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WhatsApp Image 2026 02 13 at 21.15.36 4Silvana Sá e Alexandre Medeiros

O resultado preliminar da Avaliação Quadrienal da Capes aponta para um cenário de estatabilidade na pós-graduação da UFRJ. Foram aferidos 105 programas de pós-graduação acadêmicos. Desse total, 20 elevaram a nota, 65 mantiveram e 17 reduziram. Outros três programas são muito novos e não tiveram comparação de notas.
Entre altos e baixos, a média geral dos conceitos da universidade permaneceu em 5,4. “Diante do nosso subfinanciamento, é quase um milagre que a UFRJ tenha conseguido permanecer na mesma posição na Capes”, avalia o pró-reitor de Pós-Graduação e Pesquisa, professor João Torres.
Esse ciclo avaliativo foi realizado até 2024 e as análises dos indicadores de cada programa seguiram ao longo de 2025. Por enquanto, as notas só foram disponibilizadas aos coordenadores de programas e às pró-reitorias de cada instituição de ensino. O prazo para apresentação de recursos — que ainda serão analisados — se encerrou em 11 de fevereiro, e os resultados finais devem ser publicados somente em maio.
João Torres revela que a PR-2 fará reuniões para avaliar as notas em conjunto com cada programa. “Queremos entender o que aconteceu, sobretudo com os programas que tiveram as notas reduzidas. Vamos fazer essas reuniões por Centro ou por áreas temáticas”, afirma Torres. Ele também destaca que a universidade precisa se adaptar a algumas mudanças apresentadas pela Capes, como a autoavaliação dos cursos e o planejamento estratégico. “São duas coisas que precisarão fazer parte da nossa cultura. Devemos ter mais atenção também às métricas relacionadas ao impacto social de cada programa”.
Perguntado sobre o que pode ter levado à redução de notas em 17 PPGs, Torres acredita que a questão é complexa. “Não há uma resposta única. Os programas têm realidades muito distintas. Não existe um padrão que aponte para uma única resposta. Vamos avaliar o que aconteceu caso a caso”, reforça.
O dirigente, no entanto, comemora os bons resultados. “A gente teve boas notícias em muitos cursos: cinco programas que eram conceito 3 subiram de nota. Agora, temos sete programas acadêmicos com conceito 3, não mais 12”, celebra o pró-reitor. O conceito 3 é a menor nota satisfatória para a existência de um programa. “O programa da Dança também aumentou sua nota. É um mestrado muito recente e um exemplo de trabalho que nos deixa muito felizes”, elogia o pró-reitor. A Dança subiu do conceito 3 para o 4.

EXTENSÃO DE PRAZOS
O coordenador do programa de Física, professor Felipe Pinheiro, acredita que a pandemia teve impacto negativo nesse ciclo da Quadrienal para a UFRJ. Seu programa, no entanto, manteve o conceito 7, o mais alto dentre os cursos de reconhecida excelência acadêmica. “Essa quadrienal foi muito marcada pela pandemia. Isso resultou, acho que de forma geral, numa queda de produção intelectual nos primeiros anos do quadriênio. E isso é computado na Capes”, analisa o docente. “Depois, o nosso programa se recuperou bastante em 2023 e 2024, e cumprimos todos os parâmetros que a Capes, na área de Física, estabelece para a nota 7”, comemora.
O docente aponta outro fator que pode ter contribuído para a baixa em muitos programas: a extensão de prazos para defesa de teses e dissertaçõesWhatsApp Image 2026 02 13 at 21.15.36 5 durante a pandemia. “Pelo que apurei, nenhuma universidade federal, pelo menos entre as maiores, concedeu dois anos adicionais de extensão de prazo para conclusão dos trabalhos finais de mestrado e doutorado, como foi o nosso caso na UFRJ. Esse adiamento levou, consequentemente, a um atraso na produção intelectual”, analisa. “A gente começou a receber pedidos de extensão baseados nos seis anos para as teses do doutorado. Isso resultou em atraso na publicação de artigos, por exemplo”, argumenta.

