Imagem: Hippertt /Magnific AIHá um consenso entre especialistas sobre o impacto nocivo do uso excessivo de telas e redes sociais em crianças e adolescentes, com corpos, cérebros e subjetividades ainda em formação. Esse acordo científico se traduziu no Brasil em políticas públicas para tentar enfrentar o problema. Alguns exemplos são a proibição nacional dos celulares nas salas de aula, pela Lei nº 15.100, e a aplicação de regras mais rígidas de acesso de crianças e adolescentes a redes sociais pelo “ECA Digital”. No entanto, a psicologia alerta que o desafio vai muito além de desligar aparelhos ou bloquear algoritmos. “Existe uma transformação cognitiva dessas crianças e jovens com o advento dessas novas tecnologias”, afirma a professora Beatriz Sancovschi, do Instituto de Psicologia da UFRJ e especialista em Cognição Contemporânea.
A transformação cognitiva e emocional é um dos eixos do documento “A Psicologia frente ao mundo digital”, lançado ano passado pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). A docente fez parte do grupo de trabalho que elaborou o material. “Existe a articulação das nossas pesquisas com o grupo do CFP que assessorou o governo federal nas ações e políticas públicas sobre o tema”, conta.
A restrição, por si só, não dá conta da complexidade das relações entre crianças e telas. O cenário atual impõe a escolas e famílias a missão de ir além da contenção legal e assumir o que o guia chama de “mediação qualificada”, reconstruindo espaços de convivência e a subjetividade de uma geração moldada pelo ambiente digital. “A lei que proíbe os celulares nas escolas é muito interessante, mas a escola consegue oferecer espaços de qualidade para essas crianças? A quadra está disponível? A bola está à disposição? Essa escola está num ambiente seguro, sem tiroteios?”, questiona. “Muitas vezes, os pais estão nos celulares, trabalhando. As crianças não podem sair de casa, e os amiguinhos, tampouco. Quando a gente complexifica o problema, a gente consegue entender melhor o que está em jogo”, afirma.
Beatriz acredita que a abordagem sobre as telas precisa estar em sintonia com a realidade familiar, numa busca por redução de danos. “É necessária uma relação de cuidado mais do que de controle”, defende. “A criança precisa desse olhar do adulto e, muitas vezes, esse adulto não olha para si mesmo, para ver o quanto ele próprio fica na tela”, aponta. “Há estudos que indicam o quanto é nocivo para o desenvolvimento de uma criança você interromper o tempo inteiro a interação com ela porque você está fazendo outra coisa. Então, fica a pergunta: a gente de fato está disponível para as crianças hoje?”
As redes sociais têm problemas ainda mais graves. Os algoritmos criados para manter as pessoas presas à tela vão se atualizando de acordo com as mudanças sociais. “Até o discurso de não poder ficar nas telas já foi capturado. Hoje há contas nas redes sociais para adolescentes. A propaganda diz que os pais podem ficar tranquilos, porque agora seus filhos estão seguros. E aí a gente já perdeu os filhos de novo. Eu posso terceirizar a uma empresa o cuidado com os meus filhos?”, pergunta.
MECANISMOS QUE VICIAM
Os efeitos viciantes do celular e outros dispositivos tecnológicos também são vastamente estudados. De acordo com o Relatório Digital 2024, da DataReportal, o Brasil é o segundo país com
Professoras Beatriz Sancovschi e Virgínia Kastrup / Foto: Silvana Sá maior consumo diário de internet no mundo. Em média, os brasileiros gastam 9 horas e 13 minutos na rede por dia, atrás apenas da África do Sul. São 3 horas a mais que a média mundial. Desse total, quase 4 horas do dia são gastas nas redes sociais.
“Não há um interesse das empresas em promover o lazer. O objetivo é realmente a adição, para que o usuário se prenda ali e se torne dependente do capitalismo de plataformas”, analisa a professora Virgínia Kastrup, titular do Instituto de Psicologia e especialista em Psicologia Cognitiva. “Quando as redes sociais criam uma barra de rolagem infinita, a ideia é mesmo a ausência de limites em sua utilização. Não existe início, meio e fim. Sempre há o algo a mais para ser visto”, afirma a docente. “Ao mesmo tempo que atraem a atenção, os conteúdos precisam ser muito rasos e não suscitar esforço intelectual, para que você possa ver e rapidamente passar para o próximo”.
Para a professora, existe uma infância antes e após o celular. “Num primeiro momento, houve um entusiasmo pouco crítico em relação ao uso das telas. Muitas pessoas achavam que esse seria o universo das crianças no futuro e que era necessário tratar com certa naturalidade esse uso. Aos poucos, no entanto, os estudos foram mostrando que havia muito mais problemas do que se imaginava”, conta Virgínia. “A normalização desse uso foi revista. Hoje, há uma atitude muito mais prudente, que requer uma avaliação mais ampla do tema”.
As docentes também acreditam que as discussões sobre o uso das telas precisam levar em consideração o elemento de classe social e as transformações do mundo do trabalho. “Hoje, muitos pais chegam do trabalho e continuam resolvendo as pendências do dia. Há uma dimensão do uso do celular que não é só distração e lazer. E aí, nesse cenário, restam às crianças, muitas vezes, a tela”, exemplifica.
Os estudos da economia da atenção mostram que o principal produto hoje, sobretudo na internet, é a atenção do usuário. Daí o empenho no desenvolvimento de ferramentas para prender cada vez mais os usuários às telas. “O bem mais caro, na era do capitalismo de plataformas, é a sua atenção. A sua atenção está sendo monetarizada e isso produz efeitos. A atenção que demanda esforço para se manter concentrada vai se tornando, com o tempo, uma habilidade cognitiva cada vez mais rara”, alerta. “Os conteúdos passam a ser ou muito fáceis ou impossíveis. Quando eu me deparo com algo que não compreendo muito bem, eu passo adiante”, exemplifica. “Tudo o que demanda mais atenção, mais tempo e é mais complexo vai se tornando intolerável e isso vai produzir muitos efeitos nas crianças, nos jovens e nos adultos”.
Para as professoras, o desafio da Educação é fazer com que o uso das novas tecnologias digitais coexista com o pensamento, sem deixar de produzir o conhecimento crítico. “A dimensão do pensamento crítico e da invenção não pode ser abandonada”, conclui Virgínia Kastrup.





