Fotos: Alessandro CostaMônica Fonseca foi a primeira a ser chamada. Atravessou o corredor central do lotado Salão Nobre do Fórum de Ciência e Cultura e recebeu, sob demorados aplausos e bastante emocionada, o título de bacharel em Filosofia do irmão, Adriano Fonseca. Era o início da diplomação póstuma dos 24 alunos e dois professores vítimas da ditadura na UFRJ, no dia 9 de setembro.
Moradora de Belo Horizonte e professora universitária aposentada da PUC Minas, Mônica não pensou duas vezes sobre a viagem de mais de 400 quilômetros que precisou fazer até o Rio para a homenagem. “Não poderia deixar de comparecer, uma vez que reconheço a importância, o significado e a necessidade dessa reparação e da denúncia dos horrores que sofremos”, disse ao Jornal da ADUFRJ.
Seu irmão, conhecido como Adrianinho, atuante na guerrilha do Araguaia, foi executado em 1973 pelo Exército. O corpo nunca foi encontrado. A família jamais teve acesso a documentos que pudessem esclarecer as atrocidades praticadas contra ele e os demais mortos na região.
“Há 50 anos, nós da família do Adriano lutamos por reparação e justiça. Assim, essa homenagem da universidade onde ele estudou, apesar de ter demorado tanto, foi importante e justa no reconhecimento e denúncia dos crimes cometidos pela ditadura de 1964, contra o povo em geral e sua juventude, em particular. Adriano foi assassinado com 27 anos”, completou.
Mônica, a exemplo de todos os familiares que puderam comparecer ao evento, recebeu o diploma confeccionado no mesmo tipo de papel dos títulos conferidos pela universidade na década de 1970. “Vou emoldurar o diploma e colocá-lo na ‘galeria’ de retratos da família, que fica no corredor que dá acesso aos quartos, na casa dos nossos pais, onde nascemos, que ainda existe, plena de memória!”, contou.
REPARAÇÃO
José Sérgio Leite Lopes, professor emérito e coordenador da Comissão da Memória e Verdade da UFRJ, deu o tom da solenidade. “Como sabemos, os títulos e diplomas representam uma parte importante da produção universitária, a materialização do ensino do aprendizado incorporado durante alguns anos dos alunos graduados. No entanto, no caso desta diplomação simbólica realizada hoje, ela se materializa numa forte dimensão de afeto coletivo, de memória social e de reparação de injustiça”, disse. “A UFRJ se junta assim aos movimentos e processos de diplomação simbólica de estudantes mortos e desaparecidos, que tem se realizado em diferentes universidades nestes últimos dois anos”, completou.
Junto à diplomação póstuma, a solenidade comemorou os 106 anos da UFRJ. “Queríamos que esta diplomação póstuma fizesse parte, sim, dos 106 anos da UFRJ. Porque celebrar a universidade é também reconhecer aqueles que lhe foram arrancados. E os futuros que, com eles, foram interrompidos. A democracia depende dessa coragem. Porque o esquecimento nunca é neutro”, afirmou a professora Christine Ruta, coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura.
A vice-reitora, professora Cássia Turci, também fez referência à história da universidade. “Diplomar nossos mortos e desaparecidos é um compromisso direto com os próximos 106 anos da UFRJ. Não há futuro democrático sem o enfrentamento corajoso do passado. A universidade pública é, por essência, o espaço do contraditório, da pluralidade e da emancipação. No momento em que conferimos esses graus retiramos o véu do esquecimento e dizemos em alto e bom som: a universidade lembra, a universidade repara, a universidade resiste”.
Antigos companheiros de luta dos homenageados também marcaram presença na solenidade. O presidente do Diretório Central dos Estudantes em 1968, Franklin Martins, destacou a dura tarefa de resistência à ditadura, um inimigo terrível e mais poderoso: “Cometemos erros, claro. Mas nós lutamos o tempo todo, mesmo errando. Isso deixou uma marca fortíssima e essa marca chegou até os nossos dias. Lutar é fundamental”, disse o ex-ministro da Secretaria de Comunicação do Brasil no governo Lula.
O reitor, professor Roberto Medronho, citou o fracasso daqueles que tentaram apagar os nomes dos homenageados da história da universidade. “Uma ditadura pode prender o corpo de um companheiro. Censurar um jornal, perseguir um professor, um estudante, mas há algo que o autoritarismo nunca conseguirá controlar completamente: a memória. E é por isso que estamos aqui. Aqueles que tentaram apagar essas vidas fracassaram. Porque hoje nós pronunciamos seus nomes, entregamos os diplomas, reverenciamos os docentes, contamos suas histórias e os devolvemos à memória da UFRJ”.
“Às novas gerações que estudam na UFRJ, faço o pedido: conheçam esses nomes, conheçam suas histórias, perguntem o que aconteceu com eles, contem aos que vierem depois de vocês. Porque cada geração tem a responsabilidade de entregar à geração seguinte uma democracia mais forte do que aquela que recebeu”, concluiu.
