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As palavras da iraniana Leili Babashahi são um soco no estômago. Aluna do mestrado na Coppe/UFRJ, ela mora no Brasil há três anos, e traduz em descrições secas o cotidiano de perseguição enfrentado pelas mulheres no Irã. Inclusive as pesquisadoras.

“No Irã, as universidades são centros de vigilância. A segurança do campus funciona como uma espécie de “polícia moral” do governo islâmico. Eles monitoram suas opiniões políticas, sua expressão religiosa e até mesmo suas amizades, conta. “Em 2012, a República Islâmica proibiu oficialmente as mulheres de ingressar em 77 diferentes áreas de estudo, incluindo Engenharia e Física Nuclear, alegando que seriam “inadequadas” para mulheres. Mesmo quando temos excelentes resultados nos exames, cotas frequentemente limitam nossa admissão em favor dos homens”.

Leili tem saudades da família, sonha em trazer a irmã mais nova para cá, e acompanha com aflição o noticiário sobre a guerra. “O regime islâmico frequentemente impõe apagões de internet, às vezes por semanas, para controlar o fluxo de informações. Isso torna extremamente difícil e angustiante saber se minha família está segura em momentos de instabilidade”, lamenta.

Há quanto tempo você está no Brasil e o que a trouxe para cá?
Estou no Brasil desde fevereiro de 2023. Minha irmã mora aqui há mais de 12 anos, e decidi vir para perto dela para continuar meus estudos e buscar uma vida com dignidade. O que me trouxe ao Rio foi o agravamento da situação no Irã — social, econômica e em relação aos direitos civis, especialmente para as mulheres. Os protestos após a morte de Mahsa Amini, em setembro de 2022, desencadearam o movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, um ponto de virada. O governo islâmico respondeu com uma repressão brutal. As restrições aos direitos das mulheres — desde vestimentas e liberdade de expressão até casamento, divórcio, herança e até mesmo a possibilidade de viajar — tornaram a vida cada vez mais insuportável.

Por que você escolheu a UFRJ?
Minha formação é em Tecnologia da Informação (TI), e eu queria continuar meus estudos em dados e engenharia do conhecimento. Eu tinha amigos na UFRJ que me ajudaram a conhecer as oportunidades aqui, e tive a sorte de conseguir uma vaga na universidade. A UFRJ é uma universidade reconhecida mundialmente e oferecia a liberdade acadêmica e o ambiente de pesquisa que eu procurava.

Em que curso você está matriculada atualmente?
Sou estudante de pós-graduação no Programa de Engenharia de Sistemas e Computação (PESC), com foco na área de Engenharia de Dados e do Conhecimento.

Você se sentiu acolhida na UFRJ?
Sim, me senti muito acolhida. No início, foi difícil me adaptar a uma nova cultura, língua e sistema educacional, mas com o tempo as coisas melhoraram. Durante esse processo, estudantes e professores foram extremamente gentis e solidários. Na UFRJ, encontrei uma comunidade que valoriza a diversidade e incentiva os estudantes a crescer sem o medo ou a vigilância que eu vivenciei no passado.

Como era o Irã quando você saiu do país?
Quando saí, o Irã enfrentava um colapso econômico e uma sufocante rede de restrições legais. O sistema jurídico, aplicado pelo governo islâmico, favorece os homens em quase todos os aspectos da vida. Os homens têm o direito unilateral ao divórcio, enquanto as mulheres só podem solicitá-lo em condições extremamente limitadas. Uma das leis mais dolorosas é que as mães frequentemente perdem a guarda dos filhos depois que eles completam sete anos. Mulheres casadas precisam até mesmo da permissão do marido para obter passaporte ou viajar. A discriminação começa cedo: meninas menores de 18 anos precisam do consentimento de um tutor masculino para viajar, enquanto os meninos não. Legalmente, uma menina pode se casar aos 13 anos, ou até mais nova com autorização judicial. A herança de uma mulher e seu testemunho em tribunal valem legalmente apenas metade do que o de um homem. Para além dessas leis, o regime censura todos os aspectos da vida e utiliza uma estratégia de “mentiras oficiais” para negar repressões e assassinatos, frequentemente culpando “forasteiros” pela violência que ele próprio pratica.

