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Memória, verdade e justiça. Poucas vezes, as três palavras juntas ganharam um significado tão especial como na comovente diplomação póstuma de Stuart Edgar Angel Jones como bacharel em Ciências Econômicas da UFRJ. O corpo do estudante, assassinado pela ditadura na Base Aérea do Galeão em 1971, jamais foi localizado. Em solenidade realizada em 7 de julho, no campus da Praia Vermelha, a universidade reconheceu oficialmente a trajetória acadêmica interrompida pela violência do Estado.

“Não sei se choro de emoção ou se grito de felicidade”, disse a jornalista Hildegard Angel, ao receber o diploma em nome do irmão. Diante de um Salão Dourado lotado com amigos de longa data, muitos companheiros de luta do próprio Stuart, lembrou a coragem de sua mãe, a estilista Zuzu Angel: “Ela dizia que lutava pelos filhos das outras. Depois que começou essa luta, a câmara de tortura da Base Aérea do Galeão foi desativada. Não houve mais mortes do Galeão”, afirmou.

A jornalista alertou para a necessidade de preservação da democracia, nos dias atuais. “Não podemos nos dominar pelo medo, porque é esse medo contagiante que alimenta os ardis para retomarem a ditadura, para retomarem uma tirania, para entregarem o Brasil a outro país”, disse.

Representantes estudantis do passado e do presente também se revezaram ao microfone para honrar o colega e defender a democracia.”Hoje, nós estamos prestando um tributo a um companheiro da nossa geração que foi um exemplo”, disse o economista Carlos Alberto Muniz, ex-presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFRJ.Foto: Alessandro Costa

“O inimigo era altamente violento, miserável. E não era só a violência da tortura. Era a violência da estagnação da cultura. Era a violência da impossibilidade do desenvolvimento social do país. Era a violência da perpetuação da miséria no país”, contou.

O economista avaliou que a homenagem reforça a necessidade de ampliar a democracia e impedir qualquer retorno de práticas autoritárias. “Nós não podemos desistir. Esse é o desafio que temos pela frente.”

Pela nova geração, Bruno Acherman representou o Centro Acadêmico que leva o nome de Stuart Angel, o CASA. “Estou incrédulo que hoje estudo no mesmo lugar onde Stuart estudou, ando pelos mesmos corredores que ele mesmo andava, estudo nas mesmas salas, converso e rio nos mesmos ambientes, e construo o movimento estudantil como Stuart mesmo construía”, disse.

O dirigente estudantil relacionou a história do homenageado às ameaças contemporâneas à democracia. “Hoje em dia, vemos pessoas que parecem emergir da lata de lixo da história, que querem fazer com que a luta de Stuart Angel seja em vão”, afirmou. “A luta de Stuart não acabou. E agora esse diploma só dá ainda mais força a essa luta. Esse é um recado aos aspirantes a tiranos: os herdeiros de Stuart Angel derrotarão os herdeiros do torturador Brilhante Ustra”.

DNA INSTITUCIONAL

A cerimônia seguiu, dentro do possível, todos os ritos das diplomações tradicionais. O diploma foi assinado pelo diretor do Instituto de Economia, professor Carlos Frederico Leão Rocha. “Hoje, ao concedermos o diploma póstumo a Stuart Angel, inscrevemos definitivamente seu nome em nossa própria identidade”, afirmou. “Ele deixa de ser apenas um estudante cuja trajetória foi brutalmente interrompida e passa a integrar para sempre a história viva desta universidade.”

Carlos Frederico ressaltou que a homenagem ultrapassa a figura de Stuart e representa todos os jovens que tiveram seus projetos de vida interrompidos pela violência política. “É nosso dever garantir permanência, assistência estudantil, acolhimento, saúde mental, oportunidades acadêmicas e condições para que os estudantes possam realizar plenamente seus projetos de vida. Tenho convicção de que cuidar da juventude de hoje é uma das formas mais profundas de honrar aqueles cuja juventude nos foi retirada”, concluiu.

Por fim, o diretor da Economia reverenciou Zuzu Angel: “Existe ainda um elemento desta história que jamais pode ser esquecido. O Brasil conheceu a história de Stuart Angel, porque houve uma mãe que se recusou a aceitar o silêncio”, contou Frederico. “O amor de sua mãe transformou a dor em coragem, a coragem em memória e a memória em compromisso coletivo para que nunca mais aceitássemos o esquecimento como destino. Hoje, ao entregar este diploma, somos herdeiros desse amor”.

FILHO DA UFRJ

Ao entregar oficialmente o diploma, o reitor Roberto Medronho definiu a cerimônia como um ato de profunda significação histórica, acadêmica, humana e democrática. “Esse diploma que entregamos hoje não é reparador de uma família, não devolve a juventude roubada de Stuart Angel. Não devolve o corpo, jamais entregue. Não devolve à mãe o direito de velar pelo seu próprio filho. Ainda assim, esse diploma afirma com toda a força simbólica da Universidade Pública Brasileira que Stuart Angel é e sempre será filho da UFRJ”.

“Filho de nossas salas de aula, de nossos corredores, de nossos debates, de nossos sonhos de país. Filho de uma geração que acreditou que o Brasil poderia ser mais justo, livre, democrático e soberano. Stuart não concluiu o seu curso porque foi arrancado da vida”, completou.

Medronho afirmou que a diplomação representa um compromisso institucional com a verdade histórica, os direitos humanos e a democracia. “A universidade não pode ser neutra diante da barbárie. Jamais será”, afirmou. “A universidade pública existe para produzir conhecimento e defender a vida. Existe para formar profissionais e consciências. Existe para pesquisar, ensinar e inovar e para proteger a liberdade sem a qual não há ciência, não há arte, não há pensamento crítico, não há futuro”.

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