Lista de todos
os diplomados
PROFESSORES
Lincoln Bicalho Roque
(Ciências Sociais)
Raul Amaro Nin
Ferreira (Engenharia)
ALUNOS
Adriano Fonseca Filho (Filosofia)
Ana Maria Nacinovic (Belas Artes)
Antônio de Pádua Costa (Física)
Antônio Teodoro de Castro (Farmácia)
Antônio Sérgio de Matos (Direito)
Arildo Airton Valadão (Física)
Áurea Eliza Pereira Valadão (Física)
Ciro Flávio Salazar e Oliveira (Arquitetura)
Fernando Augusto da Fonseca (Economia)
Flávio Carvalho Molina (Química)
Frederico Eduardo Mayr (Arquitetura)
Guilherme Gomes Lund (Arquitetura)
Hélio Luiz Navarro (Química)
Jana Moroni Barroso (Biologia)
José Roberto Spiegner (Economia)
Kleber Lemos da Silva (Economia)
Luiz Alberto Andrade de
Sá e Benevides (Economia)
Maria Célia Corrêa (Ciências Sociais)
Maria Regina Lobo Leite
Figueiredo (Educação)
Mário de Souza Prata (Engenharia)
Paulo Costa Ribeiro Bastos (Engenharia)
Solange Lourenço Gomes (Medicina)
Sonia Maria Lopes de Moraes (Economia)
Stuart Edgard Angel Jones (Economia)
Depoimento dos familiares
Mário Nacinovic,
Pesquisador da Coppe,
irmão de Ana Maria Nacinovic
É com muita emoção que recebo esse diploma. A memória fica resguardada. Minha irmã não morreu em vão. Se nós temos a democracia hoje, se eu posso dar essa entrevista para você, é porque a Ana Maria e tantos outros guerreiros deram suas vidas. A gente não estaria conversando sobre isso agora. Eu estaria silenciado.
Eu sou 12 anos mais novo do que ela. Só conheci a Ana Maria uma vez na vida, porque ela já estava na clandestinidade. Foi perto do Leme. Eu tinha 8 anos de idade. Lembro que fiquei meio encabulado, coisa de garoto, porque era uma moça muito bonita.
Fui ao evento com o meu filho Luís Guilherme Nacinovic, que me acompanha sempre nestes momentos. E nós achamos muito bacana a pintura feita pela Ana Maria exposta ao lado da cerimônia (leia mais na matéria acima). Muitos têm a ideia errada sobre quem vai à luta, quem foi combatente. E essa pintura mostra muito como ela foi: uma pessoa sensível.
Já mostrei uma foto do diploma para meu primo e minha prima, Ligia Nacinovic, que era muito amiga da Ana Maria e estudaram juntas na EBA. Todos nós ficamos lisonjeados com essa lembrança e essa bela cerimônia da universidade. Vou enquadrar o diploma e guardar em um escritório que tenho em casa.
Gilberto Molina,
Engenheiro aposentado ,
irmão de Flávio Molina
O Flávio interrompeu seus estudos na Escola de Química em 1969, perseguido pelas forças da repressão, adotando uma identidade falsa na clandestinidade, desligando-se da família, amigos e namorada com o objetivo de preservar sua vida, mas foi preso torturado e morto em novembro de 1971, na véspera em que completaria 24 anos. Era quatro anos mais novo do que eu. Seus restos mortais, encontrados na vala clandestina de Perus, foram identificados e sepultados pela família 34 anos depois, em 2005.
Foi homenageado pela UFRJ em 2009 em um seminário pela anistia, em 2024 com a medalha Minerva, e com um totem no campus do Fundão e, nesta última semana, com a Diplomação Póstuma, cujo diploma ficará guardado juntamente com outras lembranças de sua curta vida e sua longa morte. Digitalizei o documento para divulgação a todos os familiares e amigos.
A importância destas homenagens, além de trazer um alento aos familiares, é manter latente a memória de verdadeiros patriotas que não mediram esforços para combater e denunciar um regime de exceção. Estas homenagens refletem uma busca por justiça, porém sem o alcance primordial, que é a punição dos culpados, diretos e indiretos, por todas as atrocidades.
Mônica Fonseca,
Professora aposentada da PUC Minas, irmã de Adriano Fonseca
Eu e o Adriano tínhamos uma diferença de quatro anos. Ele nasceu em 1945, eu em 1949. Tenho uma memória muito intensa do Adriano, um rapaz estudioso, sério nas atitudes, mas, ao mesmo tempo vivo na sua juventude. Muito engajado nas questões culturais, responsável demais, apesar de muito jovem.
Adriano foi assassinado aos 27 anos, na região do Araguaia, em uma emboscada do Exército, em 1973. Seu corpo nunca foi encontrado.
Há 50 anos, nós da família lutamos por reparação e justiça. Assim, essa homenagem da universidade onde ele estudou, apesar de ter demorado tanto, foi importante e justa no reconhecimento e denúncia dos crimes cometidos pela ditadura de 1964, contra o povo em geral e sua juventude em particular.
