graduação.
Elas representam 57%do total das vagas ativas. Quando falamos das doutoras formadas, o número cai para 54%. Elas são 43% dos docentes de pós-graduação e apenas 35% do total de bolsistas de produtividade do CNPq. No nível mais alto da bolsa, a de Pesquisador 1-A, as mulheres são apenas 23%.
Para tentar mudar essa realidade, agências de fomento estaduais e federais passaram a desenvolver uma série de iniciativas, como editais específicos para mulheres e prêmios para destacar a atuação feminina na pós-graduação. Além dessas iniciativas, há ações que buscam pontuar diferenciadamente ou reconhecer os períodos de licença-maternidade das pesquisadoras. Muitas dessas ações foram pautadas pelo movimento Parent in Science.
A professora Sabrina Baptista Ferreira é a embaixadora do Parent in Science na UFRJ. Ela conta que foi do grupo a iniciativa de pleitear junto ao CNPq a introdução da linha que indica os períodos de licença-maternidade no Currículo Lattes. “Tivemos atuação nessa conquista e em outras. Hoje a Plataforma Sucupira, da Capes, tem o campo destinado à licença-maternidade. Atuamos nas discussões sobre aumento de prazos para a avaliação das mulheres que têm filhos pequenos”, elenca. “No caso da UFRJ, dentro das políticas de ações afirmativas há um fator de correção para alunas mães. Enfim, são várias frentes”.
Apesar dos avanços, ainda há um longo trajeto a percorrer. “Indicamos, por exemplo, a importância de termos mais mulheres em Comitês de Área. O que percebemos muito fortemente é o ‘efeito tesoura’ na ciência. Há um número muito mais expressivo de mulheres do que de homens na graduação, mas esse número começa a se inverter quando chegamos à carreira acadêmica”.
O esforço, segundo a docente, é que essas iniciativas se traduzam em políticas públicas para garantir a ampliação da participação de mulheres em todos os níveis da carreira, não só nos iniciais. “Por isso precisamos batalhar para que mais mulheres estejam em posições de liderança e decisão. Diversidade de gênero se traduz em diversidade de ideias e ações”, defende. O estereóripo, para a docente, ainda é um desafio para as pesquisadoras. “Quando uma mulher levanta a voz e tenta se impor numa reunião, ela é caracterizada como estressada, nervosinha. Ainda é um grande desafio para as docentes pesquisadoras se impor sem serem rotuladas”.
BARREIRAS ATITUDINAIS
Esses rótulos estariam dentro de um conjunto de atitudes que a professora Ana Cristina Barros da Cunha, titular do Instituto de Psicologia, chama de barreiras atitudinais. “São barreiras que todas as minorias que não têm direitos assegurados enfrentam”, explica. “Essas barreiras são relacionadas a crenças, que geram as atitudes e formam rótulos frente a tudo que é feminino. Crença de que a mulher é mais frágil e, por isso, inábil para determinadas tarefas. Mas não se trata só da força física, mas de uma força simbólica que classifica o feminino como inferior”, analisa. “A mulher, então, é rotulada como inadequada para determinadas funções e espaços, principalmente os relacionados a gestão e liderança. O imaginário simbólico relega ao feminino uma condição de inferioridade aos homens”.
Essas barreiras, de acordo com a pesquisadora, não se traduzem em falas diretas de interdição. “Ninguém fala que você não pode ser uma diretora porque você é mulher, mas as atitudes dizem isso quando invalidam a sua fala, por exemplo”, aponta. “Essas barreiras atitudinais, então, se transformam em barreiras de acesso, que são ainda mais sentidas pelas mulheres mães, trans, negras”. Ela cita o exemplo da UFRJ. “Não temos o benefício da creche na universidade para deixar os filhos. Isso facilitaria a rotina feminina de dupla jornada e ajudaria no desempenho na vida profissional e pessoal. Isso se torna uma barreira concreta que vai te exigir manobras e criação de estratégias para conciliar a maternidade”, diz a pesquisadora. “Embora a maternidade faça parte do feminino, ela não é considerada dentre os desafios para a realização profissional de uma mulher”.
