Itamar Vieira Junior na Faculdade de Letras - Foto: Thiago LinsUma atenta plateia formada por estudantes e professores da Faculdade de Letras acompanhou com encanto a palestra do escritor Itamar Vieira Junior, autor do premiado Torto Arado (2019), primeiro livro da trilogia que inclui Salvar o Fogo (2023) e Coração Sem Medo (2025). Convidado pela Livraria Machado & Cia, conversou durante duas horas sobre suas obras, sua trajetória intelectual e criativa, suas inspirações e motivações, no último dia 9.
“Escrevo porque tenho algo a escrever e não porque esperam que eu escreva”, disse, despindo-se de qualquer vaidade sobre o ofício. “Tudo aquilo que me interessa também atravessa o que eu escrevo. Se eu escrever porque alguém quer, deixarei de ter algo interessante a dizer”, explicou.
O baiano de Salvador se tornou geógrafo antes de ser escritor. O trabalho de campo em geografia moldaram o romance Torto Arado e a Trilogia da Terra. “A vivência no campo transformou a minha escrita. Me deslocar para a Chapada me revelou um novo Brasil. E a história que eu queria contar aos 16 anos ganhou um novo sentido para mim”, revelou.
O livro Torto Arado, vencedor do Jabuti, será o enredo de 2027 da escola de samba Unidos de Vila Isabel. “Gosto de pensar que nenhuma obra literária se encerra em si mesma. A história pertence aos leitores”, disse, ao ser perguntado se influencia em releituras e adaptações. “Cada um tem seu repertório, a partir do qual faz sua leitura. É um ecossistema”.
Veja algumas das reflexões do autor:
O encontro entre
a pesquisa e a literatura
A literatura surge antes da pesquisa na minha vida. Eu comecei a escrever muito cedo, mas não sabia muito bem o que fazer com aquilo. Não me imaginava escritor, nem achava que isso seria uma parte importante da minha vida, mas eu sentia prazer em escrever, ainda sinto prazer. Eu acho que isso marcou a minha experiência. Depois, chega esse momento que temos que escolher o que vamos ser. E escolhi fazer geografia. Fiz graduação, mestrado e doutorado na Universidade Federal da Bahia.
Ingressei no doutorado para fazer um estudo abrangente. Passei muito tempo na Chapada Diamantina, com algumas comunidades ali daquela região. Quando eu cheguei à Chapada, vi um mundo novo. Sou baiano, mas nasci na capital, conhecia no máximo ali o Recôncavo da Bahia e me deslocar para a Chapada me revelou muita coisa nova. Fiquei muito impressionado com essa experiência. Eu já tinha tentado escrever anos antes, né? E a história voltou, nesse momento. Aquela história, que eu havia tentado contar aos 16 anos, ganhou um novo sentido para mim.
Geógrafo, escritor e leitor
Foi esse encontro que me permitiu imaginar, criar essa história. Sempre me perguntam o que há de real e imaginário. A leitura social daquele mundo, daquela comunidade, o fato de não poderem construir casa de alvenaria, as relações de trabalho, tudo isso eu descubro na pesquisa, então tem um peso empírico muito forte. E tem muita coisa que é a imaginação: a história das personagens, a relação entre elas, o fato de uma personagem não humana na última parte da história. Mas tudo o que está na imaginação também, em algum momento, foi pensado a partir da vida real.
Quando eu tentei escrever a primeira versão, eu era muito jovem, estava concluindo o ensino médio, e muito tocado por uma literatura que falava do Brasil de uma maneira nova. Já estava publicada há muito tempo, mas era algo diferente. Falo em particular do ciclo da literatura modernista, da geração de 30, de autores como José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Graciliano Ramos. Essas leituras me impactaram de tal forma que eu me senti instigado, provocado a escrever. É claro que eu não tinha maturidade ainda. Eu acho que a maturidade veio com a minha formação intelectual, com meus estudos em geografia, em sociologia, antropologia.
Torto Arado nos
palcos e no carnaval
Eu não tento acompanhar essas releituras com o propósito de intervir. Acho que são linguagens distintas. Eu não sei nem se eu domino a linguagem literária. Eu sempre estou experimentando, criando, pensando de uma maneira nova. E o carnaval é uma linguagem que eu não domino.A dramaturgia musical da mesma maneira. Nessas experiências, me deparei com pessoas habilidosas, qualificadas, que tentam manter o espírito da história, mas que têm liberdade para imaginá-la e transpô-la para a linguagem que precisa existir.
Eu gosto de pensar que nenhuma obra literária está fechada, nem se encerra em si mesma. A cada leitura, há a possibilidade de ser interpretada de uma maneira diferente, porque cada leitor tem um repertório. Eu acho isso maravilhoso. Cada um vai extrair dali identificações, interpretações e tudo isso é parte de um ecossistema. A gente costuma colocar muito foco no criador e na criatura, no escritor e na história, e pouca luz sobre os leitores. Eu acho que o leitor é uma parte importantíssima desse processo.