CORRIDA POR RECURSOS
Pinheiro considera a avaliação quadrienal um elemento importante de mensuração de qualidade, mas que acaba se tornando uma competição por recursos entre instituições de ensino e pesquisa. “No fundo, a avaliação da Capes é uma competição nacional por um bolo de dinheiro que tem que ser distribuído. Essa ação da UFRJ (de ampliar os prazos de defesa) nos prejudicou porque afetou nossos dados na quadrienal”, pontua. “As outras universidades concederam prazos de extensão de seis meses. E as agências, como o CNPq, concederam mais seis meses”, explica.
Ele afirma que a decisão da universidade impactou o programa da Física. “Não estou minimizando o que foi a pandemia, mas comparativamente com outros programas do Brasil, isso nos prejudicou”, aponta. “Nos últimos dois anos da avaliação nós conseguimos nos recuperar com alguns pontos fortes, como a produção intelectual e as parcerias externas. E temos todas as condições para manter essa nota para o próximo quadriênio”.
A elevação da nota na Capes impacta diretamente na visibilidade do programa, captação de recursos e de alunos, destaca o coordenador do PPG de Astronomia, professor Luan Ghezzi. Seu programa foi criado em 2003 no nível de mestrado. Em 2010, o curso ganhou o doutorado acadêmico, cuja primeira tese foi defendida há apenas 12 anos. “Passamos do conceito 4 para o 5”, comemora.
Ele explica que um dos fatores que faz parte do cálculo das cotas de bolsas e dos recursos recebidos por cada programa é a nota da avaliação Capes. “Além disso, a passagem da nota 4 para 5 nos permite participar de editais como, por exemplo, o Programa Bolsa Nota 10 da FAPERJ”, diz. “Por fim, a nota 5 aumenta a visibilidade e atratividade do ProAstro, o que nos permitirá continuar aprimorando a nossa pesquisa científica e a formação de profissionais qualificados”, analisa o professor.
O docente afirma que o resultado é fruto de um trabalho coletivo da comunidade do Observatório do Valongo, que tem se debruçado sobre os resultados anteriores e aplicado as recomendações da agência. “É uma conquista. Analisamos os relatórios das avaliações anteriores e traçamos estratégias para implementar as melhorias recomendadas”, conta. “Em particular, houve um aumento da produtividade do ProAstro através da publicação de mais artigos em revistas de grande impacto e uma maior internacionalização através do intercâmbio de alunos e de parcerias com pesquisadores, institutos e colaborações no exterior”.
Se o aumento da nota impacta em mais recursos para os PPGs, manter os resultados estáveis é uma dificuldade por conta do subfinanciamento crônico ao qual estão submetidas as universidades federais. “Dentre os principais desafios, posso citar os recursos insuficientes para investimentos em infraestrutura”, aponta. “Por exemplo, a modernização do campus e a aquisição de equipamentos de alto desempenho”, diz. Também falta dinheiro para o básico, como o pagamento de taxas de publicação de artigos. “Além disso, a defasagem nos valores das bolsas de mestrado e doutorado prejudica a atração e permanência de discentes”.

TRABALHO COLETIVO
O sonhado conceito 7 voltou a ser realidade para o programa de Química, o mais antigo do Brasil na área. A coordenadora do PGQU, professora Sabrina Baptista Ferreira, comemora a conquista. “O PGQU já foi 7, caímos para 6, mas depois de alguns anos trabalhando em cima das exigências que a Capes vinha trazendo e de avaliações sobre mudanças nos itens, conseguimos voltar ao 7”, celebra.
Ela atribui o sucesso ao trabalho coletivo. “É impossível para um coordenador conquistar uma nota sozinho. Nossa maior ferramenta de trabalho são os nossos alunos. São eles que estão na linha de frente dos laboratórios executando as pesquisas com orientação dos seus docentes”, afirma. “Por mais que o programa atenda os critérios, se não for tudo colocado no sistema, o sete não vem”.
A burocracia, no entanto, é um fator que ainda atrapalha os programas, de acordo com a professora. “Queremos melhorar a coleta de dados para que seja mais automatizada e traga menos burocracia, tanto para a gente, na coordenação, quanto para docentes e alunos”, revela. “Tudo o que a gente coloca no sistema da Capes precisa de comprovantes. Isso gera enorme demanda e acaba tomando tempo dos docentes e da coordenação. É tempo que a gente deixa de dedicar ao ensino, pesquisa, orientação”.

