Foto: João LaetA dramática situação de Cuba, agravada pelo recrudescimento do bloqueio norte-americano sob o segundo mandato de Donald Trump, e a corrente de solidariedade ao regime e ao povo caribenho foram os principais temas da palestra de Frei Betto, um dos mais destacados intelectuais do país, em 30 de abril, no Centro de Tecnologia, no Fundão. O encontro foi organizado pela AdUFRJ, em parceria com o Sintufrj, o DCE Mário Prata e a APG/UFRJ.
“Cuba vive uma crise terrível. Não tem energia, não tem gás, muitas pessoas estão usando lenha para cozinhar”, descreveu Frei Betto. Segundo ele, o bloqueio imposto pelos Estados Unidos em 1962 foi intensificado desde que Donald Trump assumiu a presidência, em janeiro do ano passado. “Trump incluiu Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo, e isso fechou todo o sistema bancário internacional ao país, prejudicando importações e exportações”, exemplificou o escritor.
Frei Betto destacou que cresce em todo o mundo um sentimento de solidariedade a Cuba: “O Brasil tem ajudado muito, com medicamentos, alimentos. Estamos introduzindo lá um sistema de captação de água das chuvas, por exemplo. Temos que ampliar essa corrente solidária”.
A presidenta da AdUFRJ, professora Ligia Bahia, fez coro com Frei Betto e anunciou uma iniciativa imediata: uma campanha de arrecadação de recursos para a compra de medicamentos, batizada de UFRJ 100 mil. “É importante que a gente consiga arrecadar esses R$ 100 mil, e espalhar essa campanha para trazer mais pessoas e instituições para ajudar, vamos criar uma onda”, defendeu Ligia Bahia. A iniciativa ainda está em estudo, e prevê a arrecadação de doações em dinheiro via PIX, em faixas que vão de R$ 10 a R$ 200.
Leia a seguir os principais trechos da palestra.
JUVENTUDE
Desde os 13 anos eu já tinha uma cabeça de esquerda, por ser da juventude católica, que, assessorada pelos frades dominicanos em Belo Horizonte, já nos dava uma formação bem progressista. Atuávamos na política estudantil, com a juventude comunista. Isso nos fez torcedores da Revolução Cubana de 1959. Mas eu nunca imaginei a possibilidade de ir a Cuba, pelos fatores decorrentes do golpe de 1964, em que o Brasil, inclusive, rompeu relações com Cuba.
REVOLUÇÃO SANDINISTA
Em 1979, eu fui a Costa Rica e tive contato com guerrilheiros sandinistas da Nicarágua, por meio do poeta Ernesto Cardenal. Naquele ano, eu convidei o Cardenal e o padre Miguel d’Escoto para o primeiro congresso da Associação dos Teólogos do Terceiro Mundo, em São Paulo. O d’Escoto veio ao congresso, em janeiro de 1980, com o Daniel Ortega, o que criou um problema diplomático. Ortega acabara de liderar uma revolução, era presidente da Nicarágua, e o Brasil estava de nariz torcido para a Revolução Sandinista, porque a considerava uma continuação da Revolução Cubana. Ortega entrou como turista, e não como chefe de Estado. A Polícia Federal ofereceu segurança para ele, para saber quais contatos ele teria aqui. Em julho de 1980, eles convidaram três pessoas do Brasil para o primeiro aniversário da Revolução Sandinista: Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal de São Paulo, Lula e eu. Dom Paulo não pôde ir, então eu fui com o Lula.
PRIMEIRO ENCONTRO
COM FIDEL
Nessas comemorações, houve uma recepção para o Fidel Castro, e fomos eu e Lula. Às duas da madrugada, o padre d’Escoto nos convidou para conversar com o Fidel na biblioteca. Entramos às duas da madrugada, saímos às seis da manhã. A primeira pergunta que eu fiz a ele foi por que o Estado e o partido de Cuba eram confessionais. Ele levou um maior susto: “Como confessionais? Somos ateus”, ele disse. Eu sabia que o Estado cubano era oficialmente ateu, e o partido também. Disse a ele que afirmar ou negar a existência de Deus é mera confessionalidade, e que o Estado e o partido não podem ser confessionalizados, tinham de ser laicos. Ele me deu razão. Alguns anos depois, a Constituição cubana foi modificada. E o partido também modificou o seu estatuto. Hoje o Partido Comunista Cubano é laico e qualquer crente, qualquer pessoa de convicção religiosa pode ingressar no partido.
