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WhatsApp Image 2026 02 13 at 21.15.36 8SURPRESA Mosquito da espécie Sabethes sp, uma das amostras estudadas. Achado surpreendeu equipe - Foto: DIVULGAÇÃOFoi uma surpresa. Ao analisarem a dieta alimentar de mosquitos em duas áreas remanescentes de Mata Atlântica no interior fluminense, pesquisadores da UFRJ, da Fiocruz e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) detectaram majoritariamente a presença de sangue humano. A descoberta indica que o avanço da destruição do bioma está afastando os animais silvestres para áreas mais distantes na floresta, e levando os insetos a buscar alimento nas periferias habitadas ao redor das reservas ambientais.
“Há indícios de que esse desequilíbrio ambiental está levando a uma mudança no comportamento desses insetos, que estão se alimentando preferencialmente de sangue humano, e isso pode aumentar a transmissão de doenças como dengue, zika, chikungunya e febre amarela”, alerta o professor Sérgio Machado, da Faculdade de Farmácia da UFRJ. Ele é um dos autores do estudo “Aspectos da alimentação sanguínea de mosquitos durante o período crepuscular em áreas remanescentes de Mata Atlântica no estado do Rio de Janeiro”, publicado no último dia 15 de janeiro na revista suíça Frontiers in Ecology and Evolution.
O estudo destaca que a riqueza de fauna e flora da Mata Atlântica está ameaçada pelo desmatamento, e que a perda da vegetação nativa está associada ao aumento da transmissão de agentes transmissores de arbovírus (como os causadores da dengue, zika, chikungunya e febre amarela). Os habitats naturais dos vetores e seus ciclos de vida são alterados, afetando sua densidade populacional. Com isso, os insetos se aproximam das residências próximas às áreas de floresta, causando transmissões.
Originalmente, a Mata Atlântica cobria mais de 1,3 milhão de quilômetros quadrados em 17 estados brasileiros. Mas o desmatamento e a ocupação humana, com a expansão da agricultura, pastos para gado e instalação de residências, reduziram muito a vegetação nativa: restam hoje apenas 29% da cobertura original, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente de 2025.
TRABALHO DE CAMPO
As coletas de insetos para o estudo foram feitas entre fevereiro de 2023 e fevereiro de 2024 em duas áreas de Mata Atlântica, ambas no Rio deWhatsApp Image 2026 02 13 at 21.15.36 9COLETA Professor Sérgio Machado instala armadilha na floresta - Foto: PAULO JOSÉ LEITE Janeiro: a Reserva Ecológica de Guapiaçu (REGUA), em Cachoeiras de Macacu, e o Sítio Recanto Preservar, em Silva Jardim. Os pesquisadores fizeram a captura de 1.714 mosquitos de diferentes gêneros e espécies nas duas áreas. De 27 sequências genéticas obtidas em laboratório para identificação das espécies consumidas, 18 indicavam o consumo de sangue humano.
É importante ressaltar que as duas áreas escolhidas são de reservas ambientais. A REGUA, por exemplo, tem feito um forte trabalho de recuperação de vegetação nos últimos anos, inclusive adquirindo propriedades rurais vizinhas para integrá-las à reserva, na tentativa de que a floresta fragmentada possa ser aos poucos conectada.
“São áreas preservadas, e isso ainda é mais preocupante. Na área de preservação do mico-leão-dourado, no Sítio Recanto Preservar, esperávamos encontrar os mosquitos preferencialmente alimentados por sangue de primatas, já que é uma região onde eles se concentram. Mas não foi isso que encontramos, e sim sangue humano. Esse achado foi uma surpresa para nós”, revela o professor Sérgio Machado.
O sequenciamento genético foi feito no Laboratório de Díptera (LABDIP) do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), onde atua o professor Jerônimo Alencar, orientador de doutorado de Sérgio Machado e que também assina o estudo publicado. “Esse trabalho começou com ele há cinco anos, e essa descoberta certamente nos levará a prosseguir com a pesquisa”, diz Machado.
A primeira reação dos pesquisadores ao detectar o sangue humano foi de que se tratasse de sangue dos próprios coletores. “Checamos e vimos que não era nosso, foi o que primeiro descartamos. Não era também de turistas ou outras pessoas que circulavam durante o dia na mata porque nossas armadilhas eram acionadas somente ao cair da noite, todas colocadas em locais referenciados por GPS, da borda de trilhas até mata adentro. E eram recolhidas ao amanhecer”, explica o professor.
O trabalho de campo foi complexo. A bióloga Dálete Cássia Alves, da UFRRJ, que também assina o estudo, que o diga. “Tenho alergia a picada de mosquito, então imagine o que sofri! Não podíamos usar repelente porque a intenção era atrair, e não afastar os insetos. Usamos roupas protetoras, mas mesmo assim levei muita picada”, conta ela.
Dálete ficou particularmente impressionada com a escassez de animais nas áreas de coleta. “Na REGUA, até nos avisaram que podíamos cruzar com onças, mas não avistamos nenhuma. Na verdade, só vi um jacaré e algumas pegadas de capivara, além de alguns pássaros. A área está em processo de restauração, com o plantio de mudas da Mata Atlântica. Ter encontrado majoritariamente sangue humano nos mosquitos nos causou surpresa. É preocupante porque pode aumentar o risco de propagação de doenças. E a baixa presença de animais indica uma queda na biodiversidade local, o que também é preocupante”, observa a bióloga.

DESEQUILÍBRIO
O professor Sérgio Machado pontua que a recuperação das florestas é fundamental para restabelecer o equilíbrio na Mata Atlântica: “Os mosquitos podem estar se adaptando a essa nova realidade, a do desmatamento. Eles têm essa plasticidade, uma notável capacidade de alterar aspectos biológicos, comportamentais e fisiológicos em resposta a variações ambientais, permitindo a sobrevivência e reprodução em diversos cenários”.
Para o pesquisador, é também factível a hipótese de invasão das reservas por caçadores, que se tornam alvos dos mosquitos. “Quando o ser humano invade a floresta, algumas espécies de culicídeos são atraídas a ele por fatores como a temperatura corporal, a exalação de dióxido de carbono e o suor. O desmatamento reduz a oferta de alimentos para os primatas, por exemplo, que adoram frutas. Nós também somos primatas, logo temos fatores de atração parecidos aos não humanos”.
O estudo deve ter novos desdobramentos em breve, com a ampliação das áreas de coleta, se possível para fragmentos de Mata Atlântica em outros estados, como Espírito Santo e Minas Gerais. “É fundamental enfatizar a necessidade de mais pesquisas para avaliar os padrões alimentares dos mosquitos e suas implicações para a saúde pública. Estamos estudando outros tipos de armadilha que possam capturar mais insetos ingurgitados (alimentados recentemente de sangue), e ampliar nossa base”, conclui o professor.

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