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WhatsApp Image 2026 02 13 at 21.15.36 7Fábio Hepp
Professor Adjunto, coordenador do Laboratório de Anfíbios e Répteis do Departamento de Zoologia, Instituto de Biologia, e Pesquisador Associado do Museu Nacional

A UFRJ é a segunda casa para muitas pessoas. Muitos passam mais horas do seu dia nos campi do que em casa e passam, ou passarão, mais anos de vida ligados à universidade do que fora dela. Este é o meu caso. Neste momento tenho quase 20 anos de UFRJ. Cheguei na UFRJ em 2006 como calouro. Posteriormente, fui mestrando, doutorando, pós-doutorando, professor substituto, biólogo (Técnico Administrativo) e, mais recentemente, sou professor adjunto. Posso dizer que tenho uma longa relação com a Minerva, construída com muito suor e lágrimas (de tristeza e felicidade).
Desde os meus 18 anos, quando ingressei na UFRJ, ouço e discuto os diversos problemas da universidade. As possíveis soluções são muitas, a depender de quem vem a resposta. Variam muito de acordo com a idade do proponente, já que idade geralmente reflete o grau de pessimismo e inocência da pessoa, fatores que costumam moldar o tom das opiniões políticas e administrativas. É ponto comum que um mínimo de otimismo é essencial para manter a motivação diária, e seu gradual abandono pode levar a sérias consequências para o futuro do ensino público do país (falo mais sobre isso no artigo “Autofervura Acadêmica” deste Jornal, Nº 1.348). E, por isso, tenho refletido cada vez mais sobre o que podemos fazer para resolver problemas da universidade.
Claro que não se trata de uma questão trivial. Como dito há muitos anos pelo meu ex-professor e eterno orientador, prof. Dr. José P. Pombal Jr., do Museu Nacional: se fosse fácil, alguém certamente já teria resolvido. Ainda assim, acredito que as possíveis soluções virão do corpo social da UFRJ. Portanto, inspirado em uma recente analogia entre a administração universitária e a condução de um jogo de xadrez, considerei válida mais uma singela tentativa de contribuição.
WhatsApp Image 2026 02 13 at 21.15.36 6O xadrez é um dos jogos mais antigos e certamente um dos mais populares até os tempos atuais. Provavelmente criado na Índia no século VII, o xadrez é um jogo de dois jogadores onde o principal objetivo é capturar a peça do adversário denominada “rei”. Claro que o jogador rival fará de tudo para evitar a captura do seu rei e, enquanto isso, tentará capturar a peça homônima inimiga. Para atingir o objetivo, os jogadores dispõem de uma série de tipos de peça, em diferentes quantidades, que possuem diferentes habilidades de movimentação no tabuleiro e, consequentemente, de captura de peças inimigas. Ao longo da história, o xadrez virou uma obsessão aonde foi levado, sendo amplamente conhecido na Europa por volta do ano 1000. A partir do século XVI, o jogo ficou ainda mais popular com jogadores sendo patrocinados por mecenas e reis de todo o mundo ocidental. Em tempos contemporâneos, o jogo passou a ser tema de clubes e entrou no currículo escolar de várias instituições de ensino mundo afora. O xadrez é considerado uma ferramenta lúdica para desenvolvimento de raciocínio lógico e outras habilidades cognitivas. Por se tratar de um jogo lógico, diversos livros e cursos foram, e ainda são, publicados e disponibilizados com o objetivo de, mais do que ensinar as regras básicas, instruir jogadores sobre os padrões e princípios lógicos que regem o jogo.
Um dos princípios básicos do jogo é o da peça menos ativa. Sob este princípio, o jogador deve sempre buscar mover as peças que estão menos ativas no tabuleiro. Isto é, peças que estão mais retraídas e, consequentemente, mais isoladas dos principais eventos do jogo, que frequentemente ocorrem próximos ao centro do tabuleiro. No xadrez a vitória depende do desenvolvimento coletivo das peças. E é exatamente neste ponto que a analogia com a administração universitária começa a se estabelecer. Mesmo com peças de diferentes valores e habilidades (a rainha, por exemplo, é a peça mais poderosa e de maior valor), no xadrez, o segredo está, em boa medida, no desenvolvimento coletivo de diferentes tipos de peça. Uma rainha sozinha, ou mesmo acompanhada por algumas poucas peças, dificilmente leva à vitória contra um adversário que possui muitas peças ativas e, consequentemente, controle a região central do tabuleiro com seus peões, cavalos, torres e bispos.
Assim funciona uma universidade. Ela é composta por um conjunto de peças de diferentes especialidades e habilidades, como discentes, docentes, técnicos administrativos e funcionários terceirizados. A movimentação e desenvolvimento de peças já ativas ajuda, claro, mas certamente não basta. A chave do sucesso e, ouso dizer, da resolução de muitos problemas da UFRJ, transpassa o princípio das peças menos ativas. É preciso reconhecer esse problema e criar meios de torná-las mais ativas nas suas funções. Tal tarefa não deve ser vista como um estímulo à opressão, assédio moral, ou algo similar. Não, muito pelo contrário! É preciso rever incentivos, motivações, metas, demandas e lideranças para este propósito. O jogador de xadrez joga porque quer, porque vê resultados e progresso nas suas ações.
Certamente não é algo simples de se fazer. Mas para resolver problemas, precisamos localizá-los, mapeá-los e, a partir daí, construir programas, projetos e ações que objetivem as soluções. É assim que funciona um jogo de xadrez. Observamos a distribuição das peças e remanejamos aquelas que priorizamos para concretizar um plano. Seja como for, não podemos assumir que peças menos ativas já estão fora de jogo. Não devemos usar desta justificativa para concentrar os esforços, fazer expectativas e mesmo sobrecarregar ainda mais as peças já mais ativas da universidade. Trata-se de um erro estratégico que levará à derrota no inevitável jogo comparativo entre universidades.

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