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WhatsApp Image 2022 01 07 at 21.03.15As recentes tempestades no sul da Bahia levaram dor e destruição para mais de 660 mil pessoas em 165 municípios da região. A chuva que caiu por 20 dias seguidos deixou 153 cidades em situação de emergência, mais de 32 mil desabrigados, 57.531 desalojados, 25 mortos e 517 feridos. A fúria dos temporais fez novamente os cientistas acenderem o alerta para a sociedade sobre o quanto a ação humana colabora para que eventos extremos como esse aconteçam. Outra discussão é sobre a necessidade de investimento em sistemas que consigam prever com antecedência catástrofes como essa.
“A grande destruição na Bahia aconteceu já nas primeiras 12 horas de intensa chuva. Houve um efeito combinado de muitas variáveis meteorológicas que se somaram à Zona de Convergência do Atlântico Sul. Uma situação bastante complexa de prever”, explica o professor Wallace Figueiredo Menezes, do Departamento de Meteorologia da UFRJ. “Esse sistema permaneceu sobre a região por muitos dias e manteve centenas de cidades submersas”.
Para ele, o evento não pode ser classificado — ainda — como um resultado das mudanças climáticas. “Aquela região se tornou um ponto de intercessão entre vários fatores meteorológicos. Esta é uma análise meteorológica, algo que a gente chama de análise sinótica. A gente identifica ‘ingredientes’ que ajudam a formar uma tempestade. E eles passaram a coexistir numa mesma região”, explica.
A tempestade que colocou o sul baiano submerso, segundo o docente, foi agravada por fatores meteorológicos que se formaram muito rapidamente. “Esse tipo de evento mostra a importância de termos centros regionais de previsão de tempo”, afirma. “Sobretudo em locais propensos a certos tipos de fenômenos, o ideal é ter centros focados neles, para especificar eventos ou configurações meteorológicas que possam impactar tão fortemente a vida das pessoas”.

AÇÃO HUMANA
A Ciência já comprovou que o principal agente causador do aquecimento global, na escala que temos observado, é o ser humano. “Na Amazônia, a gente tinha um evento extremo a cada 20 anos, uma grande cheia ou uma grande seca. Nos últimos dez anos, esses eventos passaram a acontecer anualmente”, compara o professor Fabio Scarano, titular do Instituto de Biologia e especialista em ecologia e clima. “Estamos passando pela sexta extinção em massa do nosso planeta, sendo que é a primeira vez que é causada por uma única espécie: a nossa”, destaca.
Scarano acredita que, embora seja difícil atribuir alguns eventos às emissões de gases do efeito estufa, há pistas que levam a crer que as chuvas do sul da Bahia e do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, tenham relação com o aquecimento global. “Uma das formas de medir essa relação é avaliar a frequência desses acontecimentos, mas essas áreas inundadas são comumente mais secas. Então, tenho, sim, a impressão de que parte disso se deve às mudanças climáticas”, pontua o especialista.
Para o professor, é preciso agir agora. “A Ciência já traçou cenários desoladores para o planeta, caso a média das temperaturas ultrapasse 2°C acima da média registrada antes da Revolução Industrial”, ele afirma. “Derretimento das geleiras, das calotas polares, aumento do nível do mar. Temos 60% da população brasileira vivendo à beira-mar e a até 50 quilômetros da região costeira. Cidades como o Rio vão ser submersas”.
O passo para estancar ou reduzir esses impactos, segundo o especialista, depende de cada um de nós. “Se continuarmos com o atual padrão de emissões, teremos um planeta, em 2050, 3°C mais quente. Temos que mudar os padrões de consumo e produção. Nosso problema passa a ser de tempo. A gente precisa mudar drasticamente de postura até 2030 para chegarmos bem a 2050”.
Em relação ao Brasil, uma dessas mudanças é zerar o desmatamento. “Essa ainda é a principal causa de emissão de CO2 no nosso país. Não há como falar em descarbonização sem acabar com o desmatamento”, reconhece o professor André Lucena, do Programa de Planejamento Energético da Coppe. Ele é um dos pesquisadores que fazem parte da elaboração do próximo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).
“O Brasil se comprometeu a tornar nulos até 2050 os efeitos das emissões, mas continuamos no sentido contrário, sobretudo pelo desmatamento crescente”, reforça. “Temos a tarefa de buscar formas de descarbonizar o setor energético e também outras áreas”, completa.
O investimento em energias renováveis é uma saída para descarbonizar o setor elétrico. “É imprescindível a adoção desse tipo de energia. Mas é preciso ter consciência de que elas, sozinhas, não são suficientes para zerar as emissões”, pondera o especialista em energias renováveis e professor de Engenharia do Centro Multidisciplinar de Macaé, professor Diego Malagueta.
Estimular pesquisas que busquem baratear o uso de energias como a eólica e a solar é uma tarefa do Estado, segundo o professor. “Precisamos buscar novas tecnologias para tornar o uso de energias renováveis uma realidade que alcance a população de maneira geral”, defende.