CONVITE DO COMANDANTE
A segunda pergunta que fiz foi sobre a relação da Revolução com a Igreja Católica. Eu sabia que era muito tensa, porque a Igreja Católica de Cuba era de formação franquista, da ditadura de Franco na Espanha, um clero e um episcopado muito reacionários, anticomunistas, e ligados aos Estados Unidos. Antes que ele me respondesse, eu citei três hipóteses. A primeira é que a Revolução perseguia a Igreja Católica. A segunda é que a Revolução era indiferente à Igreja Católica. E a terceira é que, sendo a Igreja Católica uma das instituições do povo cubano, a Revolução dialogava com ela. Então Fidel me disse que há 16 anos ele não recebia um bispo cubano, e que a atitude correta seria dialogar, e me pediu para ajudá-lo nisso. Eu disse que estava disposto. Fidel disse: “Então vamos cuidar disso”.
PRIMEIRA VIAGEM A CUBA
No ano seguinte eu fui a Cuba pela primeira vez, em 1981, e consegui fazer uma reunião com toda a Conferência Episcopal Cubana. Uma reunião extremamente tensa. Eu coloquei para eles a conversa e a proposta de Fidel, e eles começaram a discutir entre si, com mil fantasmas, que eu estava sendo manipulado, isso e aquilo, até que finalmente aceitaram conversar. Então, durante dez anos eu trabalhei na reaproximação entre a Revolução e a Igreja Católica.
A ENTREVISTA
Em 1985, o Fidel marcou de me dar uma entrevista. Em maio, eu fui para Havana. Quando cheguei, ele me chamou e delicadamente me disse que não poderia me dar a entrevista porque os contrarrevolucionários cubanos de Miami acabavam de inaugurar a rádio José Martí. Eu insisti, tinha preparado 64 perguntas. Na última tentativa, comecei a ler as perguntas. Quando cheguei na quinta, ele falou: “Amanhã iniciamos”. Qual a minha interpretação? Quando ele viu que eu estava perguntando como era a formação religiosa, como é que era a fé da mãe dele, do pai dele, a catequese, ele se entusiasmou. A entrevista foi traduzida em 23 idiomas.
IMPACTOS DA ENTREVISTA
Foi a primeira vez na história que um chefe comunista no poder falou positivamente da religião. Isso foi uma grande revolução, inclusive pela crítica que o Fidel faz à interpretação leninista e stalinista da famosa frase de Marx e Engels: “A religião é o ópio do povo”. A entrevista teve muito impacto no mundo socialista, que estava desabando na Europa. Eles se deram conta do grande erro que a esquerda de tradição stalinista cometeu de considerar que, para ser comunista ou para ser socialista, tinha que ser ateu. Os camponeses e operários comunistas no Brasil mantinham a fé, como na União Soviética, onde o povo praticava a fé ortodoxa, e em Cuba. E para não se queimar, para não poder ser vetado em empregos, escondiam isso.
PAULO FREIRE
Percebi que em Cuba havia três nomes proibidos: Freud, Trotsky e Paulo Freire. E eu pensei: como Paulo Freire? Se há alguma dívida que nós todos na América Latina temos com Paulo Freire é um cara como Lula ser presidente pela terceira vez. Quando me perguntam no exterior como é que explica esse fenômeno, num país tão elitista como o Brasil, eu falo: vocês têm que ler Paulo Freire. Foi ele que resgatou a autoestima dos oprimidos e eles se assumiram como protagonistas. Até então a esquerda, vanguarda do proletariado, era dirigida pela intelectualidade. E quando o proletariado resolveu criar seu próprio partido foi uma indignação na esquerda brasileira. Ficaram enciumados porque um grupo de sindicalistas resolveu fundar um partido que está aí até hoje, o PT.
EDUCAÇÃO POPULAR
Fidel acabou lendo Paulo Freire e se convenceu da importância dele. Eu nunca trabalhei com educação formal, trabalho com educação popular. Como enfiar educação popular, o método Paulo Freire, na escola formal? Você pode enfiar pequenos ingredientes, mas estruturalmente é como querer pôr um elefante na caixa de fósforos. A Nicarágua sandinista tentou, não conseguiu. Por quê? Porque o timing dos alunos não é o mesmo. Você não pode ter ano letivo. Não existe isso no método Paulo Freire. O João, que é camponês, ele vai fazer o primeiro grau em três anos, porque ele tem que conciliar o estudo com o trabalho. Mas a Maria, que é filha de um comerciante que tem recursos, ela pode fazer até em seis meses, porque ela não precisa trabalhar. Aí o Fidel propôs organizar em Cuba um encontro latino-americano de educação popular. Nenhum cubano participou do encontro, pelo preconceito a Paulo Freire. Dois anos depois, fizemos o segundo encontro. Os cubanos assistiram, não participaram. Só no terceiro encontro eles participaram. E aí se fundou em Cuba uma instituição que existe até hoje, à sombra da Igreja Batista, chamado Centro Martin Luther King de Educação Popular.
