Raquel Paiva, Luana Bulcão e Paulo César de CastroComo a juventude do Sul Global constrói formas de resistência e engajamento diante de uma conjuntura marcada por trabalhos cada vez mais precários, perda de direitos, avanço da extrema direita e pelo controle da vida através dos algoritmos das big techs? Para entender como os jovens se organizam e sobrevivem neste cenário, o Projeto REACT – Reimaginando o Ativismo, a Comunicação e as Trajetórias de participação no Sul Global vai ouvir jovens em cinco cidades do mundo.
A iniciativa é coordenada internacionalmente pelo professor Thomas Tufte, da Loughborough University London, no Reino Unido. O financiamento total é de aproximadamente 2,4 milhões de euros, concedidos pelo Conselho Europeu de Pesquisa – o principal órgão de fomento à pesquisa de excelência da União Europeia. O estudo envolve uma abordagem quantitativa, que alcançará 12 mil jovens de 18 a 30 anos distribuídos por 20 cidades, e uma etapa qualitativa aprofundada em metrópoles de cinco países: Rio de Janeiro (Brasil), Guadalajara (México), Bogotá (Colômbia), Hyderabad (Índia) e Durban (África do Sul).
A professora Raquel Paiva, do Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária (LECC) da Escola de Comunicação da UFRJ, coordena a pesquisa no Brasil. A equipe busca compreender o ativismo juvenil cotidiano. Os recursos para a etapa qualitativa brasileira são da ordem de 69 mil euros, o equivalente a R$ 413 mil.
Os participantes serão recrutados com o apoio de organizações como o jornal O Cidadão (Maré), o Fala Roça (Rocinha) e o Instituto Raízes em Movimento (Complexo do Alemão), além de estudantes da ECO atuantes em municípios como Nova Iguaçu e Duque de Caxias. Cabe à equipe da UFRJ realizar ações com grupos focais com 60 jovens, além de 30 entrevistas em profundidade. Também estão previstos workshops criativos dedicados à comunicação comunitária, técnicas de filmagem e coleta de dados. O survey quantitativo global será conduzido por uma empresa, em outra etapa da pesquisa.
Jovens periféricos
“A gente discutiu muito sobre o perfil dos jovens que serão parte da pesquisa. Queremos compreender a juventude que consegue ver o outro, pensar o outro como possibilidade de vida. Por isso, a investigação não enquadrou jovens de extrema direita, que querem eliminar o outro. Vamos trabalhar com jovens que não tenham perfil excludente”, explica a professora Raquel Paiva, ressaltando o acúmulo de mais de três décadas de pesquisas do LECC sobre comunicação comunitária e cidadania.
Para a pós-doutoranda Luana Bulcão, responsável pela condução metodológica da pesquisa sob a orientação de Raquel Paiva, o projeto é uma oportunidade de aliar o rigor acadêmico ao impacto direto na elaboração de políticas públicas. “Eu acho que é uma grande oportunidade pra mim, o primeiro grande projeto internacional em que atuo”, revela. “Minha expectativa é grande, porque acredito que vamos levantar dados relevantes para entender a juventude desses países do Sul Global”, afirma.
Luana destaca também a riqueza da abordagem metodológica mista. “Acho que é uma oportunidade de termos tanto um aprofundamento qualitativo quanto de ter acesso a um dado quantitativo com a pesquisa survey. Ampliamos o leque para entender o que essa juventude está pensando”, analisa a pesquisadora. “A gente espera que essa pesquisa incida de forma relevante na sociedade. Esse projeto tem essa potência de produção de dados para políticas públicas voltadas para a juventude”.
Para além das questões socioeconômicas territoriais, o projeto dedica atenção especial ao modo como as tecnologias digitais reconfiguraram as formas de organização e engajamento social. O professor Paulo César Castro, também integrante da equipe do REACT no Brasil e docente da ECO/UFRJ, reflete sobre como a juventude vivencia a pressão de se tornar um “empreendedor de si mesmo”, enquanto tenta construir formas alternativas de ativismo.
“O contexto neoliberal define não só aspectos econômicos, mas a vida no geral. Imaginar como os jovens lidam com seus anseios, sonhos, mas também dificuldades de lutar contra um sistema que é muito maior, que define a lógica de como as pessoas devem se comportar”, analisa o docente. “Como ficam esses jovens, numa sociedade altamente desigual, com condições precaríssimas e sem acesso a muitos direitos?”, questiona Paulo Castro.
Castro alerta ainda para o choque entre o desejo de consumo estimulado pela mídia e a negação de direitos fundamentais: “Nas primeiras conversas, a questão do sonho surgiu: como se combina o consumo imediato com a busca de direitos que lhes são subtraídos?”, questiona o professor. A pesquisa vai se aprofundar exatamente sobre esses pontos. “O jovem quer ter sim o celular, o tênis, a roupa. Ao mesmo tempo, como ele luta contra uma estrutura que muitas vezes lhe sonega o que é mais básico?”
Por fim, o REACT resgata o ato de sonhar como um dispositivo indispensável de ação política. Em meio às incertezas do presente, a pesquisa aposta no resgate da imaginação coletiva como primeiro passo para reelaborar o futuro. “O Thomas [Tufte] passou a incluir recentemente nas suas falas a questão do sonho na juventude. Isso para mim é fundamental. Poder contribuir com outras perspectivas de construção da vida é o que me move”, conclui a professora Raquel Paiva.