O Jarê
Quando viajei para a Chapada, descobri algo novo, algo muito brasileiro, porque muito do que se fala sobre essas religiões institucionalizadas veio de fora. Chegando na Chapada, eu vi uma coisa que era muito brasileira, porque não era exatamente uma religião de matriz africana, mas também não era o cristianismo. Era uma mistura de tudo isso, de xamanismo, e que tinha ali como a figura central o curador, a curadora. Uma religião que pensava o corpo e o espírito de uma maneira integrada.
Fui entendendo que aquilo não era apenas uma prática cultural ou social daquelas pessoas; era algo que organizava as relações de parentesco, as maneiras de viver. Quando eu fui me dando conta disso, o Jarê ganhou um papel central na minha pesquisa. Não existia muita coisa escrita sobre e eu encontrei uma oportunidade muito interessante de apresentar uma história a partir de um novo olhar.
Eu queria fazer um movimento diferente, que era convidar o leitor para deixar suas crenças, suas convicções à parte para que pudessem mergulhar nessa história e fossem capazes de olhar o mundo a partir da perspectiva que as personagens apresentam. A leitura ficcional conserva essa dimensão subjetiva da vida, essa dimensão afetiva que muitas vezes a academia, a ciência, em particular, não considera.
De Torto Arado a
Coração sem Medo
Eu não sei se é porque eu estudei geografia e a geografia me interessa, mas eu costumo pensar a paisagem de uma história. Eu gosto de pensar no mundo vivo. Que bom seria se a personagem tivesse um encontro importante e estivesse fazendo sol e, de repente, abre a porta e encontra a chuva caindo? Traz uma complexidade à história que muitas vezes é pensada a partir da personagem, mas nunca a partir da paisagem que a cerca. Fazer essa migração não foi algo difícil, acho que foi orgânico. Eu entendia que a história seguiria esse caminho. Torto Arado se passa na Chapada Diamantina, na Fazenda Água Negra, que está entre dois rios: o rio Utinga e o rio Santo Antônio. Esses rios têm uma importância vital para as personagens. Esses dois rios são afluentes do Paraguaçu, que também nasce lá na Chapada.
O rio Paraguaçu é a paisagem do segundo romance [Salvar o Fogo], tem uma relação intensa com as personagens. É uma história que se passa no Recôncavo, onde esse rio é muito caudaloso, e deságua na Baía de Todos-os-Santos, que banha Salvador – onde se passa a terceira história [Coração Sem Medo]. O rio, a água, é a metáfora do tempo da história.
Esse deslocamento do campo pra cidade só foi possível porque tive a experiência no campo e na cidade. O terceiro romance trata daqueles que foram desterrados que vão parar na cidade e encontram um território em disputa que não pode ser habitado por igual, onde têm que se confrontar com uma violência organizada fora da lei e com uma violência que vem do Estado. Foi nesse contexto que a história surgiu e cresceu.
'A esperança deve priorizar a educação’
Ao Jornal da ADUFRJ, Itamar Vieira Junior comentou o cenário político e fez um desabafo sobre a ausência de debates estruturais nas campanhas eleitorais brasileiras. O autor argumenta que a constante necessidade de defender a democracia acaba por invisibilizar pautas essenciais, como a reforma agrária e o combate ao trabalho análogo à escravidão. Ele aponta a educação e a arte como caminhos para a construção de um projeto de país a longo prazo.
Jornal da ADUFRJ - Um dos temas que o senhor trata, tanto como geógrafo quanto como escritor, é o direito à terra. O senhor considera que isso tem sido debatido nessa campanha eleitoral?
Itamar Vieira Junior —Não tem sido debatido. Acho que a gente tem, já há algum tempo, vivido um momento atípico. Não se discute mais um projeto de país. O que virou pauta prioritária é importante, mas termina que ofusca aquilo que precisa ser discutido. A pauta permanente tem sido a defesa da democracia, mas o país tem caminhado perigosamente para um lugar onde não há projeto de futuro.
O que fazer diante desse cenário?
Há temas que não envelhecem. A regularização fundiária é um deles. Ainda há muito por fazer. Há um embate grande entre as grandes corporações, o Estado e as pessoas que realmente precisam. Há um desequilíbrio que repercute de muitas maneiras em nossa vida, do ponto de vista econômico, mas também do ponto de vista ambiental. Não há vida sem terra. A gente ainda precisa, para a segurança alimentar, estimular a reforma agrária, plantar, colher. É um país de quase 210 milhões de habitantes. De que maneira a gente pode garantir a segurança alimentar dessas pessoas se não cuidarmos de tudo isso?
Também há uma negação ao
direito à moradia, não?
Isso também passa pelo direito à cidade. A alta dos imóveis, dos aluguéis, tem criado uma legião de pessoas que não consegue mais ter um direito humano tão fundamental, que é habitar, ter uma casa, ter um teto.
Esse é um debate interditado propositalmente por algum campo ideológico ou essa dificuldade se deve à conjuntura política?