A docente alerta para os efeitos emocionais causados pelas barreiras impostas, somadas à grande exigência de performance acadêmica e à atuação em casa, nos cuidados com filhos ou pais idosos. “Tudo isso gera sobrecargas física, emocional e mental, que podem se desdobrar como quadros psicossomáticos e transtornos mentais comuns”, explica Ana Cunha. “Quando o estresse chega a um nível de exaustão, o corpo grita e a mulher pode desenvolver psoríase, fibromialgia, síndrome do colo irritável, alopécia. Tudo isso pode gerar quadros ainda mais graves como depressão e burnout”, aponta a pesquisadora. “Especialmente em casos de maior exigência como pesquisadoras cientistas com bolsa de produtividade, para quem a alta qualidade da produção científica é obrigatória”.
O desenvolvimento de políticas públicas para a redução desses quadros é um caminho, acredita a docente, mas sozinhas não resolverão o problema. “Se não forem implementadas em níveis de promover a sensibilização e o letramento sobre o feminino, essas políticas vão ser inócuas. A política é uma estratégia, mas a mudança de crenças que sustentam os estigmas sobre a mulher é o grande desafio”.
Diretora de Gestão da Capes, a pesquisadora Luciana Mendonça Gottschall concorda. Ela atua na agência para promover justamente essa sensibilização interna. “Quando pautamos esse debate internamente, atuamos para que essas ações reverberem também nas nossas políticas de pós-graduação e pesquisa”, avalia. “Nós trabalhamos para conscientizar as equipes e avaliadores sobre as violências invisíveis que atingem as mulheres no ambiente de trabalho. Esse processo precisa ser pensado em conjunto com as políticas de promoção da equidade de gênero”, acredita.
Ela conta que no início da gestão da atual presidenta da entidade, a professora Denise Pires de Carvalho (ex-reitora da UFRJ), em 2024, foi instituído na Capes o Comitê Permanente de Ações Estratégicas e Políticas para Equidade de Gênero, e que as ações desenvolvidas têm participação dos homens. “Normalmente falamos para nós mesmas, mas temos investido em trazer homens para esse debate. Eles são gestores, são também avaliadores. Nós gerenciamos políticas públicas na área científica e precisamos dessa mudança de cultura, desse olhar diferenciado”. Ela faz um apelo aos colegas pesquisadores: “Compreendam seus privilégios e entrem conosco nessa luta”.
Ela é a caçula entre os mais de quatro mil professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Annah Bárbara Pinheiro dos Santos nasceu em São Gonçalo (RJ), tem 26 anos e um orgulho gigante de ser docente do curso de Gastronomia. Não foi fácil chegar até aqui. Na graduação, era bolsista de iniciação científica, monitora e ainda se desdobrava trabalhando numa padaria. Hoje tenta fazer do magistério um espaço diário de transformação de destinos. Particulamente das mulheres.
“Na gastronomia, essa discussão é particularmente importante. Historicamente, a cozinha doméstica foi atribuída às mulheres, enquanto as cozinhas profissionais foram ocupadas majoritariamente por homens e marcadas por hierarquias rígidas e, muitas vezes, ambientes de trabalho hostis”, conta. “Trazer esse debate para a sala de aula significa questionar essas estruturas e construir uma cultura profissional mais justa e respeitosa”.
Por que escolheu ser professora?
Porque acredito profundamente na educação pública como um instrumento de transformação social. A universidade, especialmente em um país marcado por desigualdades estruturais, tem o papel de ampliar horizontes e criar possibilidades que muitas vezes não estavam dadas no início da trajetória de um estudante.
Na gastronomia, isso se torna ainda mais evidente. A cozinha é um espaço onde se cruzam cultura, ciência, política alimentar e cuidado. Ensinar gastronomia não é apenas ensinar técnicas culinárias, mas discutir sistemas alimentares, sustentabilidade, saúde coletiva e o direito humano à alimentação adequada. Ser professora, para mim, é justamente participar desse processo de formação crítica, ajudando estudantes a compreender que cozinhar também é um ato político e social.
Ser mulher hoje é conviver com o medo diário. Qual o papel de uma professora para reduzir a violência de gênero?
A universidade é fundamental para transformar mentalidades e estruturas sociais. Como professora, acredito que nosso papel é contribuir para formar profissionais e cidadãos capazes de reconhecer e enfrentar as desigualdades de gênero.
Na gastronomia, essa discussão é particularmente importante. Historicamente, a cozinha doméstica foi atribuída às mulheres, enquanto as cozinhas profissionais foram ocupadas majoritariamente por homens e marcadas por hierarquias rígidas e, muitas vezes, ambientes de trabalho hostis.