Ar-condicionado, efeito estufa e desigualdade

O aquecimento global gera uma consequência pouco discutida: o uso crescente de aparelhos de ar-condicionado, bem normal e desejado na sociedade contemporânea. Acontece que essa dinâmica pode representar um ciclo vicioso: quanto maior o calor, mais aparelhos ligados. E mais aparelhos ligados demandam mais energia elétrica, o que leva à ampliação da oferta de matrizes energéticas complementares. Parte dessas matrizes, como as movidas a carvão e gás, produz os chamados gases do efeito estufa, que tornam o planeta mais quente e levam mais pessoas a precisarem de ar-condicionado, o que necessariamente aumenta a demanda energética e assim por diante.
É aí que entra a Ciência: para buscar soluções que quebrem essa retroalimentação entre aquecimento e aumento de emissões de CO2 (dióxido de carbono). “O aquecimento global é inequívoco. Já estamos com temperatura 1.2°C acima da registrada na época pré-industrial”, destaca o professor André Lucena, do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ. Ele foi um dos autores de um estudo que traça cenários de impacto do aumento do uso do ar-condicionado em quatro países emergentes nos próximos 20 anos: Brasil, Índia, Indonésia e México.
O artigo Climate change and air-conditioning: a rising emergency for emissions and inequalities (Mudanças climáticas e ar-condicionado: uma emergência crescente para emissões e desigualdades) foi publicado na revista Nature Communications e coordenado pela professora Enrica De Cian, da Ca’ Foscari University of Venice. O estudo indica que haverá aumento do uso dos aparelhos nos quatro países analisados. “Quem já tem ar-condicionado vai ligá-lo mais frequentemente, e a tendência é que o gasto de energia seja maior para reduzir as temperaturas. Conforme aumenta a renda, o uso e a compra do aparelho vão sendo mais estimulados”, ele afirma.
A Índia, que tem a sua matriz energética baseada no carvão, poderá sofrer mais com as emissões de CO2, mas o Brasil também tende a ampliar a emissão de dióxido de carbono com a introdução do gás natural no sistema energético. “A gente consegue frear ou mitigar os efeitos sobre o clima com eficiência energética dos equipamentos. Mas é preciso caminhar no sentido da descarbonização do setor elétrico. Isso vai precisar acontecer. É uma medida urgente”, afirma.
O artigo também aborda impactos sociais e econômicos nos países analisados. “De 64 a 100 milhões de famílias com acesso à eletricidade não serão capazes de atender adequadamente sua demanda por conforto térmico. A necessidade de sustentar os gastos com eletricidade em resposta a temperaturas mais altas também pode criar oportunidades desiguais de adaptação”, destaca trecho do artigo. Para ler a íntegra, acesse: www.nature.com/articles/s41467-021-26592-2.
(Silvana Sá)