QUEDAS PREOCUPAM
A Coppe pode ser um foco de preocupação para a UFRJ. Isto porque a unidade teve redução de notas em quatro de seus 13 programas acadêmicos neste ciclo da Quadrienal. O diretor adjunto da unidade, professor Jean-David Caprace, minimiza as dificuldades. “Neste ciclo avaliativo, os programas seguem os procedimentos regulares, incluindo pedidos de revisão dentro do prazo estabelecido, o que é absolutamente normal no processo”, afirma.
O docente acredita que a atuação junto à indústria ainda não seja suficientemente valorizada nas avaliações. “No caso da Coppe, esse debate inclui a reflexão sobre características que ainda não são plenamente capturadas pelos instrumentos atuais de avaliação, como sua forte inserção na indústria nacional, a liderança em projetos cooperativos e a capacidade de transformar pesquisa em soluções de alto impacto — pontos que a instituição pretende aprofundar no diálogo com a Capes”.
Caprace acrescenta a necessidade de aprimorar internamente os mecanismos de acompanhamento dos PPGs. “Está em processo de criação um comitê estratégico de avaliação e acompanhamento dos programas de pós-graduação, com foco em alinhamento institucional, apoio aos coordenadores e fortalecimento contínuo da excelência acadêmica”, revela.
Coordenadora do programa de pós em Genética, a professora Claudia Russo revela que o curso baixou da nota 7 para a 6. “Éramos 7 por duas avaliações seguidas e baixamos. Fizemos o recurso e vamos esperar o resultado”, conta a docente. O programa esteve entre os mais bem avaliados na quadrienal 2017-2021. Ela está convencida de que a queda é fruto da pandemia. “Houve um momento em que a nossa testagem para covid-19 era a única disponível para todos os profissionais de saúde do Rio de Janeiro. É óbvio que esse tipo de coisa vai impactar em nossa produção”.
A docente conta que o resultado preliminar da Quadrienal deixou o programa com média baixa em produtividade até entre os cursos de nota 6. “Nosso laboratório multiusuário foi completamente dedicado ao combate à pandemia. Esse tipo de coisa até rendeu frutos de produtividade, mas que não estavam ligados aos trabalhos originais dos nossos alunos. Perdemos em produtividade docente e em produtividade docente/discente”, explica Claudia Russo. “Todas as nossas máquinas de tempo real foram desviadas para as testagens. Nós fomos um dos pontos focais do estado do Rio de Janeiro”, relembra.
Seus colegas atuaram também com capacitação em outros municípios, incluindo Macaé, para diagnóstico e testagem padrão ouro. “É claro que outros programas tiveram problemas em relação ao lockdown, mas certamente não com um papel tão intenso na linha de frente quanto a Genética. O foco total do departamento e do programa, liderados pelo saudoso professor Amilcar Tanuri, foi o combate à pandemia (que faleceu ano passado)”, justifica. “Muitos professores acabaram fazendo trabalho técnico também, rechecando resultado do teste diagnóstico, por exemplo, para garantir que nós não daríamos resultados errados para as pessoas. Isso é óbvio que fez com que nossos professores dessem menos aula, orientassem menos”.
Por outro lado, ela explica que a experiência da pandemia permitiu a publicação de artigos importantes para o Brasil e para o mundo para o entendimento da covid-19. “Publicamos menos, mas com muita qualidade. Eu acho que talvez falte bom senso. A UFRJ foi muito importante no combate à pandemia. Quem pôde ficar em casa escrevendo os artigos, obviamente teve aumento da produtividade. Nós não ficamos em casa”, defende-se. “Eu espero que a Capes entenda que essa perda de produtividade foi uma coisa transitória. Não existiu uma queda na qualidade do trabalho”.

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