Pouco mais de 48 horas depois dos primeiros ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, que culminaram com a morte do líder supremo persa, o aiatolá Ali Khamenei, o embaixador Celso Amorim advertiu que a guerra “pode ter consequências gravíssimas” e defendeu o diálogo como único caminho possível para a paz. No Salão Dourado do Palácio Universitário, no campus Praia Vermelha, que foi pequeno para abrigar tanta gente, o ex-chanceler e atual assessor especial da Presidência da República foi aplaudido de pé após a conferência “O Brasil e o cenário internacional para 2026: desafios e oportunidades”, promovida pela AdUFRJ, no dia 2 de março.
“Em 60 anos de diplomacia, nunca vivi um tempo semelhante a esse”, ponderou Amorim, referindo-se, sobretudo, às interferências militares dos Estados Unidos sob o governo de Donald Trump. Ele voltou a usar a expressão “devemos nos preparar para o pior” para acentuar as incertezas advindas de uma guerra prolongada entre o Irã, os Estados Unidos e Israel. “Quantas pessoas estarão envolvidas nesse conflito, quantas morrerão? Vão dizer que não havia outra solução? Difícil é você brigar pelo diálogo até encontrar uma solução que não seja a guerra. Esse é que é o mérito do ser humano, é para isso que a gente vive, para o bem da humanidade, e não para a destruição”.
Na apresentação, a presidenta da AdUFRJ, professora Ligia Bahia, lembrou que foi a terceira palestra proferida por Amorim na UFRJ. “Ele esteve aqui em 2004 e em 2024. E volta hoje em um monento de tensão mundial. Quando o convidamos, pouco depois do ataque dos Estados Unidos à Venezuela, nem imaginávamos que uma crise como essa do Oriente Médio estaria próxima. É um privilégio tê-lo aqui”, disse Ligia, que compôs a mesa da conferência ao lado do conferencista e do vice-presidente da AdUFRJ, professor Michel Gherman.
Na plateia, formada basicamente por professores e estudantes da UFRJ, estavam a mulher Karen Sacconi, dois filhos (João e Pedro) e três netas do diplomata. O reitor da UFRJ, Roberto Medronho, a vice-reitora Cássia Turci, pró-reitores, decanos e diretores de unidade também prestigiaram a conferência.
Ministro das Relações Exteriores dos governos Itamar Franco (1993-1994) e Lula (2003-2010), e ministro da Defesa no governo Dilma Rousseff (2011-2014), Celso Amorim enalteceu o papel da universidade na convivência e no debate de divergências, e defendeu a soberania contras as interferências externas. Veja a seguir os destaques da conferência.
MUNDO SEM REGRAS
A maior característica dos nossos tempos é essa imprevisibilidade e a aceleração da história. Os gregos tinham duas palavras para definir o mundo: caos e cosmos. O caos era a confusão geral, uma massa disforme. E quando essa massa se organiza ela passa a ser o cosmos, algo orgânico, que tem regras. O que estamos assistindo hoje não é uma evolução do caos para o cosmos, mas uma involução do cosmos para o caos. De um mundo com regras, ainda que defeituosas, injustas e assimétricas, para um mundo absolutamente sem regras, que é o que vivemos hoje em dia. Em 60 anos de diplomacia, nunca vivi um tempo semelhante a esse.
ATAQUES AO IRÃ
É a primeira vez na história que os Estados Unidos matam o líder de um país no início do conflito. É difícil medir quais serão as consequências desse ataque. Mas uma coisa é certa: essa guerra não vai ser um passeio. Não será como foi a invasão do Iraque. O Irã é uma civilização de 3 mil anos, um país de 90 milhões de habitantes. Não se pode esperar que isso seja algo simples, rápido. É algo que vai durar muito.
DESORGANIZAÇÃO GLOBAL
Eu servi no Conselho de Segurança da ONU no período pós-Guerra Fria. Havia uma preocupação de procurar legitimar as ações militares no conselho. A primeira invasão (dos Estados Unidos) ao Iraque foi aprovada pelo Conselho de Segurança. E a segunda, já com George Bush filho, não foi aprovada, mas foi ao menos levada ao conselho. Dizia (François) de La Rochefoucauld que a hipocrisia é um tributo que o vício paga à virtude. Então havia ao menos a preocupação de mostrar que se estava fazendo as coisas de acordo com as regras. E hoje, qual é o limite? Quando a gente vê o presidente do Estado mais importante do mundo dizer que não segue o direito internacional, que segue a sua própria moralidade, o que pensar? Desordem é pouco, o que vemos é uma desorganização global.
VENEZUELA
O caso da Venezuela é gritante e aflitivo, com o sequestro de um presidente. Nós já vimos muitas interferências externas na América Latina, mas elas vinham por debaixo do pano. Quando você vê a maneira como (Nicolas) Maduro foi tirado de lá lembra mais Saddam Hussein do que (Salvador) Allende. Allende teve uma aura de heroísmo, de luta. Maduro foi levado na calada da noite para uma prisão nos Estados Unidos. Uma coisa absurda.
SOBERANIA
Hoje se confunde, de forma proposital, a ideia de multipolaridade com a de áreas de influência. Você aceita que possa haver vários centros de poder desde que cada um tenha o seu quintal. E aí entra a nossa situação. O Brasil pretende agir com independência, procurar resolver seus problemas, que são grandes, sem interferências externas. E, claro, sem o absurdo de uma intervenção como a que foi feita na Venezuela. Isso é assustador.
TERRAS RARAS
Uma questão mais atual e que gera muita confusão é a dos minerais críticos e das terras raras. Há aqueles que só querem vender rapidamente, não querem investir. Alguns falam isso do Brasil. É o mesmo que falavam do petróleo. Hoje o Brasil é o sexto ou sétimo mais produtor de petróleo do mundo. Com os minerais críticos acontece a mesma coisa. Há quem defenda abrir as concessões porque não haveria recursos para investir. E há aqueles, nos quais me incluo, que seguem a linha desenvolvimentista do saudoso Celso Furtado: vamos primeiro definir as nossas necessidades. O que precisamos de minerais críticos para produzir não só carros elétricos, mas também baterias ou armamentos modernos capazes de impedir o que aconteceu na Venezuela?
CUBA
Cuba é um caso de estrangulamento do povo. Tenho grande apreensão com o que pode acontecer lá. Mas disse uma vez a um grupo de deputados norte-americanos: vocês perderam a guerra contra Cuba. Eles resistem há mais de 60 anos debaixo desse bloqueio, eles venceram.
DIÁLOGO
O que não se pode abandonar é a busca da paz. A paz justifica a existência da democracia. É o que explica a necessidade de que várias nações coexistam com suas diferenças. Estamos num mundo em guerra. Não falei aqui de meio ambiente, de desigualdades. Um dos males da guerra é obstruir a discussão de outras questões fundamentais. Por isso fico feliz de estar aqui. A universidade é um lugar privilegiado, é um lugar plural, onde todas as pessoas convivem com suas crenças, com suas religiões, ou não religiões, e discutem. E é o diálogo que pode salvar a humanidade. O diálogo é o nome da paz.
Fotos: Fernando Souza