TRABALHO EM CUBA
Desde 2019 eu trabalho em Cuba pela FAO no Projeto de Soberania Alimentar e Educação Nutricional (Plan San). Nunca fui a Cuba a turismo, sempre vou a trabalho. Toda família cubana recebe uma cesta básica mensal. Agora, com a assessoria do Ministério de Desenvolvimento Social do Brasil, estamos fazendo o cadastro único em Cuba, como há aqui, para poder retirar a cesta básica daqueles que já são classe média ou até um pouco elite, por causa da introdução de iniciativa privada crescente na economia cubana, e poder reforçar a cesta básica daqueles que são mais vulneráveis.
ECOS DA REVOLUÇÃO
A Revolução Cubana foi feita para beneficiar toda a população, e não uma elite, e não uma classe. É o único país da América Latina que garante a toda a população os três direitos humanos fundamentais: alimentação, saúde e educação. Cuba hoje vive uma crise terrível, a revolução está praticamente desmontada por uma questão de sobrevivência e urgência. Há desigualdade gritante, há pobreza, mas ainda não a ponto de haver miséria. O cubano não come o que gostaria, come o pouco que dispõe, com muita dificuldade, com falta de energia, falta de gás. Tem gente cortando a árvore do quintal de casa para poder fazer fogo e cozinhar.
BLOQUEIO NORTE-AMERICANO
O bloqueio foi decretado em 1962, pelo ódio do Kennedy, porque Cuba expropriou várias empresas norte-americanas que exploravam o povo cubano. A revolução não foi feita para ser socialista, foi feita para ser uma revolução de libertação nacional. No grupo do iate Granma, que levou os guerrilheiros do México para Cuba, só havia uma pessoa verdadeiramente marxista, que era o Che Guevara. Os outros tinham o ideal de libertação nacional inspirado, não em Lenin ou Mao Tse Tung, mas em José Martí, pelas lutas de libertação que Cuba teve. Na Guerra Fria, Cuba passou a ser tutelada pela União Soviética, porque, senão, a revolução fracassaria. Hoje, quando me perguntam se eu acho que os Estados Unidos vão invadir Cuba, eu digo que não. Um país que foi tão agredido durante tantas décadas, evidentemente se preparou para uma agressão. O Trump, no primeiro mandato, estabeleceu 243 novas medidas para o bloqueio, e incluiu Cuba na lista de países patrocinadores de terrorismo. Isso significa fechar todo o sistema bancário internacional aos trâmites de importação e exportação. Cuba precisa fazer muitos negócios porque o país hoje importa 80% dos alimentos que consome.
TECNOLOGIAS DA TERRA
Cuba é o único país agricultável do Caribe. Mas a Revolução propiciou ao filho do camponês ir para a universidade. O filho do camponês foi para a universidade e não voltou para a terra. Ele virou médico, físico, economista, professor e foi para a cidade. Tudo bem se Cuba tivesse tecnologia rural, mas não tem. O que nós estamos fazendo no Plan San é introduzir novas tecnologias. Tecnologias criadas por próprios camponeses, como nós criamos aqui no Brasil, como um camponês do Sergipe que criou a cisterna que capta a água da chuva. A cisterna abastece uma família de quatro pessoas por oito meses. Estamos introduzindo isso em Cuba. E os chineses estão introduzindo muitos sistemas energéticos alternativos, como as placas solares.
PETRÓLEO
O Brasil não pode mandar petróleo para Cuba porque o Fernando Henrique Cardoso privatizou uma parte da Petrobras. Há uma parcela das ações da Petrobras na Bolsa de Nova York. Esses acionistas não aprovam o envio de petróleo brasileiro para Cuba, que consome 100 mil barris de petróleo por dia. Consegue produzir 40 mil, mas há um déficit de 60 mil. A Venezuela estava fornecendo petróleo, assim como o México, mas não estão mandando mais. A Rússia é que está enviando, mas é paliativo.
SOLIDARIEDADE
Como é que a gente faz solidariedade a Cuba hoje? Primeiro: denunciar o bloqueio. Não usem a palavra embargo. Embargo é algo palatável pelo direito internacional. Bloqueio é crime. Segundo: turismo político para Cuba. Está se preparando uma grande caravana para agosto, nos 100 anos de nascimento de Fidel, que nasceu em 13 de agosto de 1926. Terceiro: enviar remédios. Aí você tem duas maneiras. Se você vai viajar, leve uma mala de remédios. Eu já levei muitas vezes. O MST, através do Instituto Cultivar, está mandando medicamentos para Cuba. Conseguiu acordo com laboratórios para comprar no mesmo preço que o farmacêutico compra, estão colocando em aviões e mandando para Cuba em grande escala.