Como era o ambiente universitário lá?
No Irã, as universidades são centros de vigilância. A segurança do campus funciona como uma espécie de “polícia moral” do governo islâmico. Eles monitoram opiniões políticas, expressões religiosas e até mesmo amizades. Estudantes correm o risco de sofrer punições severas, incluindo expulsão, por defenderem visões contrárias à interpretação do Islã feita pelo governo. Isso cria um estado de profunda ansiedade; você nunca é realmente “apenas um estudante”, mas sim alguém constantemente vigiado.

Quais são as principais diferenças entre as universidades do Irã e as do Brasil?
As diferenças são enormes. No Brasil, vejo estudantes concentrados em suas pesquisas sem o medo de serem expulsos por suas crenças pessoais. No Brasil, a vida universitária é centrada no aprendizado e no crescimento pessoal. Os estudantes debatem abertamente política e religião — algo que no Irã poderia levar à prisão. As universidades brasileiras oferecem recursos para o bem-estar e a saúde mental dos estudantes, algo que muitas vezes não existe no Irã. Aqui, a roupa é uma escolha pessoal; no Irã, o uso obrigatório do hijab é uma exigência para poder estudar. No Brasil, universidade é um lugar para encontrar sua voz; no Irã, é um lugar onde você aprende a silenciá-la.

As diferenças atingem também a infraestrutura dos campi?
As diferenças atingem praticamente todos os aspectos da vida. O ambiente físico também é muito diferente. As universidades brasileiras são pensadas para o desenvolvimento integral do estudante, com centros esportivos integrados e amplos espaços verdes. No Irã, a infraestrutura é mais utilitária e restritiva; faltam espaços sociais inclusivos, e a atividade física costuma ocorrer em ambientes segregados e com horários rígidos. Nosso cotidiano é marcado pela separação: dormitórios e refeitórios são estritamente segregados e, nas salas de aula, muitas vezes somos obrigadas a sentar em áreas separadas. É um lembrete constante de que o seu gênero define seus limites.

A situação é particularmente diferente para as mulheres?
Sim, as mulheres enfrentam barreiras sistêmicas. Em 2012, o governo proibiu oficialmente as mulheres de ingressar em 77 diferentes áreas de estudo, incluindo Engenharia e Física Nuclear, alegando que seriam “inadequadas” para mulheres. Mesmo quando temos excelentes resultados nos exames, cotas frequentemente limitam nossa admissão em favor dos homens. Socialmente, a pressão é enorme. As estudantes devem usar o hijab de forma “perfeita”. Essas restrições também se cruzam com discriminações religiosas e étnicas: o governo impõe um rígido enquadramento no islamismo xiita. A liberdade religiosa é limitada. Por exemplo, a apostasia (abandonar o Islã) pode levar à pena de morte, e grupos minoritários, como os de cristãos e judeus, enfrentam discriminação constante. Mahsa Amini, por exemplo, era curda, e sua morte simbolizou a luta de ser ao mesmo tempo mulher e pertencente a uma minoria étnica sob esse regime.

Como é a vida hoje para as mulheres e pesquisadoras no Irã?
Desde os protestos de 2022, o ambiente ficou ainda mais militarizado. Para pesquisadoras, o desafio inclui um verdadeiro “teto legal”. Um marido ainda pode legalmente impedir sua esposa de trabalhar ou estudar se considerar que a carreira dela é “contrária aos interesses da família”. O governo islâmico continua a enganar a comunidade internacional sobre a dimensão da repressão, mas para quem está dentro do país a realidade é de repressão de alta tecnologia. O regime brutal utiliza tecnologias de vigilância para identificar mulheres que desafiam os códigos de vestimenta, e acadêmicos são impedidos de publicar pesquisas que reflitam as verdadeiras realidades sociais do país. Apesar disso, a coragem das mulheres no Irã permanece. Elas lutam por uma autonomia que muitas mulheres brasileiras — com razão — costumam considerar garantida.

Você voltou ao Irã desde que veio para o Brasil? Como mantém contato com sua família?
Não, eu não voltei. Mantenho contato com minha família por meio de aplicativos como WhatsApp e Google Meet. No entanto, a comunicação muitas vezes é difícil. O regime islâmico frequentemente impõe apagões de internet, às vezes por semanas, para controlar o fluxo de informações. Isso torna extremamente difícil e angustiante saber se minha família está segura em momentos de instabilidade.

