Em 2014, na primeira turma de alunas do Ensino Médio inscritas no projeto de extensão “Tem Menina no Circuito”, a professora Thereza Paiva, do Instituto de Física, teve uma grande alegria e uma imensa decepção. Das cinco alunas participantes, duas ingressaram na UFRJ — e viriam a se tornar professoras, uma de Física e a outra, de Português. Mas uma terceira aluna, em quem as criadoras do projeto depositavam muita esperança, sumiu do mapa. “Aprendemos desde o início que há barreiras imensas que as mulheres têm que superar para seguir adiante dos estudos. E na própria vida”, reflete Thereza.
A professora recorda que, ao conceber o projeto com as colegas do IF Elis Helena Sinnecker e Tatiana Rappoport, a nobre intenção de atrair jovens mulheres de periferias para o campo das Ciências Exatas se deparou com a realidade que muitas vezes fica escondida em histórias como a da aluna que sumiu do mapa: “Nós tentamos saber com colegas dela o que tinha acontecido e descobrimos que o pai dela, um pastor evangélico, não havia deixado ela ingressar na universidade. Naquela linha de que mulher que estuda questiona muito e não arruma marido. Foi muito triste, mas essa é uma realidade de muitas meninas como ela, um problema com o qual nos deparamos e que nos encorajou a prosseguir”.
DESEJO E REALIDADE
No terreno das alegrias, foi uma conquista e tanto do projeto ter contribuído para que duas das cinco primeiras alunas do Colégio Estadual Alfredo Neves, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, concluíssem a graduação na UFRJ. “Foi a primeira escola em que atuamos, estamos lá até hoje. Mas a realidade é que nessas escolas de periferia, em geral, o ensino é terminal. As pessoas concluem o Ensino Médio e vão trabalhar. Nosso desejo sempre foi, e continua sendo, mudar essa realidade”, diz Thereza.
Atualmente, o projeto atua em seis escolas públicas de regiões periféricas do Rio de Janeiro (Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Mesquita, Realengo, São João de Meriti e Rocinha), onde oferece oficinas de eletrônica com materiais alternativos, atraindo a atenção das alunas para temas que antes pareciam distantes de suas realidades. Além disso, o projeto oferece aulas ministradas por alunas da UFRJ para preparar as meninas do terceiro ano do Ensino Médio para o Enem — o chamado “Terceirão”. Em 2019, o projeto se expandiu para uma escola pública de Uberlândia (MG).
A participação das monitoras tem sido fundamental para criar uma conexão entre as estudantes e o ambiente universitário. “A evasão nos cursos de Exatas é alta, não quer dizer que as meninas que ingressam na graduação chegarão ao final do curso. Mesmo em uma universidade gratuita, há os custos de alimentação e transporte, sobretudo para pessoas de baixa renda e que vivem nas periferias. Então nós tentamos ajudar essas meninas com a oferta de bolsas de monitoria”, explica Thereza.
Em 2022, o “Tem Menina no Circuito” foi o vencedor do Nature Awards for Inspiring Women in Science, na categoria “Science Outreach”. O prêmio, concedido pela revista Nature, reconhece as iniciativas voltadas para que meninas se interessem e permaneçam na área das Ciências Exatas.
Para Thereza Paiva, o prêmio foi mais um incentivo para prosseguir. “Eu não vivo só de extensão na UFRJ. Tenho uma carreira de pesquisadora, dou aulas, estou assumindo a coordenação do programa de pós-graduação do IF. O projeto consome muito tempo, mas ele muda a vida das pessoas. Lá atrás, quando começamos, alguns colegas do IF diziam: “Ah, você gasta muito tempo brincando de massinha com as meninas, devia estar publicando mais”. E hoje em dia as pessoas passaram a entender o valor do que a gente faz. Quem criticava lá atrás, hoje me dá tapinha nas costas”.
PORTA DE ENTRADA
De acordo com a pró-reitoria de Extensão (PR-5), das 2.222 ações ativas de extensão da UFRJ até o início deste mês, 1.394 são coordenadas por mulheres. É uma maioria considerável e, na visão da pró-reitora Ivana Bentes, reflete uma firme determinação da extensão em ser uma porta de entrada para as mulheres na universidade. “Temos um ecossistema muito forte na extensão coordenado por mulheres e também voltado para o público feminino, dando visibilidade a temas críticos, como o combate à violência, ao assédio e à desigualdade de gênero”, pontua a professora.
Ivana também destaca a multiplicidade de ações de extensão que envolvem o público feminino: “Chama a atenção a diversidade de temas dessas ações coordenadas por mulheres, tanto para crianças e adolescentes quanto para adultos, desde empreendedorismo, saúde e cultura até alfabetização de jovens e adultos, combate à desinformação e apoio a mulheres no campo dos direitos humanos. Temos uma ação voltada a mulheres encarceradas, outra voltada à formação de conselheiros tutelares, que vão lidar com as questões de proteção a crianças e adolescentes”, enumera ela.
No conceito de porta de entrada, o projeto “Dynamic Women”, coordenado pela professora Luciana Salgado, do Instituto de Matemática, se encaixa como uma luva. Ele nasceu para confrontar a percepção de que o universo da Matemática é “coisa de homem”. Criado em 2019 para estudantes de graduação e de pós-graduação, o projeto visa a dar mais visibilidade a mulheres que fazem ciência, por meio de debates, palestras e encontros como o “Celebrando a Mulher na Matemática”. Nesses encontros, são exaltadas as conquistas de mulheres como a alemã Amalie Emmy Noether, considerada a “mãe da Álgebra moderna”, e a iraniana Maryam Mirzakhani, a primeira mulher a receber a Medalha Fields, mais alta condecoração mundial no campo da Matemática.
“Por meio de exemplos de mulheres como essas, nós tentamos atrair mais mulheres para a universidade, e quebrar conceitos ainda arraigados. O filme “Picture a Scientist” mostra uma pesquisa interessante. Quando você pede para crianças desenharem um cientista, as de até seis anos desenham do seu gênero. A partir dos sete anos de idade, a grande maioria desenha um homem. Há uma mudança de paradigma na visão das crianças, a partir de uma certa idade, de que quem faz ciência é o homem. Nesse filme há uma fala de uma professora universitária norte-americana que eu trago comigo, ela diz assim: “No fundo, eu só queria fazer ciência”. Parece simples, né? Mas as mulheres têm que superar muitas barreiras para isso”, reflete Luciana.
O assédio, tanto moral quanto sexual, é uma dessas barreiras, observa a professora. Ela já sentiu isso na própria pele. “Essa frase da professora eu levo comigo. Porque ela resume muita coisa. Ter de estar sempre alerta, sempre tentando se defender. Isso drena energia que deveria estar sendo usada para um bem maior que é fazer a ciência. Só me deixa em paz. Antes de ser matemática, eu cantava e tocava, sou musicista. O assédio é grande, é explícito. Agora a gente ainda pode falar, antes nem podia. E hoje mesmo as pessoas que denunciam sofrem retaliações pesadas. Esse não é o foco do projeto, mas temos que falar sobre isso. Nós estamos aqui, nós somos resistência”, diz a professora.