capesBeatriz Coutinho e Kelvin Melo

Segue tensa a relação entre a presidência da Capes e a comunidade científica. No dia 22 de dezembro, os três coordenadores e 21 consultores ad-hoc da área de Zootecnia e Recursos Pesqueiros renunciaram às funções de avaliadores da Quadrienal 2017-2020. Com esses, já são 138 cientistas de cinco áreas do conhecimento que deixaram seus postos em sinal de protesto contra a atual gestão da agência de fomento.
“A renúncia não foi uma decisão tomada devido a uma ocorrência, mas sim a um histórico de decisões equivocadas (da Capes)”, explica um dos recém-demissionários, o professor José Neuman, da Universidade Federal do Tocantins. Para o docente, existe inconstância no direcionamento da agência. Essa movimentação, para ele, não seria à toa. “Há por trás um interesse da iniciativa privada em deixar que esse processo de avaliação acabe pelo cansaço”, opina.
“A questão é o ambiente”, reforça o professor Ronaldo Oliveira (UFBA), agora ex-coordenador da área e membro titular do Conselho Técnico Científico de Educação Superior (CTC-ES). “Não é dialógico, por mais que se diga que é. Temos que estar o tempo todo disputando para ter uma resposta efetiva para conduzir algo que era pra ser natural”, critica.
A gota d’água foi a entrevista concedida pela presidente da Capes, Cláudia Toledo, ao jornal O Globo, no mesmo dia 22. Toledo classificou as renúncias anteriores como “insurgência” ou “deserção”. “Nós podemos até ser insurgentes, porque somos contrários a esse mecanismo que se instalou na Capes. Mas desertores? Acho inadmissível”, conclui o coordenador.
A declaração ao Globo também não foi bem recebida por grande parte dos pesquisadores que ainda permanecem em seus cargos. Dois dias após a publicação da entrevista, os coordenadores de 29 áreas assinaram uma carta cobrando a saída de Cláudia Toledo ao ministro da Educação. Acrescentaram, como motivo de preocupação, o pedido de exoneração do então diretor de Avaliação da Capes, professor Flavio Anastacio de Oliveira, considerado um pesquisador de renome acadêmico. “Esse conjunto de fatos consolida a percepção de que não há mais condições mínimas de darmos continuidade ao processo nobre de avaliação dos PPGs do país sob a égide da atual presidência”, diz um trecho do documento.
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência imediatamente também protestou contra o desrespeito aos pesquisadores que renunciaram. “A SBPC considera que o legítimo direito de expressão e crítica (...) não pode ser assimilado a ‘insurgência’ ou ‘deserção’, como foi dito”, diz um trecho de nota divulgada no dia 22. Após o Natal, a presidente da Capes convidou os representantes da entidade e da Academia Brasileira de Ciências para uma reunião e tentou justificar as expressões utilizadas.

PRESSÃO GERA MUDANÇAS
Em meio à crise, a Capes acenou com algumas medidas que agradaram aos pesquisadores: revogou uma polêmica portaria que tratava da classificação dos periódicos, estendeu o prazo da avaliação para 23 de dezembro deste ano e prorrogou o mandato dos atuais coordenadores de área.
“São medidas que estávamos reivindicando. Consideramos que as coisas se clarearam graças, sobretudo, à mobilização da comunidade científica e ao diálogo que mantivemos com a direção da Capes”, avaliou Renato Janine Ribeiro, presidente da SBPC.
Mas nem todos recuperaram a confiança na gestão da agência de fomento. “É o reconhecimento por parte da Capes de que a pressão da comunidade científica foi forte e estava muito bem embasada em argumentos, porém falta esclarecer muitas coisas”, diz o professor César Niche, do Instituto de Matemática, que renunciou à função de consultor da área. “Novos cursos e ensino a distância continuam sendo prioridades da Capes. Fizeram um recuo estratégico, mas ainda falta bastante para preservar a integridade da avaliação”.
Já o professor Leandro de Paula, do Instituto de Física, também ex-consultor de área, explica que ainda paira uma incerteza sobre a Quadrienal por conta da decisão judicial. “A Justiça falou que pode avaliar, mas não pode divulgar os resultados, porque não julgou o mérito. Mesmo que as pessoas trabalhem, se a Justiça determinar que não vale, ela engaveta”. O docente reforça que a renúncia teve o objetivo de chamar a atenção para problemas sérios da Capes, mas que “todos têm interesse na avaliação”.

RECOMPOSIÇÃO DE COMISSÕES
No dia 17 de dezembro, a presidente da agência enviou um ofício circular para iniciar a recomposição das comissões que renunciaram à avaliação. Programas e sociedades científicas devem indicar nomes até o dia 14 de janeiro. As indicações serão avaliadas pela Diretoria de Avaliação para elaboração de listas, que serão apreciadas pelo Conselho Superior da Capes. Por fim, a instância vai apresentar listas tríplices, que serão submetidas à escolha da presidente Cláudia Toledo.
Os pesquisadores ouvidos pela reportagem consideram que a medida está seguindo os trâmites corretos. “Isso é um fato positivo”, explica o antigo coordenador da Área da Física e Astronomia, professor Fernando Lázaro, da PUC-Rio. Ele é enfático ao afirmar que não voltará ao cargo, mesmo com a nova convocação. “A dificuldade é saber se conseguirão convencer pessoas que têm certo prestígio na comunidade a embarcarem nessa canoa, que pode ser uma canoa furada”.