Você espera voltar algum dia ou talvez trazer sua família para o Brasil?
Isso depende totalmente de como a situação no Irã evoluir. Meu sonho é poder visitar minha família e depois retornar para minha vida aqui no Brasil. Também gostaria muito de trazer minha família para cá, especialmente minha irmã mais nova, para que ela possa experimentar a liberdade e as oportunidades que o Brasil oferece. Mas, no final, essa decisão cabe a eles.

Como você tem acompanhado as notícias sobre a guerra?
Acompanho as notícias de perto por várias agências internacionais, como Fox News, Reuters e CNN, além de veículos em língua persa como Iran International. Plataformas de redes sociais — Instagram, Telegram e X (antigo Twitter) — também são essenciais para receber atualizações em tempo real diretamente de pessoas que estão no Irã, apesar da censura.

Como você avalia a intervenção norte-americana e israelense em seu país?
Nenhuma nação ou indivíduo quer ver seu país atacado ou sua infraestrutura destruída. A guerra nunca é algo que alguém deseje. No entanto, muitos iranianos sentem que, após décadas de manifestações pacíficas respondidas com massacres e silêncio, esse foi o único caminho que restou para enfraquecer o regime. Eu não vejo essa intervenção como um ataque ao povo iraniano, mas como uma ação contra um regime islâmico repressivo que está completamente separado de seus cidadãos. Durante décadas, estivemos presos sob um sistema de repressão, tortura e execuções. De acordo com relatórios oficiais, mais de 32 mil civis foram mortos, embora estimativas não oficiais sugiram que o número ultrapasse 50 mil. Essas vítimas incluem crianças e estudantes, e temo que esses números continuem a crescer enquanto o regime segue matando na escuridão de suas prisões — especialmente mulheres — e enquanto esconde essa realidade do mundo. Nesse contexto, ações direcionadas contra zonas militares e centros governamentais são vistas por muitos como uma forma de apoio para desmontar a máquina de repressão e permitir que o povo recupere seu país.

Você acredita que o assassinato do aiatolá Ali Khamenei e de seus aliados pode levar a uma mudança real no regime?
Sim, acredito que um evento assim poderia ser um catalisador de transformação. Por 47 anos, essa ditadura tem dependido de uma estrutura específica de liderança para negar liberdades básicas. A história mostra que, quando a liderança de um sistema autoritário é desestabilizada, surgem fissuras que podem abrir caminho para que a população pressione por mudanças profundas. O povo iraniano tem demonstrado uma resiliência incrível. Se o controle da liderança for quebrado, isso pode acelerar o processo de retomada do próprio destino pelo povo iraniano.

Você acha que existe um caminho realista para a democracia em seu país no curto prazo?
No curto prazo, o caminho é extremamente difícil. O regime brutal está profundamente enraizado e já demonstrou que usará violência extrema para se manter no poder. No entanto, a determinação do povo nunca foi tão forte. Embora uma transição completa para a democracia talvez não aconteça de um dia para o outro, as bases estão sendo construídas. As fissuras internas do regime e a coragem persistente dos cidadãos sugerem que a mudança é inevitável, mesmo que leve tempo.

Você acredita que suas filhas poderão um dia viver em um Irã mais justo e igualitário para as mulheres?
Tenho esperança de que um dia minhas filhas, e todas as mulheres no Irã, viverão em uma sociedade onde sejam tratadas como iguais. Atualmente, a realidade é de discriminação sistêmica e repressão severa. Mas a coragem demonstrada pelas mulheres iranianas, que lideraram os protestos recentes e se recusaram a ser silenciadas, é extraordinária. A resiliência delas é a razão pela qual acredito que um futuro de justiça e igualdade seja possível. Elas não estão mais aceitando a opressão nem o status de cidadãs de segunda classe.

Por fim, qual mensagem você gostaria de deixar para as estudantes e professoras da UFRJ neste mês da Mulher?
Peço às mulheres da UFRJ, estudantes e professoras que valorizem a justiça, a educação e os direitos humanos — que se solidarizem com as mulheres do Irã. As vozes de vocês amplificam as nossas e lembram ao mundo que a luta pela liberdade é universal. As mulheres iranianas estão lutando por seus direitos e por suas vidas, apesar dos imensos riscos. Quando mulheres apoiam umas às outras além das fronteiras, construímos a base de um futuro em que liberdade, igualdade e justiça não sejam apenas sonhos, mas uma realidade vivida por todas e todos.

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