Nossa família é de Minas Gerais. Moro em Belo Horizonte, meu outro irmão, em Ponte Nova. Do núcleo familiar formados por nossos pais, somos os dois irmãos sobreviventes. Não poderia deixar de comparecer, uma vez que reconheço a importância, o significado e a necessidade dessa reparação e da denúncia dos horrores que sofremos.
Não havia outro familiar comigo, estava apenas eu. Acompanhavam-me amigos de Ponte Nova, que produzem um documentário sobre o Adriano e uma ex-aluna da UFRJ, que o conheceu e foi sua amiga.
Vou emoldurar o diploma e colocá-lo na “galeria” de retratos da família, que fica no corredor que dá acesso aos quartos, na casa dos nossos pais, onde nascemos, que ainda existe, plena de memória!
Felipe Nin,
Arquiteto e urbanista,
sobrinho de Raul Amaro
Nasci 15 anos depois da morte do meu tio. Meu pai, em 1971, quando o Raul morreu, tinha de 18 para 19 anos. O Raul era o mais velho de nove irmãos. A família não pôde chorar a morte. O enterro dele foi cercado por agentes do DOPS.
Entre 2012 e 2013, eu, meu irmão Raul Nin Ferreira e o colega Marcelo Zelic, do Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo, fizemos uma pesquisa nos documentos do caso dele e publicamos um livro. Ou seja, embora não o tenha conhecido, tive a oportunidade de falar com diversos amigos, com a namorada, com meus tios e pude ter esse intenso contato com a história dele.
O Raul era muito inteligente. Formado em Engenharia Mecânica pela PUC-RJ, mas muito interessado por Economia. Trabalhava no Ministério da Indústria e Comércio. A principal atuação dele à época, que o levou à prisão e à tortura, foi a contribuição que fazia para os panfletos e jornais do MR-8 em artigos de análise econômica.
É sempre emocionante receber essas homenagens em nome do Raul Amaro e estar ali com outros familiares que passaram por trajetórias parecidas. Tirei uma foto do diploma, enviei para a família e ficaram todos muito felizes com a preocupação da universidade em preservar essa memória. Vamos enquadrar o diploma e guardar com muito carinho.
Matias Roque,
Estudante de Cinema na USP, filho de Tatiana Roque e neto de Lincoln Roque
Ao longo da minha infância, sempre ouvi as pessoas falando que ele era um herói, que era muito inteligente. Como nunca o conheci, fiquei feliz de poder ter entrado em contato com essa parte da história. Fiquei orgulhoso de poder receber este diploma após tanto tempo, como um reconhecimento da universidade sobre a importância da luta dele e de tantas outras pessoas. É a resistência que vai impedir a gente de viver situações como a ditadura de novo.
Instalação artística homenageou vítimas
Ao lado do salão nobre onde aconteceu a diplomação póstuma de estudantes e professores vítimas da ditadura, uma delicada instalação artística chamou a atenção de todos que chegavam. Vinte e seis lanternas feitas com sacos de papel e velas em seu interior destacavam os nomes de todos os homenageados.
“A chama cria uma luminosidade que possibilita esse contraste, onde o nome aparece com mais evidência”, explicou o criador da instalação, o professor Pedro Meyer, da Escola de Belas Artes. “E a vela, por outro lado, também está muito associada a uma dimensão espiritual”, completou.
A obra batizada como [Lembra] – assim mesmo, entre colchetes – foi exposta pela primeira vez em 2024, em frente à Faculdade Nacional de Direito, por ocasião dos 60 anos do golpe militar. “Desde então, venho fazendo essas instalações de lanterna em locais e eventos de memória das vítimas da ditadura”, afirma Meyer. O trabalho já foi levado até a região do Araguaia, onde foram assassinados alguns alunos da universidade, durante o regime.
Para o professor, o trabalho também se relaciona à luta pelo reconhecimento da violência coletiva sofrida pela Escola de Belas Artes durante o período autoritário. “A EBA foi expulsa da Cinelândia e jogada na ilha do Fundão de forma arbitrária. Docentes e estudantes foram retirados do circuito de artes do Centro do Rio”, contou Pedro, que integra as comissões da Memória e Verdade da unidade e da UFRJ.
PINTURA ÚNICA
No dia 9 de setembro, uma homenagem específica ganhou espaço ao lado das lanternas: o fac-símile de uma pintura feita pela estudante Ana Maria Nacinovic, da EBA, assassinada pela repressão em 1972. O trabalho, presente de casamento para uma amiga de Ana Maria, chegou ao conhecimento da comissão da EBA em 2023 e, até o momento, é a única tela conhecida da artista.
A obra é baseada na canção “Até Pensei”, de Chico Buarque, que cita um muro alto. “Com um detalhe assustador: veja o nome dela borrado. Talvez as pessoas tenham borrado com medo da repressão”, diz Meyer. “Uma pintura na parede da sua casa se torna um lugar de resistência. Assim a gente começa a dimensionar um pouco o que é o terror da barbárie ditatorial”.
O professor conta que a pintura pode ajudar pesquisadores a identificar trabalhos gráficos produzidos por Ana Maria para o jornal Venceremos, da Aliança Libertadora Nacional. “Que, por motivos óbvios, não eram assinados”.