WhatsApp Image 2021 12 06 at 09.52.08Foto: Marco Brandt/Assessoria de Imprensa HUCFFBeatriz Coutinho

Ano novo, vida nova para o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho. Ou melhor, projetos novos. Estão sendo instaladas 432 placas fotovoltaicas na parede do prédio voltada para a estação do BRT, que recebe maior incidência de raios solares. O sistema, previsto para entrar em funcionamento no primeiro semestre de 2022, vai gerar energia limpa e, a longo prazo, economizar recursos para a universidade.
Hoje, a unidade de saúde consome em média 10.800MWh (megawatts-hora) por ano. A conta de luz vem salgada: R$ 400 mil por mês. “Nosso consumo é muito grande. São equipamentos elétricos e cirúrgicos, elevadores, bombas de recalque de água. Tudo é muito custoso”, destaca João Roberto Nunes, chefe da Divisão de Engenharia do HU.
As placas iniciais ficarão longe de suprir esta demanda. Serão produzidos apenas 154,5 MWh por ano. No valor atual da energia, seria uma economia de R$ 11 mil por mês. Mas o engenheiro sonha alto: “Hoje, elas são objetos de estudo pra avaliação da sua eficiência na vertical, diferentemente da horizontal”, explica João. “No futuro, quando conseguirmos utilizar os seis mil metros quadrados de telhado horizontal para produção de energia elétrica, conseguiremos, possivelmente, zerar essa conta. Esse será o grande salto”, completa.
A instalação já vai trazer um ganho que não é visível para quem está apenas passando pelo hospital. Uma nova subestação elétrica está sendo construída para conferir segurança à rede elétrica do HU e possibilitar a ligação do sistema fotovoltaico à rede elétrica da concessionária.
A antiga subestação do hospital foi construída antes das normas técnicas atuais e funcionará como distribuidora intermediária. “Vamos ter uma segurança energética e elétrica muito maior do que tínhamos. Foi um ganho fundamental no sentido de segurança”, afirma.
O sistema de placas é financiado pelo Fundo Verde de Desenvolvimento e Energia para a Cidade Universitária da UFRJ e está orçado em R$ 1,3 milhão. Criado em 2012 por decreto estadual, o fundo tem como objetivo transformar o campus da Ilha do Fundão em um polo de projetos de desenvolvimento sustentável. Só de sistemas fotovoltaicos, já existem cinco iniciativas.
Bruno Allevato, coordenador técnico do Fundo Verde, explica o que pesou para escolha do hospital como local do projeto: “A fachada vertical, porque temos o intuito de diversificar as formas de instalação desses sistemas; e a rede elétrica, que necessita de melhorias”, afirma. “Estamos realizando a instalação das placas fotovoltaicas e a adequação da subestação de energia dentro do HU”. Segundo Allevato, a estimativa de geração de energia será equivalente ao consumo de 70 residências.

