Foto: Alessandro CostaOferecer subsídios para a formulação de modelos alternativos de combate ao crime organizado, a partir da percepção de que a tática das grandes operações policiais são ineficazes e incapazes de conter a atuação dos grupos armados — que já controlam 18% do território da região metropolitana do Rio, onde vivem 4 milhões de pessoas. Esse é o foco da Rede Universitária Segurança Para Todos Artigo 5° (https://artigo5rj.org), iniciativa inédita que reúne grupos de pesquisa de várias instituições do Rio, lançada em 26 de março passado.
O mote para a criação da rede foi a chacina de 28 de outubro do ano passado, quando 117 civis e cinco agentes de segurança morreram em decorrência de uma grande operação policial nos complexos da Penha e do Alemão. Foi da AdUFRJ a iniciativa de convocar uma reunião emergencial de pesquisadores em segurança pública logo após a operação. “Articulamos a primeira reunião num sábado pela manhã, em 1º de novembro, poucos dias após a chacina”, conta a presidenta da AdUFRJ, professora Ligia Bahia. “Essa velocidade de reação demonstra que a academia está articulada e pronta a responder aos desafios sociais”, defende ela.
ESFORÇO COLETIVO
O evento de lançamento da Rede reuniu gestores e especialistas de universidades públicas e privadas do Rio, além de instituições de pesquisa, no auditório do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), que é um parceiro da articulação, ao lado de entidades como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC). Representantes da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Município do Rio de Janeiro, Fiocruz, Uerj, UFRJ, UFF, Unirio, PUC-Rio, além da AdUFRJ, também estiveram presentes.
O nome “Artigo 5°” remete ao texto da Constituição Federal de 1988, que, em seu 5º artigo, reúne os princípios que norteiam os direitos básicos de todos os cidadãos brasileiros e estrangeiros residentes no país. Dentre os quais igualdade, segurança, livre manifestação do pensamento e liberdade de crença.
A professora Ligia Bahia acredita que os cientistas têm muito a contribuir para a formulação de políticas públicas na área de Segurança Pública. “Uma das vocações da Academia é buscar soluções baseadas em evidências científicas para problemas sociais. A rede emerge dessa necessidade. Não dá mais para matar, matar, matar, morrer, morrer, morrer, num ciclo vicioso que não gera nenhum resultado além de mais violência”, afirma a professora. “A ciência é capaz de nos mostrar caminhos, com princípios que garantam a dignidade e protejam a vida das pessoas. Todas as pessoas importam”, pontua.
Especialista em saúde coletiva, a docente destaca o impacto da violência na saúde da população. “Também do ponto de vista da saúde, há enormes repercussões para a população que vive em áreas de conflito armado”, afirma. “Isso se traduz em quadros de adoecimento e há impactos também na prestação dos serviços. A cada confronto, a população deixa de receber atendimento de saúde. As UPAs fecham, as clínicas da família fecham”, lembra. “Ou seja, o problema da violência no estado do Rio de Janeiro não é uma questão isolada, mas sistêmica, que afeta outras áreas do conhecimento e impacta a vida das pessoas de forma global”.
O vice-presidente da AdUFRJ, professor Michel Gherman, saudou a articulação. “Estamos vendo grandes nomes da reflexão acadêmica produzindo perspectivas e estratégias de combate não só à violência, mas principalmente ao discurso sobre a violência. As universidades do Rio de Janeiro estão construindo uma esperança, a de que o discurso acadêmico influencie efetivamente o discurso público”, afirmou.
O docente também destacou o papel da AdUFRJ. “Nós estamos acumulando já há algumas gestões essa tarefa histórica e essa tradição de produzir dentro do movimento sindical uma reflexão acadêmica sobre o que fazer com esse país”.
Nas páginas 4 e 5, você acompanha as reflexões dos gestores e dos especialistas que participaram do encontro. Na página 6, um estudo da UFF e do Instituto Fogo Cruzado mostra a evolução do domínio territorial do estado do Rio de Janeiro por grupos armados. O diagnóstico é que o modelo das megaoperações policiais não conteve a expansão do Comando Vermelho, principal facção do tráfico do estado. Além disso, a pesquisa registra o avanço das milícias, sobretudo da Zona Oeste e da Baixada Fluminense.
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