Trazer esse debate para a sala de aula significa questionar essas estruturas e construir uma cultura profissional mais justa e respeitosa.
Reduzir a violência de gênero passa também por educação, por diálogo e por visibilidade. Cada aula pode ser um espaço de construção de novas referências, onde respeito, equidade e cuidado sejam valores centrais.
Como imagina que será o ofício docente daqui a 40 anos, quando você tiver apenas 66 anos?
Imagino que o ofício docente continuará sendo profundamente humano, mesmo em um mundo cada vez mais mediado por tecnologia. Ferramentas digitais e inteligência artificial certamente transformarão a forma como acessamos e produzimos conhecimento, mas o papel do professor continuará sendo o de mediar, contextualizar e dar sentido a esse conhecimento.
Na gastronomia, acredito que veremos mudanças muito significativas relacionadas à sustentabilidade, aos sistemas alimentares e às novas relações de trabalho.
A formação universitária terá um papel fundamental em preparar profissionais capazes de lidar com os desafios climáticos e sociais do futuro. Espero que, daqui a 40 anos, a universidade pública continue sendo um espaço de pensamento crítico, diversidade e compromisso com a sociedade. E a gastronomia seja um espaço profissional com regulamentação e organização trabalhista forte.
Qual mensagem gostaria de deixar para as docentes mais experientes?
Gostaria de expressar, antes de tudo, minha profunda admiração e gratidão. A universidade pública que hoje habitamos foi construída por gerações que dedicaram suas vidas à educação, à pesquisa e à defesa do conhecimento. Às professoras, em especial, agradeço por todas as portas que foram abertas e lutas que foram sustentadas para que hoje eu e diversas outras jovens pesquisadoras tenham espaço na universidade.
Para quem chega agora à docência, essas trajetórias são referências fundamentais. A universidade é, em essência, um projeto coletivo entre gerações. Se hoje posso estar aqui, é porque muitas professoras vieram antes e abriram caminhos. Meu desejo é que possamos seguir construindo esse espaço juntas, com diálogo, respeito e compromisso com a educação pública.
Qual o desafio de ser docente com apenas 26 anos de idade?
Ser uma professora jovem traz desafios e também possibilidades. Ter uma idade próxima à dos estudantes cria uma dinâmica particular em sala de aula. Essa proximidade muitas vezes facilita o diálogo e torna o ambiente de aprendizagem mais aberto, pois os alunos se sentem confortáveis para compartilhar dúvidas, experiências e desafios da profissão. No entanto, essa mesma proximidade exige um cuidado constante na construção da autoridade pedagógica e na definição de limites claros em relação à ética profissional.
A questão geracional também se cruza com questões de gênero. Em muitos ambientes acadêmicos e profissionais, professores homens jovens podem circular em espaços mais informais com os alunos sem que isso seja necessariamente questionado ou implique sobre a sua imagem profissional.
Para uma professora mulher, especialmente sendo jovem, existe frequentemente uma expectativa de delimitar essas fronteiras de forma mais explícita. Procuro lidar com isso de maneira serena, mas consciente, estabelecendo parâmetros claros de respeito, profissionalismo e responsabilidade nas relações.
Ao mesmo tempo, fui muito bem recebida pelos colegas e alunos e encontrei um ambiente de grande acolhimento e validação profissional na UFRJ, o que torna esse início de carreira seguro e estimulante.
Na gastronomia, essa proximidade geracional também permite que debates muito presentes na realidade dos alunos apareçam com força no espaço acadêmico. Questões relacionadas às condições de trabalho nas cozinhas profissionais, às jornadas exaustivas e às discussões atuais sobre modelos, como a escala 6x1, fazem parte do cotidiano de muitos estudantes que já atuam no setor.
Trazer essas experiências para a universidade é fundamental para que possamos refletir criticamente sobre o mundo do trabalho na gastronomia, e pensar caminhos mais justos e sustentáveis para a profissão.
Acredito que a juventude também traz uma escuta atenta às transformações do presente. Estamos vivendo debates intensos sobre sustentabilidade, cultura alimentar, sistemas produtivos e justiça social. Estar próxima da geração de estudantes me permite dialogar com essas mudanças de forma muito viva. Tento transformar essa condição em uma ponte entre tradição e inovação, entre o conhecimento consolidado e as inquietações do nosso tempo.