comprovanteFoto: Tânia Rêgo/Agência BrasilLucas Abreu e Silvana Sá

A reitoria da UFRJ foi uma das primeiras do país a se manifestar contra o despacho do ministro da Educação, Milton Ribeiro, que tentou proibir que as universidades cobrassem comprovante vacinal de suas comunidades acadêmicas. Em nota, divulgada em 30 de dezembro, dia seguinte ao ato ministerial, a administração central reafirmou a cobrança do passaporte. “As pessoas não vacinadas ajudam no espalhamento do vírus”, justifica a professora Denise Pires de Carvalho, reitora da universidade. “Eu não vou deixar pessoas não vacinadas acessarem nossos prédios. É uma questão de saúde, de defesa da vida. Isso é Ciência”, reivindica.
A medida, segundo a docente, vale não só para professores e técnicos, como também para estudantes. “Já temos uma portaria que prevê a cobrança do comprovante para todo o corpo social da universidade, o que já ocorre nas entradas dos prédios, para todas as pessoas”, conta.
Denise coordena um grupo de trabalho, no âmbito da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), para criar diretrizes sobre o tema. “São realidades muito distintas. Elaboramos um questionário, que foi respondido por 53 universidades de todas as regiões do país. Estamos em vias de tabular os dados para apresentar as conclusões”, informa Denise.
Quem também reagiu rápido ao despacho do MEC foi a AdUFRJ. Em nota divulgada em 30 de dezembro, a diretoria se manifesta “firmemente contra esta orientação negacionista do ministro da Educação”, diz trecho do texto. “O direito coletivo à saúde é mais importante do que o direito individual de uma pessoa de não tomar vacina”, defende o professor João Torres, presidente da AdUFRJ. “Ficamos pasmos com o ato do MEC, mas não podíamos esperar outra coisa do governo Bolsonaro, que desde o início da pandemia tem trabalhado contra as diretrizes de saúde”, avalia o professor.
Para o dirigente, o despacho do MEC ataca a autonomia universitária. “É um preceito constitucional bem estabelecido. A universidade conta com autonomia didático-científica e administrativa, e o passaporte vacinal é fundamental para o bom andamento das atividades da universidade”, opina João. A AdUFRJ se preparava para questionar judicialmente a decisão do MEC, quando o ato ministerial foi sustado pelo ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, no dia 31 (leia mais abaixo).
O Sintufrj também apoia a exigência do passaporte vacinal. “Somos favoráveis e acho ótimo que a reitoria tenha mantido essa posição, enfrentando o MEC, fazendo jus à resolução construída e aprovada pelo Conselho Universitário”, defende a coordenadora do Sintufrj, Joana de Angelis. “Garantir a vida e a tranquilidade para o retorno ao trabalho e às aulas é fundamental”, argumenta.
Entidades e associações nacionais, como a Academia Brasileira de Ciências, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, o Observatório do Conhecimento e a UNE emitiram nota conjunta, ainda no dia 29 de dezembro, contra o que chamaram de “desrespeito” e “erro” do governo. “Consideramos que o despacho do Sr. Ministro da Educação, nesta data, além de desrespeitar a autonomia constitucional das instituições de ensino superior, está errado no mérito, por impossibilitar a adoção de medidas indispensáveis para garantir o direito, também constitucional, à vida”.

REALIDADES DISTINTAS
A Andifes também defende a autonomia, mas reconhece que nem todas as universidades decidiram pela cobrança do comprovante. “Nós temos universidades que aprovaram o passaporte vacinal e universidades que não aprovaram. Pelos mais diferentes motivos”, afirma o presidente da associação, professor Marcus David. “A UnB aprovou uma regulamentação em que não exige passaporte para a matrícula, mas o aluno não vacinado não pode usar restaurante universitário, nem usar biblioteca. São várias situações”, completa.
Muitas universidades ainda estão debatendo o tema, de olho em um amplo retorno presencial da comunidade acadêmica no primeiro período letivo de 2022. “É o meu caso”, diz o presidente da Andifes, que é reitor da Federal de Juiz de Fora (UFJF). Lá, o próximo período letivo começa em abril. “Estamos fazendo um debate muito grande dentro da Andifes. Por isso, o pior da decisão do ministro (do MEC) foi atropelar essa discussão mais profunda e cuidadosa”.
A Universidade Federal Fluminense (UFF) aprovou a obrigatoriedade do comprovante de vacina. O desafio agora é construir um sistema para a efetivação do controle. “Fazer acontecer em uma universidade gigantesca como a nossa é bem desafiador. Se formos cobrar de cada indivíduo que entra, teríamos que ter um enorme mecanismo de conferência, para evitar aglomerações, inclusive”, explica o professor Antonio Claudio Lucas da Nóbrega, reitor da universidade.
“Buscamos uma alternativa que não seja a do controle do indivíduo, em um primeiro momento, mas sim controle do cadastro da comunidade”, conta o reitor. Cada unidade deverá fazer o mapeamento de suas comunidades locais e atrelar o comprovante aos cadastros das pessoas no sistema da universidade. Uma vez cadastrado, o indivíduo está autorizado a ingressar nas dependências da instituição. “Não dá para cobrar o comprovante toda vez que a pessoa entra em um campus”, reconhece.
A Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) ainda cogita adotar a obrigatoriedade do comprovante de vacinação. Segundo o reitor Ricardo Silva Cardoso, a instituição formou um grupo de trabalho para criar um plano de retorno às atividades presenciais. “O plano apresenta recomendações como, por exemplo, solicitação do passaporte sanitário, comprovando a completa imunização conforme o calendário vacinal, e uso de máscara obrigatório nas dependências da universidade”, conta o reitor.
(Colaborou Kelvin Melo)