Tem as duas coisas. Como existe essa divisão tão permanente da sociedade, termina que a um lado não interessa discutir essas propostas. E quem poderia fazer isso vive numa eterna defesa da democracia, do direito do voto, de que as eleições não sofram interferência. O que realmente importa vai para debaixo do tapete. Vejo que há as duas causas, na verdade.
E tem algum caminho para que a gente consiga furar o bloqueio desses temas?
A arte pode ser esse caminho?
Eu acho que a arte nos ajuda a refletir, a pensar, a transgredir. Também não é um projeto de curto prazo, isso não vai acontecer amanhã. Há uma boa intenção de muitos para fazer da educação uma prioridade, mas ao mesmo tempo existem as forças contrárias que vão nos empurrando para o outro lado. Isso não é nada novo, é a história humana, mas é de fato desgastante, nos decepciona. Há um grande desinteresse das pessoas atualmente no processo eleitoral. Costumamos culpar as pessoas por não tomarem partido ou por não quererem participar, mas é preciso entender que as pessoas não têm encontrado motivações para participar ativamente desse processo.
O que será que nos falta para caminhar com ruas cheias, com esperança engajada?
Eu acho que o conhecimento liberta, e a gente só pode chegar ao conhecimento através da educação. Não há atalhos. Essa esperança acho que deve priorizar este projeto de educação, porque ele de fato vai garantir os meios para que a gente possa cuidar do país de uma maneira adequada.
A importância dos encontros
Eventos como o encontro com Carla Madeira (noticiado na edição passada do Jornal da ADUFRJ) e Itamar Vieira Junior mobilizam a comunidade acadêmica e devem ser mais estimulados, acredita o professor Leonardo Bora, da Faculdade de Letras. Ele foi um dos facilitadores da roda de conversa com o autor. “Ter essa possibilidade de diálogo direto com um autor é sempre enriquecedor. É uma conversa horizontal”, analisa. “O evento se torna tanto mais interessante quando a gente pensa em obras como Torto Arado que trata de temas fundamentais para a gente compreender a sociedade brasileira, as lutas coletivas de ontem, de hoje, e que a gente espera que sejam superadas no amanhã”.
“Todas as preocupações que o livro traz são muito presentes nas nossas disciplinas, mas, além disso, a Literatura ocupa um lugar central na Faculdade de Letras”, completa o professor Felipe Machado, que também participou da mesa com o autor. “É uma satisfação muito grande para a gente”.
Organizadora do evento, Marta Lemos, da Livraria Machado & Cia, conta que o objetivo de realizar atividades desse porte é permitir o diálogo entre estudantes e autores consagrados fora dos circuitos tradicionais de literatura. “Muitos estudantes, inclusive, não têm condições de ir a feiras literárias em outros estados ou em outras cidades”, pondera.
FICHA DE OBRAS
DIAS
Editora: Caramuê Publicações
Ano: 2012
É o livro de estreia do autor no mundo literário. Reúne narrativas curtas que exploram a vida de personagens à margem da sociedade, lidando com solidão, perdas e busca por identidade.
A ORAÇÃO DO CARRASCO
Editora: Morongo
Ano: 2017
O livro de contos consolidou o estilo do autor antes do sucesso de seus romances. O enredo foca na vida de personagens do Nordeste brasileiro, misturando realismo e lirismo para falar sobre violência, religiosidade e sobrevivência.
TORTO ARADO
Editora: Todavia
Ano: 2019
O romance mais famoso do autor é vencedor dos prêmios Jabuti e Oceanos. É o primeiro livro da ‘Trilogia da Terra’. Duas irmãs no sertão baiano, Bibiana e Belonísia, encontram uma faca antiga e um acidente muda suas vidas para sempre, conectando-as à luta pela terra e à herança da escravidão.
DORAMAR OU
A ODISSEIA
Editora: Todavia
Ano: 2021
Coletânea que reúne contos novos e histórias de seus primeiros livros. Traz narrativas sobre o Brasil profundo, destacando o passado colonial, a ancestralidade indígena e afro-brasileira, e a força das mulheres.
SALVAR O FOGO
Editora: Todavia
Ano: 2023
Segundo romance da trilogia. Ahistória apresenta a protagonista é Luzia do Paraguaçu, uma mulher com poderes de cura que vive no interior da Bahia. A trama mostra os traumas de uma família e os conflitos com a Igreja Católica pelo domínio das terras.
CHUPIM
Editora: Balão
Ano: 2024
Primeiro livro infantil do autor. Através dos olhos do menino Julinho, a obra mostra a rotina do trabalho no campo e faz uma metáfora com o pássaro chupim, que bota ovos no ninho de outras aves. Vencedor do Prêmio FNLIJ Ofelia Fontes, de melhor livro para crianças.
CORAÇÃO SEM MEDO
Editora: Todavia
Ano: 2025
O livro que encerra a Trilogia da Terra. Acompanha Rita Preta, uma mãe que vive na periferia de Salvador em uma busca desesperada pelo filho desaparecido. A obratrabalha violência urbana, direito à cidade, racismo e desigualdade.





