Foto: DivulgaçãoA exuberância da Floresta da Tijuca, uma das mais belas e conservadas porções da Mata Atlântica do país, se deve em boa parte ao trabalho de um morador ilustre daquelas matas, também ele um exemplo de beleza e conservação: o tucano-de-bico-preto. Reintroduzido no Parque Nacional da Tijuca (PNT) no início dos anos 1970, depois de praticamente desaparecido da fauna carioca por conta do desmatamento, o animal não só recuperou seu espaço na floresta como vem contribuindo para a proliferação de espécies vegetais nativas e ameaçadas de extinção na Mata Atlântica, como a palmeira-juçara. O sucesso da reintrodução do tucano-de-bico-preto no Parque Nacional da Tijuca e a importância de sua ação como dispersor de sementes são avaliados em um estudo liderado por pesquisadoras do Instituto de Biologia da UFRJ (IB/UFRJ), publicado em fevereiro na revista científica sueca Oikos. Principal autora do estudo, a bióloga Flávia Zagury destaca que a reintrodução da ave recuperou, em média, 76% das interações de frugivoria (consumo de frutos e dispersão de sementes) no Parque, no período de um ano de análise. Para as interações com sementes médias e grandes o resultado é ainda mais expressivo: 89% e 88%, respectivamente. Os tucanos são ótimos dispersores de sementes. Eles conseguem consumir frutos de vários tamanhos, e voam longas distâncias. “A dispersão de sementes é um processo muito importante nos ecossistemas”, explica Flávia, doutoranda no Programa de Pós-graduação em Ecologia do IB. Ela explica que que a Floresta da Tijuca, assim como outras áreas remanescentes de Mata Atlântica, é um ecossistema defaunado. “Ou seja, por ter passado por um processo de degradação, perdeu muitas espécies de mamíferos e de aves, sobretudo as de maior porte, como os tucanos. E, sem esses animais, as plantas que têm sementes de frutos médios e grandes perdem os seus dispersores. Os resultados desse estudo revelam que há um grande potencial de recuperação dessas interações”, avalia.
TRABALHO PIONEIRO
A história do estudo liderado pelas pesquisadoras da UFRJ começa no fim dos anos 1960, com a apreensão em massa de tucanos-de-bico-preto no comércio ilegal por agentes do então Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), o atual Ibama. E tem um personagem central: o biólogo cearense Adelmar Coimbra-Filho (leia box com perfil do pesquisador). Ao lado de Antonio Aldrighi, então diretor do PNT, Coimbra-Filho foi o responsável pela reintrodução de 47 tucanos-de-bico-preto na área do Parque, entre os anos de 1970 e 1973. Todos apreendidos no comércio ilegal. Em um trabalho publicado em 2000, o próprio Coimbra-Filho assim descreveu suas impressões sobre a reintrodução: “Após as solturas, os tucanos voavam imediatamente para árvores mais altas, onde permaneciam algum tempo, ocasião em que alguns emitiam suas inconfundíveis vocalizações, hoje frequentes nas matas da região. Aos poucos afastavam-se pelas ramagens do arvoredo da floresta, procurando alcançar as partes mais altas, de onde voavam e desapareciam da nossa vista”. Apaixonado pelo trabalho de Coimbra-Filho, Flávia Zagury tem orgulho em poder resgatar e avançar nas pesquisas com os tucanos-de-bico-preto. “O trabalho dele foi pioneiro e rende frutos até hoje. A população proveniente da reintrodução conduzida por Coimbra-Filho e Antonio Aldrighi já recuperou grande parte das interações de frugívora esperadas”, diz Flávia. De acordo com a bióloga, por ser uma ave de grande porte e capaz de voar longas distâncias, o tucano-de-bico-preto consegue dispersar sementes para novas áreas por meio da zoocoria — os animais ingerem frutos e dispersam as sementes longe da planta-mãe. “Para este estudo, fizemos observações em campo durante um ano para verificar com quais espécies a população de tucanos-de-bico-preto, proveniente da reintrodução, estava interagindo em termos de frugívora. Seguimos indivíduos ou bandos de tucanos durante o máximo de tempo possível, observando e anotando todas as espécies de fruto que eles consumiam. Totalizamos cerca de 520 horas em campo”.