Decisão do STF anulou despacho do MEC

O ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, anulou os efeitos do despacho do MEC que proibia que as universidades federais cobrassem comprovante de vacinação contra a covid-19 de suas comunidades acadêmicas. Segundo a decisão do ministro, publicada no dia 31 de dezembro, o ato do ministério fere a Constituição, já que as universidades gozam de autonomia.
Lewandowski analisou pedido de tutela de urgência formulado pelo PSB, em uma ação sobre vacinação que já tramitava no STF, a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 756. Na decisão, o ministro do STF sublinhou que o MEC, “além de contrariar as evidências científicas e análises estratégicas em saúde ao desestimular a vacinação, ainda sustenta a exigência de lei federal em sentido estrito para que as instituições pudessem estabelecer tal restrição”.
O posicionamento do ministro é o mesmo defendido pelo professor Luigi Bonizzato, especialista em Direito Constitucional da Faculdade Nacional de Direito. “Há duas decisões de plenário do STF. Em ambas nossa corte suprema aponta a obrigatoriedade da vacina, indica possíveis sanções a não vacinados e determina a competência para que outros agentes da esfera pública atuem no sentido de combater a doença”, ressalta o docente.
As decisões são de dezembro de 2020 e fevereiro de 2021. “O ministro (Milton Ribeiro) coloca como argumento a necessidade de uma legislação federal. Mas enquanto essa legislação própria – que eu defendo que seja uma Emenda Constitucional sobre a obrigatoriedade da vacina – não for criada, nós temos decisões Judiciais do STF que norteiam o Direito e precisam ser cumpridas”.
Em relação aos limites para essa obrigatoriedade, o professor Bonizzato afirma que os cidadãos apenas não podem ser levados coercitivamente a serem vacinados. “Isso está evidentemente proibido e expresso na decisão do Supremo, mas sanções a pessoas que recusem a vacinação, sem justificativa médica, estão previstas”, destaca. “Proibir uma pessoa de acessar as dependências da universidade está, portanto, em consonância com as decisões do STF. A proteção à saúde e à vida são preponderantes”.

VACINAÇÃO INFANTIL
O Ministério da Saúde finalmente autorizou a vacinação infantil, 20 dias depois de a Anvisa autorizar o uso do imunizante da Pfizer para a faixa etária de 5 a 11 anos. A boa notícia, no campo jurídico, pode trazer ainda mais confusão, segundo o professor Luigi Bonizzato. “Imagine que os pais de uma criança sejam separados e tenham guarda compartilhada. Um é a favor da vacinação, o outro contrário. Essa criança será vacinada? Haverá disputa judicial”, aponta. “Se já houvesse uma Emenda Constitucional a este respeito, o Judiciário não precisaria ser acionado”, diz.
Essas e outras situações poderão ser desencadeadas. “É possível que as escolas passem a cobrar o comprovante de vacinação das crianças e isso não estará contra as nossas tradições brasileiras, afinal já temos um Plano Nacional de Imunização, com calendário próprio e que é cobrado nas matrículas escolares”, afirma. “Quem sabe acrescentar a vacina contra a covid-19 ao calendário infantil obrigatório não seja uma saída para estes casos?”, sugere o docente.
(Silvana Sá)

WhatsApp Image 2021 12 17 at 14.13.37Fotos: Silvana SáBeatriz Coutinho e Silvana Sá