NOVOS ESTUDOS
Para a professora Rita Portela (IB/UFRJ), outra autora do estudo, a pesquisa tem um viés de continuidade e resgate do trabalho feito por Coimbra-Filho nos anos 1970. “As reintroduções feitas na Floresta da Tijuca são muito recentes, casos dos bugios e das araras. Essa dos tucanos feita pelo Coimbra-Filho é a que temos um histórico mais longo, nos mostra como essas reintroduções são viáveis e como são importantes para a restauração das interações e funcionalidades da floresta”, explica a docente. “O tucano é um dispersor muito eficiente de sementes grandes, e essas sementes são de árvores que acumulam muito carbono. Esse é um outro fator importante da restauração dessa interação, já que essa dispersão seria muito pequena sem a ação de animais como os tucanos”, diz Rita. No estudo, os pesquisadores utilizaram a abordagem de “crédito de interações”, que se baseia na ideia de que, ao reintroduzir uma espécie localmente extinta, não apenas a espécie retorna ao ambiente, mas ela também tem o potencial de trazer de volta interações ecológicas que foram perdidas com a sua extinção. O tucano-de-bico-preto chegou a ser considerado extinto na área do PNT em 1968. Além de Flávia e Rita, assinam o estudo os professores Henrique Rajão (PUC-RJ), Ângelo Corrêa (USP) e Luisa Genes (Stanford University). Em sua pesquisa de doutorado, Flávia Zagury quer ir além. “Uma das espécies que a gente mais constatou como alimento dos tucanos-de-bico-preto foi a palmeira-juçara. No meu doutorado eu ampliei a gama de olhares para entender as interações ecológicas da palmeira-juçara na Floresta da Tijuca e no Poço das Antas (reserva biológica no interior fluminense). Tento entender o quanto cada espécie, como o tucano-de-bico-preto, está colaborando para aumentar a população da juçara, por meio da dispersão de sementes”, diz Flávia. Mais uma vez passado, presente e futuro se unem: a reserva de Poço das Antas foi criada a partir do trabalho de Adelmar Coimbra-Filho. A bióloga passa mais tempo em campo do que em laboratório. “Não é fácil trabalhar com tucanos, muito menos seguir os animais na floresta. Eles fazem ninhos em cavidades de árvore, você tem que escalar para conseguir monitorar”, conta. “De início fizemos esse trabalho no Jardim Botânico do Rio. Foi aí que começou a minha história com os tucanos-de-bico-preto. Eu vejo essas aves como um grande exemplo da história do Rio de Janeiro, da exploração que tivemos de nossas florestas, do desmatamento, até a recuperação que temos tido nos últimos tempos, com a refauna”, compara a pesquisadora.
E que os tucanos-de-bico-preto voem cada vez mais longe.
INCANSÁVEL DEFENSOR DA VIDA
Embora tenha feito um trabalho notável com os tucanos-de-bico-preto na área do PNT, o biólogo Adelmar Faria Coimbra-Filho é mais conhecido por suas ações de preservação de outro animal: o mico-leão-dourado. Que, por sinal, era por ele chamado de sauí-piranga, que significa “primata vermelho” em tupi-guarani.
Considerado um dos maiores conservacionistas do Brasil, Coimbra-Filho foi o responsável pela criação da Reserva Biológica de Poços das Antas, em Silva Jardim (RJ), a primeira do gênero do país, em 1974. É lá que o sauí-piranga, antes ameaçado de extinção, vive em harmonia com a natureza.
Nascido em Fortaleza em 1924, Coimbra-Filho iniciou sua vida profissional no Rio de Janeiro, onde estudou História Natural e Zoologia, e desenvolveu trabalhos em áreas como Primatologia, Biologia de Vertebrados, Biogeografia e Conservação de Ecossistemas Naturais. Foi o primeiro diretor do Parque Florestal da Gávea (atual Parque da Cidade), em 1947. Depois de ocupar diversos cargos em instituições como o Jardim Zoológico do Rio de Janeiro e o Serviço de Parques e Reservas Biológicas, do antigo Estado da Guanabara, o biólogo dedicou-se ao estudo dos primatas — além da reserva de Poço das Antas, ele criou e foi o primeiro diretor do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro (CPRJ), em 1979.
O CPRJ tem como principal objetivo assegurar a continuidade das espécies, por meio de um banco genético que dá suporte às colônias de primatas brasileiros. O centro cria somente primatas de espécies nativas do Brasil, com atenção especial para aquelas sob algum risco de ameaça de extinção. Por essas iniciativas, Coimbra-Filho é considerado “o pai da primatologia brasileira”. O biólogo faleceu no Rio de Janeiro aos 92 anos, em 2016.