A sensação de insegurança ronda a estação do BRT Fundão. Há grades quebradas no entorno, o mato já atinge cerca de três metros de altura, falta iluminação e falta patrulhamento. É o que dizem os usuários do sistema de ônibus articulados e das linhas regulares que ligam a Cidade Universitária ao Centro, Tijuca, Niterói e Ilha do Governador.
“Se acontecer alguma coisa, não há ninguém para ajudar, para dar um suporte”, reclama Daniela Moreira, servidora do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho. “O terminal é inóspito, completamente deserto, principalmente nos finais de semana. Por aqui passam pessoas de muitos lugares, muita gente bêbada e usuária de drogas acaba acessando também. Eu me sinto insegura”, relata.
O problema piora à noite. “Já arrombaram aqui uma vez e agora estão tentando arrombar a loja de novo, pelo outro lado”, revela uma vendedora que trabalha na plataforma externa ao BRT e prefere não se identificar, por medo de represália. Ela e parte da família moram na Vila Residencial e vivem um cotidiano de insegurança. “Sempre tinha alguém da família que se revezava para esperar minha sobrinha, para que ela não ficasse sozinha ao voltar do curso. Ela chegava sempre depois das 22h aqui no terminal”, relembra. “É muito perigoso. Até 20h, ainda tem mais movimento, mas à medida que fica mais tarde, fica mais estranho. Qualquer um pode estar escondido atrás do mato, passar pelas grades quebradas. É perigoso principalmente para mulher”.
Allan Santos, estudante de Artes Visuais e morador da Residência Estudantil, acredita que a área sofre os mesmos problemas do restante da cidade. “Outras partes do Rio também são perigosas, sobretudo à noite. Acho que o problema é mais complexo do que só colocar iluminação e segurança”, opina o aluno. Allan viu a estação BRT ser criada, em 2014, e é testemunha das mudanças ao longo do tempo. “Reconheço que piorou. No início, era mais iluminado e tinha sempre agentes de segurança, inclusive do próprio BRT. Hoje, a gente pode ver que não tem mais ninguém. Esse é o único ponto que faz uma conexão entre o BRT e meios de transporte para outras partes da cidade. Realmente precisa de mais atenção”, acredita.WhatsApp Image 2021 12 17 at 14.13.37 1
O prefeito da Cidade Universitária, Marcos Maldonado, esclarece que a região não está sob a ingerência da universidade, mas afirma que busca soluções. “A UFRJ não tem controle sobre aquele espaço, mas temos mantido contato com diferentes agentes públicos para a realização de obras de manutenção, limpeza, capina e iluminação. Também falamos com a empresa que administra o BRT solicitando reforço na segurança, além das ações que já existem no campus”, relata Maldonado.
Carlos Chaves Barbosa, da Superintendência Regional da Ilha do Governador, antiga Subprefeitura da Ilha, confirmou que esteve no Fundão para fazer a vistoria solicitada por Maldonado. “A Comlurb e a Rioluz farão parte dessa força-tarefa de revitalização da área. A Comlurb precisa de 20 dias para fazer a poda baixa de toda a região em frente e nas laterais das plataformas, além da limpeza. O local receberá mais luzes de LED e haverá a troca das lâmpadas queimadas”, assegura o representante da prefeitura do Rio. “Também haverá o reparo das grades e colocaremos um gari fixo nas proximidades”, completa. Os serviços deverão ser concluídos até o dia 27 de dezembro.

O QUE DIZEM A SECRETARIA MUNICIPAL DE ORDEM PÚBLICA E A POLÍCIA MILITAR

A assessoria de imprensa do BRT Rio informou que a Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEOP) coordena atualmente toda a política de segurança nas estações que compõem o sistema BRT. Procurada, a SEOP afirmou que a Estação BRT do Fundão (Aroldo Melodia) “conta com rondas, tanto no período diurno quanto noturno, feitas por agentes do Programa BRT Seguro”. Criado em junho desse ano, o BRT Seguro opera com cerca de 85 policiais militares e 30 guardas municipais por dia, em média.
O custo estimado do Programa BRT Seguro, até o fim de 2021, é de R$ 10,14 milhões, que engloba o pagamento dos guardas municipais e o repasse ao Programa Estadual de Integração na Segurança (Proeis), da Polícia Militar. O programa atende aos três corredores do transporte (Transcarioca, Transolímpica e Transoeste) com objetivo de “coibir crimes, desordens, depredações e o calote de passagens” por meio do patrulhamento fixo nas estações e rondas.
WhatsApp Image 2021 12 17 at 14.13.37 2Foto: SEOPA SEOP ainda informou que as rondas são ligadas ao Centro de Controle Operacional do BRT e que funcionam 24 horas por dia, inclusive de madrugada. No entanto, a reportagem não avistou qualquer carro da segurança ao longo das duas horas em que esteve na estação, no dia 14 de dezembro.
Também questionada sobre a insegurança na Estação BRT do Fundão, a assessoria da PMERJ deu poucos detalhes. Explicou apenas que “os batalhões das regiões empregam policiamento no local das estações e na malha de circulação das composições”, feita por meio do Proeis. Alegou ainda que “quem define e pode se pronunciar sobre a necessidade de emprego de reforço na segurança em cada estação do BRT é a concessionária que administra o sistema”. Todas as outras estratégias de policiamento relatadas pela assessoria são voltadas para a Linha Vermelha e suas adjacências, como parte do Programa Expresso Turístico – que tem por objetivo fortalecer o planejamento de segurança em corredores turísticos –, inaugurado no último dia 11 pelo governador Cláudio Castro (PL).

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